O NAZISMO SEGUNDO BOLSONARO

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Em 6 de abril de 2011, o deputado Jair Bolsonaro, após ser retratado com um bigode de Hitler num cartaz exibido por manifestantes durante protesto na Câmara, declarou ao portal G1 que não ficou ofendido: “Ficaria bravo se tivesse brinquinho, batom na boca e eles usassem isso em uma passeata gay”. Bolsonaro preferia ser caricaturado como Hitler a ser caricaturado como gay.

No mesmo ano Bolsonaro submeteu-se a um “teste do polígrafo” no programa CQC, da TV Bandeirantes, expondo sua visão deformada da História. O programa que foi ao ar foi editado, mas uma versão completa da gravação do mesmo, incluindo o ensaio das perguntas e das respostas e uma intervenção de Guga Noblat, caiu na rede, revelando o que Bolsonaro pensa de Hitler, do Nazismo e do Holocausto.

O ex-capitão Bolsonaro deve ter enforcado as aulas de História, dada a gigantesca ignorância que demonstra da Segunda Guerra Mundial. Sua admiração por Hitler enquanto “estrategista” é acompanhada pela espantosa ideia de que o Holocausto – o assassinato sistemático de seis milhões de judeus por fome e doenças provocadas, torturas, trabalho forçado, fuzilamentos e câmaras de gás – foi, na verdade, mera consequência de “desvio de recursos da saúde na Alemanha”.

Igualmente surpreendente é a visão de Bolsonaro sobre Hitler ter sido uma vítima da guerra (não fica claro se da Primeira ou da Segunda); de que destruiu outros países para defender seu povo e “impor sua raça”, e sobre o alistamento automático dos alemães ao Exército, ignorando não apenas os alemães que se exilaram, como a própria possibilidade da resistência, aceitando o totalitarismo como natural e inevitável.

Finalmente, a revelação algo chocante de que seu bisavô alemão, Carl Hintze, falecido em Campinhas em 1969, teria sido um soldado de Hitler, tendo servido na Wehrmacht e perdido um braço na guerra. Segundo o estudo da árvore genealógica de Bolsonaro realizado pelo sociólogo Daniel Taddone, editor de genealogia da revista Insieme e presidente do Comitato degli Italiani all’Estero do Recife, fica claro não ser crível que o bisavô alemão de Bolsonaro tenha sido soldado de Hitler, tendo nascido em Hamburgo em 1876 e imigrado para o Brasil em 1883, anda criança.

Quando Hitler invadiu a Polônia em 1939, desencadeando a guerra, Carl já teria 63 anos. É sabido que Goebbels organizou um exército de idosos no fim da guerra, quando o bisavô de Bolsonaro teria 68 anos. Mas que ele tenha se voluntariado para lutar na Alemanha com essa idade provecta é bastante inverossímil. Nem há notícia de ele tenha deixado o Brasil durante a guerra.

É mais plausível que o bisavô alemão pudesse ter se voluntariado para lutar na Primeira Guerra (1914-1918). Mesmo assim Carl teria entre 38 e 42 anos, tendo passado da idade de alistamento. Bolsonaro mente ou fantasia sobre o bisavô alemão? Ele confunde a Primeira Guerra com a Segunda? Ele admira tanto Hitler que fez do bisavô um herói de guerra da Wehrmacht nazista, perdendo um braço pelo ‘Terceiro Reich’? Há um fato obscuro aí que o agora Presidente Bolsonaro precisa elucidar.

Três anos depois da revelação no programa CQC de seu “bisavô soldado de Hitler”, Bolsonaro voltou a mencioná-lo numa homenagem da Câmara dos Deputados, em novembro de 2014, aos 70 anos do desembarque da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Uma declaração ambígua, com semitons revisionistas:

Agradeço neste momento, também, o exército americano, tão criticado por setores de esquerda do mundo todo, em especial do nosso país. Agradeço, então, ao povo americano por não estar falando alemão. Apesar de meu bisavô ser alemão e ter sido soldado de Hitler. Ele não tinha opção: era ser soldado ou paredão. Graças a Deus ele perdeu a guerra. Mas ele me contou muitas histórias que eu não vou falar aqui agora.

Dado seu proclamado amor à família, de raízes alemãs e italianas (com parentes possivelmente nazistas e fascistas), as “muitas histórias” falsas, revisionistas, justificadoras do nazifascismo, que Bolsonaro ouviu na infância e juventude, explicam sua admiração pelo “estrategista” Hitler, a contrapelo da historiografia militar séria e sua ignorância deliberada e acintosa do Holocausto, que ele despreza ao propagar o mesmo discurso de ódio que o embasa.

Uma versão curta, editada, dos bastidores do CQC, foi divulgada no site 247. Mas logo em seguida o próprio 247 retirou o vídeo do site, publicando uma errata na qual explicava que o vídeo era fake, tratando-se de uma edição. De fato, o clipe postado fora editado.

Mas o vídeo integral dos bastidores também caiu na rede, e podemos agora perceber que sua versão editada publicada no site 247 apenas sintetizava o conteúdo do original, sem o falsear em nada. O vídeo integral dos bastidores comprova que Bolsonaro declarou mesmo tudo aquilo em favor de Hitler e do nazismo, relativizando e banalizando o Holocausto ao atribui-lo a uma situação similar à corrupção no Brasil, de desvio de verbas públicas!

Omitindo deliberadamente o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler.

Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu ataque ao “bolchevismo cultural”, seus campos de concentração e de extermínio. É assim que Bolsonaro legitima seu discurso de ódio, isentando-o da inspiração nazista.

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TRANSCRIÇÃO DOS BASTIDORES DO PROGRAMA CQC

ENSAIO

Repórter CQC: Você tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: Não. Você tem que entender que guerra é guerra. Ele foi um grande estrategista.

Jair Bolsonaro: Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto para aniquilar o outro país, destruir o outro país, para defender o seu povo.

Homem do Polígrafo: O Hitler pra ele, levando (em conta) o segmento militar, era uma pessoa que ele achou bastante interessante, pra nível militar.

Repórter CQC: Perfeito.

GRAVANDO

Repórter CQC: Senhor Jair Bolsonaro, Deputado Jair Bolsonaro, o senhor tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né? Porque foi pra… morte de inocentes, né, Holocausto, etc. Tá OK?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: O que você tem que entender é o seguinte: guerra é guerra, e o país que não quer ser submetido ao que Hitler [se] submeteu naquela época tem que preparar suas Forças Armadas. E as nossas Forças Armadas no Brasil hoje em dia estão completamente largadas pelos últimos governos. Quem não quer sofrer, né, o que aquele povo sofreu, cuide de suas Forças Armadas. E naquela guerra, a guerra era de extermínio. Hoje em dia você faz embargos, é uma guerra completamente diferente. Então você… eu não concordo com Hitler, mas você tem que entender o que aconteceu naquela época e seu plano de dominar o mundo e de impor a sua raça. Os vencedores em batalhas impõem as suas vontades e o Hitler queria impor a sua vontade. Lógico, hoje em dia não admitiria. Naquela época era outra história. Tanto é que um homem apenas queria aquilo, e todos aderiram, quase todos aderiram, na Alemanha.

Repórter CQC: Mas há algo admirável no Hitler para o senhor?

Jair Bolsonaro: Profissionalmente, ele foi um grande estrategista. Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto pra aniquilar o outro país, destruir o outro país, pra defender o seu povo. Não o…

Repórter CQC: Mesmo sendo um genocida?

Jair Bolsonaro: O general… O genocídio é outra história, o genocídio é outra história, ok, eu não concordo logicamente com o que ele fez lá. O genocídio você pratica hoje em dia quando você desvia como estamos vendo hoje em dia desvia recursos da saúde, tem gente que morre, na mesma situação que os judeus lá na Alemanha. Muitos povos também morriam porque o governo alemão simplesmente sequestravam seus alimentos, simplesmente morriam de fome, inanição, de frio. Se um país não quer sofrer isso um dia, e podemos sofrer, porque nós temos ameaça externa, e muitos idiotas acham que não. Nós temos aqui uma reserva amazônica enorme, com tudo, e temos ai países nucleares como China e Índia, com um bilhão, ou melhor, juntos com dois bilhões e meio de habitantes, onde a alimentação básica é arroz, e peixe e produtos aí vindos da batata, basicamente isso. Quando descobriram isso aqui, já descobriram, né, mas quando a população crescer demais podem querer vir pra cá. Vamos fazer o quê com nossas Forças Armadas completamente despreparadas por negligência dos governos que  nos… têm passado por aqui.

INTERRUPÇÃO

Guga Noblat: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, o senhor teria se alistado, se o senhor fosse alemão, teria se alistado no Exército nazista?

Repórter CQC: Posso fazer esta (pergunta)?

Jair Bolsonaro: Pode, sem problema nenhum. Eu tenho uma resposta muito boa pra te dar, inclusive.

GRAVANDO

Repórter CQC: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, incluindo toda morte nos campos de concentração, o Holocausto, aqueles seis milhões de judeus assassinados, você teria se alistado como militar se fosse da Alemanha naquele contexto?

Jair Bolsonaro: Olha, o meu bisavô foi soldado de Hitler, ele perdeu um braço, inclusive na guerra, né.

Repórter CQC: Seu bisavôooooo

Jair Bolsonaro: Qual o problema? A minha família era toda de alemães e italianos. Agora a pergunta não cabe, porque você não tinha direito de se alistar ou não, você era alistado automaticamente. Quem não se alistasse, era…

Repórter CQC: E se naquela época fosse facultativo? Pode ou não se alistar, você iria?

Jair Bolsonaro: Na verdade, ninguém quer ir pra guerra, nem nós militares queremos ir para a guerra. Por isso queremos os melhores meios pra você trabalhar para evitar uma guerra. O militar bom, o exército bom, não faz guerra, evita guerra.

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Sem dizer uma única palavra sobre o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente ou inconsciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler. Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu anticomunismo e seus campos de concentração e de extermínio.

É desta forma que Bolsonaro legitima o seu próprio discurso de ódio, inspirado no discurso nazista. Em outro programa do CQC, também de 2011, este discurso extravasou de seus limites mentalmente controlados para excitar seus seguidores sem jogá-los na ilegalidade, e um Bolsonaro distraído pensou ter ouvido a palavra “gay” (sua obsessão persecutória, sendo o “gay” o seu “judeu”) quando a cantora Preta Gil perguntou o que ele faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra. Sua resposta descuidada revelou, num ato falho, simultaneamente seu racismo e sua homofobia:

Processado por racismo e por quebra do decoro parlamentar, o deputado Jair Bolsonaro conseguiu safar-se alegando que a fita havia sido montada e depois apagada para que não pudesse ser periciada, acusando Marcelo Tas de gravar outro programa por cima para se livrar da prova de sua inocência. Mas essa é uma prática comum na TV brasileira, em canais de recursos escassos, com exceção talvez da Rede Globo, que após o incêndio de seu acervo, passou a valorizar a conservação de suas gravações.

Não havia como editar pergunta e resposta porque, como explicou o CGC, o programa gravava apenas uma pergunta de cada convidado, e é claro a qualquer espectador que a resposta se segue imediatamente à pergunta, sem possibilidade de uma montagem tão imperceptível. Danilo Gentili estava presente à gravação e declarou em seu programa que  não houve montagem alguma. O próprio Bolsonaro admitiu que pode ter se confundido. Mas a alegação mentirosa livrou-o da punição no processo, e o estimulou a processar Marcelo Tas por difamação. A resposta de Tas aparentemente encerrou o caso.

NOTA

Agradeço ao historiador João Araujo o envio de artigos publicados em jornais e sites sobre a genealogia de Bolsonaro. É curioso que os jornalistas só tenham pesquisado o ramo italiano de sua família, investigando pouco o ramo alemão. Segundo o site Ethninicity of CelebsBolsonaro seria 81,25% italiano, 12,5% alemão e 6,25% brasileiro (português, possivelmente outros)… Mas parece que o ramo alemão influenciou mais o pequeno Bolsonaro e o impulsionou à vida militar e à confessa admiração de Hitler.

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O HUMANISMO ANTISSEMITA DE JOSÉ SARAMAGO

Proliferam post-mortem os cadernos especiais rodados a todo vapor sobre o escritor José Saramago – o único português a ganhar um Prêmio Nobel de Literatura. Nas montanhas de elogios erguidas em sua memória, nas cascatas de louvações derramadas sobre seu cadáver, foram dissolvidas as imprecações contra Israel e seu povo pelo inveterado stalinista, cujo comunismo, segundo sua pitoresca expressão, estava gravado em seu DNA – uma atualização do velho discurso da herança do sangue. Examinemos, por exemplo, essa “pérola” da especialista Leyla Perrone-Moisés: “Quando José Saramago chegar ao céu, Deus pai lhe fará cara feia, pois o escritor fartou-se de denegri-lo em seus romances. Mas Deus filho, que era também homem, advogará a seu favor, porque Saramago foi um humanista, quer em suas ideias, quer na prática de algumas das maiores faculdades humanas, a de imaginar e de narrar. […] Qualquer que seja a posição dos leitores com relação às opiniões políticas do homem Saramago, ninguém pode acusá-lo de ter feito literatura partidária ou militante. O romancista defendeu suas ideias, não com pregação política ou lições de moral, mas por meio da melhor literatura de ficção […]”.

Ninguém poderá dizer se Saramago será recebido no céu por Deus pai ou por Deus filho… Ou se baterá em outra porta, sendo acolhido pelo Diabo em pessoa. Mas dizer que ele não defendeu suas idéias com pregação política é reduzir de maneira pouco rigorosa a atividade do escritor aos seus livros de ficção, ignorando deliberadamente que Saramago não se fartava de pregar suas idéias políticas em artigos, entrevistas, postagens, em frutuosa produção literária de caráter militante e partidário. Saramago pontificava sobre cada acontecimento político, lançando opiniões sempre balizadas pelo seu materialismo dialético. Por exemplo:

15 jan. 2009: “A notícia queima. O mufti da Arábia Saudita, máxima autoridade religiosa do país, acaba de emitir uma fatua que permite (permitir é um eufemismo, a palavra exacta deveria ser impor) o casamento de meninas na idade de 10 anos. O dito mufti (hei-de lembrar-me dele nas minhas orações) explica porquê: porque a decisão é “justa” para as mulheres, ao contrário da fatua anteriormente vigente, que havia fixado em 15 anos a idade mínima para o casamento, o que Abdelaziz Al Sheji (esse é o nome) considerava “injusto”. Sobre as razões deste “justo” e deste “injusto”, nem uma palavra, não se nos diz sequer se as meninas de 10 anos foram consultadas. É certo que a democracia brilha pela inexistência na Arábia Saudita, mas, num caso de tanto melindre, poderia ter-se aberto uma excepção. Enfim, os pedófilos devem estar contentes: a pederastia é legal na Arábia Saudita. Outras notícias que queimam. No Irão foram lapidados dois homens por adultério, no Paquistão cinco mulheres foram enterradas vivas por quererem casar-se pelo civil com homens da sua escolha… Fico por aqui. Não aguento mais.” (“Lapidações e outros horrores”). Aqui, o materialismo dialético de Saramago coincide com o humanismo, na defesa das vítimas da pedofilia islâmica (“pederastia” tem outras conotações) e da sharia. Mas trata-se apenas de coincidência. Quando os fanáticos do Islã se voltavam contra Israel, sua guerra santa era justificada por Saramago. A jihad ganhava sentido contra os judeus, e o ateísmo de Saramago aí se dissolvia. O escritor revestia-se nesses momentos de uma nova pele, paradoxalmente fanática, e sua língua tornava-se ácida e viscosa. Não deixa de ser curioso como membros destacados da comunidade judaica brasileira não se furtaram a engrossar os louvores a Saramago pelas mídias, com exceção das do Vaticano, coerentes com sua tradição reacionária; e pela intelligentzia, cada vez mais antissemita.

Seu editor brasileiro, Luiz Schwartz, só teve palavras doces e carinhosas na crônica de despedida que postou: Saramago era um homem generoso, um pensador brilhante, o padrinho de sua filha, etc. No carinho pelo amigo, sábio, querido Saramago, certamente contava o fato de que “ele era nosso autor mais vendido em literatura estrangeira”. Os 24 títulos do escritor lançados pela Companhia das Letras somam, aproximadamente, 1.400.000 exemplares vendidos. Em nenhum outro país, fora a Espanha, onde morava, Saramago vendia tanto quanto no Brasil. Um sintoma inquietante.

O escritor Moacir Scliar, em “depoimento emocionado dado com exclusividade ao Terra” (e a mais uma dúzia de veículos), declarou que “José Saramago […] era não apenas um grande escritor, não apenas um intelectual militante, como também um ser humano [sic]. De seu trabalho literário dão testemunho o Nobel que recebeu, e que projetou o nosso idioma no mundo, como, sobretudo, a qualidade de sua obra literária. […] Saramago era também um comunista de carteirinha, uma posição a que chegou em grande parte por ter origem humilde (foi operário) e vivido sob uma das ditaduras mais persistentes da modernidade, o regime salazarista. E, finalmente, era uma grande pessoa, um homem sensível, afetivo.”.

Até Marcos Guterman, que em sua visão do antissemismo atual no belo artigo “O velho antissemitismo não cansa de se reinventar” incluíra Saramago, acabou, dez dias depois, com a morte deste, revendo sua opinião em “A morte de um gigante”, prevenindo seus leitores contra os detratores de Saramago: “[…] Seu comunismo militante foi usado muitas vezes por seus detratores para desmerecer sua obra, o que é uma injustiça aliás típica de nosso tempo. Saramago era um crítico da ocultação retórica da tirania, quer fosse em Israel ou em Cuba. Mesmo que tenha cometido exageros ou poupado Fidel Castro, Saramago nunca se ausentou, transformando-o num dos raros intelectuais públicos, daqueles sem vínculos senão com sua consciência. Por essa razão, Saramago deve se transformar num clássico, por exprimir como poucos as contradições de seu tempo.”

Ficamos aí sabendo que para defender Saramago de seus detratores vale equiparar Israel com Cuba, e que também em Israel vigora uma “tirania”. Ainda que Saramago tenha rompido com Fidel Castro depois dos últimos fuzilamentos, em mais uma demonstração de seu humanismo tardio, é curioso como a morte melhora as pessoas. A literatura de um tal humanista nunca me interessou – desde que sua “obra-prima” Memorial do Convento encheu-me de tédio.  Adquiri depois num selo por R$ 5,00 um exemplar de O conto da ilha desconhecida autografado por Saramago. O leitor não hesitou em descartar o volume com o carimbo do Prêmio Nobel. Isso diz tudo sobre o valor desse prêmio, sobre o amor de leitor e livreiro a livros autografados e sobre a “permanência” da literatura de Saramago. Creio que também descartei o exemplar. Tenho uma amiga que jogou ao lixo todos os livros de Saramago após ler suas declarações sobre Israel. Neste país, os leitores coerentes devolveram todos os seus Saramagos às livrarias. Recordemos, pois, o que esse gigante humanista dizia de Israel.

3 mai. 2002: no jornal Público Saramago compara o conflito Israel x palestinos com a cena bíblica de David x Golias, trocando as posições: Israel “se tornou num novo Golias”; aquele “lírico David que cantava loas a Betsabé” seria “encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon […] que lança a ‘poética’ mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinianos para depois negociar com o que deles restar”. Saramago comparava então Ramallah ao campo de concentração nazista de Auschwitz: “Nós podemos comparar (a situação palestina) com o que aconteceu em Auschwitz.” As situações prestam-se mesmo a comparações, já que os palestinos lançam bombas contra Israel; contam com o suporte das brigadas terroristas financiadas pelo Irã, com milhões de militantes espalhados em todo o mundo; dispõem de cobertura favorável às suas ações da parte de toda a mídia árabe e muçulmana e de quase toda a mídia ocidental; são amparados pela ONU com a maior parte da ajuda humanitária arrecada no mundo… Enfim, exatamente como os judeus em Auschwitz.

13 out. 2003: em entrevista a O Globo, Saramago afirmou: “Vivendo sob as trevas do Holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós.” Aqui, ele confunde deliberadamente, como se fossem as mesmas pessoas (“eles”), os judeus que sofreram o Holocausto, os judeus que descendem daqueles, os israelenses que “oprimem” os palestinos, os judeus e israelenses que lutam contra essa “opressão”, os judeus e israelenses que não se envolvem no conflito, em várias gerações de israelenses e de judeus. Ou seja: sua condenação pesa sobre qualquer judeu em qualquer época pós-Holocausto, em qualquer lugar do mundo, qualquer que seja sua posição ideológica. O nome mais comum dessa confusão generalizada e generalizante é racismo, embora, em defesa de Saramago, diversos autores tenham afirmado que ele não se insurgia contra os judeus, mas contra a política de Israel. Mas ele foi bem explícito em muitas outras declarações. Outros exemplos:

31 dez. 2008: no artigo “Israel”,  Saramago afirmou: “Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a ‘relação especial’ que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos. Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: ‘Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime’.” Aqui, Saramago deixava claro que considerava todo israelense (e todo israelita) – “governantes (e porque não também os governados?)” – carrascos e criminosos, massacradores do inocente povo palestino… Nenhuma palavra contra as atividades criminosas e genocidas do Hamas que já governava os palestinos de Gaza: embora fosse um partido islâmico que defendia a sharia, e ainda que Saramago condenasse “todas” as religiões e em especial as barbáries cometidas em nome do islamismo, no caso do movimento islamita pela “libertação da Palestina” seu silêncio era ensurdecedor.

12 jan. 2009: “Imaginemos que, nos anos trinta, quando os nazis iniciaram a sua caça aos judeus, o povo alemão teria descido à rua, em grandiosas manifestações que iriam ficar na História, para exigir ao seu governo o fim da perseguição e a promulgação de leis que protegessem todas e quaisquer minorias […]. Imaginemos que, apoiando essa digna e corajosa acção […] os povos da Europa desfilariam pelas avenidas e praças das suas cidades e uniriam as suas vozes ao coro dos protestos levantados [na Alemanha]. Já sabemos que nada disto sucedeu nem poderia ter sucedido. Por indiferença, apatia, por cumplicidade táctica ou manifesta com Hitler, o povo alemão, salvo qualquer raríssima excepção, não deu um passo, não fez um gesto, não disse uma palavra para salvar aqueles que iriam ser carne de campo de concentração e de forno crematório, e, no resto da Europa, por uma razão ou outra (por exemplo, os fascismos nascentes), uma assumida conivência com os carrascos nazis disciplinaria ou puniria qualquer veleidade de protesto. Hoje é diferente. Temos liberdade de expressão, liberdade de manifestação e não sei quantas liberdades mais. Podemos sair à rua aos milhares ou aos milhões […] podemos exigir o fim dos sofrimentos de Gaza ou a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos, sem piores consequências que os insultos e as provocações da propaganda israelita. […] Por sua vez, o exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade ‘judeonazi’, segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres. Quanto a nós, continuaremos a manifestar-nos.” (“Imaginemos”). Aqui, enfim, Saramago manifesta seu ódio ardente aos judeus, que ele considera como “genocidas piores que os nazistas” – merecendo que o mundo inteiro se insurja contra Israel, quiçá com a ajuda da futura bomba atômica iraniana, para extirpar de vez a “mentalidade judeonazi”, colocando “a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos” – incluindo, claro, a devida limpeza étnica em Israel para repovoar a Palestina com os cinco milhões de refugiados palestinos espalhados pelo mundo, e que não ultrapassavam os 300 mil quando eram realmente refugidos – há sessenta anos atrás.

22 jan. 2009: “O processo de extorsão violenta dos direitos básicos do povo palestino e do seu território por parte de Israel tem prosseguido imparável perante a cumplicidade ou a indiferença da mal chamada comunidade internacional. O escritor israelita David Grossmann […] escreveu  […] que Israel não conhece a compaixão. Já o sabíamos. Com a Tora como pano de fundo, ganha pleno significado aquela terrível e inesquecível imagem de um militar judeu partindo à martelada os ossos da mão a um jovem palestino capturado na primeira intifada por atirar pedras aos tanques israelitas. Menos mal que não a cortou. Nada nem ninguém, nem sequer organizações internacionais […] conseguiram, até hoje, travar as acções mais do que repressivas, criminosas, dos sucessivos governos de Israel e das suas forças armadas contra o povo palestino. […] Enfrentados à heróica resistência palestina, os governos israelitas modificaram certas estratégias iniciais suas, passando a considerar que todos os meios podem e devem ser utilizados, mesmo os mais cruéis, mesmo os mais arbitrários, desde os assassinatos selectivos aos bombardeamentos indiscriminados, para dobrar e humilhar a já lendária coragem do povo palestino, que todos os dias vai juntando parcelas à interminável soma dos seus mortos e todos os dias os ressuscita na pronta resposta dos que continuam vivos” (“Israel e os seus derivados”). Aqui, o terrorismo ganha nomes lindos: “ressurreição”, “pronta resposta”, enquanto Israel adquire contornos de Alemanha Nazista, com torturas, governos criminosos em sucessão, crueldade e violência indiscriminadas. Perto desse painel à la Der Stürmer do Estado Judeu enquanto “comedor de criancinhas”, os terroristas palestinos que trucidavam – de fato e não em caricaturas – os comerciantes árabes que se relacionavam com judeus no velho suck de Jerusalém a golpes de machadinhas; os homens-bombas que explodiam crianças em ônibus escolares, parecem santos mártires da causa – a religiosidade nesses casos acaba sendo tolerada pelo ateu Saramago, tão intolerantemente ateu em outras ocasiões.

Uma das táticas mais perversas dos antissemitas é utilizar frases de impacto que os judeus “pacifistas” e  “humanistas” adoram lançar contra Israel. Na subjetividade perturbada ou dilacerada desses judeus, Israel encarna uma espécie de símbolo cruel para seus próprios desencantamentos existenciais – de caráter subjetivo, ideológico, utópico. É o que leva, por exemplo, um sobrevivente do Holocausto a participar do movimento Free Gaza ou o cineasta Silvio Tendler a publicar uma carta aberta ao governo de Israel, acusando-o de praticar uma “política genocída”. Com prazer sádico, os antissemitas fazem as frases venenosas dos judeus profundamente carentes do amor dos antissemitas e do sucesso mundano voltarem-se duplamente não apenas contra Israel enquanto lar judaico (e não mais símbolo subjetivo), como contra todos os judeus (incluindo os revoltados).

José Saramago tampouco se furtou a usar essa tática perversa, citando, contra Israel e os judeus, frases deslocadas ou tresloucadas de Yeshayahu Leibowitz e David Grossmann, por exemplo. Leibowitz não está mais vivo para vomitar Saramago, mas Grossmann não deixou de considerar escandalosos e irracionais os comentários antissemitas do Prêmio Nobel português. Não se limitando a escrever ficção indigesta, mas produzindo paralelmente relevante produção de subliteratura partidária e militante, que exprimia, mais que a própria ficção, o fundo escuro de sua alma, José Saramago resumiu, em textos “dignos de citação” e, portanto, de influência mais funesta sobre os desinformados, todos os clichês do antissemitismo contemporâneo, cada vez mais concentrado no ódio a Israel.

DIALOGAR COM GENOCIDAS?

Cartaz de evento oficial no Irã pela eliminação de Israel.

As considerações abaixo foram reportadas a 5 de maio de 2010 à produção do Programa Caleidoscópio, da TV Horizonte, para um debate cuja pauta girava em torno do tema Guerra. Minha participação no programa foi, porém, cancelada à última hora. A produção alegou não ter encontrado nenhum pacifista em Belo Horizonte para contraditar estas minhas opiniões:  

A paz é uma utopia no sentido de ser uma meta a ser alcançada, e uma utopia no sentido de que ela jamais será alcançada. Há períodos de paz e períodos de guerra, como há regiões mais ou menos pacíficas durante séculos e outras regiões conturbadas constantemente. A paz depende de inúmeros fatores, mas o principal deles é a alegria de viver. Um povo que, por qualquer motivo, perde a alegria de viver, tende a culpar outros povos por sua infelicidade – e logo se orienta para a guerra.    

Não reconheço grupos verdadeiramente pacifistas no mundo atual: nenhum dos grupos ditos pacifistas está agindo no sentido de ampliar o sentido da vida. Nem mesmo os artistas são hoje autênticos  pacifistas, já que a arte contemporânea tende a deprimir e não a aumentar nas pessoas a alegria de viver. Os que se dizem pacifistas são guerreiros disfarçados, cheios de ódio e de desejos assassinos, aliados de regimes fascistas e de grupos terroristas.    

Barak Obama foi eleito brandindo a promessa do pacifismo: ele garantiu ao povo americano cansado de guerra que assim que chegasse ao poder acabaria com a guerra no Afeganistão e no Iraque. Provou que o discurso pacifista sempre rende votos. Mas uma coisa é ter um discurso pacifista, outra mais difícil é obter a paz sem massacrar os inimigos. Outra ainda é ser um pacifista até os ossos, chegando aos extremos do masoquismo, não reagindo quando se é atacado por todos os lados, até a morte. Quanto à guerra, ela é justa quando feita com o objetivo de defender uma população civil desarmada, sob o ataque inimigo. 

Alguns homens fazem a guerra pelo prazer de guerrear; outros a fazem pela necessidade de guerrear. É a diferença entre um Hitler e um Churchill, entre um Stalin e um Roosevelt. No plano físico e material, a guerra só traz prejuízos, estragos, desastres e sofrimentos, mas no plano político ela pode trazer benefícios incalculáveis, como a libertação de povos inteiros que antes se achavam oprimidos, a redemocratização de um país que vivia sob uma ditadura sangrenta, com o fim das salas de tortura, dos campos de concentração e de extermínio, dos parques de treinamento de terroristas, das usinas produtoras de armas de destruição em massa, etc.    

As imagens de guerra são sempre usadas com fins de manipulação política, como mostrou Susan Sontag em Diante da dor dos outros. Os regimes totalitários gostam de mostrar suas criancinhas (que eles colocam sem piedade na situação de serem atingidas) mortas pelos bombardeios inimigos para desmoralizar os que os atacam e arrebanhar aliados ao seu regime hediondo junto aos pacifistas, poupando o público das imagens das torturas horrorosas que infligem e pelas quais são justamente bombardeados.    

O objetivo dos grupos ditos pacifistas atuais não é impedir a guerra, uma vez que eles não se levantam quando ela começa, e sim contribuir para que a guerra tenha apenas um lado, impedindo o outro lado de se defender dos ataques de que é vítima. Os pacifistas que agem apenas contra um dos lados do conflito têm a clara intenção de defender a causa do lado oposto ao lado que desejam paralisar. 

Durante a Segunda Guerra, os pacifistas eram colaboradores do nazismo, agentes da Quinta Coluna que não desejavam que a Alemanha nazista fosse atacada. Em outros conflitos, são os comunistas externos que usam a máscara do pacifismo, para impedir intervenções dos aliados dos países que os comunistas internos estão tomando de assalto. Raramente um pacifista é realmente um pacifista, na maioria das vezes é um guerreiro disfarçado.    

Às vésperas da guerra  ao terror desencadeada pelo 11 de setembro, a maioria dos pacifistas era de comunistas que defendiam a não reação diante do atentado do século, ou seja, eles consideravam o terror (e a morte de milhares de civis) uma reação justa e maravilhosa contra o “imperialismo americano”. Mas havia pacifistas sinceros que condenavam o terror e ao mesmo tempo acreditavam que atacar o Afeganistão e o Iraque não resolveria o problema, uma vez que não havia alvos claros e bem definidos a serem atingidos.   

Enfim, a guerra não é inevitável, mas a paz permanente depende de tantos fatores que dificilmente será atingida, sobretudo depois do advento da era atômica, do terrorismo de massa e da atual proliferação sem controle dos artefatos nucleares. A tensão gerada atualmente pela corrida atômica nos países periféricos, sob regimes que já provaram sua irracionalidade total na violação de suas próprias minorias, aponta, em que pese a boa intenção dos pacifistas mais perversos, para um novo ciclo de guerras.