O NAZISMO SEGUNDO BOLSONARO

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Em 6 de abril de 2011, o deputado Jair Bolsonaro, após ser retratado com um bigode de Hitler num cartaz exibido por manifestantes durante protesto na Câmara, declarou ao portal G1 que não ficou ofendido: “Ficaria bravo se tivesse brinquinho, batom na boca e eles usassem isso em uma passeata gay”. Bolsonaro preferia ser caricaturado como Hitler a ser caricaturado como gay.

No mesmo ano Bolsonaro submeteu-se a um “teste do polígrafo” no programa CQC, da TV Bandeirantes, expondo sua visão deformada da História. O programa que foi ao ar foi editado, mas uma versão completa da gravação do mesmo, incluindo o ensaio das perguntas e das respostas e uma intervenção de Guga Noblat, caiu na rede, revelando o que Bolsonaro pensa de Hitler, do Nazismo e do Holocausto.

O ex-capitão Bolsonaro deve ter enforcado as aulas de História, dada a gigantesca ignorância que demonstra da Segunda Guerra Mundial. Sua admiração por Hitler enquanto “estrategista” é acompanhada pela espantosa ideia de que o Holocausto – o assassinato sistemático de seis milhões de judeus por fome e doenças provocadas, torturas, trabalho forçado, fuzilamentos e câmaras de gás – foi, na verdade, mera consequência de “desvio de recursos da saúde na Alemanha”.

Igualmente surpreendente é a visão de Bolsonaro sobre Hitler ter sido uma vítima da guerra (não fica claro se da Primeira ou da Segunda); de que destruiu outros países para defender seu povo e “impor sua raça”, e sobre o alistamento automático dos alemães ao Exército, ignorando não apenas os alemães que se exilaram, como a própria possibilidade da resistência, aceitando o totalitarismo como natural e inevitável.

Finalmente, a revelação algo chocante de que seu bisavô alemão, Carl Hintze, falecido em Campinhas em 1969, teria sido um soldado de Hitler, tendo servido na Wehrmacht e perdido um braço na guerra. Segundo o estudo da árvore genealógica de Bolsonaro realizado pelo sociólogo Daniel Taddone, editor de genealogia da revista Insieme e presidente do Comitato degli Italiani all’Estero do Recife, fica claro não ser crível que o bisavô alemão de Bolsonaro tenha sido soldado de Hitler, tendo nascido em Hamburgo em 1876 e imigrado para o Brasil em 1883, anda criança.

Quando Hitler invadiu a Polônia em 1939, desencadeando a guerra, Carl já teria 63 anos. É sabido que Goebbels organizou um exército de idosos no fim da guerra, quando o bisavô de Bolsonaro teria 68 anos. Mas que ele tenha se voluntariado para lutar na Alemanha com essa idade provecta é bastante inverossímil. Nem há notícia de ele tenha deixado o Brasil durante a guerra.

É mais plausível que o bisavô alemão pudesse ter se voluntariado para lutar na Primeira Guerra (1914-1918). Mesmo assim Carl teria entre 38 e 42 anos, tendo passado da idade de alistamento. Bolsonaro mente ou fantasia sobre o bisavô alemão? Ele confunde a Primeira Guerra com a Segunda? Ele admira tanto Hitler que fez do bisavô um herói de guerra da Wehrmacht nazista, perdendo um braço pelo ‘Terceiro Reich’? Há um fato obscuro aí que o agora Presidente Bolsonaro precisa elucidar.

Três anos depois da revelação no programa CQC de seu “bisavô soldado de Hitler”, Bolsonaro voltou a mencioná-lo numa homenagem da Câmara dos Deputados, em novembro de 2014, aos 70 anos do desembarque da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Uma declaração ambígua, com semitons revisionistas:

Agradeço neste momento, também, o exército americano, tão criticado por setores de esquerda do mundo todo, em especial do nosso país. Agradeço, então, ao povo americano por não estar falando alemão. Apesar de meu bisavô ser alemão e ter sido soldado de Hitler. Ele não tinha opção: era ser soldado ou paredão. Graças a Deus ele perdeu a guerra. Mas ele me contou muitas histórias que eu não vou falar aqui agora.

Dado seu proclamado amor à família, de raízes alemãs e italianas (com parentes possivelmente nazistas e fascistas), as “muitas histórias” falsas, revisionistas, justificadoras do nazifascismo, que Bolsonaro ouviu na infância e juventude, explicam sua admiração pelo “estrategista” Hitler, a contrapelo da historiografia militar séria e sua ignorância deliberada e acintosa do Holocausto, que ele despreza ao propagar o mesmo discurso de ódio que o embasa.

Uma versão curta, editada, dos bastidores do CQC, foi divulgada no site 247. Mas logo em seguida o próprio 247 retirou o vídeo do site, publicando uma errata na qual explicava que o vídeo era fake, tratando-se de uma edição. De fato, o clipe postado fora editado.

Mas o vídeo integral dos bastidores também caiu na rede, e podemos agora perceber que sua versão editada publicada no site 247 apenas sintetizava o conteúdo do original, sem o falsear em nada. O vídeo integral dos bastidores comprova que Bolsonaro declarou mesmo tudo aquilo em favor de Hitler e do nazismo, relativizando e banalizando o Holocausto ao atribui-lo a uma situação similar à corrupção no Brasil, de desvio de verbas públicas!

Omitindo deliberadamente o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler.

Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu ataque ao “bolchevismo cultural”, seus campos de concentração e de extermínio. É assim que Bolsonaro legitima seu discurso de ódio, isentando-o da inspiração nazista.

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TRANSCRIÇÃO DOS BASTIDORES DO PROGRAMA CQC

ENSAIO

Repórter CQC: Você tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: Não. Você tem que entender que guerra é guerra. Ele foi um grande estrategista.

Jair Bolsonaro: Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto para aniquilar o outro país, destruir o outro país, para defender o seu povo.

Homem do Polígrafo: O Hitler pra ele, levando (em conta) o segmento militar, era uma pessoa que ele achou bastante interessante, pra nível militar.

Repórter CQC: Perfeito.

GRAVANDO

Repórter CQC: Senhor Jair Bolsonaro, Deputado Jair Bolsonaro, o senhor tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né? Porque foi pra… morte de inocentes, né, Holocausto, etc. Tá OK?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: O que você tem que entender é o seguinte: guerra é guerra, e o país que não quer ser submetido ao que Hitler [se] submeteu naquela época tem que preparar suas Forças Armadas. E as nossas Forças Armadas no Brasil hoje em dia estão completamente largadas pelos últimos governos. Quem não quer sofrer, né, o que aquele povo sofreu, cuide de suas Forças Armadas. E naquela guerra, a guerra era de extermínio. Hoje em dia você faz embargos, é uma guerra completamente diferente. Então você… eu não concordo com Hitler, mas você tem que entender o que aconteceu naquela época e seu plano de dominar o mundo e de impor a sua raça. Os vencedores em batalhas impõem as suas vontades e o Hitler queria impor a sua vontade. Lógico, hoje em dia não admitiria. Naquela época era outra história. Tanto é que um homem apenas queria aquilo, e todos aderiram, quase todos aderiram, na Alemanha.

Repórter CQC: Mas há algo admirável no Hitler para o senhor?

Jair Bolsonaro: Profissionalmente, ele foi um grande estrategista. Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto pra aniquilar o outro país, destruir o outro país, pra defender o seu povo. Não o…

Repórter CQC: Mesmo sendo um genocida?

Jair Bolsonaro: O general… O genocídio é outra história, o genocídio é outra história, ok, eu não concordo logicamente com o que ele fez lá. O genocídio você pratica hoje em dia quando você desvia como estamos vendo hoje em dia desvia recursos da saúde, tem gente que morre, na mesma situação que os judeus lá na Alemanha. Muitos povos também morriam porque o governo alemão simplesmente sequestravam seus alimentos, simplesmente morriam de fome, inanição, de frio. Se um país não quer sofrer isso um dia, e podemos sofrer, porque nós temos ameaça externa, e muitos idiotas acham que não. Nós temos aqui uma reserva amazônica enorme, com tudo, e temos ai países nucleares como China e Índia, com um bilhão, ou melhor, juntos com dois bilhões e meio de habitantes, onde a alimentação básica é arroz, e peixe e produtos aí vindos da batata, basicamente isso. Quando descobriram isso aqui, já descobriram, né, mas quando a população crescer demais podem querer vir pra cá. Vamos fazer o quê com nossas Forças Armadas completamente despreparadas por negligência dos governos que  nos… têm passado por aqui.

INTERRUPÇÃO

Guga Noblat: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, o senhor teria se alistado, se o senhor fosse alemão, teria se alistado no Exército nazista?

Repórter CQC: Posso fazer esta (pergunta)?

Jair Bolsonaro: Pode, sem problema nenhum. Eu tenho uma resposta muito boa pra te dar, inclusive.

GRAVANDO

Repórter CQC: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, incluindo toda morte nos campos de concentração, o Holocausto, aqueles seis milhões de judeus assassinados, você teria se alistado como militar se fosse da Alemanha naquele contexto?

Jair Bolsonaro: Olha, o meu bisavô foi soldado de Hitler, ele perdeu um braço, inclusive na guerra, né.

Repórter CQC: Seu bisavôooooo

Jair Bolsonaro: Qual o problema? A minha família era toda de alemães e italianos. Agora a pergunta não cabe, porque você não tinha direito de se alistar ou não, você era alistado automaticamente. Quem não se alistasse, era…

Repórter CQC: E se naquela época fosse facultativo? Pode ou não se alistar, você iria?

Jair Bolsonaro: Na verdade, ninguém quer ir pra guerra, nem nós militares queremos ir para a guerra. Por isso queremos os melhores meios pra você trabalhar para evitar uma guerra. O militar bom, o exército bom, não faz guerra, evita guerra.

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Sem dizer uma única palavra sobre o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente ou inconsciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler. Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu anticomunismo e seus campos de concentração e de extermínio.

É desta forma que Bolsonaro legitima o seu próprio discurso de ódio, inspirado no discurso nazista. Em outro programa do CQC, também de 2011, este discurso extravasou de seus limites mentalmente controlados para excitar seus seguidores sem jogá-los na ilegalidade, e um Bolsonaro distraído pensou ter ouvido a palavra “gay” (sua obsessão persecutória, sendo o “gay” o seu “judeu”) quando a cantora Preta Gil perguntou o que ele faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra. Sua resposta descuidada revelou, num ato falho, simultaneamente seu racismo e sua homofobia:

Processado por racismo e por quebra do decoro parlamentar, o deputado Jair Bolsonaro conseguiu safar-se alegando que a fita havia sido montada e depois apagada para que não pudesse ser periciada, acusando Marcelo Tas de gravar outro programa por cima para se livrar da prova de sua inocência. Mas essa é uma prática comum na TV brasileira, em canais de recursos escassos, com exceção talvez da Rede Globo, que após o incêndio de seu acervo, passou a valorizar a conservação de suas gravações.

Não havia como editar pergunta e resposta porque, como explicou o CGC, o programa gravava apenas uma pergunta de cada convidado, e é claro a qualquer espectador que a resposta se segue imediatamente à pergunta, sem possibilidade de uma montagem tão imperceptível. Danilo Gentili estava presente à gravação e declarou em seu programa que  não houve montagem alguma. O próprio Bolsonaro admitiu que pode ter se confundido. Mas a alegação mentirosa livrou-o da punição no processo, e o estimulou a processar Marcelo Tas por difamação. A resposta de Tas aparentemente encerrou o caso.

NOTA

Agradeço ao historiador João Araujo o envio de artigos publicados em jornais e sites sobre a genealogia de Bolsonaro. É curioso que os jornalistas só tenham pesquisado o ramo italiano de sua família, investigando pouco o ramo alemão. Segundo o site Ethninicity of CelebsBolsonaro seria 81,25% italiano, 12,5% alemão e 6,25% brasileiro (português, possivelmente outros)… Mas parece que o ramo alemão influenciou mais o pequeno Bolsonaro e o impulsionou à vida militar e à confessa admiração de Hitler.

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A ESQUERDA NAZISTA

A 11 de junho de 2010, o ex-presidente cubano Fidel Castro, supostamente ainda vivo, escreveu, com a autoridade moral do ditador decrépito que transformou a ilha de Cuba num enorme campo de concentração, um artigo acusando os judeus de serem os novos nazistas: “A suástica do Führer parece ser a bandeira hoje de Israel. […] Israel prepara um ataque nuclear contra o Irã com a mesma sanha com que as tropas israelenses atacaram há duas semanas a frota humanitária pró-palestina. O ódio do Estado de Israel contra os palestinos é tal que não vacilaria em enviar um milhão e meio de homens, mulheres e crianças dos territórios palestinos para os fornos crematórios em que judeus de todas as idades foram exterminados pelos nazistas.”.

Após a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo, o sistema nazista passou a ser visto com outros olhos pela esquerda: assim como o nazismo, o comunismo também havia sido derrotado pelo capitalismo. Os modelos fracassados tinham mais essa nova identidade. O progresso das chamadas democracias burguesas contrastava com o fracasso clamoroso do nazismo e, agora, do comumismo. Globalizada, a militância raivosa passou a identificar o capitalismo vencedor com os EUA e Israel e a manifestar cada vez mais abertamente o desejo de eliminar, aniquilar, riscar do mapa o Estado Judeu. Claro, é sempre mais gratificante atacar as minorias, golpear os mais fracos.

Contudo, a esquerda nazista manteve em seu programa, como um álibi, o velho e saudável ódio ao nazismo. Como ela conseguiu conciliar um ódio libertário com seu novo ódio reacionário? A fórmula encontrada foi, depois de distinguir os sionistas dos  judeus, assimilar os judeus sionistas aos nazistas e os palestinos aos judeus – mas aos judeus sionistas, que anseiam retornar à Palestina. Assim a esquerda nazista pode odiar os nazistas no passado enquanto assume a herança do nazismo no presente. Essa esquerda realizou algo que parecia impossível: ser nazista hoje evocando o antinazismo de ontem. Aliando-se a ditadores e genocidas, violadores de direitos humanos, a esquerda nazista já supera largamente o neonazismo em manifestações antissemitas. August Bebel dizia que o antissemitismo era o socialismo dos idiotas (Der Antisemitismus ist der Sozialismus der dummen Kerle). Não previu que o socialismo, historicamente fracassado, se tornaria apenas o último refúgio dos idiotas.

REVISIONISMO BASTARDO EM TECNICOLOR

Que se poderia esperar quando um Quentin Tarantino encena uma fantasia antissemita disfarçada pelo antinazismo de um fictício grupo de “soldados judeus americanos conhecidos como Os bastardos” dispostos a degolar soldados alemães, no filme intitulado de modo propositadamente errado Inglourious Basterds (2009)? Mais um hediondo filme revisionista invertendo papéis, mostrando os judeus como carniceiros sádicos e os nazistas como vítimas de terroristas. A Vanity Fair publicou stills do filme que “surgem com todo o glamour das produções antigas e dos astros de Hollywood” (Notícias da Rua Judaica, 19/04/2009), tornando a carniçaria que os cartazes não disfarçam mais palatável ao público fashion. Mas a imagem que ilustra a matéria mostra um judeu carniceiro escolhendo as armas mais afiadas para cometer seus escalpos, à maneira das tão vulgares caricaturas de “Fips” para o jornal nazista Der Stürmer:

Judeu como carniceiro de nazistas em "Inglourious Bastards".
Judeu como carniceiro de nazistas em Inglourious Bastards.
Judeus como carniceiros de anjos loiros no jornal nazista "Der Stürmer".
Judeus como carniceiros de anjos loiros em Der Stürmer.

Claro que, para efeito de bilheteria, os judeus do filme de Tarantino são mais bonitos, e é o galã Brad Pitt quem interpreta o tenente americano Aldo Raine que os organiza. Esse não é exatamente um “caçador de nazistas” como o feioso Simon Wiesenthal, mas um charmant torturador cujo objetivo não é tanto combater o nazismo quanto opor ao nazismo alemão um nazismo judeu capaz de apavorar até Adolf Hitler: “Membros do Partido Nacional-socialista conquistaram a Europa para assassinar, torturar, intimidar, e aterrorizar. E isso é exatamente o que nós vamos fazer a eles. Seremos cruéis com os alemães e através de nossa crueldade eles saberão quem somos nós. Eles encontrarão a evidência de nossa crueldade nos corpos destroçados, desmembrados, desfigurados de seus irmãos que deixaremos para trás e os alemães […] terão medo de nós. Nazistas não têm humanidade! Eles precisam ser destruídos. Cada um dos homens sob o meu comando deve-me cem escalpos nazistas… E eu quero os meus escalpos!” (trailer do filme).

Num mundo que assume descaradamente seu anti-semitismo comparando judeus a nazistas, não mais somente nas mídias islamitas, neo-stalinistas, neonazistas, mas até nas mídias liberais, esse novo blockbuster de Hollywood reforça para o grande público o conceito que hoje se espalha em meio aos conflitos no Oriente Médio, fazendo dos judeus não apenas os novos nazistas, mas os piores nazistas.

Bastardos inglórios é, pois, um filme detestável. Seu humor é sádico e grotesco; sua violência, vulgar e grosseira, caracteriza um típico pastelão de sangue; os diálogos são perfeitos para imbecis que se acham inteligentes sacando a “inteligência dos diálogos”. Um verdadeiro lixo. As referências ao cinema nazista podem parecer profundas para quem não conhece o cinema nazista, mas é fácil para quem o conhece perceber os buracos.

Georg Wilhelm Pabst, por exemplo, é citado com admiração, pois Tarantino só deve conhecer a fase alemã muda e a fase francesa dele, não a fase nazista (Komödianten, Paracelsus, Der Fall Molander). Assim, ele critica a Riefenstahl, mas preserva o Pabst, anunciado “sem necessidade” (como nota o jovem soldado Zoller) no cartaz de Pitz Palü, que não foi produzido na Alemanha nazista, mas na República de Weimar.

Claro, uma “Semana Alemã” em uma sala de cinema de Paris sob a Ocupação poderia estar exibindo uma reprise. Mas por que não algum filme nazista de Veit Harlan ou Hans Steinhoff? Ah, sim, a dona do cinema, Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), é uma jovem judia camponesa escapada de um massacre graças ao estranho “au revoir” do supostamente impiedoso “caçador de judeus”; ela chegou caminhando, ou sabe Deus como, do interior da França até a Paris ocupada, onde herdou legalmente, sabe Deus como, um cinema em plena Ocupação; e, claro, cinéfila inveterada, ela mantém um arquivo de filmes, de onde sacou esse velho filme, embora deteste Riefenstahl, exibindo Pitz Palü apenas como uma homenagem a Pabst…

Ora, precisamente nessa altura Pabst estava trabalhando na Alemanha nazista (ele devolveu ao governo francês, dois meses antes da declaração de guerra, uma medalha da Legião de Honra que ganhara, e com a eclosão da guerra, em 1939, ele retornou à Áustria, de onde seguiu para a Alemanha para realizar filmes de propaganda nazista a convite de Goebbels, ajudando, inclusive, a Riefenstahl – que a jovem judia camponesa proprietária de cinema e cinéfila inveterada detesta – na direção de algumas cenas em que ela atuava em seu Tiefland

Em certa cena, uma canção cantada por Zarah Leander é ouvida ao fundo, mas o nome da maior diva nazista não é mencionado, apenas o da secundária Brigitte Fossey e da veterana Pola Negri (personagens no jogo de adivinha) e o de Lilian Harvey (inglesa que após trabalhar em alguns filmes nazistas imigrou para os EUA, onde não fez sucesso; o Goebbels de Tarantino fica furioso no cinema quando lembram o nome dela).

Já a estrela nazista Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), que ajuda os Bastardos, parece vagamente inspirada em Olga Tchekova (que espionava para o NKVD, diretamente subordinada a Lavrentiy Beria, segundo a recente biografia escrita por Antony Beevor, que também revela o trabalho de espionagem para os soviéticos de Zarah Leander, subordinada a Zoia Ribkina) e em Renate Müller (que tinha um amante judeu na Inglaterra, para onde escapava às escondidas, e que acabou sendo “suicidada” pela Gestapo).

De qualquer forma, as referências ao cinema nazista são sempre vagas e imprecisas – como a súbita irrupção de um nada parecido Emil Jannings na seqüência da estréia de O orgulho da nação… Na crônica “Bastardos gloriosos” (Folha de S. Paulo, 13/10/2009), João Pereira Coutinho perguntou: “Vocês, caros leitores, estão habituados a filmes sobre o Holocausto onde os judeus são meros carneiros nas matanças nazistas? Filmes de um sentimentalismo vulgar […]? [Em Bastardos inglórios] os judeus, agora, não são apenas vítimas; também são vingadores […]”. Ou seja, os filmes que tentaram apreender a verdade sobre o Holocausto, como Ostatni etap; Ulica Graniczna; Daleká cesta; Professor Mamlock; A orquestra de Auschwitz; Shoah; As 200 crianças do Dr. Korczak; A lista de Schindler, O pianista, etc. são “de um sentimentalismo vulgar” porque neles os judeus são vítimas… Quando não o foram?

O cronista e seus leitores preferem a “inversão de estereótipos” do Cirque de Soleil sangrento de Tarantino. Não percebem que o cineasta, sem qualquer cultura (ou, antes, formado pela subcultura de filmes de Kung Fu e Blaxploitation, com algumas doses da Nazi-exploitation que inclui títulos como Ilsa, She Wolf of the SS; La bestia in calore, L’ultima orgia del III Reich e Quel maledetto treno blindato, intitulado The Inglorious Bastards nos EUA, e cujo diretor, Enzo Castellari, interpreta um pequeno papel no filme de Tarantino) cai nos estereótipos mais antigos sobre os judeus: a gangue dos Bastardos – assim como a esquizofrênica Shosanna Dreyfus (nome escolhido a dedo) – são movidos pelo ódio vingativo como o Shylock de O mercador de Veneza, de William Shakespeare; o Judeu errante, de Eugène Sue; ou o Samuel Mayer do romance mediúnico A vingança do judeu, do “espírito” J. W. Rochester, revelando-se tão carniceiros quanto os “judeus” das caricaturas de Der Stürmer

No revisionismo dos trapalhões escalpeladores de Tarantino, os principais dirigentes nazistas, incluindo Joseph Goebbels (Sylvester Groth) e Adolf Hitler (Martin Wuttke), são mortos pelos judeus Bastardos. Todos são representados por atores tão pouco parecidos quanto o grotesco Winston Churchill caracterizado por Rod Taylor, escondido como uma aranha num canto de seu sombrio gabinete. E os judeus ainda são aí homens-bombas terroristas e massacradores de nazistas “indefesos” (eles incendeiam um cinema lotado e queimam vivos uns 400 nazistas desarmados na platéia).

É incrível como a sensibilidade do público deteriorou-se, a ponto de tantos acharem inteligente, divertido, excitante ver judeus arrancando a faca o couro cabeludo dos corpos de nazistas – o escalpe “apache” que, em 1975, Pier Paolo Pasolini associou para sempre aos torturadores fascistas de Salò… Há uma tendência moderna que consiste em saciar o sadismo das massas fascistóides contra os “vilões”. Tarantino radicaliza essa tendência, fazendo com que seus vilões nazistas sofram “como judeus” nas mãos de judeus que agem como os nazistas: supostamente bons, esses “heróis” podem praticar todo tipo de atrocidade contra os tradicionais “vilões”: escalpelamento, cremação massiva, estouro de crânios, etc.

Notável, nesse sentido, que o personagem de Brad Pitt, o Kapo americano não-judeu que organiza os Bastardos, nunca suje suas mãos, a não ser para marcar os nazistas. Ele encarrega os judeus de todo o trabalho sujo, eles é que têm de esmigalhar crânios e arrancar escalpos, supostamente se vingando, como um bando de cães, lobos ou ursos amestrados a serviço de seu “dono”. O Kapo Aldo Raine reserva-se apenas o privilégio de enfiar o dedo na ferida da estrela que trai os nazistas e de rabiscar a facão suásticas nas testas dos nazistas que deixa escapulir. E aí está mais uma ambigüidade do filme, pois ao mesmo tempo em que o personagem afirma que essa escarificação tornará os nazistas “visíveis” mesmo ao se livrarem de seus uniformes, o fato é que a escarificação de suásticas nas testas das vítimas é uma conhecida prática de gangues neonazistas.

Em resumo, no filme de “clichês trocados” de Tarantino, os verdadeiros nazistas são os judeus… A alcunha que o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz) recebe, de “caçador de judeus”, é uma “indireta” dirigida ao “caçador de nazistas” Simon Wiesentahl. Com exceção do assassinato da família Dreyfus no começo do filme (seqüência copiada de A lista de Schindler, de Steven Spielberg, e de A lenda do cavaleiro sem cabeça, de Tim Burton), são sempre os judeus que trucidam, bombardeiam, metralham, cremam vivos, “tatuam” os inimigos na carne e queimam bens culturais – o auto-de-fé nazista de livros é aí transformado num judaico auto-de-fé de filmes.

Em “Tarantino Touch” (Folha de S. Paulo, 18/10/2009), Jorge Coli chegou a comparar Bastardos inglórios à magistral e sofisticada comédia antinazista Ser ou não ser, de Ernst Lubitch, e o “discurso vingador” de Shosanna ao emocionante discurso final de O grande ditador, de Charles Chaplin, com desvantagem para esse último: o discurso de Tarantino “nada tem do tom didático [de Chaplin]… é uma esplêndida apoteose feita com o prazer de filmar para o prazer de assistir”. Quer dizer que o grosseiro pastiche de Tarantino evocaria o Lubitch Touch e superaria a obra-prima de Chaplin? Quanta baboseira!

Sintomático que o ato final de barbárie da “heroína” vingadora tenha sido interpretado por diversos críticos como uma prova do grande “amor” que Tarantino dedicaria ao cinema. Estranho amor, que se demonstra queimando todo um acervo de películas em nitrato e explodindo uma bela sala de cinema, atribuindo esse “holocausto” a uma judia e a um negro… E depois Tarantino tem o desplante de ir a Israel mostrar seu filme, talvez esperando que o “exército nazista do Estado Judeu” (na visão dos novos antissemitas) se “reconheça” nos seus personagens, aplaudindo Bastados inglórios como as platéias alheias à História que gargalham nos cinemas multiplex que fedem a mofo e pipoca amanteigada…