O LEGADO DE UMA NULIDADE

Eva Braun.

Originalmente publicado no extinto caderno Sabático, de O Estado de S. Paulo, no dia 18 de junho de 2011 numa versão reduzida a 5000 caracteres sob o título: Sem lugar próprio na cena da história. Segue a versão integral.

Seguindo uma tendência da historiografia alemã de reinserir no panteão da História toda a galeria dos criminosos de massa do nazismo, à maneira de Der Untergang (A queda: as últimas horas de Hitler, 2004), de Oliver Hirschbiegel, com seu singelo crédito final dando conta do destino de cada um dos “heróis” que protagonizaram o pesado dramalhão do Bunker, a acadêmica Heike Görtemaker, doutora em germanística pela Universidade de Indiana e professora da Universidade Livre de Berlim, dispôs-se a exaltar com uma alentada biografia a vida da suposta amante de Hitler.

Uma tarefa bastante ingrata. Afinal, como biografar uma nulidade? E mais: para quê? Hannah Arendt já havia se escandalizado com a moda que viu despontar com o Hitler (1973), de Joachim Fest, de celebrar o ditador em livros-mamutes “à inglesa”, que esmiuçavam em detalhes a vida daquele genocida. Que dizer então do empreendimento de Görtemaker, de esmiuçar em Eva Braun, a vida com Hitler a apagada sombra da estéril acompanhante do genocida?

Nenhum feminismo justifica a empreitada. É um sentimento mal definido que leva a autora a tentar “virar a mesa” da historiografia clássica, que a seu ver só ressaltou a insignificância de Eva Braun. Mas, apesar de sua intensa pesquisa – suas notas, fontes, bibliografia e índices ocupam 100 das 400 páginas do livro –, a autora não encontrou nada de novo que pudesse modificar o quadro.

Eva Braun tinha para Hitler a mesma importância que seu cachorro predileto, o pastor alemão Blondi, no qual ele testou a fatal ampola de cianureto de hidrogênio que daria à “amante” no dia seguinte, a 30 de abril de 1945, quando ambos se mataram no Bunker cercado pelo Exército Vermelho (depois de tomar sua cápsula, o Führer também meteu uma bala na cabeça, para garantir-se um suicídio sem chance de fracasso).

Embora Heike Görtemaker tente provar que Eva Braun seria bem mais que uma criatura fútil e mesquinha, deslumbrada por um poder criminoso, só conseguiu reforçar a tolice de sua personagem, cuja vida se resumiu a esperar pelo ditador, que a tratava como uma privilegiada empregada doméstica ou cadela de estimação.

Ao contrário do que Görtemaker sugere, o sonho evidente de Eva Braun era mesmo viver casada com Hitler após sua “aposentadoria” no planejado palacete de Linz. O ditador só se casou com a suposta “amante” ao ter absoluta certeza de que ela se mataria imediatamente após a cerimônia, conforme haviam diversas vezes ensaiado, para nada saísse errado.

Hitler ditou à secretária Traudl Jung em seu Testamento: “Como, nos anos de luta, eu não me julgava em condições de contrair matrimônio, agora, no fim desta trajetória terrena, decidi desposar a moça que, depois de muitos anos de leal amizade, entrou na cidade já quase sitiada para compartilhar seu destino com o meu. Por desejo meu, é na qualidade de esposa que ela vai comigo para a morte.” (Hitler, apud Görtemaker, p. 298).

Embora a razão disso seja óbvia, Heike Görtemaker insiste em negar que a relação de Hitler com Eva Braun fosse apenas a de um amor platônico, como diversos membros do círculo íntimo do poder nazista asseguraram. Görtemaker mostra-se alheia às teorias sensacionalistas que ressaltaram os problemas sexuais de Hitler: ausência do testículo esquerdo, impotência sexual de fundo psicológico, homossexualidade recalcada, etc. Nenhuma referência a nada disso há em seu livro.

Görtemaker tampouco aborda a visão do amor heterossexual que o futuro ditador expôs na juventude ao seu único amigo, August Kubizek, conforme este relatou em Adolf Hitler, mein Jugendfreund (Adolf Hitler, meu amigo de juventude, 1953), e que se resume no conceito que ele definia como “A Chama da Vida”, em nome da qual os amantes deviam permanecer virgens até o casamento.

A autora prefere acreditar (seu livro é, aliás, cheio de suposições) que Hitler mantinha relações sexuais com Eva Braun, afastando, a partir desse seu parti pris, todos os testemunhos contrários como intrigas da oposição. Interpretando a seu modo a relação entre Hitler e sua “leal amiga”, Görtemaker não percebe o verdadeiro horror da vida de sua “heroína”.

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A jovem feiosa ou no máximo “bonitinha”, mas cheia de saúde, estava cegamente apaixonada por um ser repugnante, mas poderoso, e sonhava em casar-se para ser satisfeita e fecundada, realizando o ideal nazista da esposa-mãe proliferante, sendo mantida justamente por aquele que proclamava esse ideal num estado permanente de desejo insatisfeito, esterilizada pela ausência de sexo, sob a vigilância constante da Gestapo, que a impossibilitava de qualquer aventura sexual, dentro ou fora de sua gaiola dourada.

É esse drama digno do mais vetusto e “picante” romance naturalista do século XIX, atualizado para um universo totalitário, cercado de campos de concentração e filmes nazistas vistos e comentados com entusiasmo todas as noites após o jantar, tendo assassinos de massa como companhia, que explica a histeria de Eva Braun, suas duas tentativas de suicídio, seu freqüente mau humor, suas distrações medíocres como fazedora de álbuns de sua vida privada com Hitler. Hoje ela seria uma fanática do Facebook…

Fotógrafa e cineasta amadora de fim de semana, cujos filmes coloridos em 16mm, desprovidos de imaginação, rodados no “ninho de águia” do Berghof em Obersalzberg, foram retomados nos controversos documentários Swastika (Suástica, 1974), de Philippe Mora, e Hitler: Eine Karriere (Hitler: uma carreira, 1977), de Joachim Fest, Eva Braun exibia constrangedora ascendência sobre o homem mais amado e temido da Alemanha, refletindo em microcosmo um regime de extremo sadomasoquismo coletivo.

O poderoso ditador, que se recusava a ficar nu até para uma consulta médica, sentia-se vulnerável diante daquela tolinha que ele amava, e que sabia demais sobre sua intimidade, pelo que a jovem Braun era mantida escondida do público, excluída das recepções oficiais, constantemente vigiada e protegida, quer dizer, isolada, como uma refém, uma presidiária, do mundo exterior.

Por isso também a indiferença patológica de Eva Braun em relação ao sofrimento alheio, ao mundo à sua volta, ao seu próprio fim desgraçado. Depois de viver no luxo sórdido de um poder criminoso, esperando em vão por um sonho impossível, as últimas semanas no fétido Führerbunker de Berlim a fizeram quase feliz, ligada definitivamente ao seu dono, em franca degeneração física e mental: “Estou no lucro”, ela afirmou, ao se fechar naquela claustrofóbica antessala do inferno.

Ao se matar aos 33 anos de idade, após uma vida vazia, preenchida com fofocas palacianas e torpes fantasias românticas alimentadas pelo amado carniceiro, como bem retrata o Moloch (2000), de Aleksander Sokurov, Eva Braun não “assegurou para si um lugar na história, ainda que duvidoso”, como quer a autora, mas sim um não-lugar, incapaz de render uma biografia exclusiva, já que a quase totalidade das páginas de Eva Braun: a vida com Hitler não é dedicada a ela, mas ao ditador e ao seu círculo de assassinos de massa.

Luiz Nazario

Professor de História do Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG, autor de Todos os corpos de Pasolini (Editora Perspectiva) e pesquisador bolsista de produtividade do CNPq com o projeto Cinema e Holocausto.

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A MORTE DE HITLER

Raio-x da cabeça de Hitler (The National Archives, Londres, CN 4/13).

Às 15h30 do dia 30 de abril de 1945, acuado  no seu Bunker pelas forças soviéticas, o ditador nazista Adolf Hitler, após planejar sua morte em todos os detalhes, deu um tiro na boca após ingerir uma cápsula de cianureto, enquanto Eva Braun morria engolindo sua cápsula de veneno. Como parte desse rito de morte, eles haviam se casado na véspera, realizando o sonho da amante, que provavelmente nunca fora sexualmente amada pelo Führer: a morte foi sua lua de mel. O planejamento do duplo suicídio incluía 180 litros de combustível a serem usados para queimar os dois corpos. Hitler estava assustado com a notícia da morte de Benito Mussolini, a 28 de abril (o Duce e sua amante Clara Petacci foram executados e dependurados em praça pública pela resistência comunista) e temia cair igualmente vivo nas mãos do Exército Vermelho. Antes de matar-se, Hitler apertou a mão dos funcionários do Bunker, entre os quais a de sua secretária particular Traudl Junge. Pouco depois, quando ela dispensava cuidados ao pequeno Helmut, filho do Ministro de Propaganda, Joseph Goebbels, ouviu-se o tiro.

Após a morte de Hitler, Goebbels tentou pateticamente  “negociar” um cessar-fogo com o marechal russo Georgy Zhukov. Diante da exigência de rendição sem condições, o Ministro da Propaganda decidiu acabar com sua vida e com a de toda sua família. Os seis filhos de Goebbels, de entre quatro e doze anos, foram obedientemente envenenados pela mãe, Magda, antes que o casal se suidasse com suas cápsulas de cianureto. O cadáver de Hitler foi cremado numa cratera aberta por uma bomba explodida perto do Bunker, mas não totalmente. Com as tropas soviéticas obcecadas em encontrar os despojos de Hitler, grupos competiam numa verdadeira  “caça ao troféu”. No dia 2 de maio de 1945, os corpos da família Goebbels foram descobertos pelos soviéticos nos jardins da Chancelaria do Reich. Três dias depois, a 5 de maio de 1945, o Exército Vermelho achou os restos de Hiter e de Eva Braun na cratera onde eles haviam sido enterrados. Os especialistas forenses ficaram maravilhados ao perceber que as arcadas dentárias do Führer estavam intactas: “Essas são as chaves”, disse um deles. Além dessas mandíbulas, um pedaço do crânio de Hitler, de 10 centímetros, furado a bala, comprovando a causa de sua morte, foi conservado.

O Coronel Vassilii Gorbushin, chefe da inteligência soviética, encarregado da identificação dos restos presumidos de Hitler, incumbiu a jovem Elena Rzhevskaya, junto com dois oficiais superiores, de levar as mandíbulas de Hitler, através da assistente Käthe Häusermann, ao dentista do Führer, Hugo Blaschke. Nas ruínas de Berlim, segurando uma pequena caixa, Rzhevskaya presenciou a capitulação a 8 de maio de 1945, quando o alto comando alemão rendeu-se às forças russas, britânicas e americanas. As rivalidades entre os vencedores afloraram desde o momento da vitória, e elas prosseguiriam durante a Guerra Fria. Apenas os dois oficiais que acompanhavam Elena Rzhevskaya sabiam o que ela carregava na caixinha. Ela celebrou a vitória bebendo com os colegas: segurava uma taça de vinho numa das mãos e na outra a caixinha com as mandíbulas de Hitler. Finalmente encontrado, o dentista confirmou serem aquelas as arcadas de seu paciente. Rzhevskaya só revelou sua missão secreta em 1960, quando publicou um livro contando toda a história. “Para mim foi um momento de imensa solenidade e emoção, era vitória”, ela declarou ao The Guardian, entrevistada em 2005, aos 85 anos de idade.

Em junho de 1945, os restos de Hitler e de Eva Braun foram transportados e novamente enterrados em Rathenau, antes de serem novamente transferidos para uma cova secreta, a 21 de fevereiro de 1946, num terreno da Westendstrasse, perto da Quadra 36, em Magdeburgo, na Alemanha Oriental, sob jurisdição soviética, e de acesso proibido pela KGB.  Segundo Lev Bezymenski, oficial da inteligência soviética, em seu relato sobre Der Tod von Adolf Hitler (A morte de Adolf Hitler), a KGB ordenara-lhe a criação de versões diferentes da autópsia de Hitler para fins de propaganda. Parece que Josef  Stalin desejava cercar a morte de Hitler de mistério. Contudo, o grande historiador inglês Hugh Trevor-Roper, em seu livro The Last Days of Hitler (Os últimos dias de Hitler), publicado em 1947, reconstituiu os fatos em torno dessa morte mesmo sem ter tido acesso aos arquivos soviéticos. Como oficial MI6, ele conseguira, contudo, os raios-X da cabeça de Hitler, e os comparara com os esboços das mandíbulas que o dentista Hugo Blaschke desenhara de memória, comprovando a coincidência.

Em 1960, o revisionista inglês David Irving chegou, a despeito de seus parti-pris ideológicos, comparando as fotos da KGB das mandíbulas de Hitler, as chapas de raio-X de seu crânio e o desenho do dentista, às mesmas conclusões a que chegara, com menos elementos, o perspicaz Trevor-Roper: as três provas coincidiam, estabelecendo mais uma vez a identidade do morto e a causa mortis. Em 1970, o especialista forense norueguês Dr. Reidar Sognnaes, examinando os mesmos documentos, chegou novamente, por métodos mais científicos que lógico-dedutivos, às conclusões convergentes dos historiadores Trevor-Roper e David Irving, em que pesem suas visões de mundo politicamente antagônicas.

No dia 13 de março de 1970, o então chefe da KGB, Yuri Andropov, escreveu uma carta (reproduzida numa reportagem de abril de 1995 pela revista alemã Der Spiegel) ao então secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista soviético, Leonid Brejnev, recomendando que os restos mortais de Hitler, de Eva Braun e da família Goebbels fossem destruídos para impedir cultos de adoração fascista: “Remover e destruir os restos de criminosos de guerra, enterrados em Magdeburg […]”. No dia 4 de abril de 1970, foi aberta a cova onde estavam enterrados os alvos da Operação Os Arquivos e “os restos foram incinerados em uma área vazia fora de Shoenebeck, a 11 km de Magdeburg. As cinzas foram reunidas e lançadas no Rio Biederitz”, perto de Magdeburg. Dois documentos secretos confirmam a execução da ordem por agentes da KGB. Apenas o crânio furado a bala e as mandíbulas de Hitler foram conservados: em 1993, o chefe da KGB na antiga Alemanha Oriental, Serghei Konratschova, divulgou através da revista oficial do Serviço de Segurança Federal de Moscou (FSB) que este órgão ainda mantinha, em cinco caixa, saquelas “relíquias” do Führer, assim como seus trajes militares e objetos de outros líderes nazistas – broches, estojos para cigarros e jóias – encontrados no Bunker.

A autenticidade das “relíquias” foi questionada pelo historiador alemão Werner Maser e pelo arqueólogo norte-americano Nicholas Bellantoni, de Connecticut, que examinou o crânio e levantou a hipótese de pertencer a  uma mulher, “talvez Eva Braun”.  O escritor inglês Peter Watson e a veterana jornalista russa Ada Petrova, autores do livro A morte de Hitler – A história completa, com novas provas surgidas dos arquivos secretos russos (1996), examinaram as “relíquias”, conservadas por Anatoli Propenko, diretor do Arquivo de Troféus Especiais do Estado: além das mandíbulas e do crânio de Hitler, uniformes pessoais chamuscados, 42 desenhos e aquarelas do Führer, seu álbum de família e seis pastas com documentos sobre seus últimos dias no Bunker. Estes pequeno e sinistro acervo era conhecido na NKVD (predecessora da KGB) como Arquivo Operação Mito, Dossiê I-G-23. Segundo um dos documenetos conservados, com a saúde comprometida após o atentado de 1944, Hitler exalava um mau cheiro insuportável; Albert Speer odiava quando o Führer tirava o paletó, sempre manchado de comida, para trabalhar em mangas de camisa; sua flatulência era incontrolável; e a vida no Bunker era um horror. Ainda segundo Peter Watson e Ada Petrova, a foto muito divulgada do cadáver de Hitler era na verdade do corpo de seu dublê, Gustav Weler.

Em 1995, durante uma pesquisa sobre a morte de Hitler, a famosa chapa de seu crânio, examinada no fim da guerra por Trevor-Roper, foi encontrada em Londres, em meio a documentos militares. Os registros médicos que a acompanhavam indicavam que ele teria cistite e ferimentos no ouvido. O raio-X fora requisitado pelo médico particular do Führer, Dr. Theo Morell, após o atentado de julho de 1944, no qual ele sofrera ferimentos internos. A chapa fora tirada pelo Dr. Giesing no Hospital do Exército, em Ratsenburg, em setembro de 1944. O aspecto especialmente macabro desse raio-X do crânio de Hitler é ressaltado pela concentração da morte nessa única imagem: 1) pela própria natureza do raio-X na revelação do esqueleto do paciente; 2) pela associação do crânio de Hitler a uma mente particularmente criminosa; 3) pelo fato de Hitler ter acabado de escapar da morte no atentado de julho de 1944; 4) por estar Hitler próximo da morte que daria a si próprio; 5) por Hitler personificar a morte através de sua política de guerra e de genocídio.

Como os russos não abriram seus arquivos senão após o fim do comunismo e como não houve testemunhos oculares do suicídio de Hitler, alguns historiadores formularam hipóteses fantasiosas sobre como Hitler teria se matado. Em abril de 1995, o jornal alemão Bild divulgou a teoria do historiador britânico Hugh Thomas de que faltara a Hitler coragem de matar-se com um tiro, tendo sido então estrangulado por um de seus ordenanças, o oficial das SS Heinz Linge, depois que este tentara em vão introduzir uma cápsula de cianureto na boca do ditador. Essa hipótese contraria a autópsia oficial e o testemunho fidedigno da secretária de Hitler, que se encontrava no Bunker, e que ouviu o tiro, vendo em seguida os corpos de Hitler e Eva Braun sendo carregados para fora. O testemunho de outro ordenança de Hitler confirmou a morte por tiro: a única dúvida, de que ele se atirara na boca ou na têmpora, parece ter sido resolvida quando o crânio foi achado. A autópsia tamém confirmou que Hitler tomara, antes do tiro, sua cápsula de cianureto.

Em 1996, um programa da Spiegel TV noticiou que uma cova descoberta sob o quartel-general do antigo Serviço de Inteligência Soviético, em Magdeburgo, na antiga Alemanha Oriental, contendo 32 esqueletos não identificados, poderia conter os restos da família Goebbels e de Eva Braun. Mas nenhum fato novo veio à tona desde as provas apresentadas por Watson e Petrova em 1995, que confirmaram a morte do Führer por bala no crânio, em 1945, e a queima de seus ossos em 1970, com exceção do crânio e das mandíbulas, conservados em Moscou.

Em 2000, a Rússia exibiu os fragmentos do crânio de Hitler com o buraco da bala (estando muito frágeis as mandíbulas foram apresentadas apenas em fotos). A exposição A agonia do ‘Terceiro Reich’: A Retribuição teve lugar nos Arquivos Federais de Moscou, marcando o 55º aniversário do fim da guerra, e incluía os documentos do serviço secreto soviético que identificaram os restos de Hitler. A diretora da exposição, Aliya Borkovets, declarou não haver qualquer dúvida sobre a origem dos restos expostos e os especialistas confirmaram a autenticidade daquele pedaço de crânio.

Em 2002, pouco antes de morrer, a secretária de Hitler de 1942 até 1945 prestou um longo depoimento no filme Im toten Winkel – Hitlers Sekretärin (“Eu fui a secretária de Hitler”, Áustria, 2002), de André Heller e Othmar Schmiderer, recordando os dias quase irreais que passou trabalhando no Bunker. O filme resume-se a uma longa entrevista, mas o conteúdo do depoimento de Traudl Junge, que também serviu de base para algumas das reconstituições do revisionista Der Untergang /The Downfall (“A queda: Os últimos dias de Hitler”, 2004), de Olivier Hirschbiegel, consegue manter nossos olhos grudados na tela.Note-se que, antes de Der Untergang outros filmes já haviam sido realizados sobre os últimos dias de Hitler, com interpretações tão notáveis quanto a de Bruno Ganz neste filme: a de Albin Skoda, em Der letzte Akt (1955), de Georg Wilhelm Pabst; a de Billy Frick, em Is Paris Burning? (1966), de René Clément; a de Frank Finlay, em The Death of Adolf Hitler (1973), de Rex Firkin; a de Alec Guinness, em Hitler: The Last Ten Days (1973), de Ennio De Concini; a de Anthony Hopkins, em The Bunker (1981), de George Schaefer; e a de Leonid Mozgovoy em Molokh (1999), de Aleksandr Sokurov.

Traudl Junge havia prestado consultoria na reconstituição do Bunker em Der letzte Akt e aparecido em alguns documentários. Em seu último e mais consistente depoimento, ela rememora os fatos com precisão, sem conseguir esconder, contudo, a emoção que a toma quando, recordando a morte de Hitler, sentiu-se traída, como se tivesse, agora, como todo alemão sobrevivente ao nazismo, que pagar sozinha, sem o escudo protetor do Führer a chamar para si toda a responsabilidade pelos crimes do regime. Percebendo a morte aproximar-se, aos 81 anos de idade, ela buscou, através de seu depoimento, algum tipo de remissão da culpa profunda de ter comungado do ideal macabro do ‘Terceiro Reich’ no centro mesmo do poder e na intimidade insalubre dos líderes, até a apocalíptica derrocada.

Em 2009 foi noticiado um exame de DNA sobre “amostras do fragmento do crânio de Hitler”,  feito por cientistas da Universidade de Connecticut, depois que o arqueólogo Nicholas Bellantoni suspeitou que “os ossos eram muito finos para serem de um homem, além de parecerem mais jovens” (sic). O arqueólogo declarou ao Daily Mail que o exame veio “comprovar sua teoria”. O crânio seria de uma mulher com idade entre 20 e 40 anos, “sem lugar para dúvidas”, conforme atestou Linda Strausbaugh, professora de biologia molecular e celular, responsável pelo estudo. Sua equipe analisou amostras de DNA que o arqueólogo Nicholas Bellantoni obteve “numa viagem à Rússia”. O arqueólogo não explicou bem, nas reportagens, como obteve junto aos arquivos estatais russos as amostras dos fragmentos do crânio que levou aos cientistas para a realização do teste. Foi levantada a hipótese de o crânio pertencer a Eva Braun. Mas a cientista responsável pela investigação explicou ser complicado averiguar tal possibilidade dado que a amostra corresponderia a “um perfil parcial […] devido ao seu estado de degradação”, deixando lugar para muitas dúvidas sobre o exame. O tenente-general Vassili Khristoforov, chefe arquivista do Serviço Federal de Segurança (SFS) da Rússia (antiga KGB), reafirmou então ao Daily Mail, que “os arquivos da SFS detêm o maxilar de Hitler e os arquivos estatais um fragmento do crânio de Hitler. Com a exceção desses fragmentos, adquiridos no dia 5 de maio de 1945, não há nenhuma outra parte do corpo de Hitler”.

Em 2010 foi publicado em livro os resultados mais que suspeitos de uma nova investigação levantando a hipótese fantasiosa de que Hitler teria sobrevivido ao cerco do Exército Vermelho e fugido para a América do Sul, refugiando-se na Argentina, sob a proteção do Vaticano ou dos EUA, como outros criminosos nazistas, como Eichamnn e Mengele, como se o Führer fosse uma peça importante na elaboração de uma nova estratégia anticomunista para a Guerra Fria. Não há, contudo, a menor chance de Hitler ter escapado com vida do Bunker. E, de qualquer forma, ele teria sido imediatamente reconhecido, ou descoberto, sob qualquer disfarce, em qualquer lugar do mundo. Mas permanece latente nos revisionistas e neonazistas o desejo de que Hitler não tenha morrido… A Operação Mito levada a efeito pela KGB sob as ordens de Stalin até hoje revela sua tenebrosa eficiência.

Fragmento do crânio de Hitler com buraco de bala.