A LENI RIEFENSTHAL DOS OPRIMIDOS

A mais célebre cineasta contemporânea, a brasileira coreana norte-americana Iara Lee, autora de dois documentários independentes: Synthetic Pleasures (1995) e Modulations (1998), e de meia dúzia de curtas mais obscuros, foi à sede da ONU, em Nova York, mostrar as imagens do vídeo que editou sobre o ataque israelense ao barco pirata Mavi Marmara, legitimamente interceptado ao tentar furar o bloqueio israelense que impede o transporte de armas para Gaza.

Não se trata de uma inocente útil usada por terroristas, mas, como Leni Riefenstahl, de uma artista livre engajada numa causa: em 2003, Iara Lee foi deportada da fronteira com a Jordânia, onde agitava. Em 2004, foi detida em Tel Aviv, onde agitava, e deportada. Em 2006, morando e agitando no Líbano, foi outra vez presa e deportada de Israel. Ao agitar agora na Mavi Marmara, Iara foi deportada de Israel pela quarta vez…  “Trabalho com os palestinos de forma incipiente”, ela declarou ao Terra: imaginem se trabalhasse de forma não-incipiente (seja lá o que ela queira dizer com isso).

A ativista Audrey Bromso também declarou à CNN turca que os barcos levavam mais que ajuda humanitária – permitida por Israel. A “Flotilha da Liberdade” levaria, segundo seu depoimento, casas pré-fabricadas e cimento, que ela chamou de ajuda de reconstrução. Ora, é largamente sabido que Israel proíbe a entrada de cimento na Faixa de Gaza para evitar a construção de túneis de contrabando de armas. Com essa proibição conseguiu evitar até agora ataques à população israelense, numa trégua com os palestinos, que os pacifistas desejam romper com o fim do bloqueio.

Engajada nessa causa pacifista, impaciente pela eclosão de uma nova guerra entre israelenses e palestinos, Iara Lee mostrou à ONU sua edição de 60 minutos dos 90 minutos de imagens gravadas dentro do barco por um cinegrafista sérvio, que, apesar de ter feito todo o trabalho, permanece sem crédito – mas Leni Riefenstahl fazia o mesmo, assumindo como seu o trabalho de dezenas de cinegrafistas contratados por sua produtora.

As cenas mostram ativistas com coletes e máscaras contra gás rezando a Alá e preparando-se para um confronto com soldados judeus. Um esquadrão de comunicadores fanáticos, equipados com computadores e câmaras de última geração – não custa lembrar que Iara Lee avaliou seu equipamento perdido em 15o mil dólares – transmitem mundo afora a mais infernal propaganda palestina. Quando os barcos israelenses chegam, ouvem-se tiros.

Rastros de sangue escorrem pela parede do andar de cima para o de baixo, onde o cinegrafista faz, de modo seguro, seus ousados registros. Um helicóptero sobrevoa a embarcação. Os corajosos tripulantes, na mais patética imagem de toda a história das culturas de resistência, lançam, contra o helicóptero israelense, uns pedregulhos com seus estilingues. O helicóptero se afasta dessa Intifada. Vitória? Não, feridos são trazidos para baixo. Soldados correm e gritam, enquanto o alarme do barco dispara. Os ativistas acabaram presos, mas isso o vídeo já não pode registrar.

Por alguma razão, a edição de Iara Lee suprime desse chamado material bruto (mas bem selecionado) os linchamentos dos primeiros soldados judeus que desceram ao barco. Os eventos registrados na sua edição capciosa decorreram após aquelas agressões. O vídeo mostra apenas a chegada do reforço  àqueles primeiros soldados judeus. Tampouco mostra o confronto entre os pacifistas armados e os soldados, que resultou em 9 mortes e dezenas de feridos. Ela mesma admitiu: “Eu só tenho uma geral, não tenho os close-ups dos caras assassinando a gente.”. Essa declaração ela fez, evidentemente, pouco depois de ter sido assassinada.

Impossível saber se no material suprimido da edição de Iara Lee havia registros das ações dos linchadores que espancaram e esfaquearam aqueles primeiros soldados. Neste caso, ela não precisou fazer como a Reuters, que suprimiu das fotos turcas, com um programa de Photoshop, as manchas de sangue do soldado judeu esfaqueado, assim como a faca de caça segurada por um dos pacifistas humanitários da Mavi Marmara: bastou a Iara suprimir de sua edição meia hora de imagens gravadas.

Como os soldados israelenses foram recebidos a tiros (dos revólveres roubados aos primeiros soldados que eles conseguiram derrubar com socos, pontapés, pauladas e golpes de barras de ferro), paira a dúvida sobre a origem dos disparos. As imagens tampouco esclarecem a quem pertence o sangue que escorre da parede: se dos ativistas que atiravam nos soldados ou dos soldados israelenses feridos – um deles com seis tiros no peito.

Assim, os votos de Iara Lee de que seu material sirva para a ONU conduzir uma investigação internacional e para seus advogados da ONG Cultures of Resistence processarem os responsáveis pelo ataque parecem vãos. Mais sucesso ela terá com seu novo projeto pacifista: organizar a partir do Brasil um novo barco, só com brasileiros, para integrar nova frota humanitária internacional, agora com 50 naves suicidas rumo a Gaza. Não bastou um Mavi Marmara: agora serão 50 barcos do inferno!

Em sua Aula, Roland Barthes escreveu:

A ‘inocência’ moderna fala do poder como se ele fosse um: de um lado, aqueles que o têm, de outro, os que não o têm; acreditamos que o poder fosse um objeto exemplarmente político; acreditamos agora que é também um objeto ideológico, que ele se insinua nos lugares onde não o ouvíamos de início, nas instituições, nos ensinos, mas em suma que ele é sempre uno. No entanto, e se o poder fosse plural, como os demônios? ‘Meu nome é Legião’, poderia ele dizer: por toda parte, de todos os lados, chefes, aparelhos, maciços ou minúsculos, grupos de opressão ou de pressão: por toda parte, vozes “autorizadas”, que se autorizam a fazer ouvir o discurso de todo poder: o discurso da arrogância.

Sempre agitando em nome da paz e da justiça, sempre usando um país diferente como base, sempre boiando na superfície, Iara Lee é mesmo um azougue:

Eu nasci no Brasil, morei nos Estados Unidos, na Tunísia, no Líbano, na Coreia, em Paris. A cada ano eu tento usar um país diferente como base, para poder entender um pouco o mundo de uma maneira mais direta. Através da Fundação Caipirinha [sua produtora nos EUA], eu uso a criatividade para promover a paz e a justiça.

Encantada com a liderança do  Hamas, Iara Lee assumiu, na luta dos oprimidos de Gaza, seu destino de cineasta oficial da Esquerda Nazista: de estranha passageira*, foi promovida a organizadora do barco brasileiro da Legião. Depois da guerra que os pacifistas preparam com seu ativismo, Iara Lee dirá, à maneira de Leni Riefenstahl, aos que a acusarem pelos seus compromissos com terroristas, que sempre foi apolítica, que não sabia de nada, que não entendia uma palavra de árabe, que era uma artista inocente.

* Now, Voyager (A estranha passageira, EUA, 1942). Direção: Irving Rapper. Com Bette Davis. Uma mulher (Davis) sai do hospício para refazer-se empreendendo uma viagem de navio. Romântica, apaixona-se por outro passageiro – um homem casado. Durante a viagem ela – tida por feiosa – torna-se bela e desejada, vivendo a aventura de sua vida.