A EXPLOSÃO DO ÓDIO SABICHÃO

Da esquerda para a direita: Daniel Jadue, Arlene Clemesha, Marcondes Gadelha (PSB), Dr. Rosinha (PT), presidente do parlamento do MERCOSUL na ocasião em que o acordo foi firmado. Foto: Luiz Alves.

Da esquerda para a direita: Daniel Jadue, Arlene Clemesha, Marcondes Gadelha (PSB), Dr. Rosinha (PT), presidente do parlamento do MERCOSUL na ocasião em que o acordo foi firmado. Foto: Luiz Alves.

No dia 27 de agosto de 2009, o talentoso cineasta e professor de cinema canadense John Greyson, autor de Zero Patience (1993) e Lilies (1996), retirou seu curta-metragem Covered (2009) do Festival Internacional de Cinema de Toronto como forma de protesto diante da mostra de filmes israelenses ‘City to City: Tel Aviv’, acusada de ser uma propaganda do governo israelense interessado em desviar a atenção do mundo do “massacre de Gaza”. Ele justificou seu gesto em carta-aberta a Cameron Bailey, organizador da mostra e co-organizador do Festival, descrevendo Tel Aviv sob a fantástica visão produzida pelo ódio sabichão, um tipo de ódio intelectualmente profundo e psicologicamente complexo, ressentido pelos esquerdistas em suas guinadas irracionais à extrema-direita.

Na carta, Greyson apoiava-se em outros companheiros de ódio sabichão para considerar a vibrante Tel Aviv “uma espécie de alter-Gaza, o rosto risonho do apartheid israelense” (Naomi Klein) e “a única cidade no ocidente sem residentes árabes” (Udi Aloni), sem considerar a contradição que brota da justaposição das duas citações afirmativas do suposto apartheid israelense: que apartheid seria esse onde a população apartada não reside em Israel, mas em outro território, controlada por outras autoridades, sob o tacão do Hamas, em Gaza, essa espécie de alter-Tel Aviv, o rosto tristonho do terror palestino? E como entender a sentença louca e mentirosa do cineasta israelense Aloni? Quem conhece Tel Aviv sabe que nela residem árabes, e quem conhece um pouco do mundo sabe que existem milhares de cidades ocidentais onde nenhum árabe reside…

Todos sabem, também, que após 38 anos de ocupação militar, Israel retirou-se de Gaza em 2005, com grandes manifestações de alegria de milhares de palestinos, que se puseram a depredar e incendiar as 20 e tantas sinagogas deixadas ali intactas nos assentamentos vazios, sob uma Autoridade Palestina indiferente, cúmplice ou incapaz de assumir a proteção desses templos. O líder palestino, Mahmoud Abbas, declarou ser aquele um dia “histórico e cheio de alegria” para seu povo. E um dos estusiasmados depredadores justificou-se: “Eles destruíram nossas casas e nossas mesquitas, hoje é nossa vez de destruir as deles” [1].

Gaza tornou-se, assim, uma cidade Judenfrei – o único judeu que nela habita, se é que ainda vive, é o frágil soldado do Exército de Israel, Gilad Schalit, prisioneiro do Hamas há três anos; e sabe Deus a que horrores ele vem sendo submetido. Muitas outras cidades e países árabes, como a Jordânia e a Arábia Saudita, são Judenfrei, mas isso não é motivo de escândado para os que compartilham o ódio sabichão, reservado com exclusividade para Israel. Na Gaza Judenfrei, a primeira medida das autoridades palestina (Fatah, Hamas) não foi criar escolas, parques ou hospitais, mas um cassino e, depois, túneis para contrabandear armamento pesado e foguetes de longo alcance para serem lançados contra Israel…

Uma visão bem diversa de Tel Aviv possui, por exemplo, o jornalista e cineasta Khaled Abu Toameh, que se define como “árabe israelense muçulmano palestino”. Integrante da comunidade de quase um milhão e meio de árabes israelenses, ele começou como jornalista da Autoridade Palestina e hoje é correspondente em Gaza para os jornais U.S. News, World Report e Jerusalem Post, além de produzir reportagens especiais sobre temas palestinos para a NBC News. Para ele, “Israel é um lugar maravilhoso para se viver e estamos felizes de estar aqui. Israel é um país livre e aberto. Se me fosse dado escolher, eu preferiria viver como cidadão de segunda classe em Israel que como cidadão de primeira classe no Cairo, em Gaza, em Amam ou Ramallah”[2].

Covered, o filme que John Greyson retirou do Festival de Toronto, é um interessante curta-metragem [3] sobre aquele que seria, em 2008, o primeiro festival gay e lésbico de Sarajevo, mas que teve de ser cancelado, devido ao brutal espancamento de seus participantes, oito dos quais precisaram ser hospitalizados. O filme destaca a coragem dos organizadores do Festival e a omissão do Sarajevo International Film Festival e da Embaixada Canadense, mas falha ao deixar de expor o verdadeiro conflito: os autores dos ataques homofóbicos eram islamitas furiosos contra a alegada “blasfêmia” queer no mês do Ramadam. Greyson preferiu entregar-se a elucubrações pós-modernas, com digressões forjadas de Susan Sontag sobre pássaros empalhados e artistas covers em tempos de guerra, num pastiche do Zelig (Zelig, 1983), de Woody Allen.

É óbvio que Covered jamais poderia ser exibido em cidades como Gaza, Ramallah, Damasco, Teerã, Islamabad, Kabul, Jacarta, Kuala Lampur, Bagdá, Riad e outros vibrantes “bastiões da tolerância”, jamais visados pelo ódio sabichão. Toda a obra de Greyson cairia sob censura, e ele próprio arriscaria ser apedrejado ou enforcado caso ousasse exibir seus manifestos queers (como os capítulos que dirigiu para a série de TV inglesa Queer as Folk) nas cidades de residência dos que o incitaram a impedir Tel Aviv de ser homenageada no Festival de Toronto. Greyson parece incapaz de fazer qualquer conexão entre o espancamento dos participantes do violentamente abortado festival queer de Sarajevo por homofóbicos islamitas; a repressão sistemática que sofrem em seus países os homossexuais muçulmanos; e o movimento palestino de boicote à celebração da diversidade em ‘City to City: Tel Aviv’. Ele sequer considerou a importância de Tel Aviv como local de refúgio para os gays palestinos ameaçados de serem assassinados por seus próprios familiares em Gaza ou Cisjordância, tema do filme The Bubble (A bolha, 2008), de Eytan Fox, exibido na mostra.

Infelizmente, Greyson ultrapassou o estágio da ingenuidade, encontrando-se já num estágio avançado do ódio sabichão. É um reincidente, pois já retirara seu filme Fig Trees (2009) do Tel Aviv LGBT Festival em março de 2009, além de voltar atrás na proposta de rodar um filme em Israel. Em carta aberta a Hochner, Greyson confessou ter tomado a difícil decisão de seguir a manada, isto é: “Sinto que preciso unir-me aos muitos judeus e não-judeus, israelenses e palestinos, queers ou outra coisa, que participam do crescente movimento global de BDS (Boicotes, Desinvestimentos e Sanções) contra o apartheid israelense. Cheguei à conclusão de que, neste momento, não tomar essa posição é impensável, impossível”. Ele listou os eventos que o obrigaram a isso: mais uma casa palestina demolida em Jerusalém oriental; crianças palestinas recobertas lentamente com queimaduras por fósforo; civis assassinados em Gaza por soldados israelenses; uma criança nascida num checkpoint porque ambulâncias ficaram retidas por três horas. E concluiu: “Essas são as manchetes de hoje, mas são também reminiscências de muitas manchetes em muitas décadas”. [4]

Grayson parece ter pulado muitas manchetes nessas muitas décadas: Israel atacado em cinco guerras sucessivas pelos países árabes que desejavam “empurrar os judeus ao mar”; atletas judeus assassinados nas Olimpíadas de Munique pelos terroristas do Setembro Negro; atentados das Brigadas Islâmicas, do Hamas, do Hezbollah; apedrejamento de judeus nas Intifadas; matança de crianças israelenses em ônibus escolares bombardeados em Tel Aviv; explosão de civis em mercados, escolas e universidades por homens-bombas, que mataram cerca de 1.000 israelenses e feriram milhares; mais de 6.000 foguetes e morteiros lançados pelo Hamas contra alvos civis em Siderot e outras cidades fronteiriças, obrigando populações inteiras a viver em estado de terror permanente nos últimos quatro anos, tendo apenas 20 segundos para se abrigarem após ouvir as sirenes; etc.

Com sua parcialidade, Greyson deixou visivelmente magoado o sensível Yair Hochner, um dos organizadores do Festival GTLB de Tel Aviv, para quem saíam perdendo com seu boicote apenas os homossexuais árabes e os homossexuais  judeus. Greyson respondeu que o movimento queer era inseparável dos direitos humanos, não adiantando Israel se arrogar ser o único país do Oriente Médio a respeitar os direitos dos homossexuais se não respeitava esses direitos ao matar homossexuais palestinos em Gaza [5]. Neste caso, todas as guerras seriam homofóbicas ao sacrificar jovens homossexuais em potencial. O Exército de Israel não possui  balas seletivas capazes de alvejar apenas os “homossexuais palestinos”. Greyson distorceu a realidade para justificar um indefensável apoio queer a um movimento anti-queer e o estúpido boicote a um evento queer por um queer que se quer engajado no movimento pelos direitos humanos.

No dia seguinte à retirada de Covered do Festival de Toronto, Greyson e nove outros realizadores convidados pelo Festival redigiram, atropelando a ética, uma petição contra o anfitrião, incitando a comunidade cinematográfica a juntar-se ao protesto contra a mostra ‘City to City: Tel Aviv”. Na carta-aberta “A Declaração de Toronto: Nenhuma Celebração da Ocupação”, eles se diziam “profundamente perturbados” com a decisão do Festival Internacional de Cinema de Toronto de programar uma homenagem a Tel Aviv, tornando-se, assim, um festival de cinema “cúmplice da máquina de propaganda israelense” [6].

Segundo os autores, em 2008 os governos de Israel e do Canadá firmaram uma campanha de um milhão de dólares para mudar a percepção de Israel no Canadá, desviando o foco do tratamento sofrido pelos palestinos na “guerra agressiva de Israel” para as realizações deste país em medicina, ciência e cultura. O cônsul Amir Gissin declarou na ocasião que Toronto seria a cidade-teste para uma campanha mundial, com massiva presença israelense no Festival de Toronto de 2009 [7]. Aí estava, segundo os boicotadores, a razão para o festival escolher como tema a cidade de Tel Aviv, mostrando, nas palavras de Cameron Bailey, “as complexas correntes da Tel Aviv de hoje […] uma cidade jovem, dinâmica que, como Toronto, celebra sua diversidade.”

A ênfase na “diversidade” de Tel Aviv foi considerada pelos revoltados como uma retórica vazia devido à “ausência de cineastas palestinos no programa”. Além disso, Cameron Bailey teria omitido que Tel Aviv “foi construída sobre aldeias palestinas destruídas, e que a cidade de Jaffa, principal porto palestino até 1948, foi anexada a Tel Aviv depois do exílio em massa da população palestina”. Assim, “olhar para a moderna e sofisticada Tel Aviv sem considerar o passado da cidade e as realidades da Ocupação israelense da Margem Ocidental e Faixa de Gaza seria como romancear sobre a beleza e a elegância do estilo de vida exclusivo dos brancos da Cidade do Cabo ou de Johanesburgo durante o apartheid, sem conhecer os correspondentes guetos negros de Khayelitsha e Soweto”.

A severa reprimenda da sabichona “Declaração de Toronto” vale para todos os organizadores de futuras mostras de filmes sobre cidades: eles agora deverão tomar o máximo cuidado ao programar uma mostra sobre São Paulo, México, Nova York ou qualquer outra maldita cidade americana construída sobre aldeias indígenas destruídas. Mostras sobre cidades diabólicas como Lisboa, Amsterdam, Londres ou qualquer outra pocilga colonialista européia correm sérios riscos de serem canceladas devido ao fato atroz e cruel de terem “elas”, no passado, traficado escravos, anexado territórios, exilado nativos. As únicas mostras 100% legais serão sobre as cidades 100% palestinas e 100% faveladas.

Para os organizadores do protesto, simplesmente gostar de uma cidade está fora de cogitação. Não se pode amar Tel Aviv enquanto os palestinos encontram-se apartados em Gaza. Da mesma forma não se pode amar o Rio de Janeiro enquanto os favelados permanecerem apartados de Ipanema. Não se podem organizar mostras sobre cidades que foram palco de guerras, ocupações, exílios: retrospectivas focadas em Roma, Berlim ou Varsóvia deverão ser sumariamente descartadas. Os próprios cineastas só deverão filmar guetos e favelas, e os festivais internacionais não poderão mostrar filmes israelenses sem que um mínimo de cineastas palestinos seja incluído no pacote, segundo o princípio das cotas, se não quiseram sofrer boicote.

Os autores da carta aberta não protestavam, naturalmente, contra os cineastas israelenses presentes na mostra, nem sugeriam que os filmes israelenses não deveriam ser exibidos. Consideravam, contudo, que “especialmente neste ano do assalto brutal a Gaza”, era preciso objetar o uso de um festival tão importante para veicular “campanha de propaganda de um regime que o bispo sul-africano Desmond Tutu, o ex-presidente Americano Jimmy Carter e o Presidente da Assembléia Gerald a ONU, Miguel d’Escoto Brockmann definiram como aparheid”. Com a evocação dessas autoridades máximas em programação de filmes para festivais internacionais de cinema, os autores encerraram seu emocionado apelo de ódio sabichão a Israel.

A carta foi redigida por um comitê formado por realizadores pouco conhecidos: o israelense Udi Aloni e os canadenses Elle Flanders, Richard Fung, John Greyson, Naomi Klein, Kathy Wazana, Cynthia Wright e b h Yael. O documento foi endossado por meia dúzia de celebridades em declínio e dezenas de celebridades sem expressão: os egípcios Ahmad Abdalla, Arab Lotfi, Yousry Nasrallah; os palestinos Hany Abu-Assad, Annemarie Jacir, Juliano Mer Khamis e Elia Suleiman; o libanês Ruba Atiyeh; os israelenses Ra’anan Alexandrowicz, Shai Carmeli Pollak, David Reeb, Guy Davidi, Eran Torbiner, Eyal Eithcowich, Yael Lerer, Eyal Sivan (Israel); o francês John Berger; os americanos Anthony Arnove, Joslyn Barnes, David Byrne, Eve Ensler, Jane Fonda, Danny Glover, Fredric Jameson, Mahmood Mamdani, Cornelius Moore, B. Ruby Rich, Wallace Shawn, Alice Walker, Jeremy Pikser, Howard Zinn; os ingleses Sophie Fiennes, John Pilger, Rebecca O’Brien, Pratibha Parmar, Paul Laverty, Ken Loach; os canadenses Mark Achbar, Dionne Brand, Igor Drljaca, Peter Fitting, Noam Gonick, Malcolm Guy, Mike Hoolboom, Bonnie Sherr, Min Sook Lee, Paul Lee, Kyo Maclear, Tessa McWatt, Ian Iqbal Rashid, Judy Rebick, Thomas Waugh; a australiana Fatima Mawas; os sul-africanos Zackie Achmat, Na-iem Dollie, Jack Lewis; o esloveno Slavoj Zizek.

O programador Bailey lamentou a decisão de Greyson, cujos filmes o Festival nunca deixara de selecionar, e esclareceu que sua mostra focava Tel Aviv em filmes que exploravam a cidade de maneira crítica e sob as mais diversas perspectivas. A mostra fora organizada com total independência, sem qualquer pressão externa. O foco e a decisão de homenagear Tel Aviv partiram dos organizadores, que selecionaram, para outras mostras do Festival, filmes de diretores palestinos, libaneses, egípcios. Em vão Cameron Bailey encorajou os revoltados a assistir aos filmes [8] antes fazerem um julgamento sobre a mostra: eles simplesmente se recusaram a vê-los. Sob a ótica dos que protestavam não importavam os filmes, mas o “foco” em Tel Aviv. O programador declarou-se chocado com essa atitude sem precedentes, pois entre os que a endossavam encontravam-se veteranos nas batalhas contra a censura (ele devia estar pensando nos nomes mais famosos da lista: Ken Loach, Alice Walker, David Byrne, Jane Fonda e Danny Glover): como podiam eles denunciar uma mostra de cinema sem terem visto os filmes? [9]

Ken Loach, Recbecca O’Brian e Paul Laverty responderam em conjunto no The Guardian que “boicotes não são iguais a censura” e que os cineastas deviam seguir a manada, isto é, “apoiar o crescente movimento para boicotar Israel”. Loach também era reincidente: retirara seu filme Looking for Eric (2009) do Festival Internacional de Melbourne ao descobrir que o certame era apoiado por Israel. Sua decisão foi acompanhada por três outros realizadores. Para Loach, nos últimos 60 anos, Israel, sustentado pelos EUA, teria mostrado seu desprezo por centenas de resoluções da ONU, pela Convenção de Genebra e pelas Leis Internacionais, demonstrando ser “um Estado violento e cruel”, o que se teria evidenciado nos “recentes massacres em Gaza”. Loach apoiava-se nas declarações de Naomi Klein em Ramallah enquadrando as ações de Israel na definição de Naomi Klein do que é o apartheid; e do judeu israelense Neve Gordon, que afirmou: “A mais acurada forma de descrever Israel hoje é como um Estado de apartheid.” [10].

Antes, em suas recaídas à extrema-direita, a esquerda justificava seu ódio sabichão condenando “o governo de Israel”. Hoje, essa esquerda não faz mais distinções entre os “governos” e o “Estado” de Israel. Como o Estado é permanente, a condenação dele implica o fim do país: o ódio sabichão estende-se sobre o povo de Israel, é anti-isralense como o nazismo era antijudeu, sem qualquer disfarce sabichão do tipo “não sou antissemita, mas antissionista” ou “não sou contra o povo israelense, mas contra o governo israelense”. Não se trata mais de “derrubar” um regime, um governo, um sistema e sua “política antipalestina”, trata-se de destruir um Estado, de derrubar um país, de liquidar um povo. O verdadeiro nome desse projeto é genocídio.

De onde partiu tamanho desvio da comunidade cinematográfica e da intelectualidade esquerdista em geral? Eles atenderam à Campanha Palestina para o Boicote Cultural e Acadêmico de Israel (Palestine Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel – PACBI) iniciada em Ramallah em 2004 (bem antes da guerra de Gaza), como parte de um movimento mundial ainda mais extenso contra Israel: o BDS. Para o PACBI, o Festival de Toronto “apoiaria o colonialismo, a limpeza étnica e o apartheid” ao focar ‘City-to-City’ na cidade de Tel Aviv. Os termos foram atenuados nos discursos dos cineastas, mas o conteúdo deles era o mesmo difundido pela máquina de propaganda das Autoridades Palestinas: “A ‘diversidade’ celebrada pelo foco é de fato baseada no apagamento da presença física dos palestinos, de sua cultura, herança e memória. A adjacente cidade de Jaffa e numerosas vilas foram esvaziadas de seus habitantes nativos para abrir caminho para Tel Aviv. Muitos refugiados de Jaffa e de outras vilas destruídas sobre as quais se ergueu Tel Aviv residem em Toronto hoje, sem direito de retornar para seus lares” [11].

E diante do “assalto a Gaza que deixou 1.440 palestinos mortos, 431 deles crianças e feriu outros 5.380”, celebrar Tel Aviv seria um “ato de cumplicidade com os crimes de guerra de Israel e outras graves violações das leis internacionais, uma cínica e imoral politização do Festival Internacional de Cinema de Toronto”.  Além de omitir os crimes de guerra do Hamas, atacando com foguetes Qassan as populações civis em Israel durante anos até sofrer a retaliação de dezembro de 2008, o PACBI exagerava ao afirmar que “os 1 milhão de meio de palestinos que ocupam a Faixa de Gaza são em ampla maioria refugiados violentamente expulsos de seus lares pelas forças sionistas em 1948” [12]. Como mais da metade da população de Gaza é de crianças, essa população jamais foi expulsa de Tel Aviv ou de qualquer outra cidade israelense. Nem seus pais foram expulsos de cidades israelenses. Apenas seus avôs e os pais de seus avôs podem ser considerados refugiados de 1948.

A irracional e malsã Campanha BDS que se abate sobre o mundo ganhou, como não poderia deixar de ser, espetacular apoio do Brasil. A Comissão Parlamentar Brasileira de Relações Estrangeiras e de Defesa Nacional recomendou ao Parlamento a não ratificação do Acordo de Livre Comércio [13] entre o MERCOSUL e o Estado de Israel. Isso até que “Israel aceite a criação do Estado Palestino nas fronteiras de 1967”. Segundo o Movimento BDS, essa decisão é “um explícito ato de pressão sobre Israel para cumprir com as Leis Internacionais, e uma rejeição de anos de incessante lobby israelense […] um enorme golpe para a economia de Israel e suas relações exteriores. Ela coloca um massivo bloqueio à assinatura do acordo […]. As exportações de Israel ao MERCOSUL somaram cerca de 600 milhões de dólares em 2006. Israel investiu pesadamente na pressão para o acordo, focando particularmente o Brasil, a maior economia do MERCOSUL e o parceiro politicamente mais poderoso.”

“Em 2005”, prossegue o relator do BDS, “Ehud Olmert, visitou o Brasil para obter o apoio de Lula para o acordo. Um mês atrás, o Ministro de Relações Exteriores e Israel, Avigdor Liberman viajou ao Brasil para apressar a ratificação do acordo, rejeitado desde o início das negociações pela  sociedade civil do MERCOSUL. No seio do Comitê BDS Nacional Palestino (BNC) [14], a Campanha Anti-Apartheid (Palestinian Grassroots Anti-Apartheid Wall Campaign) trabalhou junto com intelectuais brasileiros, movimentos sociais, partidos e políticos para bloquear a ratificação da FTA. A Frente para a Defesa do Povo Palestino (Front for the Defense of the Palestinian People) e a Frente Parlamentar contra a Ratificação do FTA (Parliamentary Front Against the Ratification of the FTA) entraram em ação. Em janeiro, uma carta do BNC foi entregue em mãos ao Presidente Lula.”

Como resultado, a Comissão concordou em abrir audiência pública antes de votar. Oscar Daniel Jadue, vice-presidente da Federação Palestina do Chile, interveio argumentando que a ratificação seria uma violação das Leis Internacionais em benefício de um país que  “aniquila o povo palestino”. Arlene Clemesha, professora de História Árabe da USP e membro da Rede de Coordenação das Nações Unidas sobre a Palestina [15], defendeu que “os caminhos da paz” requerem que “as forças internacionais compilam Israel a pôr fim à ocupação militar do território palestino”. A Comissão Parlamentar concordou com Clemesha e Jadue e recomendou o congelamento do acordo como medida de pressão política. “O governo Lula foi corajoso e deve dizer publicamente que o acordo está congelado até o reinício das negociações de paz”, declarou Nilson Mourão (PT-AC).

Jamal Juma, coordenador da Campanha Palestina Anti-Apartheid, exultou: “Depois de anos de campanha, estamos extremamente felizes com esta decisão. É uma vitória maior que se tornou possível apenas pelo amplo e determinado apoio da sociedade civil do Brasil. […] Lieberman tentou seduzir o Brasil com a ilusão de que poderia se tornar ‘mediador’ na região se provasse ‘imparcialidade’ em relação aos interesses israelenses […]. Entretanto, os políticos brasileiros não caíram na armadilha. Agora pedimos à Autoridade Palestina e à Autoridade Nacional Palestina considerar o ‘Não’ à FTA como prioridade para suas políticas externas regionais. A luta contra a FTA ainda não acabou […] [16].

Evidentemente, a luta dos boicotadores de Israel só acabará quando Israel acabar, realizando plenamente seu projeto de genocídio. Até lá, o movimento BDS contará com colaboradores ativos na esquerda mundial em suas cada vez mais freqüentes guinadas à extrema-direita; com a “sociedade civil brasileira” e com as autoridades petistas institucionalizando descaradamente o ódio sabichão; deteriorando as antigas relações de convivência pacífica entre as comunidades árabe e judaica no Brasil; fazendo prevalecer sua própria agenda política sobre a defesa imparcial dos interesses nacionais; sabotando discretamente, mas com firmeza, nossas tradições históricas diplomáticas de imparcialidade em conflitos internacionais, em especial no Oriente Médio, onde o lado mais fraco não é o palestino, cujo enorme poder se torna visível em sua penetração abrangente em todo o mundo; mas o israelense, vítima de um covarde Apartheid global, impingido por dezenas de grandes e poderosas nações contra uma única, minúscula e isolada nação, cercada de inimigos por todos os lados.


[1] “As tropas israelenses deixaram a Faixa de Gaza […] após 38 anos de ocupação […]. Milhares de palestinos triunfantes entraram em assentamentos judeus vazios, depredando algumas sinagogas – várias delas foram incendiadas. O governo israelense decidira deixar as mais de 20 sinagogas de Gaza intactas, apesar das preocupações da Autoridade Palestina de que não poderia protegê-las. O líder palestino, Mahmoud Abbas, disse que esse é um dia “histórico e cheio de alegria” para seu povo. […] “Eles destruíram nossas casas e nossas mesquitas, hoje é nossa vez de destruir as deles”, disse um palestino […]”. Israel desocupa Faixa de Gaza depois de 38 anos. BBC Brasil, 12 set. 2005.

[2]Israel is a wonderful place to live and we are happy to be there. Israel is a free and open country.  If I were given the choice, I would rather live in Israel as a second class citizen than as a first class citizen in Cairo, Gaza, Amman or Ramallah”.  TOAMEH, Khaled Abu. Islam Today. Second of a Six Part Series: Tolerance and Intolerance in the Islamic World, held at the Palais des Nations during the Durban Review Conference. All members of the Panel are Practicing Muslims. Hudson New York, 19 mai. 2009. URL: http://www.hudsonny.org/2009/05/islam-today-1.php.

[3] Postado temporariamente em Vimeo: http://www.vimeo.com/greyzone.

[4] KOLE. Canadian filmmaker John Greyson Boycotts Tel Aviv Int’l LGBT Film Festival Submitted. BDS News, 4 abr. 2009. URL: http://www.caiaweb.org/node/1292.

[5] Ver as entrevistas de Greyson e Hochner: Canadian filmmaker boycotts Tel Aviv’s queer film fest. YouTube URL: http://www.youtube.com/watch?v=tx6UqLNvVio.

[6] The Toronto Declaration: No Celebration of Occupation. An Open Letter to the Toronto International Film Festival, 2 set. 2009. URL: http://torontodeclaration.blogspot.com/2009/09/toronto-declaration-no-celebration-of.html.

[7] LEVY-ALZENKOPF, Andy. Brand Israel set to launch in GTA. Canadian Jewish News, 28 ago. 2008.

[8] Kirot (2009), de Danny Lerner; Phobidilia (2009), de Yoav e Doron Paz; Bena (2009), de Niv Klainer; Jaffa (2009), de Keren Yedaya; The Bubble (A bolha), de Eytan Fox; Historia Shel Hakolnoah Israeli / Historory of the Israeli Cinema (2009), de Raphaël Nadjari; Ha-Chayim Al-Pi Agfa / Life According to Agfa (1992), de Assi Dayan;  Einayim G’dolot / Big Eyes (1974), de Uri Zohar; e a clássica comédia Te’alat Blaumilch / Big Dig, (1969), de Ephraim Kishon. A lista foi divulgada no site do jornal Haaretz, e as informações completadas através de pesquisa no IMDB. URL: http://www.haaretz.com/hasen/spages/1110750.htmlspages/1110750.html; http://www.imdb.com.

[9] BAILEY, Cameron. An Open Letter on ‘City to City: Tel Aviv’. Toronto International Film Festival, 28 ago. 2009. URL: http://www.tiff.net/livefromthefestival/openlettercitytocity.

[10] LOACH, Ken; O’BRIEN, Rebecca; LAVERTY, Paul. Boycotts don’t equal censorship. The Guardian, 1° set. 2009. URL: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/libertycentral/2009/sep/01/israel-palestine-boycott-film.

[11] TIFF Celebrating Israeli colonialism, ethnic cleansing and apartheid! City-to-City Spotlight on Tel Aviv at the Toronto International Film Festival. Occupied Ramallah, 27 ago2009. URL: http://www.pacbi.org/etemplate.php?id=1085etemplate.php?id=1085.

[12] TIFF Celebrating Israeli colonialism, ethnic cleansing and apartheid! City-to-City Spotlight on Tel Aviv at the Toronto International Film Festival. Occupied Ramallah, 27 ago2009. URL: http://www.pacbi.org/etemplate.php?id=1085etemplate.php?id=1085.

[13] Free Trade Agreement – FTA.

[14] Palestinian National BDS Committee (BNC), que inclui as seguintes organizações: Palestinian Non-Governmental Organizations Network (PNGO), Occupied Palestine and Golan Heights Advocacy Initiative (OPGAI), Grassroots Palestinian Anti-Apartheid Wall Campaign (Stop the Wall), Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel (PACBI), Council of National and Islamic Forces in Palestine, Palestinian General Federation of Trade Unions (PGFTU), General Union of Palestinian Workers, Global Palestine Right of Return Coalition, Federation of Unions of Palestinian Universities’ Professors and Employees, General Union of Palestinian Women (GUPW), Charitable Organizations Union, Independent Federation of Unions – Palestine (IFU), Palestinian Farmers Union (PFU), National Committee for the Commemoration of the Nakba, Civil Coalition for Defending the Palestinians’ Rights in Jerusalem, Coalition for Jerusalem, Union of Palestinian Charitable Organizations, Palestinian Economic Monitor, Union of Youth Activity Centers – Palestinian Refugee Camps (UYAC).

[15]  United Nations Coordinating Network on Palestine.

[16] Brazilian Parliament Calls for the Freeze of the Israel – Mercosur Free Trade Agreement. Posted by RORCoalition on Sun, 09/13/2009. This decision is an enormous blow for Israel’s economy and foreign relations. URL: http://bdsmovement.net/?q=node/543.

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PROCURA-SE O MINISTRO DA DEFESA DO IRÃ

Procurado...

Procurado...

Desde novembro de 2007, o general Ahmad Vahid, recentemente nomeado Ministro da Defesa do Irã, é alvo de uma Circular Vermelha (Red Notice) emitida pela INTERPOL a pedido das autoridades argentinas. Ele é Procurado (Wanted) por seu envolvimento, como comandante da Força Quds, “unidade especial” da Guarda Revolucionária do Irã, no atentado terrorista de 18 de julho de 1994 contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em Buenos Aires, que matou 85 pessoas e feriu 150. Vahid foi indicado para o cargo pelo Presidente Mahmoud Ahmadinejad e a indicação foi aprovada a 3 de setembro de 2009 pelo Majlis, o Parlamento do Irã.

A Circular Vermelha emitida pela INTERPOL não é uma ordem de prisão, mas um dos meios que a organização possui de informar seus 187 países-membros sobre uma ordem de prisão emitida por autoridade judiciária nacional, nesse caso pela Argentina. Este país-membro indiciou nove indivíduos por envolvimento no atentado à AMIA; a INTERPOL endossou a Circular Vermelha para seis deles, incluindo Ahmad Vahidi, em decisão tomada na sua Assembléia Geral em Marrakesh. A INTERPOL ajuda as forças policiais nacionais a identificar e localizar os Procurados, respeitando a soberania e a independência de cada país-membro. Ela não pode ordenar a prisão dos Procurados, decisão que deve ser tomada por cada país-membro. Mas muitos países-membros consideram a Circular Vermelha uma ordem válida de prisão preventiva, especialmente se há compromisso com o país que emitiu a ordem através de tratado de extradição bilateral. No caso do Ministro Vahid, a INTERPOL encoraja seus escritórios nacionais a cooperar em base bilateral e oferece toda ajuda necessária[1].  

O caso requer algumas considerações sobre os problemas delicados que acarreta a presença cada vez mais ostensiva do Irã na América Latina. Imaginemos o Ministro Vahid integrando a comitiva do Presidente Mahmoud Ahmadinejad em sua anunciada visita ao Brasil (e ao Equador): cumprirão os nossos governantes o Tratado de Extradição entre o Brasil e a Argentina, prendendo e extraditando o ilustre visitante, recebido em tapete vermelho? No Brasil de Lula, que se aproxima de modo dissimulado das ditaduras que Chávez corteja abertamente, é interessante imaginar as figuras caligarescas de Celso Amorim, Marco Aurélio Garcia e Tarso Genro justificando o rompimento do Tratado firmado em 1961. Eles agiriam sob a pressão de um Hugo Chávez pronto para invadir o Brasil com seu exército revolucionário caso a Polícia Federal, a contrapelo do governo, decidisse cumprir a Circular Vermelha e o artigo primeiro do Tratado: “As Altas Partes Contratantes obrigam-se à entrega recíproca, nas condições estabelecidas pelo presente Tratado e de conformidade com as formalidades legais vigentes no Estado requerido, dos indivíduos que, processados ou condenados pelas autoridades judiciárias de uma delas, se encontrem no território da outra”.

O Ministério das Relações Exteriores da Argentina já divulgou uma nota oficial considerando a designação do general Ahmad Vahid para o Ministério da Defesa do Irã como “uma afronta” à Justiça de seu país, assim como às vítimas do ataque monstruoso. O vice-chanceler de Israel, Dani Ayalon advertiu, com muita propriedade, que a nomeação do Ministro Vahid “é mais uma peça do mosaico” que reflete a influência do Irã sobre a América do Sul, tendo sua base logística na Venezuela, podendo trazer sérios riscos à região.

Indiferente à afronta iraniana ao país-irmão, Hugo Chávez levou mais longe sua revolução bolivariana, aliando-se a qualquer ditadura que se proclame contra o imperialismo americano: da castrista às islâmicas. Em seu périplo atual, ele visitou a Síria, a Líbia, a Argélia e o Irã. Na Síria, afinado com o Presidente Bashar al-Assad, que se diz “pronto para a paz, ao contrário de Israel”, depois de suspender as negociações de paz em dezembro de 2008 após a ofensiva israelense em Gaza, provocada pelo lançamento de milhares de foguetes por um Hamas armado pela Síria e pelo Irã, Chávez declarou que “o Estado de Israel tornou-se um Estado genocida, um Estado assassino, inimigo da paz”.

O caudilho venezuelano acusou Israel de ser “parte dos esforços imperialistas para dividir o Oriente Médio… O mundo inteiro sabe disso. Porque o Estado de Israel foi criado? Para dividir. Para impedir a união do mundo árabe. Para assegurar a presença do Império Americano em todas essas terras […]. É agora ou nunca a hora de libertar o mundo do imperialismo e mudar o mundo unipolar num mundo multipolar […]. É hora de levantar novamente a bandeira de Nasser por socialismo, poder popular e libertação do povo árabe”, declarou, evocando o nacionalismo egípcio pan-árabe do nefasto Jamal Abdel Nasser[2], antes de ir celebrar com Moammar Gaddafi o aniversário de seus 40 anos no poder na Líbia…[3].

Na República Islâmica do Irã, que Chávez visitou pela sétima ou oitava vez, tendo já firmado com Ahmadinejad “mais de 200 protocolos de cooperação econômica, energética, industrial, cultural e sanitária”[4], declarou que seus dois países “idealistas e revolucionários” estarão “lado a lado na campanha contra os poderes arrogantes do mundo”, ajudando “nações revolucionárias através da futura expansão e consolidação de seus laços”. Ahmadinejad declarou que “a expansão das relações Teerã-Caracas é necessária, dados os interesses, amigos e fés comuns”[5]. Causa espanto que desejando “expandir-se” na América Latina, o Irã achincalhe a Argentina e seus aliados, nomeando para Ministro da Defesa um general procurado pelo pior atentado terrorista na história recente da América Latina. E acolha os protestos do caudilho venezuelano contra uma base militar norte-americana na Colômbia, iniciando suas ingerências “idealistas” e “revolucionárias” na América Latina. Uma mão suja lava a outra: Chávez recompensa o apoio de Ahmadinejad defendendo o programa nuclear do Irã, garantindo ser um “direito soberano dos povos” o de ter “todos os equipamentos e estruturas para usar a energia atômica para fins pacíficos” e que “não há uma única prova de que o Irã esteja construindo uma bomba atômica […]. Logo nos acusarão de também estar construindo uma bomba atômica na Venezuela”. Essa declaração revela qual o principal objetivo comum entre Irã e Venezuela: Chávez pretender construir, com a ajuda do Irã, uma vila nuclear em Caracas…

Na nova corrida nuclear ora empreendida por arremedos de Hitler no Terceiro Mundo, notícias inquietantes começam também a arranhar a imagem do Brasil como país confiável. Além do empenho da Administração Lula em aproximar-se de ditaduras islâmicas, seguindo a estratégia terceiro-mundista ditada por Cuba[6], o Ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, declarouem 2003 à BBC Brasil que o Brasil deveria buscar o conhecimento necessário à fabricação da bomba atômica[7]; em 2004 houve um primeiro incidente com a Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA), que encontrou certa resistência às inspeções das centrífugas de enriquecimento de urânio nas usinas de Resende[8]; em 2007, o general José Benedito de Barros Moreira, secretário de Política, Estratégias e Relações Internacionais do Ministério da Defesa, defendeu na TV a necessidade do Brasil possuir bombas atômicas para “proteger seus recursos naturais”[9].

Agora, o livro A Física dos explosivos nucleares, divulgando a tese de doutorado Simulação numérica de detonações termonucleares em meios híbridos de fissão-fusão implodidos pela radiação, defendida pelo físico Dalton Ellery Girão Barroso no Instituto Militar de Engenharia (IME) do Exército, confirmou que o Brasil detém conhecimento e tecnologia para desenvolver a bomba atômica e despertou, ao reproduzir informações sigilosas sobre a ogiva nuclear americana W-87, novas suspeitas na AEIA, que solicitou a apreensão da obra. Militares insatisfeitos com essa “ingerência” levaram o caso ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, que desacatou a agência e manteve a polêmica em segredo, até que ela vazou na imprensa[10]. Também é sintomático que um jornalista próximo dos círculos do poder como  Paulo Henrique Amorim defenda um Brasil-potência, um Brasil atômico: “O Brasil precisa da bomba atômica”, escreveu o infeliz, “pois só assim o país será respeitado pelo mundo”. [11] Como se o mundo “respeitasse” a Coréia do Norte, o Paquistão…

Quanto à alegação de que o Irã estaria desenvolvendo apenas um programa de “energia atômica para fins pacíficos”, seria universalmente aceita se não soasse tão sinistra nas bocas de Ahmadinejad e Chávez. Eles mesmos fazem o mundo duvidar de suas alegações no momento mesmo em que as formulam uma vez que afirmam, antes ou depois, ou simultaneamente que “Israel será varrido em breve do mapa” e que o “Estado judeu é inimigo da paz”. Nesse contexto de cinismo e dissimulação, desenvolver um programa de “energia nuclear para uso pacífico” significa tanto desenvolver um programa de energia nuclear para uso pacífico quanto fabricar bombas atômicas para usá-las contra o inimigo da paz – seja chantageando Israel para que ceda aos ditames da “causa palestina” (cuja utopia é o fim do Estado Judeu), seja destruindo Israel à velha maneira de Dr. Strangelove, sem esquecer o milhão de árabes ali residentes, para legar uma liberada Palestina radioativa aos “queridos” palestinos que sobrarem da explosão…

 


 

[1] INTERPOL statement clarifying its role in case involving Iranian minister wanted by Argentina. INTERPOL, 4 set. 2009. URL: http://www.interpol.int/Public/ICPO/PressReleases/PR2009/PR200980.asp.

[2] Israel a ‘genocidal’ ‘killer’ state, says Chávez. Islâmi Davet, 4 set. 2009. URL: http://www.islamidavet.com/english/2009/09/04/israel-a-genocidal-killer-state-says-chavez/.

[3] Chávez Blasts Israel while in Syria. Islâmi Davet, 4 set. 2009. URL: http://www.islamidavet.com/english/2009/09/04/chavez-blasts-israel-while-in-syria.

[4] Chávez termina sua oitava visita oficial ao Irã. O Estado de S. Paulo, 6 set. 2009. URL: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,chavez-terminasua-oitava-visita-oficial-ao-ira,430363,0.htm.

[5] Ahmadinejad Seeking to Boost Global Resistance against Arrogant Powers. Islâmi Davet, 5 set. 2009. URL: http://www.islamidavet.com/english/2009/09/05/ahmadinejad-seeking-to-boost-global-resistance-against-arrogant-powers/.

[6] Bomba atômica tornaria Brasil um ‘pária’, diz diplomata. O Globo, 16 nov. 2007. URL: http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL183441-5598,00.html; Bomba atômica no Brasil. Veja, sem data. URL: http://veja.abril.com.br/em-dia/bomba-atomica-303111.shtml.

[7] FIGUEIRÓ, Asdrúbal. Brasil deve dominar tecnologia da bomba atômica, diz ministro. BBC Brasil, 5 jan. 2003. URL: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2003/030105_amaralafdi.shtml.

[8] QUADROS, Vasconcelo. Domínio sobre enriquecimento de urânio reforça preocupação. Terra / JB Online, 5 set. 2009. URL: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3959843-EI306,00.html.

[9] Defesa atômica. O Estado de S. Paulo, 17 nov. 2007. URL: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20071117/not_imp81583,0.php.

[10] QUADROS, Vasconcelo. Brasil já tem tecnologia para desenvolver bomba atômica. Terra / JB Online, 5 set. 2009. URL: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3959788-EI306,00.html.

[11] AMORIM, Paulo Henrique. O Brasil precisa da bomba atômica. Blog Paulo Henrique Amorim. URL: http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=17158.

UM POVO ACIMA DO BEM E DO MAL

A Palestinian Girl's Heroism

Heroísmo de uma garota palestina: queimando, feliz, as próprias mãos.

 

A sociedade palestina organizada pelo Hamas na Faixa de Gaza supera todos os limites da imaginação ocidental em seu retorno à barbárie. O grupo terrorista que assumiu democraticamente o poder em Gaza, depois de sacrificar mais de mil civis palestinos em sua guerra estúpida contra Israel, demonstra agora para o mundo civilizado, paralisado e quase embevecido diante de tantos horrores legais, que a primitiva lei islâmica – a shari’a – está sendo cumprida à risca; a despeito de séculos de tentativas sempre renovadas – e freqüentemente fracassadas – de civilização.

Inspirados na vida de Maomé (que recebeu Aixa, de sete anos, das mãos do pai Abu-Becre, amigo do profeta, para ser sua nova esposa adolescente, como conta Virgil Gheorghiu, em A vida de Maomé), os chefetes do Hamas organizaram, no dia 29 de julho de 2009, naquela faixa de território, um mega-evento de união massiva de militantes adultos com meninas pré-adolescentes. Uma monstruosa “festa do casamento pedófilo”, com 450 enlaces simultâneos.

Autoridades do Hamas, entre as quais Mahmud Zahar, um dos chefetes mais respeitados, estiveram presentes para cumprimentar os felizes barbados e suas noivas-meninas, já perfeitamente convencidas, por toda a sociedade doentia em que nasceram, e em primeiro lugar por suas mães desnaturadas, que deveriam se sentir felizes abusadas em casamento forçado com homens muito mais velhos. Uma prova de humildade, obediência e sacrifício, os mais altos valores ditados por uma religião de paz, amor e bondade.

“Estamos dizendo ao mundo e à América que não podem nos negar alegria e felicidade”, declarou Zahar aos noivos, todos de terno preto, e recentemente liberados do campo de refugiados de Jabalia e, portanto, cheios de amor pra dar. Cada noivo recebeu um dote de US$500 do Hamas, que anunciou que seus trabalhadores também contribuíram com 5% de seus salários para os presentes de casamento. Não deixem de ver o clipe postado no site Road 90 , com as preciosas informações aqui reproduzidas (as declarações no clipe não têm legendas). É simplesmente espantoso: o autor da postagem chama a atenção para uma cena na altura dos 4 minutos, com o desfile dos marmanjos com suas noivinhas, de maquiagem carregada, como se fossem mulheres maduras, prontas para satisfazerem seus homens famintos de sexo no leito nupcial.

É esta Salò islâmica que o mundo incentiva, acarinha, defende e abençoa contra o “Pequeno Satã” Israel quando este Estado democrático, agredido, se defende de ataques terroristas; é esta sociedade doentia que abusa sistematicamente de suas crianças que o mundo irriga com milhões de dólares em ajuda humanitária, sob a liderança da Administração Obama, que acaba de destinar US$200 milhões para a Autoridade Palestina, sem deixar de dar continuidade a outros programas assistencialistas que somaram mais de U$600 milhões em 2008; além de US$184,7 milhões doados à UNRWA, uma “mãe” para os refugiados palestinos.

Um desses auspiciosos programas foi anunciado pelo novo “Consulado Geral Americano Jerusalém” (que aponta para uma Jerusalém palestina e, logo, Judenfrei) e pelo Dr. Adel Yahya, diretor da Associação Palestina de Intercâmbio Cultural (Palestinian Association for Cultural Exchange – PACE): o Fundo Cultural de Preservação do Departamento de Estado Norte-Americano “ajudará três históricas aldeias da Faixa Ocidental – Beitin, Aboud e Al-Jib – a preservar sua herança cultural e promover destinação turística”. Quantas vezes você não sonhou em excursionar com toda sua família por Beitin, Aboud e Al-Jib? Agora, graças ao Departamento de Estado Norte-Americano, sob a Presidência de Barak Obama, seu sonho poderá tornar-se realidade.

Enfim, é para um governo que já demonstrou cabalmente o desprezo pela vida humana e que desvia a ajuda humanitária que recebe do Ocidente para patrocinar o terror contra o Ocidente, a pedagogia do ódio aos judeus e agora também as “alegrias” da pedofilia, que a Administração Lula, como não podia deixar de ser, também se comprometeu a contribuir com US$10 milhões em ajuda humanitária. Sem falar na partida de futebol oferecida pelo Brasil em favor da “paz”, programada apenas em território palestino, e só depois do protesto israelense concedida também em Israel, com alguns ídolos da seleção brasileira, como Ronaldinho, novo astro do cinema iraniano, já contratado para aparecer num filme de propaganda antissionista, onde uma pobre menina palestina desgraçada pelo Exército de Israel sonha em ver o Fenômeno…

Não se pode condenar a ansiedade de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia em colocar seus ilustres traseiros nos cobiçados assentos do Conselho de Segurança da ONU. Nem se pode condenar a ajuda humanitária do mundo ocidental à Autoridade Palestina, sempre que ela decide imolar sua população e destruir suas casas entrando em guerra com Israel na esperança periodicamente renascida de aniquilar um Estado moderno com pedras e foguetes.

Contudo, em nome da civilização, ou melhor, do sonho que todo homem minimamente civilizado acalenta de civilização, o Ocidente deveria condicionar suas ajudas humanitárias a um mínimo de humanitarismo. Ou seja, a uma efetiva campanha, a ser levada a cabo nos territórios de barbárie, contra o terrorismo como forma de governo, contra a pedagogia do ódio nas escolas e contra o abuso de crianças legalizado em massa. O mundo, porém, ajuda incondicionalmente os palestinos, fechando os olhos para todos os males praticados por esse povo abençoado pelas mídias e, assim, perigosamente colocado e mantido acima do bem e do mal.