A ARTE DA DIFAMAÇÃO

Carlos Latuff - Latuff SVC.

Carlos Latuff: orgulhoso do terceiro lugar no Top Ten dos difamadores de Israel.

Na sessão de Carta dos Leitores do jornal eletrônico Rua Judaica, o cineasta Silvio Tendler fez questão de proclamar sua amizade pelo cartunista Carlos Latuff, divulgando o link de um blog com seleção criteriosa de alguns dos trabalhos de seu amigo antissionista, a fim de que a comunidade judaica brasileira pudesse constatar os bons sentimentos que moveriam o cartunista:

Tenho sido acusado de ser amigo do “antissemita” Latuff, de “Latuff, o sanguinário”. Pois bem, assumo e apresento O MEU AMIGO LATUFF, que os que se alimentam da guerra fazem questão de esconder, e ajudo a torná-lo público. O objetivo é um só: fazer justiça a um grande artista e caminharmos juntos rumo a um mundo de fraternidade. Conhecer estas charges de Latuff é um bom começo para começarmos 2013 com os espíritos desarmados: http://www.anis-online.de/1/rooms/latuff/forgiveness.htm.

Latuff pode ser considerado o Fips da era digital. Convidado pela Autoridade Palestina para conhecer, em 1998, os territórios ocupados, ele se converteu à causa palestina, passando a publicar seus trabalhos no Der Stürmer global que hoje são os milhares de sites e blogs extremistas, acessados por qualquer internauta. Ninguém esconde as lindas obras de Latuff, que foram por ele doadas ao mundo, com “free copyright licenses that anyone can use”.

O caricaturista brasileiro ficou tão conhecido por suas “críticas legítimas a Israel”, feitas através de imagens-choques que reduzem a maniqueísmos alguns dos mais complexos problemas do mundo atual, que ele obteve com mérito o segundo lugar no infame Concurso das “Caricaturas do Holocausto”, promovido pela Casa do Cartum do Irã, em 2006, com a imagem de um palestino chorando diante do Muro em Gaza como se fosse um judeu prisioneiro de Auschwitz:

Carlos Latuff - Holocausto, Segundo Lugar no Concurso das Caricaturas do Holocausto do Irã.. lugar.

Carlos Latuff – Holocausto, Segundo Lugar no Concurso das Caricaturas do Holocausto do Irã.

Em fins de 2012, Latuff conseguiu superar-se, galgando o infamante terceiro lugar na lista dos Top Ten 2012 do antissemitismo/antissionismo mundial, do Centro Simon Wiesentahl, por conta da caricatura que perpetrou do Rabino Marvin Hier retorcendo o cadáver de uma criança palestina para obter votos para Benjamin Netanyahu:

Carlos Latuff - Rabbi Marvin Hier, 2012.

Carlos Latuff – Rabbi Marvin Hier, 2012.

Apesar de Latuff ser simultaneamente cultuado pela extrema-direita e pela extrema-esquerda, graças ao seu imaginário escatológico e belicoso centrado no ódio a Israel, Silvio Tendler considera que existem ainda pessoas malignas, que se “alimentam da guerra”, e fazem “questão de esconder” as obras-primas do “grande artista” injustiçado. Nem é preciso dizer quem seriam esses bodes expiatórios de sempre, que impedem o Paraíso na Terra.

Porém, Tendler divulgou na Rua Judaica apenas as charges menos populares do “genial Latuff”, talvez para convencer os judeus hesitantes a caminharem “todos juntos rumo a um mundo de fraternidade” (em meio aos foguetes palestinos e às bombas israelenses?). Mas os que se alimentam da paz não deviam esconder as charges mais queridas de Latuff, aquelas que fizeram sua glória nas mídias extremistas.

Numa dessas charges, a estrela de Davi projeta-se num muro como a sombra de um neonazista que acabou de matar um mendigo a porrete, com a afirmação enigmática de que “nazismo já era, a suástica agora é bem outra”, associando gratuitamente o símbolo judaico (representando Israel? Os israelenses? Os sionistas? Os judeus?) ao assassinato de mendigos em São Paulo por neonazistas! Negando confundir judeus com Israel, hoje Latuff acusa o Simon Wiesentahl Center de confundir suas “críticas legítimas a Israel” com antissemitismo.

BRASIL - LATUFF - 1

Em suas charges contra Israel, verdadeiras obras-primas de difamação, inspiradas no mestre Fips, o “grande artista” Latuff exprime sua visão fraterna dos povos em conflito. Nelas ele não condena apenas “o governo israelense”, como insiste em alegar, com modéstia, em suas entrevistas, governo que é, claro, sempre mau. Ao utilizar os símbolos nacionais e religiosos do Estado Judeu (a bandeira de Israel, a estrela de Davi, o Knesset com a Menorah), Latuff engloba em seus ataques todos os israelenses, e os judeus em geral.

Latuff não critica um ou sucessivos governos de Israel, mas a existência desse Estado, não importando seus governos, pois a causa palestina que defende é aquela que sonha em varrer o Estado Judeu do mapa. Conta agora com o apoio das mídias de consumo, prostradas diante de seu discurso radical, como nessa espantosa entrevista da Folha, em que o repórter Douglas Lisboa, depois de acatar submisso, sem opor um argumento, todas as falas de Latuff, dele se despede com palavras de encantamento e ternura:

Caramba! Sim, poxa, legal, cara! Se eu pudesse conversava contigo mais… De qualquer modo, parabéns pelo trabalho, aí! Espero que você continue com sucesso… e que a gente possa conversar em outra oportunidade. E, se quiser alguma correção, ou se quiser algum contato mesmo… quiser me enviar ou escrever, pode ficar à vontade…

Divulgo, pois, algumas obras-primas de Latuff, para que todos possam reconhecer suas boas intenções ao comparar soldados judeus a carrascos nazistas, palestinos de Gaza a judeus de Auschwitz e cidadãos pró-Israel a cabeças-de-merda. Numa de suas expressões de “crítica legítima ao governo de Israel”, ele transforma Sharon em vampiro e Netanyahu num SS esportivo com cão-pastor Obama na coleira; e em seu sincero “pacifismo”, exalta um Guevara com lenço palestino. São imagens grotescas, raivosas e unilaterais, mas que Tendler consideraria sutis, fraternas e ponderadas, visando sempre um novo mundo possível, onde todos caminharão de mãos dadas rumo ao Paraíso:

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REVISIONISMO BASTARDO EM TECNICOLOR

Que se poderia esperar quando um Quentin Tarantino encena uma fantasia antissemita disfarçada pelo antinazismo de um fictício grupo de “soldados judeus americanos conhecidos como Os bastardos” dispostos a degolar soldados alemães, no filme intitulado de modo propositadamente errado Inglourious Basterds (2009)? Mais um hediondo filme revisionista invertendo papéis, mostrando os judeus como carniceiros sádicos e os nazistas como vítimas de terroristas. A Vanity Fair publicou stills do filme que “surgem com todo o glamour das produções antigas e dos astros de Hollywood” (Notícias da Rua Judaica, 19/04/2009), tornando a carniçaria que os cartazes não disfarçam mais palatável ao público fashion. Mas a imagem que ilustra a matéria mostra um judeu carniceiro escolhendo as armas mais afiadas para cometer seus escalpos, à maneira das tão vulgares caricaturas de “Fips” para o jornal nazista Der Stürmer:

Judeu como carniceiro de nazistas em "Inglourious Bastards".
Judeu como carniceiro de nazistas em Inglourious Bastards.
Judeus como carniceiros de anjos loiros no jornal nazista "Der Stürmer".
Judeus como carniceiros de anjos loiros em Der Stürmer.

Claro que, para efeito de bilheteria, os judeus do filme de Tarantino são mais bonitos, e é o galã Brad Pitt quem interpreta o tenente americano Aldo Raine que os organiza. Esse não é exatamente um “caçador de nazistas” como o feioso Simon Wiesenthal, mas um charmant torturador cujo objetivo não é tanto combater o nazismo quanto opor ao nazismo alemão um nazismo judeu capaz de apavorar até Adolf Hitler: “Membros do Partido Nacional-socialista conquistaram a Europa para assassinar, torturar, intimidar, e aterrorizar. E isso é exatamente o que nós vamos fazer a eles. Seremos cruéis com os alemães e através de nossa crueldade eles saberão quem somos nós. Eles encontrarão a evidência de nossa crueldade nos corpos destroçados, desmembrados, desfigurados de seus irmãos que deixaremos para trás e os alemães […] terão medo de nós. Nazistas não têm humanidade! Eles precisam ser destruídos. Cada um dos homens sob o meu comando deve-me cem escalpos nazistas… E eu quero os meus escalpos!” (trailer do filme).

Num mundo que assume descaradamente seu anti-semitismo comparando judeus a nazistas, não mais somente nas mídias islamitas, neo-stalinistas, neonazistas, mas até nas mídias liberais, esse novo blockbuster de Hollywood reforça para o grande público o conceito que hoje se espalha em meio aos conflitos no Oriente Médio, fazendo dos judeus não apenas os novos nazistas, mas os piores nazistas.

Bastardos inglórios é, pois, um filme detestável. Seu humor é sádico e grotesco; sua violência, vulgar e grosseira, caracteriza um típico pastelão de sangue; os diálogos são perfeitos para imbecis que se acham inteligentes sacando a “inteligência dos diálogos”. Um verdadeiro lixo. As referências ao cinema nazista podem parecer profundas para quem não conhece o cinema nazista, mas é fácil para quem o conhece perceber os buracos.

Georg Wilhelm Pabst, por exemplo, é citado com admiração, pois Tarantino só deve conhecer a fase alemã muda e a fase francesa dele, não a fase nazista (Komödianten, Paracelsus, Der Fall Molander). Assim, ele critica a Riefenstahl, mas preserva o Pabst, anunciado “sem necessidade” (como nota o jovem soldado Zoller) no cartaz de Pitz Palü, que não foi produzido na Alemanha nazista, mas na República de Weimar.

Claro, uma “Semana Alemã” em uma sala de cinema de Paris sob a Ocupação poderia estar exibindo uma reprise. Mas por que não algum filme nazista de Veit Harlan ou Hans Steinhoff? Ah, sim, a dona do cinema, Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), é uma jovem judia camponesa escapada de um massacre graças ao estranho “au revoir” do supostamente impiedoso “caçador de judeus”; ela chegou caminhando, ou sabe Deus como, do interior da França até a Paris ocupada, onde herdou legalmente, sabe Deus como, um cinema em plena Ocupação; e, claro, cinéfila inveterada, ela mantém um arquivo de filmes, de onde sacou esse velho filme, embora deteste Riefenstahl, exibindo Pitz Palü apenas como uma homenagem a Pabst…

Ora, precisamente nessa altura Pabst estava trabalhando na Alemanha nazista (ele devolveu ao governo francês, dois meses antes da declaração de guerra, uma medalha da Legião de Honra que ganhara, e com a eclosão da guerra, em 1939, ele retornou à Áustria, de onde seguiu para a Alemanha para realizar filmes de propaganda nazista a convite de Goebbels, ajudando, inclusive, a Riefenstahl – que a jovem judia camponesa proprietária de cinema e cinéfila inveterada detesta – na direção de algumas cenas em que ela atuava em seu Tiefland

Em certa cena, uma canção cantada por Zarah Leander é ouvida ao fundo, mas o nome da maior diva nazista não é mencionado, apenas o da secundária Brigitte Fossey e da veterana Pola Negri (personagens no jogo de adivinha) e o de Lilian Harvey (inglesa que após trabalhar em alguns filmes nazistas imigrou para os EUA, onde não fez sucesso; o Goebbels de Tarantino fica furioso no cinema quando lembram o nome dela).

Já a estrela nazista Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), que ajuda os Bastardos, parece vagamente inspirada em Olga Tchekova (que espionava para o NKVD, diretamente subordinada a Lavrentiy Beria, segundo a recente biografia escrita por Antony Beevor, que também revela o trabalho de espionagem para os soviéticos de Zarah Leander, subordinada a Zoia Ribkina) e em Renate Müller (que tinha um amante judeu na Inglaterra, para onde escapava às escondidas, e que acabou sendo “suicidada” pela Gestapo).

De qualquer forma, as referências ao cinema nazista são sempre vagas e imprecisas – como a súbita irrupção de um nada parecido Emil Jannings na seqüência da estréia de O orgulho da nação… Na crônica “Bastardos gloriosos” (Folha de S. Paulo, 13/10/2009), João Pereira Coutinho perguntou: “Vocês, caros leitores, estão habituados a filmes sobre o Holocausto onde os judeus são meros carneiros nas matanças nazistas? Filmes de um sentimentalismo vulgar […]? [Em Bastardos inglórios] os judeus, agora, não são apenas vítimas; também são vingadores […]”. Ou seja, os filmes que tentaram apreender a verdade sobre o Holocausto, como Ostatni etap; Ulica Graniczna; Daleká cesta; Professor Mamlock; A orquestra de Auschwitz; Shoah; As 200 crianças do Dr. Korczak; A lista de Schindler, O pianista, etc. são “de um sentimentalismo vulgar” porque neles os judeus são vítimas… Quando não o foram?

O cronista e seus leitores preferem a “inversão de estereótipos” do Cirque de Soleil sangrento de Tarantino. Não percebem que o cineasta, sem qualquer cultura (ou, antes, formado pela subcultura de filmes de Kung Fu e Blaxploitation, com algumas doses da Nazi-exploitation que inclui títulos como Ilsa, She Wolf of the SS; La bestia in calore, L’ultima orgia del III Reich e Quel maledetto treno blindato, intitulado The Inglorious Bastards nos EUA, e cujo diretor, Enzo Castellari, interpreta um pequeno papel no filme de Tarantino) cai nos estereótipos mais antigos sobre os judeus: a gangue dos Bastardos – assim como a esquizofrênica Shosanna Dreyfus (nome escolhido a dedo) – são movidos pelo ódio vingativo como o Shylock de O mercador de Veneza, de William Shakespeare; o Judeu errante, de Eugène Sue; ou o Samuel Mayer do romance mediúnico A vingança do judeu, do “espírito” J. W. Rochester, revelando-se tão carniceiros quanto os “judeus” das caricaturas de Der Stürmer

No revisionismo dos trapalhões escalpeladores de Tarantino, os principais dirigentes nazistas, incluindo Joseph Goebbels (Sylvester Groth) e Adolf Hitler (Martin Wuttke), são mortos pelos judeus Bastardos. Todos são representados por atores tão pouco parecidos quanto o grotesco Winston Churchill caracterizado por Rod Taylor, escondido como uma aranha num canto de seu sombrio gabinete. E os judeus ainda são aí homens-bombas terroristas e massacradores de nazistas “indefesos” (eles incendeiam um cinema lotado e queimam vivos uns 400 nazistas desarmados na platéia).

É incrível como a sensibilidade do público deteriorou-se, a ponto de tantos acharem inteligente, divertido, excitante ver judeus arrancando a faca o couro cabeludo dos corpos de nazistas – o escalpe “apache” que, em 1975, Pier Paolo Pasolini associou para sempre aos torturadores fascistas de Salò… Há uma tendência moderna que consiste em saciar o sadismo das massas fascistóides contra os “vilões”. Tarantino radicaliza essa tendência, fazendo com que seus vilões nazistas sofram “como judeus” nas mãos de judeus que agem como os nazistas: supostamente bons, esses “heróis” podem praticar todo tipo de atrocidade contra os tradicionais “vilões”: escalpelamento, cremação massiva, estouro de crânios, etc.

Notável, nesse sentido, que o personagem de Brad Pitt, o Kapo americano não-judeu que organiza os Bastardos, nunca suje suas mãos, a não ser para marcar os nazistas. Ele encarrega os judeus de todo o trabalho sujo, eles é que têm de esmigalhar crânios e arrancar escalpos, supostamente se vingando, como um bando de cães, lobos ou ursos amestrados a serviço de seu “dono”. O Kapo Aldo Raine reserva-se apenas o privilégio de enfiar o dedo na ferida da estrela que trai os nazistas e de rabiscar a facão suásticas nas testas dos nazistas que deixa escapulir. E aí está mais uma ambigüidade do filme, pois ao mesmo tempo em que o personagem afirma que essa escarificação tornará os nazistas “visíveis” mesmo ao se livrarem de seus uniformes, o fato é que a escarificação de suásticas nas testas das vítimas é uma conhecida prática de gangues neonazistas.

Em resumo, no filme de “clichês trocados” de Tarantino, os verdadeiros nazistas são os judeus… A alcunha que o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz) recebe, de “caçador de judeus”, é uma “indireta” dirigida ao “caçador de nazistas” Simon Wiesentahl. Com exceção do assassinato da família Dreyfus no começo do filme (seqüência copiada de A lista de Schindler, de Steven Spielberg, e de A lenda do cavaleiro sem cabeça, de Tim Burton), são sempre os judeus que trucidam, bombardeiam, metralham, cremam vivos, “tatuam” os inimigos na carne e queimam bens culturais – o auto-de-fé nazista de livros é aí transformado num judaico auto-de-fé de filmes.

Em “Tarantino Touch” (Folha de S. Paulo, 18/10/2009), Jorge Coli chegou a comparar Bastardos inglórios à magistral e sofisticada comédia antinazista Ser ou não ser, de Ernst Lubitch, e o “discurso vingador” de Shosanna ao emocionante discurso final de O grande ditador, de Charles Chaplin, com desvantagem para esse último: o discurso de Tarantino “nada tem do tom didático [de Chaplin]… é uma esplêndida apoteose feita com o prazer de filmar para o prazer de assistir”. Quer dizer que o grosseiro pastiche de Tarantino evocaria o Lubitch Touch e superaria a obra-prima de Chaplin? Quanta baboseira!

Sintomático que o ato final de barbárie da “heroína” vingadora tenha sido interpretado por diversos críticos como uma prova do grande “amor” que Tarantino dedicaria ao cinema. Estranho amor, que se demonstra queimando todo um acervo de películas em nitrato e explodindo uma bela sala de cinema, atribuindo esse “holocausto” a uma judia e a um negro… E depois Tarantino tem o desplante de ir a Israel mostrar seu filme, talvez esperando que o “exército nazista do Estado Judeu” (na visão dos novos antissemitas) se “reconheça” nos seus personagens, aplaudindo Bastados inglórios como as platéias alheias à História que gargalham nos cinemas multiplex que fedem a mofo e pipoca amanteigada…