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CÉLINE E SEUS ADORADORES

Céline em Meudon, por volta de 1950. Foto: Lipnitzki / Roger Viollet / Getty Images.

Versão revista, corrigida e atualizada do ensaio publicado em: CORNELSEN, Elcio; NASCIMENTO, Lyslei (org.). Estudos judaicos: ensaios sobre literatura e cinema. Belo Horizonte: Faculdade de Letras, FALE-UFMG, 2005, p. 73-102.

Há escritores que não mereciam ser lidos. Entre eles, um dos mais lidos, em todo o mundo, é Céline. Sobretudo na Franca, ele é hoje não apenas lido, como também admirado, celebrado e homenageado como raros escritores o são. A lenta e gradual recuperação desse colaboracionista, seguida de sua glorificação nacional, dá o que pensar. Há nesse reino algo de podre que merece ser investigado. A França fin-de-sècle já conhecera, em sua literatura política, uma retórica antissemita comparável, em virulência, à do pior antissemitismo alemão. Escritores como Jules Guérin, presidente da Ligue Antisémitique de France (“Liga Antissemítica de França”); Charles Maurras, fundador do movimento de extrema-direita católica e antissemita Action Française (“Ação Francesa”); Edouard Drumont, autor do best-seller antissemita La France Juive (“A França judaica”); ou Léon Daudet, filiado ao movimento Patrie Française (“Pátria Francesa”) e colaborador de Libre Parole (“Palavra Livre”) fomentaram o antissemitismo durante o Caso Dreyfus (1897-1905).

O escritor Émile Zola, que defendeu o coronel Dreyfus contra o Exército francês e as massas antissemitas, despertou quase tanto ódio ao encarnar o intelectual engagé que não se dobra à maioria. François Mauriac recordou que seus pais deram ao seu pinico o nome de Zola; e que um de seus coleguinhas de escola brincava de degradar Dreyfus, arrancando, uma a uma, as asas e as patas de uma mosca[1].

O ódio aos judeus contagiava os escritores franceses de talento limitado, com produção literária de qualidade medíocre, entre os quais Alexis Carrel, Alphonse de Chateaubriand, Charles Maurras, Edouard Drumont, Georges Bernanos, Henri Béraud, Jacques Chardonne, Jacques de Chateaubriand, Jean Giraudoux, Léon Daudet, Lucien Rebatet, Marcel Jouhandeau, Maurice Bardèche, Pierre Drieu de La Rochelle, Ramón Fernández, Robert Brasillach. Nenhum deles, porém, foi tão longe em seu ódio aos judeus quanto Louis-Ferdinand Destouches, ou Céline (1894-1961): sua literatura antissemita chega a superar em virulência as mais bárbaras fantasias de destruição dos judeus articuladas na Alemanha nazista. E mesmo assim, Céline, também como nenhum outro escritor antissemita francês, tornou-se querido pela crítica literária.

Nascido em Courbevoie, em 1894, Louis-Ferdinand Destouches cresceu no seio de uma família pequeno-burguesa miserável. A obsessão pela higiene e o antissemitismo integraram sua educação familiar: o pai, um literato frustrado, obrigado a trabalhar numa companhia de seguros, vivia culpando os judeus por todos os males da Terra; e a mãe, que mancava de uma perna, tornou-se uma neurótica obcecada: detestando os micróbios, ela os via em toda parte, obrigando o filho a lavar constantemente as mãos[2]. Assim educado na obsessão pela higiene e no ódio aos judeus, Louis Ferdinand tornou-se médico higienista e antissemita.

Assim que estourou a Primeira Guerra, Louis Ferdinand engajou-se como voluntário. E saiu das batalhas com uma grave fratura no crânio, mais ou menos surdo, o braço direito quase paralisado. Submetido a uma trepanação, é provável que tenha perdido parte das faculdades mentais. A memória das chacinas o perseguia: “Eu matei muito”, declarou certa vez[3]. A experiência de carniceiro na Grande Guerra moldou seu caráter. Louis Ferdinand desenvolverá sua visão de mundo calcada num antissemitismo tão feroz quanto o de Hitler:

O judeu não explica tudo, mas ele catalisa toda nossa decadência, toda nossa servidão… Ele só se explica – seu poder fantástico, sua tirania assustadora, pelo seu ocultismo diabólico… O judeu não é tudo, mas ele é o Diabo e isto é o bastante – o Diabo não cria todos os vícios, mas ele é capaz de engendrar um mundo inteiramente, totalmente vicioso… Deus sabe como o branco está podre!… Mas o judeu soube ganhar esta podridão em seu favor, explorá-la, exaltá-la, catalisá-la, estandardizá-la como ninguém. Racismo! Racismo! Racismo! Todo o resto é imbecil – falo enquanto médico. Equidade? Justiça? Que casuísticas doentes e desastrosas – Elas contarão sempre contra nós! Esta é a regra do jogo. Desorganizados contra ferozmente organizados – Larvas contra formigas – Liberais contra racistas! Você não tem mais o instinto da perfeição física, do lirismo estético branco – Todo o “que” da coisa – Os livros o mataram – o sentido da vida branca – E, no entanto, você sabe como os judeus com o cinema apresentam esta terrível eliminação… [4]

As primeiras obras literárias do Dr. Destouches apresentam, através de uma linguagem carregada de imprecações vulgares, um universo mórbido, povoado por personagens degenerados, tuberculosos, cancerosos, infectados, doentes sem cura, destinados à morte. O estilo céliniano é todo ele feito de confusão e de incoerência. Sua prosa é incapaz de encadear cenas, ações, discursos, sua desarticulação verbal beira a loucura, assemelha-se à retórica dos doentes mentais, e denotam, a meu ver, uma mediocridade insuperável oculta sob a máscara de uma ambição desmedida. Já nessa primeira literatura, de caráter ainda obscuro, Céline desenvolverá seu antissemitismo tão feroz quanto o de Hitler associando imagens de judeus à epidemia e à peste.

O antissemitismo do Dr. Destouches já se encontra de forma incipiente na primeira ficção que escreveu em 1923, mas publicada apenas em 1933: L’église (A Igreja), uma comédia em cinco atos. Nessa peça, o médico Dr. Ferdinand Bardamu (superego de Louis Ferdinand) suspeita que a doença que ganha a cidade, e que as autoridades afirmam ser apenas “uma banal febre amarela”, seja na verdade a peste. Um judeu “meio surdo e três quartos cego” chamado Yudenzweck (nome que soa como “objetivo de judeus” em alemão, composto a partir das palavras “Juden”, judeus, e Zweck, “objetivo”), manipula os dados da epidemia com a cumplicidade de dois outros chefes de seção, significativamente chamados de Moise (Moisés) e Mosaic (Mosaico), evidentemente judeus, com o objetivo de precipitar o mundo numa guerra…

Logo após escrever esse divertissement antissemita, o Dr. Destouches produziu sua tese de doutorado em Medicina, defendida em Paris, intitulada Vie et Oeuvre de Philippe Ignace Semmelweis (A vida e a obra de Semmelweis, 1924-1926), enaltecendo o médico húngaro Felipe Inácio Semmelweis, que descobriu o papel da assepsia na prevenção da febre puerperal.

Trabalhando num hospital de Viena, numa época em que ainda não se conhecia a ação dos microorganismos na febre puerperal, Semmelweis observou a enorme mortalidade das parturientes na maternidade dos estudantes em contraste com a baixa mortalidade nos partos realizados por parteiras. Em 1846, quando um seu colega cortou-se dissecando um cadáver e contraiu uma infecção fatal, Semmelweis imaginou que o contágio estivesse associado à manipulação de tecidos e mandou instalar pias para que os estudantes desinfetassem as mãos com cloreto de cal. A mortalidade entre as mulheres caiu para 0,2%.

Contudo, o Dr. Semmelweis teve seus dados contestados, e foi exonerado; as pias que ele mandara instalar foram atribuídas à superstição, e arrancadas; a Academia de Paris rejeitou seu método em 1858 e, por dez anos, ele tentou “alertar” os médicos em toda a Europa. Fracassando em seu intento, o Dr. Semmelweis enlouqueceu; o amigo Dr. Skoda conseguiu interná-lo no asilo onde ele próprio havia sido confinado pelo “inimigo comum” (nas palavras de Céline): certo Dr. Klein – nome que, por si só, evoca o fantasma do “judeu”, o judeu simbólico dos “judeus”. Em 1865, o Dr. Semmelweis invadiu uma sala de dissecação, feriu-se com um bisturi e morreu infeccionado. Pouco depois, o Dr. Pasteur provava que as teorias do Dr. Semmelweis estavam certas.

O higienista Dr. Destouches imaginou a vida e a obra do Dr. Semmelweis como uma metáfora para o seu próprio antissemitismo: ele via o mundo “dominado pelos judeus”, os judeus como “micróbios contaminadores da raça”. Na tese, descrevia a História não como os marxistas, como uma luta de classes; nem como os hegelianos ou os freudianos, como uma luta entre consciências ou entre a consciência e o inconsciente; e sim, como os social-darwinistas mais extremados, como uma luta entre unidades biológicas: “Vinte raças precipitando num delírio horroroso”. Os homens não se defrontariam por interesses econômicos, políticos, ideológicos, mas raciais; e a História se resumiria a “enormes potências biológicas que se combatem”.

Louis Ferdinand imaginava Semmelweis como uma metáfora para seu projeto existencial. O destino de Semmelweis seria assemelhado ao seu: ninguém acreditava, na Europa contemporânea, que os “judeus” eram a causa de todos os males humanos, apenas ele, o marginalizado e incompreendido Dr. Destouches o sabia. Embora esse “fato” lhe parecesse evidente por si mesmo, poucos eram os que pareciam aceitar a “verdade”. E ainda que tentasse como aquele outro visionário alertar a Europa para o “perigo judaico”, sabia de antemão que seria perseguido pelo que os outros considerariam sua “loucura”, ao defender uma “tese” ainda não comprovada, arriscando morrer como novo mártir da “verdade”. Ficaria até louco defendendo sua “causa”, e arriscaria morrer como um mártir. O único consolo seria que a posteridade reconheceria que ele sempre tivera razão, que ele fora um profeta e um gênio! Então médico dos quarteirões populares de Clichy, o Dr. Destouches escreveu à amiga Lucien Combelle:

O judeu não explica tudo, mas ele catalisa toda nossa decadência, toda nossa servidão… Ele só se explica, seu poder fantástico, sua tirania assustadora, pelo seu ocultismo diabólico […]. O judeu não é tudo, mas ele é o Diabo e isto é o bastante – o Diabo não cria todos os vícios, mas ele é capaz de engendrar um mundo inteiramente, totalmente vicioso… Deus sabe como o branco está podre!… Mas o judeu soube ganhar esta podridão em seu favor, explorá-la, exaltá-la, canalizá-la, estandartizá-la como ninguém. Racismo! Racismo! Racismo! Todo o resto é imbecil – falo enquanto médico. Eqüidade? Justiça? Que casuísticas doentes e desastrosas – Elas contarão sempre contra nós! Essa é a regra do jogo. Desorganizados contra ferozmente organizados – Larvas contra formigas – Liberais contra racistas! Não se tem mais o instinto da perfeição física, do lirismo estético branco – Todo o “quê” da coisa – Os livros mataram-no – o sentido da vida branca. E, no entanto, sabe-se como os judeus, com o cinema, apresentam esta terrível eliminação.[5]

Em parte para dar publicidade à sua “causa” e em parte para aumentar seus rendimentos, o Dr. Destouches decidiu escrever um romance sensacionalista e escandaloso, que assinou com o pseudônimo de Céline. O fruto de seu esforço, intitulado Voyage au bout de la nuit (Viagem ao fim da noite, 1933), obteve, como ele previa, um imediato sucesso de crítica. Os críticos que consagraram um livro tão desagradável estavam cansados da grande literatura; ou foram enganados por seu discurso estilisticamente vulgar e desarticulado, mas que parecia, por isso mesmo, revolucionar as Letras: à esquerda, Céline foi elogiado por intelectuais anarquistas, socialistas e comunistas, como André Malraux, Blaise Cendrars, Louis Aragon[6], Elsa Triolet, Léon Trotski[7]. O Pravda reconheceu em Céline um dos “seus”.

Contudo, a ira política de Céline não encontrava resposta no anarquismo, no socialismo, no comunismo, e sim no racismo. Em 1933, quando o movimento nazista chegou ao poder na Alemanha, muitos escritores franceses que já professavam o antissemitismo foram atraídos para sua órbita. O político judeu Leon Blum, que ascendera à presidência do governo do Front Populaire em 1936, foi escolhido pela extrema-direita como o bode expiatório, sendo diariamente linchado nas páginas de Candide e Gringoire[8]. Entre 1936 e 1937, Marcel Jouhandeau publicou três artigos sobre a questão judaica reunidos no livro Le Péril Juif (“O perigo judeu”), onde afirmava serem os judeus a “raça mais terrível e mais cruel que já existiu”, uma “raça de leões com coração de chacal, presa da qual a França havia caído”. As camadas sociais mais reacionárias da França, que não perdiam oportunidade de demonstrar seu ódio aos “metecos”, ambicionavam ganhar, com o nazismo, postos de poder e campos novos para expandir sua visão de mundo: não mais apenas em livros e jornais, como também nas mídias de massa modernas: o gibi[9], o rádio, o cinema.

Animado com o sucesso de Voyage au bout de la nuit, o “novo escritor” Céline editou sua antiga peça L’Église[10] e produziu outro romance no mesmo estilo, Mort à crédit (Morte a crédito, 1936) que, sob um fundo de extremo pessimismo, novamente descrevia o mundo como um grande hospital, lotado de degenerados, tuberculosos, cancerosos, infectados, doentes sem cura, todos destinados a uma morte indigna: o higienista escritor criava um universo mórbido para logo apontar, favorecido pelos ventos que sopravam da Alemanha, nos “judeus usurários” a causa do mal-estar que dominava o mundo.

Embora o antissemitismo de Céline ainda não estivesse abertamente expresso em seus dois primeiros romances, podendo seu “anarquismo de direita” enganar os intelectuais de esquerda, ele já se encontrava carregado de metáforas médicas, revelando também, a quem quisesse ver, sem as viseiras da ideologia, que seu discurso estilisticamente vulgar e desarticulado revelava claramente uma mediocridade espiritual insuperável.

Quando o movimento nazista chegou ao poder na Alemanha, muitos escritores franceses foram atraídos para sua órbita pela via do antissemitismo, e Céline foi um dos primeiros. Em 1937, Céline conhece a bailarina Lucette Almanzor, vinte anos mais jovem que ele, iniciando uma ligação que durará até a morte do escritor (“Escolhi-a para que recolhesse minha alma depois de minha morte”, escreveu). Não se sabe ao certo se Lucette compartilhava de seu antissemitismo, mas é bem provável, uma vez que Céline a definiu, certa vez, como “professora de danças clássicas e de caráter”, e que ela não se furtará a vender, contra os críticos e detratores do escritor, a imagem do “bom Céline”.

A situação financeira de Céline não havia melhorado com a nova carreira de escritor anarquista. Ele esperava que Mort à crédit rendesse o mesmo que a Voyage au bout de la nuit, ou seja, pelo menos 1.200 francos mensais. Mas, a crer em suas eternas queixas, ele ficou “na lona”, e culpou “os judeus” por isso.

A paixão anticomunista antissemita de Céline explodiu, e nos panfletos Mea Culpa (“Mea culpa”, 1936), Bagatelles pour um massacre (“Bagatelas para um massacre”, 1937), ele pregou o extermínio dos judeus e proclamou, agora sem pejos, seu desejo de colaborar com os nazistas, acusando “os judeus de Londres, de Washington e de Moscou” de impedir essa “aliança franco-alemã”. Dizia preferir 12 Hitlers a um Léon Blum “onipotente”. Hitler, ele compreendia; e os alemães, “pelo menos são brancos”. À pergunta que faziam – será preciso matar todos os judeus? – ele respondia positivamente: “Se é preciso veados na Aventura, que os judeus sejam sangrados!”[11]

Em cartas hoje reunidas, Céline não cessava de confiar a seus amigos que desejava uma purificação racial sem precedentes: os novos homens que ele via nascer, “depois de décadas de catástrofes sem nome”, remontariam aos druidas, seriam neodruidas de qualidade superior[12]. Céline diria ainda, para mostrar-se ajuizado: “Acredito no racismo – é apenas uma crença médica – uma mística biológica”[13]. Entusiasmado com a exposição Der ewige Jude, montada em 1937 na Alemanha, Céline afirmava ser preciso farejar o diabo de longe, pois:

(…) Nada é indiferente ao triunfo judeu, de qualquer judeu, do mais insignificante pintor judeu, pianista judeu, banqueiro judeu, estrela judia, ladrão judeu, autor judeu, livro de judeu, comédia judia, canção judia… Vêm a agregar sempre… Uma pedrinha, um átomo brilhante à construção de nossa prisão para arianos… Na perfeição da Tirania Judia nada se perde – tudo se faz “ventre”, tudo se faz “judeu”. Essa colonização interna se opera suavemente ou pela força, por meio dos interesses, dos ritmos judeus do momento… Os que não estiverem de acordo serão estrangulados (já o são) e o judeu aparecerá ante a mirada admirativa do gado ajoelhado… Finanças, ciências… Os esforços judeus, os êxitos judeus, os projetos de judeus ou de judaizados (como Montaigne, Racine, Stendhal, Zola, Cézanne, Maupassant, Modigliani, Proust, etc.). A Exposição 1937 nos traz uma magnífica demonstração do tema aplastante, da fúria colonizadora judia, preocupando-se cada vez menos com os ressentimentos e as reações indígenas… O indígena cada vez mais submetido… Mais covarde… Para a paz judia irás amanhã levar tuas tripas aos quatro rincões do mundo… Já está cozinhando!… Povo de joelhos!… e em silêncio!… Tuberculosa Proust-ituta, a “Dama Judia das Camélias”… Sr. Hoare Bellesha, judeu, Ministro da Guerra da Inglaterra… Que as carnes lhes sirvam para alguma coisa!… Merda! Viva a Bíblia! Bordel de Deus! O mundo é um lupanar judeu!

Logo Céline lançou L’École des Cadavres (“A escola dos cadáveres”, 1938), um panfleto tão virulento que teve de ser retirado de circulação em 1939. Céline pregava aí a criação de um exército franco-alemão: “O resto virá depois. A Itália, a Espanha, ainda por cima, muito naturalmente, se juntarão à Confederação dos Estados Arianos da Europa”. A Inglaterra deveria ficar de quarentena. Um inimigo comum seria combatido:

Os homens precisam de ódio para viver, seja! É indispensável, é evidente, é a natureza deles. Eles só precisam tê-lo contra os judeus, este ódio, não contra os alemães. Este será um ódio normal, salvador, defensivo, providencial, como contra uma varíola devastadora, ou as invasões da peste, os ratos transmissores de infecções[14].

Léon Daudet e Lucien Descaves silenciaram sobre os panfletos de Céline; eles não aprovavam – ao que parece – o palavreado sujo do antissemita desclassificado. André Gide tomou ingenuamente os arroubos de Céline por uma “sátira do antissemitismo”[15]. Mas um escritor antifascista de primeira hora, H. E. Kamisnki[16], denunciou, em Céline en chemise brune, ou le mal du présent (1938), a propaganda nazista daquele escritor medíocre, disfarçada de literatura.

A utopia céliniana de destruição dos judeus começou a realizar-se com a promulgação do “Estatuto dos Judeus” pelo governo de Vichy, sem pressão da Alemanha, a 3 de outubro de 1940. Editores e redatores colaboracionistas difamavam e denunciavam, intrigavam e entregavam judeus, resistentes e inimigos particulares à Gestapo. Depois, encontravam-se no Instituto Alemão, dirigido por Karl Epting, onde recebiam seus cachês.

A Colaboração era feita por tipos como Georges Suarez e Alain Laubreaux; por Jacques Ménard, redator-chefe do jornal Matin e presidente da Associação dos Jornalistas Antijudaicos; capitão Sézille, secretário geral do Institut des Questions Juives; Marcel Déat, fundador do Rassemblement National Populaire e editor de L’Oeuvre; Eugène Deloncle, fundador do Mouvement Socialiste Révolutionnaire e editor do Révolution Nationale; Alphonse de Chateaubriant, do La Gerbe; Robert Brasillach e Henri Poulain, de Je suis partout; Benoist-Méchin, do La Moisson de Quarente; Pierre Constantini, de L’Appel; Marcel Bucard, do Le Franciste; Jean Lestandi, de Au pilori; Charles Spinasse, de Le Rouge et le Bleu; Lucien Combelle, de Au Fait; Pierre Drieu La Rochelle, autor do manifesto Ne plus attendre (“Não mais esperar”); Jean Drault, autor de uma Histoire de l’anti-sémitisme (História do antissemitismo).

Importante papel desempenhou o editor Robert Denöel, que publicou, na coleção Nouvelles éditions françaises, os panfletos Décombres (“Escombros”) e Les Tribus du Cinéma et du Théatre (“As tribos do cinema e do teatro”), de Lucien Rebatet; Comment reconnaître le Juif? (“Como reconhecer o judeu?”), do Dr. Georges Montandon; La Médicine et les Juifs (“A medicina e os judeus”); do Dr. Fernand Querrioux; La Presse (“A imprensa”), de Lucien Pemjean; e Les Beaux Draps (“Os belos trapos”, editado em 1941 e reeditado em 1943), de Céline.

A 20 de dezembro de 1940, Au pilori, com uma tiragem de 60 mil exemplares, lançou um grande concurso junto aos seus leitores sobre o tema: “Os judeus: onde enfiá-los?” A matéria sugeria: “A única medida que se impõe é a de um saneamento total, pelo vazio. Mas parece que a Palestina é estreita demais para contê-los, a Austrália pouco ansiosa de receber tal presente. Que vamos fazer com eles? […] Obtive de nossa Direção prêmios sensacionais para recompensar as melhores respostas a esta única questão: Onde enfiá-los? (Toda medida de destruição radical é admitida).”[17]

Em começos de 1941, os nazistas criaram um Comissariado Geral para Assuntos Judaicos. Para sua direção, o embaixador alemão Otto Abetz sugeriu os nomes de Bucard, Darquier de Pellepoix, Serpeille de Gobineau, Lesdain Montandon (que sugeria, entre outras medidas, a ablação do nariz dos judeus) e o de Céline[18]. O governo de Vichy acabou decidindo-se pela designação de Xavier Vallat. Entrevistado pelo jornal colaboracionista Je suis partout a 7 de março de 1941, Céline declarou:

É preciso recomeçar tudo da infância, pela infância, para todas as crianças… O desejo que toda a família seja bela, sã, vivaz, ariana, pura, redentora, resplandecente de beleza, de força, não somente sua pequena família, seus dois, três, quatro fedelhos, mas toda a família francesa, o judeu pelos ares, bem entendido, virado para suas Palestinas, ao Diabo, na lua[19].

No dia 5 de setembro de 1941, foi inaugurada em Paris a exposição Le Juif et la France, visitada em poucas semanas por mais de 100 mil pessoas. Robert de Beauplan exaltou o acontecimento:

Boulevard des Italiens, uma multidão se comprime na calcada, à entrada do Palácio Berlitz, ornamentado por uma grande composição alegórica representando uma espécie de vampiro de barbas longas, de lábios grossos e nariz encurvado, cujos dedos descarnados, semelhantes às garras das aves de rapina, fincam-se num globo terrestre. É a exposição Le Juif et la France que abre suas portas. Ambulantes vendem jornais e brochuras. Os visitantes fazem fila diante da única bilheteria. Em cinco dias vieram mais de 18.000… Eles não se contentam em ver de passagem imagens ou quadros: lêem com atenção os numerosos textos explicativos pendurados ao lado das telas, verificam as estatísticas. Alguns mesmo tomam notas… Aí se encontram os elementos de um estudo morfológico do judeu… Aprendemos, assim, que o judeu não é um verdadeiro branco, mas um mestiço, para cuja confecção procederam três tipos humanos primordiais: o mongol, o negro e o ariano. Nesta mistura, o sangue ariano representa apenas um quarto, o sangue mongol, a metade, e o sangue negro fornece o quarto restante. Como ilustração desta lição de antropologia, abundantes fotografias mostram-nos os tipos mais diversos de judeus. Diante disto, para contraste, opuseram tipos arianos, entre os quais vizinham as mais ilustres personalidades francesas… e imagens anônimas representando camponeses franceses de todas as províncias, homens e mulheres do povo, belos jovens de formas atléticas, todos do mais puro sangue ariano…[20].

A exposição irritou Céline. Por quê? Numa carta dirigida ao Capitão Sézille, que organizara o evento, encontramos o motivo: ele se queixava da “omissão de suas obras”, queria ser homenageado ou pelo menos ter seus livros expostos e vendidos no evento: “Fiquei surpreso e um pouco doído ao ver que nem Bagatelles nem L’École figuravam na livraria, enquanto se favorece a um enxame de peixes pequenos, abortos laçados à ultima hora, cabelos na sopa”[21].

A 4 de outubro de 1941, militantes do MSR passaram à ação, incendiando sinagogas em Paris. Nesta oportunidade, outro veículo do colaboracionismo, L’Appel, interrogou seus leitores: “Será preciso exterminar os judeus?”. Céline enviou duas respostas, nas quais não precisou dizer abertamente que sim, pois todos os redatores e leitores do jornal já sabiam bem qual sua posição a respeito. Ele aí antes perguntava a opinião de outros intelectuais, que ainda não se haviam manifestado sobre o tema, e os quais ele desejava comprometer junto à Gestapo, como a escritora Colette, por exemplo, que vivia com o judeu Maurice Goudeket.

A 12 de outubro de 1941, Céline escreveu no jornal colaboracionista Au pilori: “Para recriar a França, seria preciso reconstruí-la inteiramente sobre bases racistas comunitárias. Nós nos afastamos todos os dias deste ideal, deste fantástico projeto (…). Os gauleses (…) estão amarrados ao cú dos judeus”[22].

Pouco depois, a 11 de dezembro de 1941, Céline declarou ao mesmo Au pilori ser um “antissemita da primeira hora”, propondo um encontro com seus colegas para a criação de um partido único antissemita. Estavam convidados os colaboracionistas Marcel Bucard, George Alexis Montandon, Marcel Déat, Eugène Deloncle, Darquier de Pellepoix, Capitão Sézille, Jean Luchaire, Pierre-Antoine Cousteau, Xavier Vallat e, naturalmente, Céline.

Não se sabe o que resultou desse encontro dos “maiores” da Colaboração. Mas a 15 de dezembro de 1941, todos os jornais franceses publicaram a notificação do general von Stülpnagel, de que, em decorrência de atentados contra os ocupantes alemães, os judeus em território francês pagariam uma multa de 1 bilhão de francos e haveria deportação em massa de “elementos criminosos judeu-bolchevistas” e fuzilamento sumário de 100 “judeus, comunistas e anarquistas”[23]. No mesmo dia, Au pilori convocou os fiéis para uma “discussão sobre a questão judaica”, na qual Céline lembrou aos antissemitas hesitantes: “Cada vez que Hitler toma a palavra ele engaja formalmente a responsabilidade dos judeus quanto ao desencadeamento da guerra européia. Agora, porque vocês, que se querem incorporar no nacional-socialismo, não engajam igualmente oficialmente esta responsabilidade?”[24].

Numa carta de março de 1942 a Jacques Doriot, Céline voltou à carga: “Volatilizar sua judiaria seria o caso de uma semana para uma nação bem decidida”[25]. A 19 de março, Au pilori já se perguntava quem seria “encarregado de combater a peste”[26]. Coubera a Xavier Vallat a tarefa de substituir os critérios religiosos pelos critérios raciais na redefinição dos judeus; mas como ele hesitasse em adotar a estrela amarela para os judeus das zonas ocupadas, como pretendia o tenente alemão Theodor Dannecker, foi substituído por Darquier de Pellepoix, que assumiu a tarefa de deportar os judeus para os campos de extermínio.

A 4 de abril de 1942, Je suis partout publicou a reportagem de Henri Poulain intitulada Du sécateur aux barbelés: Pithiviers les Juifs (“Da tesoura de podar aos arames farpados: ‘Pithiviar’ os judeus”), na qual o jornalista descrevia uma visita que fizera ao campo de concentração de Pithiviers, onde se encontravam internados 1.100 judeus. Declarou tê-los visto viver ali “na folga, no luxo e na abundância”, e relatou assim uma chegada dos transportes: “No fim da viagem o guarda ajudou seu cliente a descer, e numa cumplicidade amigável, soprou-lhe à parte: “Você está entregue, meu rapaz. É um mau momento a passar. Espero que isso não demore e que voltemos a nos ver em Troyes.”[27]

Com a decretação das leis que proibiam o acesso dos judeus a certas profissões, Céline assinou um atestado como membro da Ordem dos Médicos de Seine-et-Oise, onde prometia “dar cabo de todos os judeus e judaizados da medicina e do resto[28]. Ele teria denunciado à Gestapo, entre outros médicos judeus de seu conhecimento, certa doutora Howyan. Confessou então que um de seus sonhos de “cientista” era “extirpar os genes judaicos a partir da fecundação”.

O antissemitismo biológico colocava Céline ao lado do poder exterminador, e sua paixão antissemita chegava a chocar alguns oficiais alemães: Gerhard Heller, tenente encarregado da censura, relatou em Un Allemand à Paris: “Céline espalha loucas declarações sobre os judeus, que nós deveríamos exterminá-los um por um, quarteirão por quarteirão, nesta Paris que ele julgava invadida e gangrenada pela judiaria internacional”. Essa afirmação foi confirmada nos Journaux de guerre do militar ocupante e escritor Ernst Jünger, que traçou de Céline – que ele chama por discrição de “Merline” – um retrato objetivo:

À tarde no Instituto Alemão, rua Saint-Dominique. Ali, entre outras pessoas, Merline, grande, ossudo, robusto, um tanto pesado, mas alerta na discussão ou, antes, no monólogo. Ele tem aquele olhar dos maníacos, virado para dentro, que brilha como no fundo de um buraco. Por esse olhar, também, nada mais existe, nem à direita, nem à esquerda; tem-se a impressão de que o homem persegue um objetivo desconhecido. “Tenho constantemente a morte a meu lado”, e dizendo isso ele parece apontar o dedo para um cãozinho que estivesse deitado ao lado de sua poltrona. Ele diz o quanto está surpreso, estupefato, de que nós, soldados, não fuzilemos, enforquemos, exterminemos os judeus – ele não se conforma que alguém que disponha de uma baioneta não faça dela um uso ilimitado. “Se os bolcheviques estivessem em Paris eles fariam vocês verem como se lida com isso; eles mostrariam a vocês como se depura a população, quarteirão por quarteirão, casa por casa. Se eu carregasse a baioneta, eu saberia o que fazer.” Aprendi alguma coisa ouvindo-o assim falar por duas horas, porque ele exprimia, com toda a evidência, a monstruosa potência do niilismo. Esses homens só escutam uma única melodia, mas singularmente insistente. São como locomotivas que seguem seu caminho até serem quebradas. É curioso ouvir tais espíritos falar da ciência – da biologia, por exemplo. Eles utilizam tudo isso como o teriam feito os homens da idade da pedra; é para eles unicamente um meio de matar os outros. A alegria dessas pessoas, hoje, não está em que têm uma idéia. Idéias elas já tinham, muitas; o que elas desejam ardentemente é ocupar bastiões de onde possam abrir fogo contra grandes massas humanas e espalhar o terror. Se o conseguem, suspendem todo seu trabalho cerebral, fossem quais fossem suas teorias durante a ascensão deles. Eles se abandonam então ao prazer de matar; e é isso, este instinto do massacre em massa, que, desde o princípio, os levava adiante, de maneira tenebrosa e confusa[29].

Não é de estranhar que os livros de Céline tenham sido proibidos na Alemanha nazista como fruto de uma “perigosa mentalidade anarquista”: o Holocausto não seguia os impulsos homicidas de um indisciplinado franco-atirador, e sim rigorosos processos industriais de produção da morte em massa. Foi talvez para aprender mais sobre isso que Céline viajou, em 1942, para a Alemanha, numa comitiva de médicos franceses. O objetivo era um encontro com o Prof. Karl Gebhardt, general e cirurgião-chefe das SS e cirurgião pessoal de Heinrich Himmler. Após trabalhar em sua clínica, Dr. Gebhardt, passava as noites organizando os protocolos das “experiências médicas” a serem feitas com mulheres judias em Auschwitz: esterilizações, inoculações de vírus, exposições sistemáticas a raios X[30].

Seguindo uma solicitação de Joseph Goebbels, Céline pronunciou um discurso aos operários franceses, incitando-os à colaboração[31]. Em sua viagem à Alemanha, Céline deve ter apreciado os métodos alemães de extermínio diante das tentativas toscas dos antissemitas franceses ao escrever, em março de 1942, ao amigo Jacques Doriot: “Se fôssemos solidários […] tudo se passaria instintivamente na calma. O judeu se encontraria expelido, eliminado, uma bela manhã, como um troço.”[32]

Em julho de 1942, em pleno coração de Paris, 13.152 judeus (homens, mulheres, velhos e crianças) foram concentrados no Velódromo de Inverno para serem deportados para Auschwitz. O homem comum comoveu-se com essa operação e a indignação ganhou a população. O Cardeal Saliege protestou do alto de seu púlpito: “Os judeus são homens e as judias são mulheres. Nem tudo é permitido contra eles, contra esses homens e contra essas mulheres, contra esses pais e mães de família. Fazem parte do gênero humano: são nossos irmãos como tantos outros”.

Já Céline sonhava com a liquidação não somente de todos os judeus, como também daqueles que se antepunham aos seus delírios. Certa vez, ele “liquidou” mentalmente Jean Cocteau. Quando se meteu a criar um balé, em outubro de 1942, procurou Serge Lifar, primeiro bailarino e mestre do balé do Théatre de l’Opéra; como este considerasse seu projeto insignificante, Céline denunciou-o à Gestapo[33]. Confabulou então com o Capitão Sézille, secretário geral do Institut des Questions Juives: “O inimigo ocupa todos os postos, todas as trincheiras, todos os desfiles – todas as inteligências… Todos os bancos… Estamos a descoberto, sob suspeita, pouco numerosos, divididos, amanhã talvez desarmados…”[34]. Céline não hesitou em ligar-se a membros da Gestapo, ao embaixador alemão Otto Abetz e a Hermann Bickler, chefe dos Serviços de Informações Políticas para toda a Europa ocidental, sob as ordens diretas de Reinhard Heydrich, o comandante das SS[35].

Em 1943, Céline publicou novo panfleto contra os judeus: La Médicine Ford (1943). Não se tratava exatamente de medicina. De resto, obrigado a abandonar o dispensário de Clichy, Céline não conseguiu instalar sua clínica em Saint-Germain-en-Laye. Viu-se obrigado a exercer medicina a bordo do cargueiro Chella. Como médico, demonstrava pouco interesse por seus pacientes. A medicina era para ele mero ganha-pão. Suas únicas paixões eram odiar judeus e acumular dinheiro. Assim, quando os nazistas empreenderam o saque dos cofres privados dos bancos holandeses, substituindo o ouro dos depositantes particulares por moeda corrente de pouco valor, Céline, que havia convertido seus rendimentos em barras de ouro, depositadas num banco da Holanda, precipitou-se para esse país, para tentar impedir o saque. Caíra na armadilha: acreditava-se “intocável” pelos nazistas por sua colaboração servil; agora, para salvar seu ouro, viu-se obrigado a escrever para Alphonse de Chateaubriand:

Considero a violação de meu cofre um insulto pessoal… Que eles ajam assim com os gaullistas ou os judeus – tanto melhor. Mas com seus raros amigos, aqueles que foram condenados, apupados, perseguidos, difamados por causa deles, e não hoje, mas de 1936 a 1939 – sob Blum-Deladier-Mandel – é o cúmulo – uma sujeira monstruosa – Que lição para os colaboracionistas hesitantes![36].

Os alemães converteram os 185 gouldens-ouro de Céline em 2.200 florins, equivalentes a cerca de um décimo do valor real. O escritor recorreu a seus amigos alemães, ao que parece sem sucesso. Talvez por isso em Guignol’s Band I e II (1944), o tom de seus apelos homicidas modifica-se: a história sem pé nem cabeça, situada na Londres de 1917, já não é um ataque direto aos judeus. Também, desde fins de 1942 abriu-se uma fissura no muro de cimento que aprisionava a Europa. A BBC lançou ordens de vingança, assinalando Céline como inimigo do homem ante a vigilância pública, para castigo futuro. Ao evocar essa época, o escritor referiu-se à “odiosa propaganda de 1942-1944”. Céline percebeu que a Alemanha estava perdendo a guerra e, na iminência da Libertação, apressou-se a deixar a França, com todo o dinheiro que conseguiu arrecadar em suas campanhas criminosas: cerca de um milhão de francos, além de barras de ouro costuradas dentro de um casaco.

Céline foge de um possível fuzilamento, acompanhando a retirada dos invasores alemães e refugiando-se em Sigmaringen com 1141 colaboracionistas. Ernst Jünger comentou com sarcasmo em seu diário a fuga de Céline: “Curioso ver como seres capazes de exigir de sangue frio a cabeça de milhões de homens se inquietam com sua vidinha suja”[37].

Céline agora estava mudo; como escreveu em D’un Château à l’autre (1957), passou a ter “o artigo 75 no cú… Esse deus de pacotilha me gela o saco. Vacilo… Me acovardo… me confundo… não digo tudo… Ah! ah! Nem de longe”. Escapando de um possível fuzilamento, Céline, a esposa Lucette Almanzor e o gato de estimação Bébert fugiram “como ratos” por 21 dias através de uma Alemanha em chamas. Junto a 1.141 colaboracionistas, eles acompanharam a retirada dos alemães, refugiando-se todos em Sigmaringen.

Em Berlim, Céline e Lucette tentaram obter a permissão de saída, que lhes foi negada. Foram enviados para um campo de prisioneiros em Zornhof. Quando tudo foi bombardeado, Céline, Lucette e o gato Bébert fugiram para a Dinamarca, e alcançaram Copenhagen, onde, segundo alguns, “se concentravam seus 6 milhões (sic) de direitos autorais”. Mesmo isolados de toda publicidade, Céline, Lucette e gato Bébert acabaram detidos em dezembro de 1945.

Céline foi acusado de crimes de incitação ao extermínio do povo judeu. Havia traído seu país e colaborado com os ocupantes nazistas de 1940 a 1944, escrevendo diversos panfletos antissemitas, enviado 28 cartas e dado 10 entrevistas para os jornais colaboracionistas, num constante apelo ao extermínio dos judeus, sem mencionar as denúncias feitas diretamente à Gestapo[38]. Como sua extradição para a França implicava a passagem pelo tribunal militar, e um possível fuzilamento (como foi o caso de Brasillach), um entendimento entre os dois governos o fez permanecer encarcerado na Dinamarca até 1948. O Ministro da Justiça libertou Céline após ler apenas Les Beaux Draps, sem nada encontrar aí que pudesse incriminá-lo. Segundo depoimentos de admiradores, Céline e Lucette passaram cinco anos no bosque de Klarskovgard, perto de Korsor, numa cabana sem água nem eletricidade, com piso de terra batida. Céline comportava-se como um animal, fechado em copas, perdendo quase 30 quilos ao alimentar-se apenas de aveia, até ficar doente. Moralmente arrasado, Céline só escrevia quando tinha forças.

Contudo, ao ler o Portrait d’un antisémite, de Jean-Paul Sartre, Céline viu-se tomado pela fúria e jurou “dar cabo desse aborto do Sartre. Chamou o filósofo de “enfermidade epileptóide e porcaria”, que estaria “a precisar de um pontapé no rabo, de uma bordoada”. Gostaria de “partir-lhe o focinho, de o deixar sem ponta por onde se lhe pegasse”. Quis publicar sua resposta, A l’agité du bocal, que constitui, do começo ao fim, uma enfiada obscena de palavrões. Céline começa chamando o filósofo de Jean-Baptiste Sartre, tratando-o de parasita que se alojou em seu ânus (Céline parece fixado na fase sádico-anal) e abusando de metáforas escatológicas:

Agarrados ao cú… cagarolas, semissanguessugas, semitênias… verme retal, embrião… o merdas… olho do cú infecto!… merdoso, empanturrado de merda, sais do rego do cú… Ânus de Caim, cestóides!… No meu cú, que é onde ele está… crosta de meu cú genial… escuridão do meu ânus… A merda seca do meu cú… olhos de feto… Tênia… Embrião… Tênia dos cagalhões, falso girino… Tênia trocista e filosófica… Monstro saído das merdas…[39]

Jean Paulhan recusou publicar esse panfleto estúpido, ordinário, que acabou saindo numa edição quase clandestina, numa tiragem de 200 exemplares, patrocinada pelos adoradores de Céline. Mais tarde, em D’un château à l’autre, Céline dedicou a Sartre mais algumas linhas de ódio: “Agente Tartre! Criptógrafo de merda! Especulador piolhento!”.

A recuperação de Céline

Processado por colaboracionismo pela Corte de Justiça de Paris, Céline foi novamente detido em 1950 e levado a julgamento na França. Muitos vieram prestar-lhe solidariedade. A estrela de cinema Arlétty, que considerava Céline um homem atraente (a bailarina Elizabeth Craig, antiga amante de Céline, considerava-o um homem belo e sensível – quando ele parecia ter saído das cavernas de Lescaux), intercedeu em seu favor e mentiu ao tribunal, apresentando-o como amigo de infância, quando os dois só se conheceram em 1941. Jean Cocteau, perdoando Céline, também se manifestou a favor do escritor, numa tola demonstração de solidariedade de classe.

Nos Estados Unidos, os amigos de Céline recolheram assinaturas para que ele fosse libertado; assinaram: o escritor Henry Miller, o compositor Edgar Varèse, o crítico Edmund Wilson, entre outros desavisados; recusaram-se a assinar: André Breton, André Gide, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir. O cínico pedido de clemência esclarecia como “único crime” do escritor o ter “emitido opiniões impopulares, opiniões políticas emitidas em livros e escritos, que se pretende terem sido antissemitas, pró-germânicas e pró-vichystas”, num processo destituído de “provas de atos concretos”. Mais tarde, em outro processo, Henry Miller apelou pessoalmente ao tribunal a favor de Céline, através de uma carta que constitui verdadeiro documento de tolice:

É difícil, para mim, acreditar que um escritor de sua estatura e de sua dimensão possa ser culpado das acusações que pesam contra ele… Para mim ele permanecerá sempre não somente um grande escritor, mas um grande homem. O mundo pode bem fechar os olhos aos “erros” (se é que o sejam) de alguns homens eminentes, que tanto contribuíram à nossa cultura. Os verdadeiros culpados geralmente se safam.

Mas Céline safou-se: logo depois de ter sido condenado por contumácia a um ano de prisão com confisco de 50% dos bens atuais e futuros, recebeu a anistia da Justiça francesa a 26 de abril de 1951, quando regressou a Paris. Até 1957, viveu solitariamente em Meudon, cuidando, como médico, de alguns poucos pacientes, sendo visitado pelos raros amigos. Continuou, contudo, a escrever, e o anúncio de que D’un château à l’autre seria publicado pela Editora Gallimard voltou a agitar a imprensa. Quando Céline apareceu na televisão, o jornal L’Humanité reagiu e falou em “escândalo nacional”. Mas a barreira acabava de ser rompida. Entrevistado por Olga Obry, Céline declarou: “Os negros que fiquem na América, estão muito bem lá. Os judeus são outro problema; problema étnico. A raça superior é a amarela; daqui a pouco, o mundo será subjugado pelos amarelos. Os brancos estão acabados”[40]. Céline atribuía seu jeito “lixeiro” de escrever à sua ascendência flamenga, comparando-se a Rabelais, Villon e Brüghel. Não seria um escritor com mensagens ou idéias, apenas com estilo. Tinha, contudo, a nostalgia da destruição[41].

Ao visitar Céline pouco antes de sua morte, outro adorador de Céline, Jacques Darribehaude, observou que, para aquele médico escritor, a evolução do mundo parecia submetida a “impiedosas leis biológicas”. Céline, que sempre comparara os judeus aos vírus infecciosos, agora atribuía, com melancolia e nostalgia, o enfraquecimento do sentimento antissemita ao “sucesso dos antibióticos”:

Todo o mundo está vacinado, não há mais epidemias. Nada mais a esperar deste lado. Durante a última guerra, médicos alemães de alta linhagem iam a Lisboa ver se não havia lá epidemias a caminho. Não há mais varíola, não há mais tifóide… Os antibióticos assumiram grande parte da tragédia médica. Não há mais peste, não há mais cólera.[42]

Céline escreveu sobre seu passado: “Não me arrependo de nada.”. Ele permaneceu racista, observando que a França recebia “o mais que pode todos os perseguidos do mundo, cores, seitas, raças, nos seus jardins, nas suas capoeiras, nas suas faculdades e na sua cama!”. Confessou ser incapaz de gozar a vida: nem bebidas, nem comidas, nem sexo, em nada encontrava prazer: “Absolutamente nada, nada, nadinha. Só tenho uma vontade, dormir e não ser chateado.”. Mas não se furtou a compor outro romance, Nord, sobre sua fuga através da Alemanha, e uma última novela que permaneceu inacabada, Rigodon, onde voltava a lamentar serem os brancos apenas “carne de mestiçagem para converter-se em negros, em amarelos, e logo em escravos, em párias, e logo em podridão”, terminando num “delírio visionário” racista ao ver a França invadida pelos chineses. Ao morrer, em 1961, em Meudon, Céline foi acompanhado até o cemitério por cerca de 50 pessoas, entre as quais os amigos fiéis Roger Nimier e Marcel Aymé, e a viúva Lucette Destouches, que se afastou tão logo o corpo tocou o fundo da sepultura[43].

Logo depois da guerra, Paul Valéry definiu Céline como “criminoso”. Em 1952, Roger Nimier, amigo de Céline, atenuou um pouco esse julgamento: “É muito natural não amar Céline”. Mas a verdadeira recuperação começou em 1963, quando Dominique de Roux dedicou a Céline um número especial nos Cahiers de l’Herne. Nesse volume, reeditado em 1965, 1968, 1972 e 1988, a obra de Céline foi elevada a um “dos primeiros lugares na literatura do século XX”[44].

Em seu ensaio, Marcel Aymé, que havia igualmente colaborado com os alemães sob a Ocupação, atribuía os aspectos negativos da obra de Céline, assim como aqueles imputados à personalidade do autor, a uma “lenda má… tão afastada quanto possível da verdade” – verdade que apenas o círculo de amigos de Céline detinha; e essa seria que aquele “único grande escritor de seu tempo”, aquele “gênio poético” cujo rosto ostentava uma “beleza viril”, pertencia a uma “raça de escritores pouco concebível para os intelectuais da nova geração”; Céline sentiria “grande ternura… pelas crianças e pelos animais” (uma evocação de Hitler?) e seria, enfim, uma “força da natureza”; não passaria, assim, de mentira a “lenda” de que ele teria colaborado com os alemães: ele teria sido até hostil a eles e, seu antissemitismo, que não se podia negar, podia-se, contudo, compreender, como o fruto de uma educação, própria da classe de comerciantes franceses, esmagados pelos concorrentes judeus que entravam em conluio com os bancos judeus: se Céline guerreava os judeus, é porque eles o haviam antes “provocado e mirado no coração (…) foi a injustiça que gerou a injustiça”[45].

Já para Giano Acamme, o antissemitismo visceral (como qualifica) de Céline deveria ser considerado mais como elemento de estilo que como seu próprio pensamento[46]. O argumento é pífio: se, como dizia… o estilo é o homem, o antissemitismo de Céline, assim deslocado do pensamento para o estilo, voltava a comprometer o homem: seu estilo não seria mais que a expressão de seu mais profundo pensamento. Enfim, os elogios ao “gênio literário” de Céline e as interpretações de seu antissemitismo prosseguiam, na pena de adoradores de Céline, em vários graus, dos críticos literários mais ingênuos aos mais maldosos colaboracionistas ressuscitados, por quatrocentas páginas.

Em Bruxelas, Marc Laudelout lançou os Bulletins céliniens e, em Paris, a Gallimard passou a editar os Cahiers Céline. Cartas de Céline foram descobertas e editadas por Pierre Lainé, Jean-Paul Louis, Éric Mazet. Em 1966, Dominique de Roux escreveu La mort de L.-F. Céline. Em 1969, a viúva Lucette, morando na mesma casa da Route de Gardes 25er, em Meudon, onde Céline viveu a partir de 1951 seus últimos dez anos, já tentava polir a imagem do escritor para a posteridade:

Céline era um homem de imensa bondade. Tudo o que fez, o fez para o bem; amava a França, seu país, amava as pessoas em geral… Era muito mais terno do que se o imagina, mas ele não o mostrava e essa é a verdadeira ternura… E dela morreu… E se, por momentos, era um pouco duro com as pessoas, era para que se reformassem… Não lhe agradava destruir, e se quebrava alguma coisa era porque essa coisa lhe parecia inútil. Queria criar… Era um artesão sem nenhuma vaidade. Estava disposto a admirar aos demais se haviam trabalhado tanto como ele. O que ele queria era trabalhar. Pensava que nunca “cavávamos” suficientemente fundo para encontrar o que buscamos. “Ficam na superfície” declarou falando dos outros. O escritor vem do médico… Essa maneira de ver as coisas… Teria dado a vida por um enfermo, sua vida não contava… A vida… Não é suprimir a vida. Enamorado da vida. Sua paixão: a juventude; adorava os animais, tudo o que era jovem e novo… Era para a juventude que escrevia, porque não tinha o que esperar dos homens… Que não o haviam compreendido. Mais adiante, talvez…[47]

A revista Magazine Littéraire lançou ainda em 1969 um número especial com uma série de artigos apologéticos, assinados por Philippe Schuwer, Michel Baumgar, Pascal Pia. Apenas no artigo “Antissemita?” certo Rabi fazia restrições: “Serão salvos Viagem ao fim da noite e Morte a crédito. Todo o resto deve atirar-se ao lixo”[48]. Mas a sociedade francesa apressou-se em recuperar todo o resto.

François Gibault descobriu, na posse da viúva (de quem alegadamente se aproximara casualmente para tratar de uma torção após ter caído do lombo de um burro), algumas “relíquias” de Céline, como os originais de Rigodon, publicado em 1969. Ainda neste ano, certo Sr. Fourmont organizou uma exposição consagrada a Céline em Houilles sem abordar seu antissemitismo, com o objetivo apenas de “fazer ler Céline antes de tudo”. Ajuizado, o crítico e escritor Le Clézio declarou na ocasião: “Não se pode não ler Céline”.

Em 1973, surgiram La nuit de Lous-Ferdinand Céline, le voyeur-voyant, do canadense André Smith; Misère et Parole, de Frédéric Vitoux; Les idées politiques des Louis-Ferdinand Céline, de Jacquesline Morand; Drieu la Rochelle, Céline, Brasillach et la tentation fasciste, do finlandês Tarmo Kunnas. O jornal Le Monde pode, então, anunciar o fim do purgatório de Céline. Em 1976, um programa especial de TV homenageou-o com uma velha entrevista filmada e um tributo prestado pelo escritor Philippe Sollers[49]. Desde então, a Bibliothèque L-F. Céline publica atas de colóquios, textos, documentos e repertórios de livros, cartas e manuscritos de Céline colocados à venda.

Os adoradores do escritor não cessam mais de publicar volumosas biografias anuais reabilitando o mestre. Tornando-se o “biógrafo oficial” de Céline através de sua ligação com Lucette, François Gibault publicou os três volumes de seu Céline (1977-1985), onde interpreta o antissemitismo do escritor como a atitude de um corajoso pacifista que tentava alertar o mundo contra a Segunda Guerra; denunciava, pois, os judeus como os provocadores da nova conflagração que previa e temia, tendo já conhecido os horrores da Primeira Guerra. O colaboracionismo de Céline teria sido, assim, apenas uma política de fraternidade entre franceses e alemães.

Na mesma trilha, Philippe Muray pintou, em Céline (1980), o retrato do escritor como pacifista radical, e antissemita por desespero, panfletário infeliz, mas romancista genial, crucificado por ter gritado o que muitos colaboracionistas cochichavam junto aos ocupantes livrando-se de censuras, enquanto aquele pagava caro suas palavras de fogo, apodrecendo no cárcere. O martírio cruel, apesar de merecido, teria unido Céline ao século XX “para o melhor e o pior”…

Jean-Pierre Dauphin e Paul Fouché editaram La bibliographie des écrits de Louis-Ferdinand Céline (1984), a mais completa recensão dos escritos publicados e inéditos do escritor, fonte de consulta obrigatória dos adoradores de Céline.

Num novo Céline (1987), Paul del Perugia evitou aprofundar-se na discussão do antissemitismo do escritor, observando que o Japão havia autorizado a publicação dos panfletos de Céline, mas que na França ainda seria “preciso esperar que nossa opinião seja convenientemente preparada para que o antissemitismo céliniano possa ser colocado em todas as mãos[50] (grifo nosso). O Céline retratado por Perugia assemelha-se a um santo místico que pregava no deserto, um cavaleiro da Távola Redonda que errava num mundo entorpecido, um gênio solitário cuja lucidez conduzia ao martírio. Céline seria um inocente, enfim (observem as aspas em “câmaras de gás”):

Na sua errância, o andarilho não supunha sequer por um instante a existência das “câmaras de gás”, de corpos incinerados. Ele só ouviu falar de deportados que trabalhavam na Alemanha. Seu itinerário não passa pelos campos de concentração; Céline pareceu muito escandalizado por não ter testemunhado nada dos crimes dos alemães… Seu anti-hitlerismo datava de tomadas de posição feitas desde 1933[51].

Paul del Perugia invocava uma entrevista que Céline dera ao jornal Le Figaro pouco antes de morrer:

Não quero que os senhores pensem que eu era indiferente a Buchenwald, etc. Se tivessem se fiado apenas em mim, ninguém teria ido para lá… Não preveni preto no branco que uma nova guerra seria uma catástrofe, que o exército francês sumiria e que se seguiriam a isso mil horrores; que aqueles que os senhores sabem nos levariam ao poço, e que dali não sairíamos mais?…[52].

Mas ao arrogar-se uma inocência divina e profética, Céline levava ao cúmulo seu antissemitismo; pois aqueles que os senhores sabem não eram outros que os judeus, aos quais ele novamente atribuía a culpa pela Segunda Guerra e suas conseqüências, o que incluía “Buchenwald, etc.”. Perugia queria que esse “sádico de alma pura” (nas irretocáveis palavras de Sartre) desconhecesse os crimes de Hitler e fosse ao mesmo tempo o mais lúcido avaliador do regime nazista: “Desde 1936, Erika Irrgang emigrou para Cambridge. Céline a tinha advertido, com uma sabedoria severa, sobre os holocaustos com os quais Hitler ameaçava os judeus”[53].

Céline não desconhecia os crimes nazistas: ele soube, por exemplo, em dezembro de 1938, da morte do marido da amiga Cillie Pam, ligada ao meio intelectual judeu de Viena, no campo de Dachau. Escreveu à amiga na ocasião: “Eis notícias atrozes”, dedicando o resto da carta a relatar seus próprios “dramas”, concluindo de forma fracamente sádica: “Você vê que os judeus também perseguem.”[54]. As “contradições” desse “amigo dos judeus” falam por si.

Logo Frédéric Vitoux deu a público La vie de Céline (1988), que consumiu mais de dez anos de sua vida, representando a última manifestação de sua difícil cumplicidade com aquele autor. Retomando a tese de Gibault, Vitoux, voltou a interpretar o antissemitismo de Céline como forma de pacifismo, e seus apelos ao massacre dos judeus como delírios e féeries, fantasias literárias sem relação com a realidade: “Seu antissemitismo de outrora era uma forma de esperança, ele o vociferava com um objetivo preciso: evitar a guerra, preservar a paz, a paz a qualquer preço”[55].

Retomando a tese revisionista em La vie de Céline (1988), Frédéric Vitoux interpretou o antissemitismo de Céline como uma forma de pacifismo, e seus apelos ao extermínio dos judeus como féeries alheias à realidade. “Seu antissemitismo de outrora era uma forma de esperança, ele o vociferava com um objetivo preciso: evitar a guerra, preservar a paz, a paz a qualquer preço”. Céline seria um visionário míope, pois incapaz de enxergar as deportações que se faziam sob seu nariz. Enquanto os judeus eram mandados para a morte, Céline veria apenas “judeus plutocratas que triunfam”[56]. Vitoux recusa associar o nome de Céline ao nazismo, não querendo ver o colaborador consciente de suas opções antissemitas homicidas, mas apenas “o inventor de uma linguagem”, não as suas motivações criminosas, mas “sua musiqueta, sua revolução pessoal”, pois “eis o que lhe importa e que o torna, para nós, imenso”[57].

Philippe Alméras, outro apóstolo de Céline, livrou ao público Les Idées de Céline, assegurando-nos de que “estudar as ideias (sic) de Céline não é nem justificá-las, nem descrever uma patologia, mas tentar compreender como sobre uma plataforma tão marginal pode-se edificar uma das obras maiores do século”[58]. Como todo céliniano que toma as diatribes antissemitas de Celine por “ideias”, Alméras acredita na genialidade do escritor:

Onde estão os Duhamel, Maurois, Gide, Montherland, Giraudoux e mesmo Malraux e Aragon? Céline sobrevive. Se ele ainda não está no vestibular chinês, já foi traduzido lá. Na França, dos autores contemporâneos, é um dos únicos que encontram boa acolhida entre os jovens. Desde 1957, Céline voltou a ser o contemporâneo capital[59].

Cego a toda literatura francesa que sobrevive muito bem sem o lobby da crítica de direita, ele vê em Céline o “criador de uma linguagem nova”. Triste sintoma de uma época! O próprio Alméras explica a atual deturpação de valores que justifica a recuperação de Céline: “Como nós, ele não crê em nada, nem em Deus nem no horizonte das revoluções… o que o obceca é a pulsação da célula, a antecipação do nada… persuadido da maldade fundamental do homem.”[60]. Contudo, no fundo desse pretenso niilismo que os contemporâneos compartilhariam com Céline, Alméras acredita, sim, em alguma coisa: no antissemitismo, uma vez que ele pretende – como declara – “renovar a apreciação dos panfletos de Céline”[61].

Alméras logo publicou outro livro de puro revisionismo, as Lettre des Années Noires, reproduzindo cartas antissemitas inéditas que Céline enviou a Henri Poulain, redator do Je suis partout, e a Paul Bony, tradutor da Gestapo durante a guerra. A viúva Lucette obteve autorização judicial para proibir a reedição do livro e de outras obras de Céline sem sua permissão. Mas Alméras prosseguiu na campanha de reabilitação lançando pela editora Laffont outra biografia de seu mestre: Céline – Entre haines et passions (1994).

Henri Godard lidera o culto dos adoradores de Céline: ele lançou, sucessivamente, Les Écrits de Céline et leurs leçons, Poétique de Céline e Céline Scandale. Este crítico não negou que Céline produzira textos antissemitas, durante a Ocupação e, depois da guerra, “uma dúzia de passagens ofendendo a memória do Holocausto”. Mas – os revisionistas sempre proferem a palavra “mas” – no seu entendimento “esta denegação de toda qualidade à comunidade judaica expressa nas intervenções do narrador é contradita no corpo dos romances quando Céline coloca em cena personagens judeus”. O que Céline procuraria, então, difamando os judeus e atacando a memória do Holocausto era apenas “confrontar-nos com o mal através de agressões racistas”. Caso ninguém se convencesse desse malabarismo de interpretação, Godard concluía que, pairando acima da moral, estaria a qualidade literária da obra, a singularidade do prazer estético autônomo e independente…

Na mesma linha de argumentação rebuscada, Yvez Pagès tentou demonstrar, em Les fictions du politique chez L.-F. Céline (1994), que Céline não seria um simpatizante do nazismo nem um populista antissemita, mas, bem lá no fundo de seu ser, um autêntico “gauchiste anárquico”, tão sofisticado que nenhum de seus críticos de esquerda se teria dado conta disso! Após esse notável número de contorcionismo intelectual, o último viés da recuperação do antissemitismo céliniano foi dado pela espantosa teoria do “Céline superjudeu”.

Em Céline seul (1993), Stéphane Zagdanski, que se diz judeu, e chama os críticos de Céline de “asnos” no artigo “Ânes s’abstenir” (“Asnos abster-se”), num número especial da revista l’Infini nº 45, dedicado ao escritor, com diversos inéditos, incluindo o texto integral de Mea Culpa, postula que uma guerra foi declarada, sendo preciso escolher um campo: “Não: Céline ou os judeus, mas: Céline, os judeus e a literatura ou o resto do mundo”. Bem, preferimos escolher o resto do mundo, tomando a liberdade de incluir aí os judeus que restam avessos ao antissemitismo e a literatura que resta sem as obras de Céline.

O exótico Zagdanski adverte possíveis críticos de sua tese de que, como judeu, não pretende “reabilitar” Céline ensinando os judeus a amá-lo, mas provar que Céline, como Sade, escreveu seus panfletos exclusivamente para escritores. Em que isso modificaria o conteúdo dos textos é um mistério insondável. Mas Zagdanski não pára aí. Para ele, Céline não seria antissemita porque o antissemitismo é, por natureza, antiliterário e os judeus seriam “a letra do espírito”. Místico da literatura como Proust, seu maior rival e modelo a igualar e ultrapassar, Céline seria o “superjudeu”, escrevendo literatura talmúdica, retornando a um judaísmo que o elevaria ao mais alto da consciência humana[62]. Embora alguns críticos tenham considerado a tese de Zagdanski “brilhante”, ela não passa de mais uma manifestação irracional na qual os “judeus” aparecem em oposição ao “resto do mundo”. É esse racismo de Zagdanski, que o qualifica ao conceito de “judeu nazista” proposta pelo filósofo Leibowitz, que o aproxima tanto de Céline.

Também Jacques Lecarme pretendeu que o discurso racista de Céline não tenha atraído ninguém para sua causa, sendo seguido apenas por leitores que jamais o levaram a sério[63]. O que passa despercebido nesse “argumento” é a segurança com que os adoradores de Céline radiografam uma audiência virtual e determinam o que foi ou não absorvido por ela; de que maneira Céline foi ou não apreendido no interior de suas mentes. Impressionante, ainda, como críticos que não viveram a Segunda Guerra, a Ocupação, a Colaboração e o Holocausto mostram-se tão ansiosas por perdoar Céline em nome das vítimas silenciadas. O escritor Juan Carlos Onetti resumiu o assunto com uma piada: “Céline diante do tribunal de depuração: ‘Eu, antissemita? Abetz ofereceu-me o encargo de resolver o problema judeu na França e eu não aceitei. Se tivesse dito que sim, a essa hora não restaria um único judeu na França!”.

Mas, no Brasil, Leda Tenório da Motta, para quem “Louis-Ferdinand Céline é ao lado do judeu Marcel Proust, o mais importante escritor francês deste século”, captou a mensagem revisionista. Em seu ensaio “Céline diante do extremo”, ela filia o colaboracionista à tradição daquele “cronista da aristocracia da Rive Droite”, tentando fazer passar Céline como apenas o “cronista da França colaboracionista”, e não um de seus membros mais sujos. Seu antissemitismo é desculpado, reinterpretado, metaforizado, retrabalhado, revirado, recodificado para ser em seguida descodificado sem medo…

Para Leda, Céline seria um “judeu ao avesso, identificado com o perseguidor nazista e, na lógica dessa pista, o antissemitismo é um delírio de perseguição invertido […]. Céline precisa do judeu imundo como causa externa, para não desmoronar internamente”. O ódio aos judeus seria necessário “à coerência do sujeito instável que ele é tanto quanto o corpo bem modelado da bailarina […] seria a contrapartida positiva dessa frágil criação identitária”. Na dúvida que permanece em suspenso, Leda afirma “em nome dos bons sentimentos”, que Céline pelo menos não passou da palavra ao ato: “Toda a sua ofensa ao judeu é por escrito. O surto persecutório, embora envolva a mais grave questão ética deste século, não extrapola a obsessão do estilo e a folha de papel, quer dizer: o tormento interior.”[64]

Quem lesse apenas as interpretações de Leda poderia pensar que Céline tivesse permanecido inédito durante a Ocupação, escrevendo apenas para si mesmo, em folhas atiradas ao lixo, expurgando seus demônios interiores enquanto depurava seu estilo, numa terapia particular, secreta. Ledo engano! Na realidade, Céline levou, sempre que pode, seu “tormento interior” e sua “fragilidade identitária” ao espaço público, divulgando suas folhas “secretas” em jornais colaboracionistas, denunciando judeus aos nazistas, pregando aberta e publicamente seu extermínio. Claro que o antissemita é vítima de fraturas psicológicas, mas ele é também responsável pela matéria viscosa que escorre dessas fraturas: se ao invés de tratá-las, ele prefere expô-las em público, na esperança de “normalizá-las” à custa da vida dos judeus, deve sofrer as consequências.

Em outra reflexão sobre Céline, Leda Tenório da Motta, inconformada com o que chama, eufemisticamente, de “desencontro entre Sartre e Céline”, põe-se a conjecturar sobre a grandeza do colaboracionista condenado ao ostracismo pelo filósofo existencialista em uma espécie de versão moderna e capenga da expulsão dos poetas da República de Platão. A denúncia de Sartre de que “se Céline pôde defender as teses sociais dos nazistas, é que era pago para isso” não teria sido, a seu ver, “jamais comprovada”, sendo, sempre a seu ver, “sabidamente falsa”. Mas, para Leda, essa “denúncia prospera, e eis o escritor banido, como Homero, Hesíodo e Píndaro por Platão”. [65]

Nem a atividade dos novos críticos aninhados no “Centre Céline” da Universidade de Paris VII, cultuando os panfletos antissemitas de Céline como escritos “de uma beleza selvagem” teriam conseguido abolir o “veto” de Sartre. Mas eis que surge a revista Tel Quel, tendo à frente Philippe Sollers, “com sua predileção pelos poderes subversivos da literatura”. E assim, pelo viés da “subversão”, Céline pode ser finalmente reabilitado: “É graças à ação da Tel Quel […] que podemos reconhecer hoje, com certa tranqüilidade, o lugar que esse romancista […] ocupa […] na história da literatura em termos absolutos.” E após aproximar Céline de Homero, de Hesíodo, de Píndaro, de Madame de Sévigné, de Saint-Simon, de Marcel Proust, de Baudelaire e até de Alfred Hitchcock, Leda conclui suas conjeturas com um desafio estimulante: “E se Céline, com sua escola de cadáveres, fosse, em literatura, o equivalente de um Francis Bacon?”[66]. O céu é o limite…

O que a crítica pós-moderna tenta desesperadamente, das maneiras mais tortuosas, é recuperar Céline por inteiro, incluindo seu antissemitismo. Até Michel Contat, ao escrever a respeito deste surto, viu-se tentado a reconhecer o estilo Céline, a capitular diante do sucesso de Céline, e a exigir a publicação dos panfletos antissemitas:

Hoje, de Coluche a Sollers, da Universidade à jovem guarda literária, todo mundo admira, vende Céline. Ele está na Pléiade, na Folio, é um grande escritor reconhecido, patente, estampilhado, canonizado, e que se vende, muito… Rabino Céline? Santo Céline? Por que não? Mas perseguido, mártir, não. O insulto seria grave demais em relação aos verdadeiros mártires desse século… Que se reeditem, pois, os panfletos, que se ponha à obra esse estilo[67].

De fato, como resistir ao rolo compressor das edições de luxo e de bolso, seguidas de críticas entusiásticas de jornalistas, críticos literários e professores em tantas publicações e universidades? A consagração maior veio com a edição crítica de Henri Godard, em papel bíblia, na Bibliothèque de la Pléiade, da Gallimard. A obra de Céline viu-se assim “imortalizada” naquela coleção reservada aos grandes espíritos da literatura mundial e aos mestres da língua francesa. Como se isso não bastasse, as obras de Céline continuam sendo lançadas em grandes tiragens em formato de bolso, alimentando a massa de estudantes e curiosos. Suas teses, esparsos, artigos e cartas não cessam de ser recuperados por pequenas editoras em edições raras, para colecionadores. A poderosa Gallimard incluiu todo Céline em seus catálogos[68].

Essa folia editorial realimenta-se e cresce como uma bola de neve: a editora Du Lerot lançou, entre 1990 e 1991, dois volumes do Année Celine. Em 1994, a Gallimard lançou Elizabeth et Louis, livro de entrevistas de Alphonse Juilland com a bailarina americana Elizabeth Craig, revelando seu relacionamento com Céline durante os anos 1926-1933; a Révue d’études du roman du XXe. siècle, da Universidade Lille-III, preparou um dossiê crítico sobre Voyage au bout de la nuit, com contribuições de Henri Godard, André Derval, Philippe Destruel, Philippe Bonnefis. Claude Duneton publicou sua homenagem à “peregrinação pelos caminhos do exílio do escritor” em Bal à Korsor. Estudos particulares sucedem-se obsessivamente: Le Cinéma de Céline, de J. D’Arribehaude; Relerd des sources et citations de Bagatelles pour un massacre, de Alice Kaplan; Céline de mes souvenirs, de Serge Perrault; Essai de situation des pamphlets de Louis-Ferdinand Céline, d’Eric Sébold. Entre as publicações do IMEC, destaca-se um Tout Céline; e o ensaio Céline et les Editions Denoël (1932-1948).

Na voragem dessa exaltação sem limites, os manuscritos de Voyage au bout de la nuit foram leiloados, em 2001, por 12 milhões de francos, pagos pela Biblioteca Nacional e pela senhora Nahed Ojed, viúva do riquíssimo comerciante de armas. O preço ultrapassou o valor atingido pelos manuscritos dos nove volumes das Memórias de além-túmulo, de François-René de Chateaubriand (4 milhões); pelos do primeiro volume de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust (7 milhões); e pelos da novela O processo, de Franz Kafka (10 milhões). “Tenha dó!”, não se conteve Gilles Lapouge ao noticiar o fato[69]. O recorde de Céline só foi superado, anos depois, com a venda dos manuscritos de On the Road, de Jack Kerouac, por 15 milhões de francos.

A recuperação da literatura antissemita é um fenômeno mundial e, graças ao consumismo (que tudo transforma em objeto de consumo), autores antissemitas e colaboracionistas são reabilitados com novas edições. Na Itália, a editora Adelphi relançou as obras de Alexander Lernet-Holenia, a Aurora publicou uma tradução de Bagatelles pour un massacre, de Céline, vendido nas seções de best sellers de todas as livrarias Mondadori e Feltrinelli. Na Alemanha, diversas editoras relançaram as obras do também antissemita e colaborador do nazismo Hanns Heinz Ewers. Na França, os livros de Lucien Rebatet foram reeditados: Les mémoires d’un fasciste/I – Les décombres (1938-1840), pela Pauvert, em 1976; e Les deux étendards, pela Gallimard, em 2007; as Éditions de L’Herne relançou A l’agité du bocal, de Céline.

Participando desse clima revisionista, o jornalista e escritor Paulo Francis, numa crônica de 1996, elogiou Drieu de la Rochelle, supostamente vitimado por uma adaptação cinematográfica “indigna” de Feu Follet, e o colaboracionista Robert Brasillach, “satirizado cruelmente por Truffaut em O último metrô”. Francis considerou Céline e Rebatet “os dois escritores de primeiro time franceses do meio século” e lamentou que o segundo, um “clássico do colaboracionismo”, tenha sido “ignorado pela crítica”, responsabilizando Jean-Paul Sartre por isso!

Em 2001, Lucette, ainda viva aos 87 anos, morando na mesma casa de Meudon, lançou o pequeno livro Céline sécret, escrito em parceria com Véronique Robert, uma coletânea de reminiscências de sua vida a dois com o escritor, e onde traçava um retrato íntimo do marido enquanto “gênio incompreendido”. O objetivo de sua empreitada era fazer com que o público visse Céline como ela o percebia:

[…] Um homem frágil, um homem bom, que sofreu tanto… Atingido por um estilhaço de obus… Não conseguia mais dormir… Os nervos constantemente à flor da pele. Vivia em um estado de segunda consciência. Foi por isso que brilhou tanto em literatura. Caso contrário, ele teria sido apenas um bom médico, e isso teria sido perfeito. A literatura não merece que se sofra tanto por ela[70].

Contudo, além de verter o baixo calão para o papel, que revolução literária teria Céline realizado? Esse espírito mesquinho, acanalhado pelo antissemitismo, nada criou além de uma subliteratura, de um pastiche das experiências entediantes de James Joyce que, contudo, antes de soçobrar no experimentalismo, provou ser um grande escritor com Os Dublinenses e Retrato de um artista quando jovem. Já Céline começou soçobrando, incapaz de criar personagens consistentes, psicologicamente verdadeiros. Sua obra é toda feita de ódio e morbidez, folie e nojo.

Enigmaticamente, a baixeza desse escritor, sua ignomínia moral, que tanto avilta o espírito e que foi reconhecida até por militares alemães da Ocupação, é hoje entendido pela crítica como “grandeza”; seu horror à vida deve-se à sua “genialidade”; suas cacofonias são interpretadas como “estilo revolucionário”; seus gritos de “morte aos judeus” e seu colaboracionismo são amaciados e justificados em nome de um “pacifismo desesperado” nas volumosas biografias anuais.

Os adoradores de Céline interpretam positivamente seu ódio aos judeus com o objetivo de reintegrar os panfletos colaboracionistas na literatura francesa, dando-lhes novos significados, retirando-os de seu contexto histórico, descobrindo neles intenções puras, nobres, positivas, ocultas lá no fundo, injustamente suplantadas pelo “fel anárquico” do militante. Esses críticos traem seus parti-pris pela própria minúcia de suas pesquisas, que se estendem por trezentas, quinhentas e até mil páginas de escavações e cacofonias, repetições e escavações célinianas. Não se vive tantos anos dentro da vida de outrem que já não fosse, ou que não se tenha então tornado, parte de sua própria vida. A intensidade dessas pesquisas encontraria uma justificativa no “gênio literário” de Céline, mito cultivado tanto por críticos inexpressivos como Michel Beaujour, Michel Thélia ou o catedrático americano dito judeu Milton Hindus [71] quanto por críticos importantes, como Maurice Nadeau, Michel Butor, Roland Barthes, Julia Kristeva [72] ou Philippe Sollers.

Entre nós, Leyla Perrone-Moisés considerou que Voyage au bout de la nuit está, para as letras francesas, como Grande Sertão Veredas para as letras nacionais [73]. Silviano Santiago evocou a “genialidade artística de Céline”, que teria produzido “extraordinários romances”. Para Luis Carlos Maciel, Céline seria grande porque “a intenção artística independe do processo intelectual”. Joel Silveira, mesmo considerando Céline “um crápula, um filho da mãe completo”, admitiu que ele “foi um dos grandes escritores deste século”, sendo Voyage au bout de la nuit “um livro absolutamente genial”. Rosa Freire d’Aguiar traduziu aquele romance para a Companhia das Letras colaborando com um encantado prefácio [74]. Para Silvio Back, Céline era um gênio porque “a beleza estética está acima das ideologias”, citando Sergei Eisenstein, Ezra Pound, T. S. Eliot e Leni Riefenstahl como outras tantas provas [75].

Josué Montello, numa apreciação de Voyage au bout de la nuit, destacou como “indeléveis na memória” duas cenas do romance: “a do momento em que Robinson reconhece que está cego e a da morte da jovem que se submeteu a um aborto e vai-se acabando numa lenta e irreprimível hemorragia”. Noutro “reparo luminoso”, Céline nos daria a chave de si próprio: “Cada um de nós é artista com o que tem à mão”. E Josué a justificá-lo: “O que ele tinha à mão […] era a pobreza e a covardia, a podridão e o medo, a traição e o ódio, a ingratidão e a cupidez, com os seres humanos tentando enganar uns aos outros, sob a vigilância da Morte” [76].

Aparentemente cego à consagração nacional de Céline na França e, por reflexo, no Brasil, o prefaciador de O cão de Deus (1995), da sintomática editora Hiena, de Portugal, considerou “revoltante” a forma como a intelligentsia francesa tratava o escritor: “Tenho Céline por um genial inventor […]. Aos meus olhos não só o mais importante (poeta) do nosso tempo, mas nos vários séculos que formam os tempos modernos, uma das maiores charneiras da arte de escrever”. Para esse adorador canino que eleva o trôpego Céline à dimensão de um Flaubert, um Proust, um Machado de Assis, um Sartre, um Camus, um Pasolini, um Borges, ele seria não apenas o maior vulto literário dos últimos séculos, como verdadeiro santo digno de beatificação: “Não houve homem de melhor coração, mais patriota, mais confraternizador”. Naturalmente, se esse gênio santo não deixou obra que preste, não é culpa sua; destruiu-a uma conspiração:

Todo o estatuto da intelligentsia assenta num sistema de vasta impostura com postos e equipas de substituição tão complexos e vastos que, indo por acidente ao ar um ou outro destes postos, não põe em perigo o conjunto; mas quando aparece um determinado desmanchador, um que ataca a central, o grande sabotador, tocam sinos a rebate e sócios de todos os níveis precipitam-se com azeite a ferver, em direcção à muralha[77].

Assim, Céline teria sido vítima dos intelectuais incomodados com a sabotagem da literatura e do espírito praticada pelo gênio santo. Mas não basta ao adorador de Céline pintar de ouro seu ídolo de barro; é preciso transfigurá-lo em resistente antinazista: “Céline… recusava-se a colaborar.” Apenas a imprensa marrom desfigura “o íntegro, o irrepreensível Céline e as suas demiúrgicas epopéias em especiosa figura de polemista pretensamente racista e pró-nazista”. Não, ele não teria sido nada disso. Para o cão de Céline, este realizou a maior das revoluções na literatura, convertendo-a em língua falada transcrita, “a mais maravilhosa das falas”. Essa grande revolução, que transforma o homem da rua, o bêbado do boteco, a prostituta da esquina ou o operário da fábrica em obras-primas ambulantes da nova literatura, é bem digna de quem proclamou: “Basta eu ouvir pronunciar à minha volta a palavra Espírito, para cuspir!”.

Mas… E se Céline não fosse um gênio? E se fosse apenas uma larva, um produto do lixo, a “podridão em suspenso”, tal como ele definia o homem? Não é à toa que, para destacar os fulgores literários de Céline, seus admiradores empreguem os termos mais negativos: “bílis negra e viscosa”, “vinagre”, “furor”, “furacão”, “vulcão”, “dinamite”, “cólera”, “vitríolo”, “veneno” e assim por diante. Nenhum ato de nobreza ou generosidade é ressaltado: apenas o ignóbil magicamente reconvertido ao positivo.

A experiência de miséria que Charles Chaplin descreveu em sua autobiografia não o tornou niilista e seus filmes dão testemunha disso. As terríveis visões que Erich Marie Remarque teve da Primeira Guerra não fez de seu Nada de novo no Front um hino às aberrações. Mas milhões de páginas são impressas diariamente na França para celebrar um espírito vulgar que, um dia, pôs-se a escrever. Nesse mar de lama, apenas um estudo crítico se destaca: Céline, un antijuif fanatique, de Annick Duraffour, um dossiê completo sobre as posições do escritor, sem interpretar suas palavras e atos antissemitas, chamando a barbárie pelo seu nome [78].

A verdade é que Céline representa bem certa França: a França que condenou, sem provas, o capitão Dreyfus; a França dos colaboradores; a França de Maurice Papon; a França da Frente Nacional de Le Pen. Foi essa França grosseira, racista, antissemita, que colocou Céline num pedestal, que, pelo efeito-cascata da sociedade de consumo, se elevou sem cessar, com novas biografias, edições críticas, álbuns, cadernos, reedições de bolso e de luxo dedicados a um paranóico que, um dia, pôs-se a escrever baboseiras. Grande escritor? Não: Céline só vertia para o papel o que tilintava em sua mente perturbada. E tudo foi publicado, louvado por críticos salauds, maliciosos, nostálgicos do nazismo, demasiadamente ingênuos ou amantes das mazelas. E de exaltação em exaltação – até seu gato de estimação ganhou uma biografia: Bébert, le chat de Louis-Ferdinand Céline, editado pela Grasset e reeditado em 1994! – Céline transformou-se num (pseudo) “clássico” da literatura francesa, digno de ser traduzido para todas as línguas, incluindo o hebraico.

O lançamento de Voyage au bout de la nuit em Israel marcou a etapa final da recuperação de Céline. O crítico Nicolas Weill previu que a primeira obra de Céline traduzida para o hebraico seria bem acolhida na corrente noir da moderna literatura israelense [79], independente do fato de seu autor “encarnar para a população israelense um antissemitismo encarniçado”. Os editores justificaram-se: “Não somos um tribunal”, mostrando-se preocupados apenas com “a existência de pessoas que se atribuem o direito de decidir o que outros devem ou não ler”. Por via das dúvidas, a tradutora Ilana Hammermann publicou simultaneamente um artigo no Ha’aretz consagrado às Crônicas do Gueto de Varsóvia, de Emmanuel Ringelblum: homenageando uma vítima da Shoah, deixava claro ter cumprido, no caso da tradução de Céline, apenas uma tarefa profissional. [80]

A 21 de janeiro de 2011, o Ministro da Cultura da França, Fréderic Mitterrand, anunciou sua corajosa decisão de não comemorar oficialmente o 50° aniversário da morte de Louis-Ferdinand Céline, sendo aplaudido por Richard Prasquier, presidente da seção francesa do grupo CRIF, e por Serge Klarsfeld, presidente da associação FFDJF (Filhos e Filhas dos Judeus Deportados da França), que declarou: “O talento de Céline não deve permitir-nos esquecer o homem que apelou para o assassinato dos judeus durante a Ocupação.” Entretanto, numerosos acadêmicos franceses protestaram dizendo que não se devia misturar o “gênio literário de Céline” com o “antissemitismo bastardo de Céline” – como se a França devesse celebrar esse escritor minimizando seu antissemitismo como algo de alheio aos seus escritos.

Para o escritor peruano Manuel Vargas Llosa a não-celebração oficial do cinqüentenário da morte de Céline abriu um precedente perigoso contra os escritores antissemitas, que padeceriam dos mesmos pecadilhos dos seres humanos comuns: “A decisão do governo francês envia à opinião pública uma mensagem perigosamente equivocada sobre a literatura e cria um péssimo precedente. Sua decisão parece supor que, para ser reconhecido como um bom escritor, é preciso escrever também obras boas e, em última instância, ser um bom cidadão e uma boa pessoa. A verdade é que se o critério fosse esse, apenas um punhado de polígrafos se qualificaria. […] a imensa maioria padece das mesmas misérias, taras e barbaridades que o comum dos seres humanos. Somente na rubrica do antissemitismo […] seria preciso excluir do reconhecimento público […] Shakespeare, Quevedo, Balzac, Pio Baroja, T. S. Eliot, Claudel, Ezra Pound, E. M. Cioran, e muitíssimos mais.” [81]

Ao mesmo tempo, Llosa condena os que celebram o cineasta judeu Roman Polanski, tendo em vista o delito sexual que ele cometeu, ao drogar e sodomizar uma adolescente. O contexto do crime é omitido (a garota não era mais virgem, foi levada pela mãe para posar nua para o cineasta, freqüentava as festas barra-pesada de Hollywood) e, embora o caráter da vítima não justifique o crime, é significativo que ela há muito tenha perdoado seu suposto agressor sexual. Llosa, contudo, não perdoa o desvio de comportamento do judeu. Já os crimes contra a humanidade do antissemita ele releva. Colaborar na deportação de judeus inocentes votados à fome, tortura e morte em campos de extermínio não impediria a celebração do artista antissemita; já o delito sexual tornaria a celebração do artista judeu asquerosa. Ao judeu não é permitida nenhuma daquelas “misérias, taras e barbaridades” afeitas ao comum dos humanos: celebrar um judeu imperfeito é para Llosa tão nauseante quanto a leitura dos panfletos antissemitas de seu querido Céline. Ainda que Céline seja politicamente “uma escória” – aquiesce Llosa – a França deveria colocar isso entre parênteses e manter a celebração oficial.

Para equilibrar o fiel da balança à qual ele deitou dois pesos e duas medidas Llosa precisa elevar Céline aos céus, imaginando o nauseante escrevinhador como um “extraordinário escritor, seguramente o mais importante romancista francês do século XX depois de Proust […] [já que] com a exceção de Em busca do tempo perdido e A condição humana de Malraux, não existe na narrativa moderna em língua francesa nada que se assemelhe em originalidade, força expressiva e riqueza criadora às obras-primas de Céline, Viagem ao Fim da Noite (1932) e Morte a Crédito (1936).”

Pobres André Gide, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Simone de Beauvoir, Louis Aragon, Marguerite Duras, Antoine de Saint-Exupéry, Vercors, Jules Romains, Romain Rolland, Georges Duhamel, etc. etc. – o grande Céline eclipsou a todos! Mas o que é que os “dois romances fora de série” de Céline nos traz de tão maravilhoso? Llosa responde sem titubear: “O mundinho feroz da mediocridade, do ressentimento, da inveja, dos complexos, a sordidez de um vasto setor social que abarcava desde o lúmpen até as camadas mais degradadas em seus níveis de vida das classes médias de seu tempo. […] pobreza, fracasso, desilusão, mentiras, traições, baixezas […]. O grande mérito desse escritor maldito foi […] demonstrar que o mundo em que vivemos também é essa porcaria […].” Por isso, conclui Llosa, “é preciso celebrar os romances de Celine.” [82]

Já Polanski, cujos filmes exaltam a liberdade e a vida em meio à violência e ao mal do mundo, não merece a mesma consideração. O fato de ele ter conseguido, graças a “uma espetacular campanha midiática”, que a justiça suíça não o extraditasse para os EUA é comentado por Llosa em linhas carregadas de ironia e sarcasmo: “Isso foi celebrado como uma vitória contra a terrível injustiça da qual, pelo visto, ele havia sido vítima por parte dos juízes americanos […]. Pobre cineasta! Em que pese seu enorme talento, os abusivos tribunais americanos queriam castigá-lo […]. Menos mal que um país como a França, onde se respeitam a cultura e o talento, ofereceu-lhe exílio e proteção, e lhe permitiu continuar produzindo as excelentes obras cinematográficas que hoje ganham prêmios por toda parte. Confesso que essa história me causa as mesmas náuseas que senti quando mergulhei, há meio século, nas páginas putrefatas de Bagatelles pour un massacre.” – conclui LLosa sua tendenciosa reflexão. [83]

No caso do escritor antissemita, o talento absolveria até os pecados mortais. No caso do cineasta judeu, o talento não absolveria nem mesmo os pecados veniais. Outro exemplo é dado por Serge Kaganski num recente artigo de revisionismo ponderado: ele considerou Celine “o mais genial e controverso escritor francês do século XX” [84]. E ponderou: “A despeito da violência abjeta dos panfletos, seria sem dúvida necessário trazê-los a público, para que se possa conhecer Céline por completo”; “O fato de não serem inéditas não torna menos interessantes as críticas [ao antissemitismo de Jean-Luc Godard] de [Alain] Fleisher” [em Réponse du muet au parlant]; “Os aspectos legitimamente criticáveis de Godard não diminuem a importância de sua obra”. Nesse revisionismo ponderado tudo é justificado pelo peso de uma autoridade.

Que a subliteratura de Céline seja consumida é compreensível: pela curiosidade em torno de sua fama, pelo prazer que sentimos ao sermos escandalizados, pela atração que sentimos pelo mórbido e pelo proibido, pela fascinação que todo mal exerce. Mas que, depois de lidas, suas obras pseudoliterárias, seus romances desagradáveis, seus panfletos grosseiros, suas imprecações boçais não revoltem os espíritos, mas suscitem uma terna admiração e uma ardorosa cumplicidade, gerando mesmo uma entusiasmada fortuna crítica a consagrar um energúmeno como  “o mais genial escritor francês do século XX”, com um fingido dar de ombros para a desumanidade contida no fundo, eis um indício do horror que ganha o mundo e compromete toda esperança no futuro.

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[1] MAURIAC apud GIBAULT, Céline, v. I, p. 156.

[2] GIBAULT, Céline, v. I, p. 63; p. 156.

[3] CÉLINE apud VITOUX, La vie de Céline, p. 357.

[4] CÉLINE, Carta  a Lucien Combelle, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 115-116.

[5] CÉLINE, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 115-116.

[6] ARAGON, A propos de ‘L’Église’, Commune, nº 3, nov. 1933, apud DURAFFOUR, “Céline, un antijuif fanatique”, in TAGUIEFF, L’anti-sémitisme de plume, p. 149.

[7] “Louis-Ferdinand Céline entrou na grande literatura como alguns penetram na própria casa…”. TROTSKI, “Céline et Poincaré”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 241-243.

[8] As campanhas de ódio de Henri Béraud no Gringoire levaram Roger Salengro ao suicídio em 1936. Ce qu’ ils sont devenus?, http://perso.wanadoo.fr/d-d.natanson/devenus.htm#b; KAUFFER, Remi. Un flot de haine déferle sur Blum. URL: http://www.historia.presse.fr/data/thematique/87/08706601.html.

[9] Segundo Georges Sadoul, em 1936, 40 títulos de quadrinhos americanos eram vendidos semanalmente na França, perfazendo três milhões de exemplares. ORY, Palcal. Le petit nazi illustré, p. 13.

[10] Sartre usou uma frase da obra (“É um rapaz sem importância coletiva, é tão somente um indivíduo”) como epígrafe de La Nausée (A náusea). Segundo Michel Contat e Michel Rybalka, o filósofo ignorava na época o aspecto antissemita da peça, não a tendo lido, usando a citação de segunda-mão. Nunca a retirou, contudo, das reedições da novela, e no fim da vida ainda teria considerado Voyage au bout de la nuit um dos “romances essenciais do século XX”. (SARTRE, Oeuvres Romanesques, p. 1719). Preferimos, contudo, como padrão de crítica, a psicanálise existencial que Sartre fez do antissemita no conto A infância de um chefe e no ensaio Reflexões sobre a questão judaica, fruto de suas leituras e observações dos escritores da extrema-direita, entre os quais, sobretudo, Céline: “Observemos Céline: sua visão do universo é catastrófica; o judeu está em toda parte, a terra está perdida; o ariano não deve comprometer-se, pactuar. Mas cuidado! Se respira, já perdeu sua pureza, pois o ar mesmo que penetra em seus brônquios já se acha poluído. Não parece a prédica de um cátaro? Céline pôde sustentar as teses socialistas dos nazis porque era pago. No fundo do coração, não acreditava nelas: para ele, não havia outra solução além do suicídio coletivo, da não-procriação, da morte.”. SARTRE, Reflexões sobre o racismo, p. 23.

[11] CÉLINE, Bagatelles pour un massacre, apud KAMINSKI, Céline en chemise brune, ou le mal du présent, p. 40.

[12] CÉLINE, Carta a Maria Le Bannier, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 160.

[13] CÉLINE, apud Parinaud, in DAUPHIN; GODARD (org.), Cahiers Céline, nº 2: Céline et l’actualité littéraire 1957-1961, 1976.

[14] CÉLINE, L’École des Cadavres, 1938.

[15] GIDE, “Les Juifs, Céline et Maritain”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 295-300.

[16] H. E. Kaminski publicou, em 1925, a brochura Fascismus in Italien, com um apêndice de Matteotti. Trabalhou como redator político na Volkstimme, jornal social-democrata de Frankfurt e, de 1930 a 1933, na Die Weltbühne, a revista de Carl von Ossiertzky e Kurt Tucholsky. Exilado em Paris, defendeu, entre os imigrantes alemães, no Comitê Lutetia, uma linha revolucionária oposta à dos social-democratas e stalinistas. Parece ter se aproximado dos anarcossindicalistas da Association Internationale des Travailleurs. Quando a guerra civil estourou na Espanha, foi para a Catalunha, onde permaneceu até 1937, ali escrevendo Ceux de Barcelone. Em 1938, publicou uma biografia de Bakunin. Em 1940, em Buenos Aires, apareceu seu estudo El Nazismo como Problema Sexual. Segundo o Handbuch der deutschen Emigration nach 1933, publicado em 1980, Kaminski teria desaparecido em 1940. Segundo outras fontes, ele teria morrido em Paris em 1961.

[17] Au pilori, apud VITOUX, La vie de Céline, p. 357.

[18] Documento de 19 mar. 1941, apud MONNERAY, 1947, p. 136.

[19] CÉLINE, Entrevista a Je suis partout, 7 mar. 1941, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 282-283.

[20] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 282-283.

[20] BEAUPLAN, L’Illustration, 20 set. 1941, apud COURTADE; CADARS. Histoire du cinéma nazi, p. 203-204.

[21] CÉLINE, Carta de 21 out. 1941, Combat, nº 26, jan. 1950.

[22] CÉLINE, Au pilori, 12 out. 1941, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 284.

[23] VON STÜLPNAGEL apud ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 179.

[24] CÉLINE apud ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 172 e 179.

[25] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 290.

[26] CÉLINE, Au pilori, apud ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 190.

[27] POULAIN apud ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 190-191.

[28] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 223.

[29] JÜNGER, Entrada de 7 dez. 1941, Journaux de guerre, p. 248-249. Tradução do autor.

[30] GIBAULT, Céline, v. II, p. 247; GILBERT, The Holocaust. Londres: Fontana Press, 1987. Tradução do autor.

[31] GIBAULT, Céline, v. II, p. 247. Tradução do autor.

[32] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 357. Tradução do autor.

[33] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 159. Tradução do autor.

[34] CÉLINE, Carta de 10 dez. 1941, apud GIBAULT, Céline, v. II.

[35] GIBAULT, Céline, v. II, p. 261.

[36] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 239.

[37] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. III, p. 22.

[38] FOUCHÉ; DAUPHIN (org), Cahiers Céline, nº 7: Céline et l’actualité, 1933-1961, 1987, p. 83-238.

[39] CÉLINE, A l’agité du bocal, p. 507-510.

[40] CÉLINE apud OBRY, O Estado de S. Paulo, 28 jul. 1957.

[41] CÉLINE apud PARINAUD, in DAUPHIN; GODARD (org.), Cahiers Céline nº 2: Céline et l’actualité littéraire 1957-1961, 1976.

[42] CÉLINE apud DARRIBEHAUDE, “Des Pays où personne ne va jamais”, in CÉLINE, À l’agité du bocal, p. 61.

[43] SALLES, Jornal do Brasil, 12 jul. 1961.

[44] ROUX, “Présentation”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 9.

[45] AYMÉ, “Sur une légende”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 13-18.

[46] ACAMME, “Céline prophète de la décadence”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 27.

[47] DESTOUCHES, Le Magazine Littéraire, fev. 1969.

[48] RABI, “Um ennemi de l’homme”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 217.

[49] PIETRI, Purgatorio e infierno de Céline, La Prensa, 7 nov. 1976.

[50] PERUGIA, Céline, p. 11.

[51] PERUGIA, p. 554.

[52] Le Figaro, 9 de jun. 1960, apud PERUGIA, Céline, p. 555.

[53] PERUGIA, Céline, p. 583.

[54] CÉLINE, Carta de 21 fev. 1939, apud VITOUX, La vie de Céline, p. 330.

[55] VITOUX, La vie de Céline, p. 349.

[56] VITOUX, La vie de Céline, p. 353.

[57] VITOUX, La vie de Céline, p. 346, 349, 353.

[58] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 9.

[59] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 12.

[60] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 12.

[61] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 13.

[62] ZAGDANSKI, Ânes s’abstenir, L’Infini, nº 45, apud CONTAT, Céline raciste, Céline surjuif, Le Monde, 12 mar. 1993.

[63] LECARME, Céline, la vie sans le style, Le Monde, 15 abr.1994.

[64] TENÓRIO DA MOTTA, A viagem ao mal de Céline, Folha de S. Paulo, 4 out. 1994.

[65] MOTTA, Caso Céline ou a vigilância platônica contra os poetas, Sibila, http://www.sibila.com.br/index.php/critica/882-caso-celine-ou-a-vigilancia-platonica-sobre-os-poetas, consultado em 11 nov. 2010.

[66] MOTTA, Caso Céline ou a vigilância platônica contra os poetas, Sibila, http://www.sibila.com.br/index.php/critica/882-caso-celine-ou-a-vigilancia-platonica-sobre-os-poetas, consultado em 11 nov. 2010.

[67] CONTAT, Céline raciste, Céline surjuif, Le Monde, 12 mar. 1993.

[68] Além de Voyage au bout de la nuit e Mort à Crédit, Vie et Oeuvre de Philippe Ignace Semmelweis; Vingt lettres inédites; Quinze lettres; Préfaces et dedicaces; Lettres à Henrie Bell; Lettres de Charles D., Le style contre les idées, Casse-Pipe, D’un château à l’autre, Féerie pour une autre fois, Guignol’s band I, Guignol’s band II (Le Pont de Londres), Nord, Normance (Féerie pour une autre fois II), Rigodon.

[69] LAPOUGE, Reconhecimento após o desprezo completo, O Estado de S. Paulo, 10 jun. 2001.

[70] LE NAIRE, No jardim secreto de Louis-Ferdinand Céline, O Estado de S. Paulo, 10 jun. 2001.

[71] HINDUS, L. F. Céline. Ici tel que je l’ai vu, 1951.

[72] KRISTEVA, Pouvoirs de l’horreur. Essai sur l’abjection, 1980, p. 205.

[73] GAMA, Romance do horror, Veja, out. 1994.

[74] D’AGUIAR, “Apresentação”, in CÉLINE, Viagem ao fim da noite, 1995, p. 6.

[75] BACK, Céline abre frestas na periferia, O Globo, 30 out. 1994.

[76] MONTELLO, As obras-primas que poucos leram – ‘Viagem ao fim da noite’, de Louis-Ferdinand Céline, Manchete, 16 fev. 1974.

[77] ANÔNIMO, O cão de Deus, 1995.

[78] DURAFFOUR, “Céline, un antijuif fanatique”, in TAGUIEFF, L’anti-sémitisme de plume, p. 147-197.

[79] A tendência teria sido inaugurada nos anos 1910-1920 pelo escritor Yossef-Haim Brenner, que tentou introduzir no hebraico escrito a língua falada na Palestina otomana, misturando o turco, o iídiche, o russo e o hebraico. Entre os modernos, Yehoshua Kenaz ou Ytzhak Laor seguiriam a tendência desmistificadora, realista e amarga do niilismo. Segundo ainda Nicolas Weill, escritores urbanos como Orly Castel-Bloom ou Léa Eini poderiam encontrar pontos de contato com a literatura urbana de Céline. WEILL, Le Monde, 4 e 11 fev. 1994.

[80] WEILL, Le Monde, 4 fev. 1994 e 11 fev. 1994.

[81] LLOSA, A literatura não é edificante, O Estado de S. Paulo, 19 fev. 2011, URL: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110219/not_imp681721,0.php.

[82] LLOSA, A literatura não é edificante, O Estado de S. Paulo, 19 fev. 2011, URL: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110219/not_imp681721,0.php.

[83] LLOSA, A literatura não é edificante, O Estado de S. Paulo, 19 fev. 2011, URL: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110219/not_imp681721,0.php.

[84] KAGANSKI, Serge. Céline e Godard: antissemitas? Folha de S. Paulo, 3 abr. 2011.

O CASO CESARE BATTISTI – 2

Cesare Battisti: "... um criminoso hábil que zomba do Direito..."

Cesare Battisti: criminoso hábil que zomba da Justiça.

Entre os teóricos do Direito que não crêem na democracia liberal, Carl Schmitt, afirma: “[…] Todo o direito tem a sua origem no direito do povo à vida. Toda a lei do Estado, toda a sentença judicial contém apenas tanto direito quanto lhe aflui dessa fonte. O resto não é direito, mas um ‘tecido de normas positivas coercitivas’, do qual um criminoso hábil zomba”. Ou seja, para Schmitt, as conquistas jurídicas humanistas das luzes não valem, porque delas o delinqüente inteligente pode zombar.

Tarso Genro, Processo nº. 08000.011373/2008-83, no arrazoado para a concessão de status de refugiado político a CESARE BATTISTI, citando: SCHMITT, Carl. O Führer protege o Direito, apud: MACEDO JÚNIOR, Ronaldo Porto. Carl Schmitt e a fundamentação do Direito. São Paulo: Max Limonad, 2001, p. 221. 

Os “anos de chumbo”

Enquanto, na América Latina, guerrilheiros treinados em Cuba tentavam implantar o comunismo à força a povos que viviam sob frágeis democracias, só conseguindo implantar ditaduras que passavam a dizimá-los, na Itália e na Alemanha os radicais  traídos pelos Partidos Comunistas depois de 1968, incapazes de refletir sobre seus próprios erros, adotavam a luta armada para “derrubar o capitalismo”. Os pensadores da esquerda – Pier Paolo Pasolini, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Herbert Marcuse – condenavam o terrorismo tanto quanto os abusos do Estado na sua repressão, mas o baixo clero esquerdista, formado na subcultura totalitária, petrificava-se na luta armada contra democracias que não passavam a seus olhos de “ditaduras de classe”. Na Itália, a onda de terror iniciou-se em dezembro de 1969, com o atentado na Piazza Fontana, em Milão, que matou dezessete pessoas e feriu centenas. Mais de 100 grupelhos armados, de esquerda e direita, adotaram a manipulação e a violência como métodos válidos para alcançar suas sempre indefinidas utopias.

Em 1973, na Itália, os comunistas Enrico Berlinguer e Giorgio Napolitano e o democrata-cristão Aldo Moro firmaram um “compromisso histórico” contra a sabotagem das democracias pelo extremismo de direita e de esquerda, contrários tanto ao neoliberalismo quanto ao eurocomunismo, que trocara o modelo soviético da “ditadura do proletariado” pela alternância no poder através de eleições livres. Em cerca de dois mil atentados, cometidos até 1977, os grupelhos deixaram um saldo de 170 mortos, obrigando o Parlamento a votar leis de emergência, que passaram a servir aos terrororistas para justificarem a luta armada contra o “terrorismo de Estado” e, assim, escapar da Justiça. Para Contardo Calligaris, os terroristas seriam “adolescentes enlouquecidos que queriam vidas e mortes ‘extraordinárias’. Atiravam em sindicalistas e comerciantes ou colocavam bombas nos trens para acabar com a ‘normalidade’ cotidiana que receavam para seu próprio futuro; e juravam que era para lutar contra a opressão do Estado”. [1]  Mas esse terror colorido de “romantismo” nada tinha  de romântico: era criminalidade pura, ódio totalitário sem qualquer amor à verdade, à liberdade, à justiça, ou seja, à política no sentido nobre do termo.

Os crimes atribuídos a Cesare Battisti

Nascido em 1954, Cesare Battisti iniciou sua carreira criminosa em 1972 ao consumar um furto qualificado em Frascati. Em 1974, foi processado por lesões corporais dolosas; neste ano, em Sabaudia, realizou roubo qualificado e seqüestrou uma pessoa incapaz, obrigando-a, com violência, a servi-lo sexualmente. Em 1977, foi preso em flagrante por furto. Na prisão, conheceu o terrorista Arrigo Cavallina, e decidiu ingressar no grupo Proletários Armados para o Comunismo (PAC), que este liderava com Sebastiano Masala, formado em fins de 1977 com dissidentes das Brigadas Vermelhas, contra a adoção do regime de segurança máxima nos cárceres italianos. O PAC decidira eliminar os “fascistas ” que ousavam “fazer justiça com as próprias mãos ”, ou seja, que reagiam aos métodos revolucionários das suas “expropriações”, necessárias à sobrevivência dos membros do grupo,  liberados da cruel exploração do trabalho na podre sociedade capitalista para se dedicarem ao crime em tempo integral. Os comerciantes que ousassem ferir ou matar os revolucionários que iam honestamente assaltar seus caixas seriam, pois, executados por justa causa. Igual sentença de morte recebiam os policiais acusados de “torturas” por tratar mal os revolucionários na prisão. Em quatro desses assassinatos revolucionários assumidos pelos PAC, Cesare Battisti envolveu-se pessoalmente:

6 de junho de 1978: numa emboscada de rua na frente da cadeia de Udine, o coronel Antonio Santoro, comandante da polícia penitenciária, acusado pelos PAC de ser um “torturador”, foi morto a tiros. Na emboscada, Battisti e Enrica Migliorati ficaram abraçados por cerca de dez minutos a alguns metros de distância do portão do prédio de Santoro enquanto Pietro Mutti e Claudio Lavazza esperavam no carro a chegada da vítima. Battisti destacou-se então da Migliorati e aproximou-se correndo de Santoro, ferindo-o com um tiro nas costas e liquidando-0 em seguida com mais dois tiros quando a vítima já se encontrava no chão [2]. O assassinato foi reivindicado pelos PAC nestes termos: O Estado usa a cadeia como uma ameaça contra qualquer tipo de divergência, de obtenção de renda por outros meios, de conflito de classe. E para readquirir o controle dos presídios, isola a faixa mais combativa [dos prisioneiros proletários], o que acarreta seu aniquilamento. Precisamos deter esse projeto, reforçando nossa prática comunista, concretizando-a em armamentos e em contrapoder. […] Segundo a ficha da polícia, Santoro teria sido morto por “demorar em oferecer atendimento médico a outro militante do grupo, que se machucara jogando futebol na cadeia” [3]. Em suas memórias, Battisti alega ter se convertido em “pomba” avessa à violência após este crime, que o teria contraposto ao amigo íntimo, o operário Pietro Mutti, “falcão” do PAC. Afastado do grupo, ele teria desde então renunciado à luta armada [4].

16 de fevereiro de 1979: perto de Mestre, em Caltana di Santa Maria di Sala, na região de Veneza, por volta das 16h50, dois indivíduos de sexo masculino com barba e bigodes postiços entraram no açougue de Lino Sabbadin, que pouco antes havia reagido a um assalto, matando o assaltante, tendo sido então condenado à morte pelos PAC por ser considerado “assassino” e “fascista”. Um dos dois homens, depois de certificar-se ser aquele mesmo o Sabbadin, retirou uma pistola da bolsa que carregava e desferiu-lhe dois tiros, fazendo o açougueiro cair sobre o estrado atrás do balcão, onde trabalhava; imediatamente o executor disparou mais dois tiros na vítima já em terra, consumando a liquidação. As investigações estabeleceram a identidade dos dois assasssinos: Cesare Battisti e Diego Giacomini [6], sendo que Battisti deu cobertura, como vigia, enquanto Giacomini executava o açougueiro.

16 de fevereiro de 1979: em Milão, às 15h00, Pierluigi Torregiani caiu vítima de uma emboscada enquanto se dirigia a pé para sua joalheria, em companhia de seus dois filhos menores. Ele fora condenado à morte pelos PAC por ter reagido, a 22 de janeiro de 1979, ao assalto de dois terroristas, matando um deles, Orazio Daidone, quando jantava no Il Transatlantico com amigos e um guarda-costas; no tiroteio, o cliente Vincenzo Consoli morreu e outro ficou ferido. Quando os PAC emboscaram Torregiani, considerado o “xerife do bairro”, ele tentou novamente defender-se e, por acidente, atingiu o próprio filho, Alberto Torregiani, que se tornou paraplégico para o resto da vida. Neste dia, Battisti encontrava-se em Mestre, participando da “execução” de Sabbadin, mas  as duas ações homicidas foram decididas em conjunto numa série de reuniões na casa de Mutti e de Bergamin, durante as quais Battisti teria insistido na necessidade inevitável das ações homicidas [5] executadas no mesmo dia e unitariamente reivindicadas. Neste caso, Battisti foi qualificado como co-organizador do crime.

19 de abril de 1979: em Milão, às 14h00, o agente de Polícia de Estado Andrea Campagna, membro da DIGOS, com funções de motorista, depois de ter visitado a namorada, com quem sempre almoçava, preparava-se em companhia do futuro sogro para pegar seu carro estacionado à via Modica, para acompanhá-lo até sua loja de sapatos de via Bari. Foi então interceptado por um jovem desconhecido, que apareceu de repente detrás de um carro estacionado ao lado do carro do policial e desferiu-lhe, em rápida sucessão, cinco tiros de pistola. Battisti foi o executor material deste homicídio, enquanto uma segunda pessoa o esperava a bordo de um Fiat 127 roubado e utilizado para a fuga [7]. O policial havia sido “condenado à morte” pelos PAC depois de ser julgado como “torturador”. Os defensores de Battisti argumentam vagamente sobre esse assassinato que “uma testemunha ocular descreveu o agressor como um barbudo louro, medindo 1,90m. Battisti é moreno e tem 1,70m”. Não especificam qual dos dois envolvidos no crime é o “agressor”, nem se usavam perucas e barbas postiças, como no assassinato de Sabbadin.

Battisti foi preso em 1979 durante as investigações do assassinato do joalheiro, numa batida ao Coletivo Autônomo de La Barona, em Milão. No apartamento onde vivia com outros delinqüentes foram encontradas armas que, segundo os defensores de Battisti, “nunca haviam sido disparadas”. Em 1981, Battisti contou com uma ação armada de seus companheiros do PAC, que renderam seus carcereiros, permitindo-lhe fugir da prisão. Em 1982, Pietro Mutti foi capturado e decidiu beneficiar-se com o programa de “delação premiada”. Ele apontou Battisti como membro da cúpula que deliberava sobre assaltos e execuções, que decidia que autoridades deveriam ser atingidas com tiros nas pernas como punição, além de ser seu parceiro nos crimes cometidos. Pietro Mutti também revelou as ligações entre os terroristas italianos e os terroristas palestinos: a OLP de Yasser Arafat teria fornecido às Brigadas Vermelhas “três fuzis AK47, 20 granadas, duas metralhadoras FAL, três revólveres, uma carabina para franco atirador, 30 kg de explosivos e 10 mil detonadores”. A Frente Popular também teria negociado armas com a OLP em 1979, através do negociante de armas Maurizio Follini, que, segundo Armando Spataro, seria militante dos PAC. O procurador Carlo Mastelloni desejava aprofundar as investigações sobre esss ligações e chegou a convocar Arafat para uma audiência – ele não compareceu.

Além do depoimento de Mutti testemunhou contra Battisti a companheira de luta armada Maria Cecília, que contou, em juízo, que ele, após ter matado Santoro, segredou-lhe sem remorsos a sensação de dar cabo de uma pessoa. Também a família de terroristas Fantone, composta por Sante, a mulher Ana e a sobrinha Rita, testemunharam contra Battisti [8]. Condenado à revelia pelos quatro assassinatos à prisão perpétua (“ergastolo”) [9], Battisti refugiou-se na França, depois seguiu para o México, retornando em 1990 à França, onde vigorava a doutrina do Presidente François Mitterand [10] de concessão de asilo a terroristas que, a despeito de seus delitos de sangue, se comprometessem a abdicar da luta armada. Com o fim da era Mitterrand, quando as autoridades francesas acataram a ordem de detenção internacional emitida pela Itália, o filósofo Bernard-Henri Lévy, Daniel Pennac e outros intelectuais do Partido Verde, além do escritor Gabriel García Márquez, moveram uma campanha “progressista” a favor da não extradição de Battisti.

Essa campanha foi encabeçada pela escritora policial Fred Vargas, que se gabou de ter estudado por dez anos a propagação da peste na Idade Média, “um trabalho no qual não se pode errar sequer por um bacilo” [11], seja lá o que isso signifique. Ela assim garante ao mundo saber mais que a Justiça italiana sobre os processos de Battisti, que ela estudou com a obsessão (e a parcialidade) de uma louca apaixonada: primeiro pela Peste, depois por Battisti. Vargas e outros defensores do ex-terrorista Battisti afirmam que ele “não cometeu nenhum crime” e seu julgamento foi “uma farsa”. Também Marina Petrella, das Brigadas Vermelhas, encontrou refúgio na França [12] depois de condenada, em 1993, por participar em 1978 do seqüestro e assassinato após 55 dias de cativeiro de Aldo Moro, então Primeiro-Ministro da Itália. Mas em 2007 o Tribunal de Versailles concedeu a extradição de Petrella, que entrou para a clandestinidade, até ser localizada em 2008 numa barreira de fiscalização da polícia rodoviária. Foi levada à prisão, mas logo transferida a um hospital devido ao seu precário estado de saúde. Após assinar a extradição, o Presidente Nicolas Sarkozy foi pressionado pela primeira-dama Carla Bruni e sua irmã Valeria Bruni-Tedeschi a solicitar ao Presidente italiano, Giorgio Napolitano, concessão de graça por “razões humanitárias”. O caso foi reconsiderado, e a extradição suspensa. Em 2004, temendo a extradição, Battisti fugiu da França para a nova Meca dos ex-terroristas italianos: o Brasil, onde já haviam obtido asilo político, em decisões contrárias aos pedidos de extradição pela República Italiana:

1. Achilles Lollo, membro do Poder Operário, preso em 1993 a pedido da Itália, acusado de homicídio culposo por ter infiltrado cinco litros de gasolina sob a porta da casa do varredor de ruas Mário Mattei, pai de seu amigo de infância Virgílio, do bairro romano de Primavalle, e ateado fogo. O incêndio criminoso matou toda a família: o casal Mário e Anna Maria e seus cinco filhos: Sílvia, Antonella, Gianpaolo, Virgilio e Stefano Mattei. Lollo também ateou fogo no carro de Marcello Schiavoncin e incinerou Perchi Gualtiero. Todos os anos, os moradores do bairro reúnem-se para orar pelas vítimas do chamado Rogo di Primavalle (Incêndio de Primavalle). As crueldades de Lollo levaram o Poder Operário a dar fim às suas ações [13]. Refugiado no Brasil, onde o STF negou ao governo italiano o pedido de sua extradição, com sua pena de 18 anos de prisão extinta em 2005, Lollo, depois de flertar com o PT, foi um dos ideólogos do PSOL, de Heloísa Helena. Vive em Botafogo, realizando “documentários de conteúdo progressista”, como Brasileiros em Cuba, que inaugurou o cineclube da Casa da América Latina, núcleo que reúne militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), dos Círculos Bolivarianos e outros grupelhos de esquerda. 2. Luciano Pessina, ex-membro da Autonomia Operária, acusado na Itália de roubo e participação em grupo armado, conseguiu reverter sua extradição no STF em 1996, abrindo no Rio de Janeiro o restaurante Osteria Dell’Angolo e formando largo círculo de amizade na classe intelectual e artística. 3. Pasquale Valitutti, hoje vivendo numa comunidade de anarquistas próxima ao município de Curitiba. 4. Pietro Mancini, naturalizado brasileiro, condenado na Itália por subversão e assassinato, criou a Studio Line-Baribrá no Rio de Janeiro e recebeu R$ 1,5 milhão para produzir a campanha do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) à Prefeitura do Rio em 2008. [14] Além destes ex-terroristas de esquerda, um ex-terrorista de direita refugiou-se no Brasil: Pierluigi Bragaglia, condenado a 12 anos de prisão por subversão, assalto, roubo a bancos e associação a grupo armado, membro da organização neofascista Núcleo Armado Revolucionário (NAR), responsável pela morte de 128 pessoas em quatro anos [15]. Segundo Maierovitch, Tarso Genro também ofereceu o status de “refugiado político” a Bragalia, que declarou preferir voltar extraditado à Itália e cumprir sua pena.

A 1° de março de 2007, Battisti foi identificado pela Polícia Federal quando se refrescava num quiosque de Copacabana. Vivendo já há algum tempo clandestinamente no Rio de Janeiro, ele mantinha encontros secretos com Fernando Gabeira num café de Ipanema. “Também fui refugiado político na Europa, e recebido por pessoas que me ajudaram”, declarou Gabeira, referindo-se ao seu exílio durante a ditadura (1964-1985), negando que tivesse dado abrigo a Battisti, já que o cidadão tem o direito de “não denunciar”, mas a lei 6.815/80 qualifica o ato de ocultar estrangeiro clandestino como crime passível de um a três anos de cadeia [16]. O então Primeiro-Ministro italiano, Romano Prodi, cujo governo era integrado pelo Partido da Refundação Comunista (PRC) e pelo Partido Comunista Italiano, declarou-se satisfeito com a operação conjunta das polícias brasileira, italiana e francesa, que permitiu a detenção de Battisti no Presídio da Papuda, em Brasília. O Ministro da Justiça italiano, Clemente Mastella, expressou seu desejo de que o detento fosse logo extraditado. A esquerda italiana, que chegou a defender Renato Curcio (fundador das Brigadas Vermelhas) e Adriano Sofri (líder da Lotta Continua), distancia-se dos terroristas que não demonstram arrependimento, como é o caso de Battisti, que não assumiu os crimes de que foi acusado, afirmando inocência, escapando da Justiça e se ausentando dos julgamentos sem a preocupação de constituir, segundo alega, advogados para sua defesa.

Assim, a 18 de janeiro de 2008, ao ser interrogado para o Processo de Extradição, o extraditando negou a autoria dos crimes pelos quais foi condenado: “à época em que foram cometidos, já teria se desligado do grupo político responsável por tais atos. Alega, ainda, que se tratava de período conturbado da história italiana, conhecido como “anos de chumbo”; que não esteve presente a qualquer ato do processo, não tendo sequer constituído advogado; que houve um simulacro de defesa; que nunca outorgou mandato a qualquer advogado para defendê-lo perante a Justiça italiana; que viveu na França durante quatorze anos, onde teve a nacionalidade deferida em 2003; que aquele país negou, inicialmente, o pedido de extradição formulado pela Itália, mas o processo foi reaberto por motivo de perseguição política, por ocasião do último processo eleitoral francês, haja vista que o extraditando era ligado à candidata derrotada Ségòlene Royal; que escolheu o Brasil para se refugiar, por saber que neste país é vedada a extradição por crimes políticos”. [17]

Além dessas angelicais alegações de inocência, incluindo total alienação em relação aos processos que tramitavam em várias cortes, com alegada recusa de ser defendido por seus advogados (que no Brasil foram um batalhão: Luiz Eduardo Greenhalgh, Suzana Angélica Paim Figuerêdo, Georghio Alessando Tomelin, Rosa Maria Assef Gargiulo, Luís Roberto Barroso e Renata Saraiva), o extraditando apresentou defesa escrita alegando “defeito de forma dos documentos que fundamentam o pedido de extradição; violação ao devido processo legal e à ampla defesa, por ter sido revel em processo de competência do Tribunal do Júri, além do que a condenação teria como base apenas a confissão de um ex-integrante da facção política responsável pelos atentados; e a natureza política dos atos em razão dos quais houve a condenação”. [18]

Em seu parecer, o Procurador-Geral da República, Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, tendo recebido a documentação dos processos da Itália, com as devidas traduções pela via diplomática, não constatou nenhum “vício de forma”, como alegado pelo extraditando. Observou que um julgamento à revelia não impedia a extradição, conforme o artigo 5, alínia a, do Tratado de Extradição vigente entre Brasil e Itália. O processo garantiu o direito de defesa ao acusado, incluindo o direito de recorrer, por meio do qual se conseguiu anular o primeiro julgamento referente a um dos fatos, confirmado em segunda condenação pelo Júri Popular. Tampouco caberia no caso a prescrição da pena, uma vez que, segundo o Código Penal brasileiro, ela se daria apenas em 2011 e 2013.

Mas o relatório patina ao enveredar no campo ideólogo, tentando definir o “crime político”, quase se perdendo na distinção capciosa que alguns juristas fazem entre “delitos políticos puros” (afrontamento ideológico das leis de segurança) e “delitos políticos relativos” (crimes comuns motivados politicamente). Ora, os primeiros não são atos criminosos em si, mas somente em relação ao código legal de uma ditadura que os define como tal. Já os segundos são crimes comuns que só se justificariam como “políticos” sob ditaduras que houvessem suprimido os direitos humanos. O único “delito político puro” sob regime democrático seria o atentado terrorista. Esses são crimes comuns com alegadas motivações políticas, mas essas alegadas motivações não são reais nem concretas, e sim puramente subjetivas e fantasiosas, ao contrário dos atentados terroristas cometidos contra ditaduras, objetivamente configuradas como tal, e que são até certo ponto justificáveis.

Os atentados terroristas sob regimes democráticos são crimes comuns terroristas totalitários com alegadas motivações políticas, incomparáveis aos atentados terroristas com objetivos de libertação nacional, cometidos sob ditaduras, sob um Estado ocupado por outro ou sob regimes apartheid de supressão de direitos humanos da população local. Faz parte das alegações do criminoso comum terrorista totalitário fantasiar o regime democrático que combate como ditadura, Estado ocupado por outro Estado, regime apartheid, para dar aos seus atentados a aura do heróico “crime político” atribuído historicamente aos movimentos de resistência, que só assumem a prática terrorista na completa ausência de canais democráticos de ação política. Os criminosos comuns terroristas totalitários acusam seus “inimigos” do “fechamento” desses canais, como se as vias diplomáticas, a liberdade de imprensa, os direitos de manifestação e da ação parlamentar dos partidos de oposição não existissem no Estado democrático que combatem, fantasiado como uma ditadura imaginária e subjetiva. Donde a necessidade de violenta propaganda para convencer a todos de que sua causa é a de um romântico “criminoso político” e não a de um frio criminoso comum terrorista totalitário.

Os juristas caem freqüentemente na armadilha do conceito de “crime político relativo”. Assim, no Processo de Extradição do ex-terrorista italiano  Luciano Pessina, relatado pelo Ministro Sydney Sanches, deixou-se assentado que: “[…] A segunda condenação imposta ao extraditando foi, também, por crime político, consistente em participação simples em bando armado, de roubo de armas contra empresa que as comercializava, de roubo de armas e de dinheiro contra entidade bancária, fatos ocorridos em 12.10.1978. Tudo ‘com o fim de subverter violentamente a ordem econômica e social do Estado italiano, de promover uma insurreição armada e suscitar a guerra civil no território do Estado, de atentar contra a vida e a incolumidade das pessoas para fins de terrorismo e de eversão da ordem democrática’. Essa condenação não contém indicação de fatos concretos de participação do extraditando em atos de terrorismo […]. Não […] se apontam com relação ao paciente fatos concretos característicos da prática de terrorismo, ou de atentados contra a vida ou a liberdade das pessoas […] é evidente a preponderância do caráter político dos delitos, em relação aos crimes comuns”.

Outro precedente foi a recusa de extraditar um suposto participante da invasão do quartel de La Tablada, na Argentina. O relatório do Ministro Sepúlveda Pertence deixou assentado que “o roubo de veículo empregado na invasão do quartel, as privações de liberdade, lesões corporais, homicídios e danos materiais, mesmo que considerados crimes diversos, ‘estariam contaminados pela natureza política do fato principal conexo (…) de modo a constituírem delitos políticos relativos’ [19]. O STF recusou igualmente extraditar o ex-terrorista italiano Pietro Mancini, pois, segundo o relatório do Ministro Marco Aurélio, “a exposição dos fatos delituosos atribuídos a Pietro Mancini bem revela a conotação política que os revestiu”. Ou seja: “no curso de uma manifestação convocada por grupos de extrema esquerda, mascarado e fazendo uso de armas e de garrafas incendiárias [causou] a morte do vice-brigadeiro Custrà, que foi atingido à cabeça por um projétil de arma de fogo [e feriu] dois outros agentes e de um civil”.

Para o Procurador-Geral da República, Antonio Fernando de Souza, a análise desses precedentes demonstra que a motivação política dos fatos não autoriza, por si só, a classificação dos crimes como políticos. Considerou, num dos casos, não haver indicação de participação do extraditando em ações terroristas, ainda que engajado num grupo terrorista e participante de atos com objetivos terroristas; em outro, que os homicídios e lesões causadas pelo extraditando diluíam-se num evento de “inegável caráter político”. No terceiro caso, a morte do vice-brigadeiro e as lesões a outros indivíduos aconteceram por ocasião de manifestação organizada por grupos de extrema esquerda, em confronto com a Polícia, caracterizando “crime político relativo”.  Essas confusas considerações em torno do “crime político relativo” levaram o relator a considerar que, no caso de Battisti, “[…] ficou bem caracterizada a existência de um movimento político […]. Os crimes verificados decorreram da formação do movimento denominado Autonomia Operária Organizada. O pano de fundo […] mostrou-se como sendo a atividade de um grupo de ação política, desaguando em práticas criminosas que, isoladamente, poderiam ser tidas como comuns.” [20].  Contudo, mais adiante o mesmo relator conclui que os crimes de Cesare Battisti, ainda que guardem certa motivação política, não estariam dentro de um contexto político que os absorveria; e ele ceifou vidas de civis e de autoridades indefesas.

O conceito de “crime político relativo” leva a um beco sem saída jurídico, a uma confusão que só beneficia os criminosos, jamais  as vítimas: daí tantas concessões de refúgio político a frios e cruéis delinqüentes que dão plena vazão aos seus instintos anti-sociais e homicidas dentro de movimentos políticos extremistas, podendo, mesmo deixando um rastro de  mortos e feridos, gozar a vida em liberdade, como prestigiados refugiados políticos, perseguidos por ditaduras imaginárias, numa zombaria do Direito. Assim, em dezembro de 2008, o ex-ideólogo das Brigadas Vermelhas, Antonio Negri, preso em 1979, condenado por subversão, retornado voluntariamente em 1997 à Itália, onde cumpriu pena até 2003, dirigiu ao Ministro da Justiça do Brasil, Tarso Genro, uma carta solicitando o impedimento da extradição de Battisti alegando “clima de perseguição política na Itália” [21]. Ao ser entrevistado pela Folha de S. Paulo, o ex-terrorista Luciano Pessina usou a mesma expressão, especificando que o “clima de perseguição política na Itália” era devido à “intransigência dos comunistas” e ao “ódio dos católicos”, que incitariam “as famílias das vítimas a não perdoarem os crimes do passado, a não esquecer”. [22]

Teve início a violenta campanha de propaganda pela libertação de Battisti, “injustamente acusado de crimes que jamais cometeu”, embora ele afirmasse ter cometido “crimes políticos”, pelos quais estaria sendo “perseguido”, o que significa ter cometido crimes comuns terroristas totalitários, sendo justamente perseguido pela Justiça, da qual escapou incólume. Dando, contudo, ouvido aos ex-terroristas e não à Justiça italiana, Tarso Genro, sem nenhuma base jurídica, depois de reunir-se com o Presidente Lula e com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ex-participante da luta armada sob a ditadura, assinou a concessão do prestigioso status de refugiado político a Cesare Battisti, refutando a decisão técnica embasada do CONARE e sem esperar o julgamento do STF, temendo parecer favorável à extradição do Procurador-Geral da República, Antonio Fernando de Souza, que de fato concluiu: “[…] o simples móvel político não autoriza a prática de homicídios premeditados e de violência contra quem quer que seja, de modo que o elemento subjetivo exclusivamente não legitima a classificação dos fatos como crimes políticos. Os homicídios que fundamentam este pedido de extradição parecem marcados por certa frieza e desprezo pela vida humana, o que contrasta com o caráter nobre de uma ação política voltada para reformas no Estado. […] Em vista de tais fundamentos, não se afiguram suficientes para caracterizar tais delitos como políticos  […]. Conclui-se, portanto, à luz do princípio da preponderância, contido no art. 77, §1°, da Lei n° 6.815/80, que os quatro homicídios caracterizaram-se como crimes comuns, e por isso são passíveis de extradição […].  Ante o exposto, manifesto-me pelo deferimento do pedido de extradição [23]. Mais tarde, afirmou ter tomado a decisão “mais difícil de minha vida”[24]. Em entrevista à TV Estadão, ao comentar sobre a dificuldade que teve de tomar essa decisão, confirmou o caráter “terrorista” das atividades pelas quais Cesare Battisti foi condenado na Itália: “Sempre deplorei esse tipo de atividade política, atentados pessoais, terrorismo, violência armada. Eu, na verdade, contrariei minha tradição política.”

Antes de contrariar sua tradição política, que incluía uma incursão, no início dos anos de 1980, no clandestino Partido Revolucionário Comunista (PRC), Tarso concluiu, após ouvir o ex-deputado petista Luiz Eduardo Greenhalg, um dos advogados de Battisti, que: 1. Battisti não poderia ter cometido dois assassinatos quase na mesma hora do mesmo dia em cidades separadas por centenas de quilômetros. Mentira: segundo a Justiça italiana, Battisti não foi o executor material de um desses homicídios, mas condenado como co-idealizador e co-organizador do atentado do PAC; no outro, ele assumiu o papel de vigia para dar cobertura a um companheiro enquanto este assassinava a vítima escolhida. É por má-fé que os defensores de Battisti alegam constantemente contra os “erros” da Justiça italiana que “ele não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo”, já que a Justiça italiana nunca atribiu esse poder a Battisti. 2. Uma perícia francesa teria concluído que a procuração do advogado que representava Battisti na Itália no julgamento de 1993 foi falsificada. Dúvida: Se houve falsificação da procuração do advogado de Battisti, quem é o autor dela? Não seria o próprio Battisti, conhecido por suas falsificações de documentos, quem forjou uma falsa assinatura na sua procuração, para alegar depois “irregularidades no processo”? 3. Quem acusou Battisti dos homicídios foi apenas um companheiro que aceitou uma oferta de delação premiada e mudou de identidade. Mentira: o Juiz Pietro Forno confirmou a condenação de Battisti  com base nos depoimentos de Maria Cecilia “Barbetta”, Enrico “Pasini Gatti”, Marco “Barbone”, Maurizio “Ferrandi”, Santo “Fatone”, Marco “Donat-Cattin”, Antonio “Cavallina”, Maurizio “Mirra”, Giuseppe “Memeo” e Marina “Premoli”, ex-integrantes do PAC e Prima Línea. Sobre a morte de Campagna testemunhou, contra Battisti, o companheiro Santo “Fatone”: “A preparação do homicídio foi efetuada pelos companheiros que ficaram em Milão, ou seja, Battisti, Memeo, Lavazza, Bergamin e La Marelli”. Os depoimentos foram corroborados por investigações da polícia realizadas logo após o delito e por relatos prestados por testemunhas inquiridas na imediação dos fatos. Os dados colhidos coincidem com o depoimento de Mutti.  4. Quaisquer tenham sido os delitos praticados por Battisti, eles foram políticos — e a tradição brasileira, nesses casos, é de dar asilo. Mentira: Battisti não cometeu delitos políticos, mas de sangue, crimes comuns. Battisti beneficiou-se, além disso, em todas as fases de seu longo processo, da defesa de advogados por ele escolhidos. Por isso a Corte Européia de Direitos Humanos, em Estrasburgo, confirmou a extradição em 12 de dezembro de 2006 [25]. 5. O Brasil não extradita fugitivos condenados em seus países ou à morte, ou à prisão perpétua. Dúvida: para que serviriam então os tratados bilaterais de extradição?

Escorado em pareceres do jurista Dalmo Dallari, do senador Eduardo Suplicy e do Ministro da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vannuchi, ex-preso político sob a ditadura militar, quando integrava o grupo Aliança Libertadora Nacional (ALN), Tarso Genro golpeou o governo italiano concedendo ao criminoso Battisti status de refugiado político. Seu processo de extradição foi arquivado e a Polícia Federal foi proibida de comentar o caso. Em sua justificativa, Genro adotou o argumento dos ex-terroristas: “Por motivos políticos o Recorrente envolveu-se em organizações ilegais […]. Por motivos políticos foi abrigado na França e também por motivos políticos […] decidiu, mais tarde, voltar a fugir. Enxergou o Recorrente, ainda, razões políticas para os reiterados pedidos de extradição Itália-França […] vinculadas à situação eleitoral francesa. O elemento subjetivo do ‘fundado temor de perseguição’ necessário para o reconhecimento da condição de refugiado está, portanto, claramente configurado”. [26] Luís Dulce e Tarso Genro reclamaram que a Itália não extraditara o ex-banqueiro Salvatore Cacciola para o Brasil. Mas a Constituição italiana, tal como a brasileira, não admite extradição de nacionais: sendo o ex-banqueiro italiano nato, o governo italiano não poderia extraditá-lo – não é o caso do Brasil em relação a Battisti, que não é cidadão brasileiro. Com o paralelo infeliz do Caso Battisti com o Caso Cacciola, Luis Dulce e Genro demonstraram má-fé ou ignorância. Como observou Walter Fanganiello Maierovitch, no mundo civilizado, assassinatos perpetrados em regimes democráticos não são considerados crimes políticos.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), divulgou nota de apoio à decisão de Tarso Genro. Segundo ele, “não há dúvida de que Battisti sofreu perseguição política na Itália […]. Battisti é um cidadão do mundo e o Brasil não pode ser belicoso”. [27] Em carta aberta ao Presidente Lula, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias apoiou “a decisão soberana do Estado brasileiro”, assegurando que a condenação de Battisti “ocorreu num contexto de excepcionalidade política e jurídica […] – o estado italiano exercia forte papel persecutório a militantes de esquerda” [28]. O Secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, elogiou a decisão de Tarso: “Faz parte da tradição do governo brasileiro”. Para justificar sua decisão, os círculos infernais da militância que blindam o governo Lula precisaram inventar um “São Battisti”, diverso do criminoso revelado nos autos  que tramitaram em diversas cortes européias, como se elas estivessem a perseguir um inocente, condenado sem provas por cruel ditadura. Ao invocar a “soberania nacional”, sem compromisso com os princípios do direito internacional e cooperações firmadas na luta contra o terror e pelo respeito aos direitos humanos, Lula preferiu defender o ex-terrorista a manter sua aura de socialista democrático, passando a ser visto como caudilho populista a Hugo Chávez [29].

Por outro lado, a “tradição brasileira” de generosidade para com perseguidos de outros países foi esquecida quando o governo petista decidiu enviar de volta a Cuba os boxeadores cubanos Guilhermo Rignondeaux e Erislandy Lara, que abandonaram a delegação de seu país durante o Pan, na Vila Olímpica do Rio, em julho de 2007. O procurador Leonardo Luiz Figueiredo teria visitado os boxeadores e feito uma oferta de asilo, que teria sido recusada. Já Erislandy Lara declarou ter pedido asilo à polícia no Brasil, não me lhe sendo dada a oportunidade [30]. Para Tarso Genro, “houve exploração política do episódio. Outros cubanos pediram refúgio e ficaram no Brasil”. [31] Em tempo recorde – apenas dois dias – os boxeadores foram embarcados de volta a Cuba num jato venezuelano cedido por Hugo Chavez, sem dar qualquer chance para uma intervenção das organizações de Direitos Humanos [32].

Para os círculos infernais dos militantes, somente ex-terroristas podem gozar a liberdade no Brasil petista; e se a Itália é uma ditadura feroz, Cuba é um modelo de democracia: eles justificaram a caçada brasileira aos atletas cubanos por não serem eles “perseguidos políticos como Battisti”. Mas, para o Comitê Nacional de Refugiados (CONARE), do Ministério da Justiça, tampouco Battisti o seria: a 28 de dezembro de 2008, esse órgão recusou, por maioria simples de 3 votos contra 2, seu pedido de refúgio no Brasil, pois não foram apresentadas provas convincentes de que ele sofreria perseguição política pelo Estado italiano. Tendo sua campanha à Prefeitura produzida por um dos ex-terroristas italianos asilados no Brasil, Gabeira opôs-se, por identificação, à extradição de Battisti: “Publicando livros quase anualmente, Battisti é um homem dedicado ao seu trabalho intelectual. Políticos como François Hollande já lhe deram apoio. Battisti merece nosso apoio”, garantiu Gabeira em seu blog, ainda em 2007. Um Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti [33] organizou então uma petição descrevendo o ex-terrorista como um Jean Valjean contemporâneo, perseguido por uma crapulosa ditadura capitalista. O perseguido Rui Martins [34] defendeu Battisti nestes termos: “Não acredito que seja um anjo [mas] não consigo entender porque tanta parcialidade contra o jovem operário filho e neto de comunistas, admirador de Marx e Pasolini” [35]. Battisti, esse “escritor idealista”, precisaria ser libertado até por razões humanitárias, uma vez que, com seu “atual trabalho” ele sustenta esposa e filhas, não podendo por isso ficar preso!

Forçando ainda mais a barra, o ex-preso político Celso Lungaretti comparou o caso Battisti ao caso Dreyfus: “O que ficou insofismavelmente estabelecido […] foi o clima de caça às bruxas […]. Daí os paralelos que brilhantes intelectuais europeus traçam com o Caso Dreyfus, tão injustiçado por ser judeu quanto Battisti está sendo injustiçado por haver integrado as fileiras dos ultras”. [36] As revistas Caros Amigos e Piauí e o portal Brasil de Fato cerraram fileiras em defesa apaixonada do “São Battisti”. Maria Inês Nassif defendeu Tarso Genro com um delírio sobre a inocência de Battisti: “[…] Não foi apresentada nenhuma prova, testemunha ou um único indício” [37]. A identificação de ex-presos políticos brasileiros envolvidos na luta armada com Battisti suscitou um revival virtual dos “anos de chumbo” na Itália e no Brasil: arrependida da luta armada apenas na aparência, a extrema-esquerda, sentiu-se viva como nunca defendendo o ex-terrorista italiano e atacando a Justiça Italiana. Indignado, o Presidente Giorgio Napolitano solicitou a revisão do processo. Em mais um tapa na cara do governo italiano, Lula desqualificou o “Companheiro” Napolitano para defender o “Companheiro” Genro, alegando que este se orientava por “sólidas bases jurídicas”, concluindo, hipocritamente, com a “reafirmação dos laços históricos e culturais que unem o Brasil e a Itália”.

É “um deboche cruel”, escreveu o presidente da Associação dos Parentes das Vítimas de Cesare Battisti, Adriano Sabbadin, filho do açougueiro assassinado pelos PAC, em carta ao Presidente Lula. O semanário inglês The Economist apontou o anacronismo do governo Lula de seguir uma tradição da ditadura militar, que concedeu asilo a facínoras da Operação Condor e status de refugiados políticos a ditadores como Alfredo Stroesner – decisão apoiada à época por Frei Betto. Napolitano decidiu recorrer a “todo instrumento jurídico previsto” para obter a extradição de Battisti, entrando com uma petição no Supremo Tribunal Federal (STF) para ser ouvido no processo. O governo do PAC brasileiro parecia seguir a velha estratégia do PAC italiano, de acirrar as contradições do capitalismo, se possível com violência. A petição contra a extradição recorreu a uma artimanha jurídica: “as leis brasileiras não reconhecem sentenças proferidas sem a presença do réu, o que aconteceu quando Battisti era asilado político na França” [38]. Mas será que a lei brasileira aplica-se a  estrangeiros?

Os ex-terroristas querem passar a idéia de que a Itália era uma ditadura que perseguia cidadãos políticos que só matavam “fascistas”, que os impediam de serem  livres. Encobertos pelo manto purificador da revolução, que converte crimes em “justiça alternativa”, os terroristas de esquerda não se sentem criminosos comuns e terroristas totalitários, mas “militantes políticos”. A Itália não era uma ditadura; o Presidente da República à época era o socialista Sandro Pertini, antifascista histórico. Numa nota aos cidadãos brasileiros, o magistrado (de esquerda) Armando Spataro, responsável pela Coordenação do Departamento de Repressão ao Terrorismo, esclareceu a esse respeito: “Battisti não é […] perseguido na Itália pelas suas idéias políticas. Ele é um criminoso comum que cometia roubos para o fim de obter lucro pessoal. Battisti se politizou no cárcere. […]  A Corte Européia de Direitos Humanos de Estrasburgo (França) rejeitou o recurso de Battisti […] e afirmou […] que, em todos os processos, Battisti esteve sempre assistido pelos seus advogados de confiança. […] A Itália não criou Tribunal de exceção e nem militar, nem trilhou caminhos antidemocráticos na luta contra o terrorismo. Sobre o acontecido naqueles anos, recordou o nosso presidente da República, Sandro Pertini (Partido Socialista), que a Itália podia honrar-se de ter brecado o terrorismo nas salas de audiências da Justiça, com respeito à lei e à Constituição […]. Autoridades brasileiras devem repensar a decisão. Não porque a Justiça queira vingança, mas porque ela é a sede de afirmação das regras do Estado de Direito: e quem a viola […] deve pagar. Sem isso, as democracias se desmentem a si próprias.”

Horrorizado com a presunção de Genro de que Cesare Battisti poderia ser morto se extraditado, Napolitano enviou carta a Lula, destacando que a Itália “é uma democracia que protege seus cidadãos, e desde sua constituição por referendo popular nunca teve legislação de exceção, mas leis votadas pelo Parlamento […]. No nosso Estado democrático, o sistema penal e o penitenciário mostraram-se generosos e quem acertou contas com a Justiça teve o direito à reinserção social, mas com discrição, sem nunca deixarem de saber das suas responsabilidades éticas e morais, embora liquidadas as criminais penais.” O advogado de Battisti, Eric Turcon, e o senador brasileiro Eduardo Suplicy (PT-SP) espalharam o boato de que Carla Bruni durante sua visita ao Brasil, em dezembro de 2008, influenciara o governo brasileiro[39]. Devido à sua intervenção no episódio Petrella, Carla Bruni até poderia ter ter sugerido a Lula o asilo a Battisti. Mas em entrevistada à RAI 3, ela desmentiu os boatos: “Não me permitiria nunca interferir, não tenho a ideologia dele e estou contente de poder responder essa pergunta e, assim, deixar clara minha posição perante os familiares das vítimas de Battisti”[40]. Lula quis recusar à nação italiana o direito de efetivar seus julgados contra um assassino de cidadãos italianos, foragido e procurado pela Justiça italiana, numa ingerência indevida em assuntos estrangeiros. Genro arvorou-se em juiz de Battisti a ingressar no mérito das decisões italianas e, por entendê-las injustas, promover sua cassação. Genro e Lula pisaram na soberania italiana alegando defesa da soberania brasileira e faltaram com o respeito às famílias das vítimas.

A Associação das Famílias das Vítimas do Terrorismo na Itália pediu então aos italianos que enviassem cartas ao governo e à embaixada brasileira em Roma. O vice-presidente da associação, Roberto Della Rocca, declarou: “Battisti é um homicida, mas nem por isso seria torturado nas cadeias italianas” [41]. O embaixador italiano no Brasil, Michele Valensise, reuniu-se com o presidente do STF, Ministro Gilmar Mendes, e demonstrou a preocupação de seu país. [42]. O apresentador da TV italiana Maurizio Costanzo pediu aos telespectadores que enviassem mensagens de vergonha à embaixada brasileira e boicotassem o samba. A patética manifestação contou com o apoio do Ministro para Assuntos Europeus, Andrea Ronchi, para quem a posição do Brasil era uma vergonha. A platéia do programa levantou-se para lembrar as vítimas de Battisti [43]. O Ministro de Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, considerou grave  o comportamento das autoridades brasileiras, incompatível com a tradição de amizade entre Brasil e Itália e o embaixador italiano em Brasília, Michele Valensise, foi convocado pelo ministro da Defesa da Itália, Ignazio La Russa, em medida apoiada por ministros e deputados italianos [44].

O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, telefonou ao chanceler Celso Amorim, comunicando oficialmente seu “profundo ressentimento pela decisão brasileira no caso”. E criticou a sugestão de seu subsecretário Mantica de cancelar o amistoso entre as seleções de futebol de Itália e Brasil, marcado para fevereiro em Londres, como forma de protesto: “Uma coisa é um protesto diplomático sério, outra coisa é um jogo de futebol” [45]. Mas o ex-jogador italiano Paolo Rossi, campeão mundial em 1982, defendeu a pressão sobre os brasileiros: embora contrário ao cancelamento da partida, sugeriu que os dirigentes da Federação Italiana de Futebol (Federcalcio) pedissem a um jogador “fazer declarações ou gestos em lembrança das vítimas do terrorismo […] isso seria muito útil para promover a sensibilização sobre o problema. O futebol serve como caixa de ressonância” [46].

Segundo o ambíguo parecer da Procuradoria Geral da República (PGR), o processo de extradição contra Battisti deve ser extinto sem julgamento, com base no artigo 33 da Lei número 9474/97, com a ressalva de que, se o STF decidir julgar o caso, a PRG será favorável à extradição… Já o ilibado advogado de Battisti, Luiz Eduardo Greenhalgh, o mesmo o ex-deputado do PT que, sob o codinome “Gomes” teria recebido “honorários de R$ 650 mil” do banqueiro Daniel Dantas em pagamento a lobby favorável no governo federal e outras administrações petistas, como o governo estadual do Pará [47] -a postura das autoridades italianas é “descabida, desmedida e ofensiva […] um desrespeito às autoridades brasileiras, uma vergonha”, declarou, acrescentando que Battisti “se mostra ansioso, está há 12 dias preso sob constrangimento” [48]. Citando o caso do colombiano Olivério Medina, ex-integrante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que obteve refúgio no Brasil, Greenhalgh pediu liberdade para Battisti com base em três dispositivos da Constituição: 1) ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal; 2) ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei e 3) conceder-se-á habeas-corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder  [49].

É a primeira vez em décadas que a Itália chama para consultas um embaixador. Mas Lula minimizou o gesto, não dando mostras de pretender reconsiderar sua posição, qualificando de “emocional” a ameaça italiana de dificultar a participação do Brasil nas reuniões do G8. “O fato mais grave não é a concessão de refúgio, mas a mensagem de ofensa à democracia”, declarou o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Itália, Edoardo Pollastri, temendo um abalo no intercâmbio comercial, que fechou 2008 em torno de US$ 10 bilhões. Uma missão parlamentar foi organizada para buscar uma saída política. O deputado ítalo-brasileiro Fabio Porta seguiu para Brasília, em missão oficial do Parlamento italiano para discutir a questão com seus colegas brasileiros. O presidente do STF, Gilmar Mendes, levou o caso para análise do Plenário que deve questionar a legalidade da decisão de Tarso. [50]

No julgamento do pedido de extradição de Battisti no STF, os ministros estavam a ponto de encerrar o caso, com quatro votos contra três a favor da ilegalidade do refúgio político, quando o ministro Marco Aurélio Mello suspendeu o julgamento para pedido de vista. Dentro do recinto, manifestantes protestavam contra a extradição do ex-terrorista. Os manifestantes haviam se beneficiado com uma pensão gratuita fornecida pelo ético senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Conforme noticiado por Renata Lo Prete no Painel da Folha, Suplicy abrigou irregularmente em seu gabinete, na noite do dia 9 de setembro de 2009, véspera do julgamento, 15 manifestantes: após terem sido impedidos pela Polícia Militar de permanecer em vigília em frente ao STF, eles se infiltraram no Senado, acompanhados dos senadores José Nery (PSOL-PA) e João Pedro (PT-AM), usando o gabinete de Suplicy como dormitório, madrugando no local para os protestos do dia seguinte. Os manifestantes ingressaram por volta da meia-noite no Senado, fora do horário de funcionamento da Casa, e espalharam seus colchonetes para aí “acampar […] no interior do gabinete do senador Eduardo Suplicy”, conforme o relatório da Polícia do Senado.

Suplicy defendeu essa irregularidade afirmando que faltou aos policiais que relataram a ocorrência “sensibilidade humana e espírito público” e que o grupo não causou nenhum dano material ao Senado [GUERREIRO, Gabriela. Corregedoria investigará ocupação de gabinete de Suplicy por manifestantes pró-Battisti. Folha online, 17 set. 2009. URL: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u625296.shtml.] Danos morais não contam para petistas. “Penso”, continuou Suplicy, “que […] deveriam ter telefonado para mim, pois, de pronto, informaria que as pessoas estavam por mim autorizadas […] apenas cedi a chave para o grupo utilizar o banheiro”, alegou. “Só se todo mundo comeu comida estragada, porque 15 pessoas passaram a madrugada toda para usar o banheiro”, ironizou Heráclito Fortes (DEM-PI), primeiro-secretário do Senado [FALCÃO, Márcio. Suplicy diz que faltou “sensibilidade” sobre abrigo de manifestantes pró-Battisti da Folha Online, 17/09/2009. URL: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u623926.shtml%5D.

Pouco antes do julgamento de seu pedido de extradição, Cesare Battisti enviou ao CONARE uma carta reafirmando seu desejo de permanecer refugiado no Brasil e na qual afirmou: “[…] Após minha fuga da Itália, a minha militância deu-se com escritos, usando o espaço que me deram as editoras francesas e italianas para criticas à época política italiana dos anos de chumbo. Fui membro do PAC, mas nunca pratiquei atos de violência. […] Se volto para a Itália sei que vou morrer. Embora nunca tenha matado ninguém, me acusaram de ter matado policiais com base em um depoimento de um “arrependido” por delação premiada, que jogou a culpa por muitos atos praticados por ele próprio em mim. Sei que será difícil convencer as pessoas da verdade, pois mentiras contra mim foram repetidas mais de mil vezes. Nunca pratiquei atos de violência contra quem quer que seja, e não há testemunha presencial que me acuse de tal prática. Sei que tenho condições de viver o fim de meus dias com dignidades nesta terra maravilhosa, como outros militantes políticos de esquerda da época o estão fazendo. Sei que posso continuar minha carreira de escritor e tradutor sem interferir em assuntos internos. Vim para o Brasil, pois sabia do calor e do acolhimento que aqui receberia. Sabia também que o Brasil acolhe perseguidos políticos. […] Mitterand havia dado a todos nós a palavra de que não seríamos extraditados. Sarkozy procura o caminho dos grandes estadistas quando dá a mesma palavra para as FARCs e quando protege Marina da morte que seria certa.” [51]

Ao mesmo tempo em que divulgou essa confissão de inocência, considerando os ex-terroristas de esquerda com os quais deseja voltar a conviver neste maravilhoso Brasil como “militantes políticos de esquerda da época”, tão inocentes e avessos à violência quanto ele próprio, que não se sabe porquê tenha ingressado nos Proletários Armados para o Comunismo e participado de tantos atentados, Cesare Battisti escrevia aos círculos do inferno da militância um carta mais sincera, com o objetivo, negado na carta anterior, de interferir diretamente na vida nacional: “Caros XXX e companheiros/as […] O que pretendo fazer agora […] é […] solicitar mais uma vez vossa ajuda, caso seja possível, no que concerne ao plano que, a parte, será melhor detalhado […] dia 18/01/08 realizou-se meu depoimento em frente de um juiz federal. Aparentemente, tudo sucedeu-se da melhor maneira possível. […] Qual não foi nossa surpresa quando um mês depois o indefectível Procurador se pronunciou a favor de minha extradição […] Previsível foi também a festa mediática à qual se entregaram os urubus europeus e alguns brasileiros. […] daqui em frente vamos precisar de um enorme trabalho jurídico e de sensibilização do mundo político e cultural brasileiro […] Preciso de apoio de todas/os os amigos/as e companheiros/as […] muitas batalhas resultam em derrota ou vitória justamente em face da decisão da hora ou não de agir. Bem verdade lhe digo: é hora de agir! Começaremos corrigindo o erro que as companheiras e companheiros franceses perpetuaram com tanta obstinação, mesmo que tenha ocorrido motivado pelas melhores intenções: separar a todo custo o homem político, o escritor militante do processo estritamente jurídico. […] enquanto a gente ficava ocupada com empecilhos jurídicos para evitar a extradição […] os adversários já tinham ocupado o terreno político para assim pressionar o aparelho judiciário. […] não posso me dar ao luxo de desconsiderar a forte influência italo-francesa aqui no Brasil. […] tiveram (2,6 anos de monitoramento em território brasileiro!) para arquitetar o forte fraudulento pedido de extradição. Daí, se faz necessário e imprescindível a minha intervenção nesse processo articulando todas as possíveis relações para que confluam em uma inteligente sensibilização do povo cultural e político e para que estes intercedam de alguma forma perante as autoridades […] este é meu papel desde sempre, esta é a minha índole, este é o processo político não só meu mas também dos anos 70 na Itália e esta é a minha única oportunidade de tirar meu nome da lixeira […]. Existem centenas de refugiados/as italianos/as dos anos 70 no mundo, inclusive no Brasil, porque então eu? Porque se não é para me calar a boca, tirar das bibliotecas meus livros que denunciam a horrorosa verdade daqueles anos? […] Batalhas serão travadas e quero tomar parte ativa nesta luta política. […] intercedam e sensibilizem a todos/as que achar relevantes no âmbito político-cultural e no movimento social em geral. Acho que não precisa, – ou sim? – lembrar ao Lula, agora guia do povo brasileiro, que nós lutamos do mesmo lado e na mesma época e que só por fatalidade, talvez também por competência, acabamos por tomar rumos tão diferentes. […] Será que serei injustiçado pelo mesmo PT que eu como milhares de companheir@s do mundo aplaudimos quando da sua chegada ao poder através da eleição do Lula? Não me permito sequer imaginar que o povo brasileiro aceitará essa infame maquinação dos governos de direita Franco-Italianos”. [52].

Um criminoso comum sempre negará ter cometido os crimes que cometeu. Faz parte de seu projeto criminoso apresentar-se como inocente de todos os seus crimes. O terrorista totalitário é um homem de duas caras, que mente compulsivamente sem pestanejar. Como na deliciosa e intraduzível expressão da língua alemã, “er lügt wie gedrukt” (algo como “ele mente em letras tipográficas”). O criminoso comum terrorista totalitário sempre encontrará entusiastas defensores de sua inocência, pois delinqüindo com a consciência tranqüila pode mover-se graciosamente no território pantanoso da ilegalidade, tirando todo proveito do meio cultural e intectual em que se inseriu com esperteza, sob o disfarce do “homem de idéias”. O meio cultural brasileiro segue, abestalhado, suas palavras-de-ordem, seus ensaios de liderança totalitária. Até o Ministro da Justiça, citando estanhamente a propósito do caso um dos mais famosos teóricos do nazismo, demonstra admiração e concede proteção política a esse delinqüente hábil que zomba da Justiça…


[1] “Adriano Sofri […] líder de Lotta Continua, acusado como mandante do homicídio do comissário Luigi Calabresi e condenado a 22 anos de prisão […] em La Notte che Pinelli reconstitui a história da investigação depois do atentado de Piazza Fontana […]. O comissário Calabresi seguiu a pista anárquica – errando, pois a bomba (entendeu-se mais tarde) era de direita. O anarquista Giuseppe Pinelli, questionado, “jogou-se” da janela […] a democracia pareceu ser apenas o disfarce de uma dominação brutal e escusa, que legitimaria o combate armado. Calabresi, um policial íntegro, não foi responsável pela morte de Pinelli, mas foi assassinado, em 1972, depois de uma campanha de imprensa que o culpava. […] Sofri escreve o que talvez venha a ser o melhor epitáfio dos anos de chumbo: “Não me sinto corresponsável por nenhum ato terrorista dos anos 70. Mas do homicídio de Calabresi, sim, por ter dito ou escrito ou por ter deixado que se dissesse e se escrevesse: Calabresi, você será suicidado. CALLIGARIS, Contardo. A Itália e o caso Battisti. Folha de S.Paulo, 22 jan. 2009. Em: www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2201200920.ht….

[2] Atas do processo, fls. 66. Apud: SOUZA, Antonio Fernando de. Processo nº 3576-PGR-AF. Extradição Nº 1085. Requerente: República Italiana. Extraditando: Cesare Battisti; Relator: Ministro Cezar Peluso.

[3] MAINARDI, Diogo. O Marcola do país da macarronada. Revista Veja.

[4] BATTISTI, Cesare. Minha fuga sem fim. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[5] Atas do processo, fls. 68/70. Apud: SOUZA, Antonio Fernando de. Processo nº 3576-PGR-AF. Extradição Nº 1085. Requerente: República Italiana. Extraditando: Cesare Battisti; Relator: Ministro Cezar Peluso.

[6] Atas do processo, fls. 67/68. Apud: SOUZA, Antonio Fernando de. Processo nº 3576-PGR-AF. Extradição Nº 1085. Requerente: República Italiana. Extraditando: Cesare Battisti; Relator: Ministro Cezar Peluso.

[7] Atas do processo, fls 70/72. Apud: SOUZA, Antonio Fernando de. Processo nº 3576-PGR-AF. Extradição Nº 1085. Requerente: República Italiana. Extraditando: Cesare Battisti; Relator: Ministro Cezar Peluso.

[8] MAIEROVITCH, Wálter Fanganiello. Battisti: sua folha-corrida antes do terror. Os novos capítulos. Blog Sem Fronteiras, Terra, 27 jan. 2009.

[9] Segundo Wálter Fanganiello Maierovitch, a perpétua na Itália reduz-se a 22 anos de prisão com bom comportamento, ou 26 anos com mau comportamento, seguida de anistia. O artigo 176 do Código Penal Italiano confere livramento condicional a sentenciados definitivamente condenados e autorização para saídas do cárcere para trabalho, contato com a família e retorno à noite. O Ministério da Justiça da Itália informa que por terrorismo (crime contra a humanidade, não delito político) entraram em cárceres italianos 6 mil sentenciados condenados definitivamente por homicídios de inocentes (vítimas desconhecidas dos assassinos), dos quais hoje só se encontram presos 97; destes, 26 em semiliberdade, os demais presos entre 2003 e 2007. Dos 97 presos (dos 6 mil condenados), 76 pertenciam a grupos de extrema-esquerda; 21 a grupos de extrema-direita. Cf. O desinformado quer ensinar. CBN, 15 out. 2008. URL: http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/waltermaierovitch/2008/10/15/o-desinformado-quer-ensinar.

[10] Socialista de passado duvidoso, Mitterrand trabalhara na juventude numa agência do governo de Vichy, tendo sido por isso condecorado, mantendo até o fim da vida relações de amizade com René Bousquet e Paul Touvier, colaboracionistas que organizaram a deportação dos judeus franceses.

[11] SEBASTE, Beppe. Fred Vargas: “Difendo Cesare Battisti, è stato lasciato solo”. L’Unità, 16 jan. 2009. Em: http://www.unita.it/news/75251/fred_vargas_difendo_cesare_battisti_stato_lasciato_solo.

[12] SEQUEIRA, Claudio Dantas. Itália encobre “asilo francês”, afirma filósofo. Folha de S. Paulo, 25 jan. 2009.

[13] MAIEROVITCH, Wálter Fanganiello. Caso Battisti: Napolitano espera hoje resposta de Lula. 19 jan. 2009. Blog Sem Fronteiras, Terra, Em: http://maierovitch.blog.terra.com.br/2009/01/19/caso-battisti-napolitano-espera-hoje-resposta-de-lula; Novos assassinatos. Blog Sem Fronteiras, Terra, 23 jan. 2009. Em: http://maierovitch.blog.terra.com.br/2009/01/23/battisti-novos-assassinatos-carta-aberta-aos-brasileiros-pelo-magistrato-italiano-da-luta-contra-o-terrorismo/. Fonte citada sobre o caso: La notte brucia ancora. Giampaolo Mattei racconta il Rogo di Primavalle.

[14] SEQUEIRA, Claudio Dantas. Refugiados italianos no Brasil apóiam decisão de ministro. Folha de S. Paulo, 25 jan. 2009.

[15] Revista IstoÉ n° 2048, 11 fev. 2009, p. 40.

[16] SEQUEIRA, Claudio Dantas. Gabeira teve encontros secretos com italiano em café de Ipanema. Folha de S. Paulo, 25 jan. 2009.

[17] Processo nº 3576-PGR-AF-Extradição, nº 1085. Requerente: República Italiana. Extraditando: Cesare Battisti. Relator: Ministro Cezar Peluso, fls. 2313/2316.

[18] Processo nº 3576-PGR-AF-Extradição, nº 1085. Requerente: República Italiana. Extraditando: Cesare Battisti. Relator: Ministro Cezar Peluso, fls. 2323/2435.

[19] Ext n° 493. Relator: Ministro Sepúlveda Pertence.

[20] EXT n° 1085. Relator: Ministro Cezar Peluso.

[21] SEQUEIRA, Claudio Dantas. Itália encobre “asilo francês”, afirma filósofo. Folha de S. Paulo, 25 jan. 2009.

[22] SEQUEIRA, Claudio Dantas. Refugiados italianos no Brasil apóiam decisão de ministro. Folha de S. Paulo, 25 jan. 2009.

[23] Após afirmar-se favorável à entrega de Battisti à Itália, Antonio Fernando de Souza encaminhou parecer ao STF favorável à manutenção de Battisti no Brasil; a seu ver, o processo de extradição deve agora ser arquivado com base no artigo 33 da Lei número 9474/97, que impede a extradição de pessoas que receberam refúgio político. REDAÇÃO TERRA. Mendes: concessão de refúgio a Battisti não afeta extradição. Terra, 3 de fev. 2009. Em: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3491520-EI306,00-Mendes+concessao+de+refugio+a+Battisti+nao+afeta+extradicao.html.

[24] Entrevista ao programa Em cima da hora, Globo News, 28 jan. 2009. Um bode expiatório conveniente à Itália. Valor Econômico, 22 jan. 2009. URL: http://www.valoronline.com.br/ValorImpresso/MateriaImpresso.aspx?tit=Por%20que%20Italia%20transformaria%20Battisti%20no%20bode%20expiatorio%20de%20periodo%20negro%20de%20sua%20historia?&dtMateria=09%2001%202009&codMateria=5377438&codCategoria=99

[25] MICHAEL, Andréa; SELIGMAN, Felipe; FERRAZ, Lucas. Dez testemunhas embasaram condenação. Folha de S. Paulo, 30 jan. 2009.

[26] GENRO, Tarso. Apud LUNGARETTI, Celso. Governo concede refúgio a Cesare Battisti. SINDISPREV/RJ, 14 jan. 2009. Em: http://www.sindsprevrj.org.br/jornal/secao.asp?area=19&entrada=2860.

[27] Comissão apóia reconhecimento de italiano como refugiado político. Redação 24HorasNews, 14 jan. 2009, em: http://www.24horasnews.com.br/index.php?tipo=ler&mat=279276.

[28] CDHM lança nota em apoio à decisão de refúgio a Cesare Battisti. Librdade a Cesare Battisti, 23 jan. 2009. Em: http://cesarelivre.org/node/50.

[29] MAIEROVITCH, Walter Fanganiello. Caso Battisti: Lula é anacrônico, define ‘The Economist’, Blog Sem Fronteiras, Terra, 25 jan. 2009. Em: http://maierovitch.blog.terra.com.br/2009/01/25/caso-battisti-lula-e-anacronico-define-the-economist/.

[30] O Estado de S. Paulo, Aliás, p. J2, 1º de fev. 2009.

[31] WEISS, Luiz. Asilo a italiano mobiliza a mídia Blog Verbo Solto. Observatório da Imprensa, 15 jan. 2009.

[32] O jornal O Estado de S. Paulo publicou uma “Cronologia do caso dos boxeadores cubanos”: 12 de julho: o jogador cubano Rafael Capote abandona a Vila pan-americana e vai de táxi até São Caetano do Sul. 14 de julho: o técnico de ginástica artística Lázaro Lamelas abandona a delegação de Cuba. 21 de julho: os boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara somem da Vila; no dia seguinte é anunciada a deserção. 24 de julho: no jornal cubano Granma, do Partido Comunista, Lula admite tristeza e indignação. No Brasil, o governo nada comenta. 26 de julho: os boxeadores assinam contrato de cinco anos com a cadeia de TV a cabo alemã Arena TV e se juntam a três outros cubanos desertados em dezembro. 29 de julho: antes do encerramento dos jogos, a maior parte dos cubanos, 242 ao todo, antecipa a volta para casa a mando de Cuba. 31 de julho: Cuba confisca bens e outros objetos dados a familiares dos pugilistas como prêmio. Esperados na Alemanha, os boxeadores não aparecem. 2 de agosto: Rigondeaux e Lara são presos em Araruama, no Rio, e entregues à Polícia Federal por estarem com visto vencido e sem passaporte. 3 de agosto: os boxeadores prestam depoimento à PF e ficam sob liberdade vigiada em hotel. Segundo a polícia, eles queriam voltar para Cuba. 4 de agosto: voltam à ilha depois de, segundo a polícia, recusarem pedido de refúgio. Fidel promete não prendê-los. 5 de agosto: Fidel publica artigo no Granma dizendo que os dois desonraram a equipe nacional e não poderão mais representar Cuba em nenhum evento internacional. 6 de agosto: Ahmert Ömer, da Arena Box, desiste de contratar os pugilistas. 7 de agosto: o Ministério da Justiça divulga um comunicado oficial dizendo que os cubanos voltaram ao seu país porque quiseram. 9 de agosto: a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou convite a Tarso Genro para explicar os motivos da “localização, captura e rápida deportação” dos dois atletas.

[33] Cf. Blog Cesare Livre. URL: http://cesarelivre.org.

[34] Ele assim se descreve: “Proibido que fui e sou de participar da grande imprensa já depois da ditadura […] jornalista expatriado, que como um Joris Ivens terá de sobreviver com seus frilas”.

[35] MARTINS, Rui. Battisti e a Carta Capital. http://www.blogdomino.com.br/blog/o-caso-battisti-343.

[36]Cf. Celso Lungaretti – O Rebate, em: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com.

[37] Julgamento de Battisti na Itália foi uma farsa. O Estado de S. Paulo, 28 jan. 2009. Em: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090128/not_imp314043,0.php.

[38] Abaixo-Assinado de Solidariedade e Contra a Extradição de Cesare Battisti. Em: http://www.petitiononline.com/cesare07/petition.html.

[39] Carla Bruni nega participação em refúgio a Battisti. Terra, 25 jan. 2009.

[40] MAIEROVITCH, Wálter Fanganiello. Carla Bruni detona Battisti. Sem Fronteiras. Terra, 26 jan. 2009. Em: http://maierovitch.blog.terra.com.br/2009/01/26/carla-bruni-detona-battisti.

[41] Italianos organizam reação popular contra asilo de Battisti. 26 jan. 2009.

[42] Advogados recorrem para acelerar libertação de Battisti. Terra, 23 jan. 2009.

[43] Apresentador pede boicote ao samba contra refúgio a Battisti. Terra, 23 jan. 2009.

[44] Itália chama a consultas embaixador no Brasil por caso Battisti. Terra, 27 jan. 2009. Em: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3474598-EI7896,00-Italia+chama+a+consultas+embaixador+no+Brasil+por+caso+Battisti.html.

[45] Ministro italiano liga para Amorim por extradição de Battisti. Terra, 27 jan. 2009. Em:

http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3476249-EI306,00-Chanceler+italiano+liga+para+Amorim+e+defende+extradicao.html.

[46] Ex-jogador Paolo Rossi defende extradição de Battisti. Terra, 28 jan. 2009. Em: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3478368-EI306,00.html.

[47] PF diz que Greenhalgh recebeu R$ 650 mil de Dantas. O Estado de S. Paulo, 14 de julho de 2008. Em: http://www.estadao.com.br/nacional/not_nac205550,0.htm.

[48] MELLO, Marina. Advogado de Battisti diz que postura italiana é descabida. Terra, 27 de janeiro de 2009. Em: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3476212-EI306,00-Advogado+de+Battisti+diz+que+postura+italiana+e+descabida.html.

[49] GALLUCCI, Mariângela. Greenhalgh volta a pedir ao STF para libertar Battisti O Estado de S. Paulo, 28 jan. 2009. Em: http://www.estadao.com.br/nacional/not_nac314564,0.htm.

[50] Itália endurece e chama de volta embaixador no Brasil, 28 jan. 2009.

[51] [Cesare Battisti] Carta enviada ao CONARE, antes do julgamento. Cesare Battisti, desde a prisão. Centro de Mídia Independente, 02/12/2008. Em: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/12/434741.shtml.

[52] BATTISTI, Cesare. Carta enviada por Cesare Battisti desde sua cela da polícia federal, em Brasília. Data-se de Junho de 2008, toda solidariedade faz-se necessária. Carta enviada da prisão. Por Comitê pela Libertação de Cesare Battisti, 19 jul. 2008. Em: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/07/424752.shtml.