SERGIO PAULO ROUANET E OS TERRÍVEIS SIMPLIFICADORES

 

Pilhas de ossos: Holocausto

No artigo “Os terríveis simplificadores” [1], o ensaísta Sergio Paulo Rouanet exercitou sua retórica liberal esclarecida recordando o historiador Jacob Burckhardt, que disse no final do século XIX que o século seguinte seria o dos “terríveis simplificadores”. A profecia de Burckardt teria se realizado com Adolf Hitler e Josef Stálin, que simplificaram a história, reduzindo-a a um confronto maniqueísta entre o bem e o mal, com o resultado da produção em massa de “seres humanos radicalmente simplificados, convertidos em cinzas e ossadas”.  Rouanet alertava que os simplificadores não haviam desaparecido. Ele os percebia operando por meio da “distorção holística”, ou seja, “a tendência a ver o todo como um conjunto indiferenciado, sem perceber que qualquer totalidade é tensa, que qualquer harmonia é aparente, que todo conjunto é fraturado por forças contraditórias”.

O ensaísta afirmava ser preciso opor aos simplificadores o que Edgar Morin chamava de “pensamento complexo”, para evitar generalizações espúrias. Para Rouanet, os simplificadores de hoje atuariam em várias frentes, mas, sobretudo, na relação com os Estados Unidos e com Israel. Na primeira frente, a distorção holística teria como foco uma totalidade abstrata que eles ignoravam ser composta de duas esferas que muitas vezes se opunham: governo e sociedade. Para os simplificadores, só existiria um conjunto homogêneo de “americanos”, representado por Bush. Rouanet qualificava, contudo, o atual governo norte-americano como um “grupo de extrema direita (sic) que tomou o poder (sic) na Casa Branca e no Pentágono, composto por fanáticos religiosos, por acadêmicos neoconservadores e por representantes de interesses empresariais”.

Rouanet solidarizava-se com os simplificadores que criticava ao confundir a “posição anti-Bush” (que compartilhava) com uma “posição anti-americana” (que supostamente não compartilhava). Aqui Rouanet destacava o movimento pacifista norte-americano, em radical oposição aos que “fizeram e apoiaram a guerra contra o Iraque” e que hoje se “opõem à ocupação daquele país”. Para Rouanet, a identificação da administração Bush com os EUA também tornava “invisível o corte qualitativo que ela representa com o passado”. Ou seja, “há uma enorme diferença entre a antiga política externa herdada do período da Guerra Fria, que bem ou mal reconhecia a existência do resto do mundo, e a nova doutrina estratégica dos EUA, que proclama a legitimidade de todos os meios considerados necessários para manter a hegemonia mundial de Washington”. Como se vê, Rouanet também usava a palavra “EUA” para definir o atual governo norte-americano, e ao considerar sua política externa como fascista, não distinguia entre EUA e Bush, tal como acusava os “simplificadores”.

Assim, logo ele adiantava que os “simplificadores” de esquerda (como ele) não constituíam um problema: “Os piores simplificadores vêm do campo dos que apóiam Bush, porque cometem duas vezes a distorção holística, e não apenas uma”. Aqui, a retórica de Rouanet dava mais uma entortada. Ele afirmava que os “Estados Unidos” eram um universal vazio (sic), sendo a atitude positiva com relação a esse universal vazio a primeira distorção; além disso, os partidários de Bush (que ele identificava aos “Estados Unidos”) consideravam todos os críticos não-americanos de Bush culpados de antiamericanismo:

Do seu ponto de vista, não deixam de ter razão, porque, se de fato o governo Bush se identifica com o país, atacar Bush é ser antiamericana. Mas, com isso, seu campo visual exclui a percepção dos outros críticos, dos que não somente não são antiamericanos, mas criticam Bush exatamente por levarem a sério os valores de liberdade e democracia embutidos no Iluminismo norte-americano. Esses simplificadores pró-Bush floresceram na França, na esteira dos atentados do 11 de Setembro. Os ‘novos filósofos’, hoje não tão novos assim, fizeram questão de dizer que as críticas à invasão do Iraque nada mais eram que a ressurreição dos velhos clichês do ‘antiamericanismo vulgar’, endêmico entre os intelectuais europeus desde os tempos da Guerra Fria. Jean-François Revel publicou um livro deplorando o que ele considera a ‘obsessão’ antiamericana. A verdade é que, se muitos críticos de Bush se enquadram nessa categoria, em sua maioria os críticos da invasão do Iraque estavam simplesmente condenando uma guerra imoral e ilegal, o que era seu direito e, quase diria, seu dever.

Defendendo, em última análise, o antiamericanismo como dever legítimo dos esquerdistas, Rouanet acabava por considerar intelectuais como André Gluksman, Bernard Henri-Levy e Jean-François Revel como os mais perigosos “simplificadores” –  comparáveis aos dois “terríveis simplificadores”– Hitler e Stalin. Mas o antiamericanismo foi apenas um preâmbulo para o verdadeiro alvo da retórica de Rounaet: Israel. Aqui, ele identificava a segunda frente da distorção holística que compreenderia o governo de Israel, a sociedade israelense e o povo judeu como um “todo”. Essa homogeneização fazia com que “uma crítica em si legítima ao governo de Ariel Sharon possa degenerar numa contestação a Israel – e mesmo numa posição antissemita – e no risco simétrico de que qualquer crítica a Sharon, mesmo sem essas características, possa ser interpretada, erroneamente, como anti-israelense e antissemita”. O objetivo dos contor4cionismos retóricos de Rouanet tornava-se mais claro: ele queria criticar Sharon (“Israel”) à vontade, sem medo de ser tomado por um antissemita.

Rouanet reconhecia que “boa parte da esquerda mundial está indo além da crítica a Sharon: ela está demonizando o próprio Estado de Israel. E está fazendo algo de infinitamente grave: pelo menos por omissão, está sendo cúmplice de uma nova onda antissemita, a mesma que tem incendiado sinagogas na França e na Turquia”. Ele observava que o antissemitismo de cunho fascista, latente no Brasil desde o Estado Novo, e difundido no tempo de Vargas por figuras como Gustavo Barroso, estava mudando de lado, que um antissemitismo que se pretendia de esquerda se generalizava cada vez mais: “Um partido socialista tem entre seus quadros um editor neonazista que nega a realidade do Holocausto. O direito desse neonazista de divulgar suas opiniões foi defendido, em nome da liberdade de expressão, por um juiz cuja origem ideológica era aparentemente de esquerda. Tenho ouvido jovens entusiastas, com impecáveis credenciais petistas, exprimirem seu repúdio a Sharon dizendo coisas que poderiam ter saído dos Protocolos dos sábios de Sion.”

Mas Rouanet identificava também “simplificadores no campo oposto”. Para ele, “muitos defensores de Israel concluem que qualquer crítica às atuais políticas governamentais daquele país tem características anti-israelenses e antissemitas. Vêem antissemitas em toda parte, como os antissemitas vêem judeus em toda parte”. Rouanet apontava que esses eram os piores “simplificadores”, já que suas simplificações “são também direta ou indiretamente responsáveis por terríveis catástrofes humanas”. Teria sido uma simplificação desse tipo, “inspirada por um anti-americanismo primário”, que teria levado ao atentado contra as Torres Gêmeas, que teria por sua vez alimentado “a alegria obscena com que milhares de pessoa comemoraram esse ato de barbárie, e que fez com que muitos intelectuais no fundo se regozijassem com o ataque”.

Seria ainda uma simplificação, inspirada pelo ódio contra Israel, que estaria “na raiz dos abomináveis atentados suicidas praticados pelos palestinos e que faz com que muitos brasileiros que se dizem racionais dêem estatuto heróico aos mártires, ao invés de lamentarem a atrocidade do seu ato de fanatismo”. Seriam também “simplificadores terríveis” os americanos que “declararam guerra ao mundo islâmico, sem se darem conta de que a vasta maioria da população muçulmana se dissociou do terrorismo”, e os membros do governo israelense “que tratam toda a população palestina como se fosse composta de terroristas”. Seriam, enfim, “terrivelmente simplificadores os que rotulam de antiamericanos e antissemitas todos os críticos de Bush e de Sharon”.

Tendo a retórica anti-distorção holística de Rouanet provado que os americanos, os membros do governo israelense, os defensores de Bush e de Sharon são “terríveis simplificadores”, ele concluía que “chegou a hora de acabar com as simplificações”. E oferecia-nos então uma receita de “pensamento complexo”:

No caso da relação com os Estados Unidos, uma esquerda mundial que se deixe guiar pela lógica do pensamento complexo saberá distinguir entre o governo Bush e os segmentos crescentes da população americana que se opõem à política belicista da atual administração. Seus interlocutores serão Noam Chomsky, Susan Sontag e Michael Moore, e não os pastores fundamentalistas e os magnatas do petróleo que hoje em dia circulam nos corredores de Washington. No caso da relação com Israel, essa mesma esquerda saberá […] fazer a distinção entre Israel e o judaísmo e, portanto, não imaginará que os interesses do Estado de Israel sejam representados pelos partidos religiosos ultra-ortodoxos, que, invocando as promessas feitas por Deus a Abraão, se opõem a qualquer retirada dos territórios ocupados. Em conseqüência, ela se identificará com os grupos de mentalidade secular que desejam sinceramente o entendimento com os árabes, e não com a coligação de partidos de direita e de extremistas religiosos dirigida pelo primeiro-ministro Sharon. Seus interlocutores serão pessoas como o romancista Amos Oz e o cineasta Amos Gitai ou os aviadores que se recusaram a atacar territórios palestinos. Seu modelo poderá ser o plano de paz conhecido como Iniciativa de Genebra, recém-negociado entre pessoas de boa vontade, com participação de políticos israelenses. Essa iniciativa, mesmo simbólica, mostra que ainda há lugar para a razão, num conflito complexo que duas intolerâncias rivais parecem condenar à mais extrema das formas de simplificação – o extermínio mútuo.

Não poderia, é claro, haver maior simplificação. Reduzir o governo Bush a um grupo de “pastores fundamentalistas e magnatas do petróleo circulando nos corredores de Washington” e o governo Sharon a uma coligação de “partidos de direita e de extremistas religiosos ultra-ortodoxos que invocam as promessas feitas por Deus a Abraão para se opor a qualquer retirada dos territórios ocupados” é de uma ignorância assustadora. É por ignorância que Rouanet aponta, como interlocutores americanos para uma nova esquerda mundial de “pensamento complexo”, os intelectuais Noam Chomsky e Susan Sontag e o propagandista Michael Moore, e como interlocutores israelenses o escritor Amos Oz e o cineasta Amos Gitai.

Os interlocutores escolhidos a dedo já estavam, contudo, em desacordo: Sontag declarava não acreditar em nada do que Chomsky escrevia. Intelectual americano e judeu que, por razões obscuras, odeia Israel com a mesma intensidade quanto odeia os Estados Unidos, Chomsky foi desmistificado até no filme Tolerância zero, onde foi citado como útil à “nossa causa” pelos militantes neonazistas. E se Gitai ainda não percebeu como sua posição – assim como a de alguns pilotos israelenses que se recusam a cumprir ordens – é usada pelos antissemitas em todo o mundo, Oz passou a recusar a farsa do “processo de paz” mantida pelas esquerdas, não vendo mais possibilidades de diálogo com os palestinos em meio aos atentados suicidas.


[1] ROUANET, Sergio Paulo. Os terrríveis simplificadorfes. Folha de S. Paulo, 4 jan. 2004, Caderno Mais.

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A MORTE DE HITLER

Raio-x da cabeça de Hitler (The National Archives, Londres, CN 4/13).

Às 15h30 do dia 30 de abril de 1945, acuado  no seu Bunker pelas forças soviéticas, o ditador nazista Adolf Hitler, após planejar sua morte em todos os detalhes, deu um tiro na boca após ingerir uma cápsula de cianureto, enquanto Eva Braun morria engolindo sua cápsula de veneno. Como parte desse rito de morte, eles haviam se casado na véspera, realizando o sonho da amante, que provavelmente nunca fora sexualmente amada pelo Führer: a morte foi sua lua de mel. O planejamento do duplo suicídio incluía 180 litros de combustível a serem usados para queimar os dois corpos. Hitler estava assustado com a notícia da morte de Benito Mussolini, a 28 de abril (o Duce e sua amante Clara Petacci foram executados e dependurados em praça pública pela resistência comunista) e temia cair igualmente vivo nas mãos do Exército Vermelho. Antes de matar-se, Hitler apertou a mão dos funcionários do Bunker, entre os quais a de sua secretária particular Traudl Junge. Pouco depois, quando ela dispensava cuidados ao pequeno Helmut, filho do Ministro de Propaganda, Joseph Goebbels, ouviu-se o tiro.

Após a morte de Hitler, Goebbels tentou pateticamente  “negociar” um cessar-fogo com o marechal russo Georgy Zhukov. Diante da exigência de rendição sem condições, o Ministro da Propaganda decidiu acabar com sua vida e com a de toda sua família. Os seis filhos de Goebbels, de entre quatro e doze anos, foram obedientemente envenenados pela mãe, Magda, antes que o casal se suidasse com suas cápsulas de cianureto. O cadáver de Hitler foi cremado numa cratera aberta por uma bomba explodida perto do Bunker, mas não totalmente. Com as tropas soviéticas obcecadas em encontrar os despojos de Hitler, grupos competiam numa verdadeira  “caça ao troféu”. No dia 2 de maio de 1945, os corpos da família Goebbels foram descobertos pelos soviéticos nos jardins da Chancelaria do Reich. Três dias depois, a 5 de maio de 1945, o Exército Vermelho achou os restos de Hiter e de Eva Braun na cratera onde eles haviam sido enterrados. Os especialistas forenses ficaram maravilhados ao perceber que as arcadas dentárias do Führer estavam intactas: “Essas são as chaves”, disse um deles. Além dessas mandíbulas, um pedaço do crânio de Hitler, de 10 centímetros, furado a bala, comprovando a causa de sua morte, foi conservado.

O Coronel Vassilii Gorbushin, chefe da inteligência soviética, encarregado da identificação dos restos presumidos de Hitler, incumbiu a jovem Elena Rzhevskaya, junto com dois oficiais superiores, de levar as mandíbulas de Hitler, através da assistente Käthe Häusermann, ao dentista do Führer, Hugo Blaschke. Nas ruínas de Berlim, segurando uma pequena caixa, Rzhevskaya presenciou a capitulação a 8 de maio de 1945, quando o alto comando alemão rendeu-se às forças russas, britânicas e americanas. As rivalidades entre os vencedores afloraram desde o momento da vitória, e elas prosseguiriam durante a Guerra Fria. Apenas os dois oficiais que acompanhavam Elena Rzhevskaya sabiam o que ela carregava na caixinha. Ela celebrou a vitória bebendo com os colegas: segurava uma taça de vinho numa das mãos e na outra a caixinha com as mandíbulas de Hitler. Finalmente encontrado, o dentista confirmou serem aquelas as arcadas de seu paciente. Rzhevskaya só revelou sua missão secreta em 1960, quando publicou um livro contando toda a história. “Para mim foi um momento de imensa solenidade e emoção, era vitória”, ela declarou ao The Guardian, entrevistada em 2005, aos 85 anos de idade.

Em junho de 1945, os restos de Hitler e de Eva Braun foram transportados e novamente enterrados em Rathenau, antes de serem novamente transferidos para uma cova secreta, a 21 de fevereiro de 1946, num terreno da Westendstrasse, perto da Quadra 36, em Magdeburgo, na Alemanha Oriental, sob jurisdição soviética, e de acesso proibido pela KGB.  Segundo Lev Bezymenski, oficial da inteligência soviética, em seu relato sobre Der Tod von Adolf Hitler (A morte de Adolf Hitler), a KGB ordenara-lhe a criação de versões diferentes da autópsia de Hitler para fins de propaganda. Parece que Josef  Stalin desejava cercar a morte de Hitler de mistério. Contudo, o grande historiador inglês Hugh Trevor-Roper, em seu livro The Last Days of Hitler (Os últimos dias de Hitler), publicado em 1947, reconstituiu os fatos em torno dessa morte mesmo sem ter tido acesso aos arquivos soviéticos. Como oficial MI6, ele conseguira, contudo, os raios-X da cabeça de Hitler, e os comparara com os esboços das mandíbulas que o dentista Hugo Blaschke desenhara de memória, comprovando a coincidência.

Em 1960, o revisionista inglês David Irving chegou, a despeito de seus parti-pris ideológicos, comparando as fotos da KGB das mandíbulas de Hitler, as chapas de raio-X de seu crânio e o desenho do dentista, às mesmas conclusões a que chegara, com menos elementos, o perspicaz Trevor-Roper: as três provas coincidiam, estabelecendo mais uma vez a identidade do morto e a causa mortis. Em 1970, o especialista forense norueguês Dr. Reidar Sognnaes, examinando os mesmos documentos, chegou novamente, por métodos mais científicos que lógico-dedutivos, às conclusões convergentes dos historiadores Trevor-Roper e David Irving, em que pesem suas visões de mundo politicamente antagônicas.

No dia 13 de março de 1970, o então chefe da KGB, Yuri Andropov, escreveu uma carta (reproduzida numa reportagem de abril de 1995 pela revista alemã Der Spiegel) ao então secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista soviético, Leonid Brejnev, recomendando que os restos mortais de Hitler, de Eva Braun e da família Goebbels fossem destruídos para impedir cultos de adoração fascista: “Remover e destruir os restos de criminosos de guerra, enterrados em Magdeburg […]”. No dia 4 de abril de 1970, foi aberta a cova onde estavam enterrados os alvos da Operação Os Arquivos e “os restos foram incinerados em uma área vazia fora de Shoenebeck, a 11 km de Magdeburg. As cinzas foram reunidas e lançadas no Rio Biederitz”, perto de Magdeburg. Dois documentos secretos confirmam a execução da ordem por agentes da KGB. Apenas o crânio furado a bala e as mandíbulas de Hitler foram conservados: em 1993, o chefe da KGB na antiga Alemanha Oriental, Serghei Konratschova, divulgou através da revista oficial do Serviço de Segurança Federal de Moscou (FSB) que este órgão ainda mantinha, em cinco caixa, saquelas “relíquias” do Führer, assim como seus trajes militares e objetos de outros líderes nazistas – broches, estojos para cigarros e jóias – encontrados no Bunker.

A autenticidade das “relíquias” foi questionada pelo historiador alemão Werner Maser e pelo arqueólogo norte-americano Nicholas Bellantoni, de Connecticut, que examinou o crânio e levantou a hipótese de pertencer a  uma mulher, “talvez Eva Braun”.  O escritor inglês Peter Watson e a veterana jornalista russa Ada Petrova, autores do livro A morte de Hitler – A história completa, com novas provas surgidas dos arquivos secretos russos (1996), examinaram as “relíquias”, conservadas por Anatoli Propenko, diretor do Arquivo de Troféus Especiais do Estado: além das mandíbulas e do crânio de Hitler, uniformes pessoais chamuscados, 42 desenhos e aquarelas do Führer, seu álbum de família e seis pastas com documentos sobre seus últimos dias no Bunker. Estes pequeno e sinistro acervo era conhecido na NKVD (predecessora da KGB) como Arquivo Operação Mito, Dossiê I-G-23. Segundo um dos documenetos conservados, com a saúde comprometida após o atentado de 1944, Hitler exalava um mau cheiro insuportável; Albert Speer odiava quando o Führer tirava o paletó, sempre manchado de comida, para trabalhar em mangas de camisa; sua flatulência era incontrolável; e a vida no Bunker era um horror. Ainda segundo Peter Watson e Ada Petrova, a foto muito divulgada do cadáver de Hitler era na verdade do corpo de seu dublê, Gustav Weler.

Em 1995, durante uma pesquisa sobre a morte de Hitler, a famosa chapa de seu crânio, examinada no fim da guerra por Trevor-Roper, foi encontrada em Londres, em meio a documentos militares. Os registros médicos que a acompanhavam indicavam que ele teria cistite e ferimentos no ouvido. O raio-X fora requisitado pelo médico particular do Führer, Dr. Theo Morell, após o atentado de julho de 1944, no qual ele sofrera ferimentos internos. A chapa fora tirada pelo Dr. Giesing no Hospital do Exército, em Ratsenburg, em setembro de 1944. O aspecto especialmente macabro desse raio-X do crânio de Hitler é ressaltado pela concentração da morte nessa única imagem: 1) pela própria natureza do raio-X na revelação do esqueleto do paciente; 2) pela associação do crânio de Hitler a uma mente particularmente criminosa; 3) pelo fato de Hitler ter acabado de escapar da morte no atentado de julho de 1944; 4) por estar Hitler próximo da morte que daria a si próprio; 5) por Hitler personificar a morte através de sua política de guerra e de genocídio.

Como os russos não abriram seus arquivos senão após o fim do comunismo e como não houve testemunhos oculares do suicídio de Hitler, alguns historiadores formularam hipóteses fantasiosas sobre como Hitler teria se matado. Em abril de 1995, o jornal alemão Bild divulgou a teoria do historiador britânico Hugh Thomas de que faltara a Hitler coragem de matar-se com um tiro, tendo sido então estrangulado por um de seus ordenanças, o oficial das SS Heinz Linge, depois que este tentara em vão introduzir uma cápsula de cianureto na boca do ditador. Essa hipótese contraria a autópsia oficial e o testemunho fidedigno da secretária de Hitler, que se encontrava no Bunker, e que ouviu o tiro, vendo em seguida os corpos de Hitler e Eva Braun sendo carregados para fora. O testemunho de outro ordenança de Hitler confirmou a morte por tiro: a única dúvida, de que ele se atirara na boca ou na têmpora, parece ter sido resolvida quando o crânio foi achado. A autópsia tamém confirmou que Hitler tomara, antes do tiro, sua cápsula de cianureto.

Em 1996, um programa da Spiegel TV noticiou que uma cova descoberta sob o quartel-general do antigo Serviço de Inteligência Soviético, em Magdeburgo, na antiga Alemanha Oriental, contendo 32 esqueletos não identificados, poderia conter os restos da família Goebbels e de Eva Braun. Mas nenhum fato novo veio à tona desde as provas apresentadas por Watson e Petrova em 1995, que confirmaram a morte do Führer por bala no crânio, em 1945, e a queima de seus ossos em 1970, com exceção do crânio e das mandíbulas, conservados em Moscou.

Em 2000, a Rússia exibiu os fragmentos do crânio de Hitler com o buraco da bala (estando muito frágeis as mandíbulas foram apresentadas apenas em fotos). A exposição A agonia do ‘Terceiro Reich’: A Retribuição teve lugar nos Arquivos Federais de Moscou, marcando o 55º aniversário do fim da guerra, e incluía os documentos do serviço secreto soviético que identificaram os restos de Hitler. A diretora da exposição, Aliya Borkovets, declarou não haver qualquer dúvida sobre a origem dos restos expostos e os especialistas confirmaram a autenticidade daquele pedaço de crânio.

Em 2002, pouco antes de morrer, a secretária de Hitler de 1942 até 1945 prestou um longo depoimento no filme Im toten Winkel – Hitlers Sekretärin (“Eu fui a secretária de Hitler”, Áustria, 2002), de André Heller e Othmar Schmiderer, recordando os dias quase irreais que passou trabalhando no Bunker. O filme resume-se a uma longa entrevista, mas o conteúdo do depoimento de Traudl Junge, que também serviu de base para algumas das reconstituições do revisionista Der Untergang /The Downfall (“A queda: Os últimos dias de Hitler”, 2004), de Olivier Hirschbiegel, consegue manter nossos olhos grudados na tela.Note-se que, antes de Der Untergang outros filmes já haviam sido realizados sobre os últimos dias de Hitler, com interpretações tão notáveis quanto a de Bruno Ganz neste filme: a de Albin Skoda, em Der letzte Akt (1955), de Georg Wilhelm Pabst; a de Billy Frick, em Is Paris Burning? (1966), de René Clément; a de Frank Finlay, em The Death of Adolf Hitler (1973), de Rex Firkin; a de Alec Guinness, em Hitler: The Last Ten Days (1973), de Ennio De Concini; a de Anthony Hopkins, em The Bunker (1981), de George Schaefer; e a de Leonid Mozgovoy em Molokh (1999), de Aleksandr Sokurov.

Traudl Junge havia prestado consultoria na reconstituição do Bunker em Der letzte Akt e aparecido em alguns documentários. Em seu último e mais consistente depoimento, ela rememora os fatos com precisão, sem conseguir esconder, contudo, a emoção que a toma quando, recordando a morte de Hitler, sentiu-se traída, como se tivesse, agora, como todo alemão sobrevivente ao nazismo, que pagar sozinha, sem o escudo protetor do Führer a chamar para si toda a responsabilidade pelos crimes do regime. Percebendo a morte aproximar-se, aos 81 anos de idade, ela buscou, através de seu depoimento, algum tipo de remissão da culpa profunda de ter comungado do ideal macabro do ‘Terceiro Reich’ no centro mesmo do poder e na intimidade insalubre dos líderes, até a apocalíptica derrocada.

Em 2009 foi noticiado um exame de DNA sobre “amostras do fragmento do crânio de Hitler”,  feito por cientistas da Universidade de Connecticut, depois que o arqueólogo Nicholas Bellantoni suspeitou que “os ossos eram muito finos para serem de um homem, além de parecerem mais jovens” (sic). O arqueólogo declarou ao Daily Mail que o exame veio “comprovar sua teoria”. O crânio seria de uma mulher com idade entre 20 e 40 anos, “sem lugar para dúvidas”, conforme atestou Linda Strausbaugh, professora de biologia molecular e celular, responsável pelo estudo. Sua equipe analisou amostras de DNA que o arqueólogo Nicholas Bellantoni obteve “numa viagem à Rússia”. O arqueólogo não explicou bem, nas reportagens, como obteve junto aos arquivos estatais russos as amostras dos fragmentos do crânio que levou aos cientistas para a realização do teste. Foi levantada a hipótese de o crânio pertencer a Eva Braun. Mas a cientista responsável pela investigação explicou ser complicado averiguar tal possibilidade dado que a amostra corresponderia a “um perfil parcial […] devido ao seu estado de degradação”, deixando lugar para muitas dúvidas sobre o exame. O tenente-general Vassili Khristoforov, chefe arquivista do Serviço Federal de Segurança (SFS) da Rússia (antiga KGB), reafirmou então ao Daily Mail, que “os arquivos da SFS detêm o maxilar de Hitler e os arquivos estatais um fragmento do crânio de Hitler. Com a exceção desses fragmentos, adquiridos no dia 5 de maio de 1945, não há nenhuma outra parte do corpo de Hitler”.

Em 2010 foi publicado em livro os resultados mais que suspeitos de uma nova investigação levantando a hipótese fantasiosa de que Hitler teria sobrevivido ao cerco do Exército Vermelho e fugido para a América do Sul, refugiando-se na Argentina, sob a proteção do Vaticano ou dos EUA, como outros criminosos nazistas, como Eichamnn e Mengele, como se o Führer fosse uma peça importante na elaboração de uma nova estratégia anticomunista para a Guerra Fria. Não há, contudo, a menor chance de Hitler ter escapado com vida do Bunker. E, de qualquer forma, ele teria sido imediatamente reconhecido, ou descoberto, sob qualquer disfarce, em qualquer lugar do mundo. Mas permanece latente nos revisionistas e neonazistas o desejo de que Hitler não tenha morrido… A Operação Mito levada a efeito pela KGB sob as ordens de Stalin até hoje revela sua tenebrosa eficiência.

Fragmento do crânio de Hitler com buraco de bala.