CARTILHAS TENDENCIOSAS

Monumento a Yasser Arafat na Paraíba do Sul. Foto: Diadorim Ideias/Isabela Kassow.

Monumento a Yasser Arafat na Paraíba do Sul. Foto: Diadorim Ideias/Isabela Kassow.

Socialistas que chegam ao poder não perdem uma oportunidade de incutir nas novas gerações o “culto da personalidade” (conceito comunista equivalente ao conceito nazista de Führerprinzip), modelando a juventude no imaginário da “Nova História”. Exaltando os “grandes líderes populares”, essa História “crítica” está livre do estigma lançado contra  os historiadores que, não rezando pela cartilha marxista, fazem uma desprezível “História factual”, uma ignara “História oficial”, uma superada “História dos grandes homens”.

Em 2005, foi lançada a série Cartilhas Contemporâneas, projeto das secretarias de Educação e de Comunicação do governo do Rio de Janeiro, para “estimular a discussão sobre temas atuais” na rede estadual. A primeira cartilha foi sobre o jornalista Vladimir Herzog, militante do Partido Comunista Brasileiro morto nos porões da ditadura militar. Já era possível então imaginar que a discussão seria marcada pelo destaque de apenas um lado da questão.

A tendência política das Cartilhas Contemporâneas ficou ainda mais clara com o segundo título da série, com tiragem de 150 mil exemplares, sobre o terrorista egípcio, nascido no Cairo, Yasser Arafat, com texto do veterano jornalista Milton Coelho da Graça, ligado ao PCB, segundo alguns relatos barbaramente torturado durante a ditadura militar, e que entrevistou o líder palestino em 1969. Ele teria sido contratado para escrever todas as cartilhas da série.

Na avaliação do secretário de Comunicação, Ricardo de Oliveira Bruno, “havia uma defasagem entre o conteúdo tradicional ensinado nas escolas e os fatos do dia-a-dia para os quais o jornalismo pode colaborar. […] Trouxemos para esse projeto o grande jornalista brasileiro que é Milton Coelho da Graça. De modo que esse trabalho tem um aspecto que o diferencia, o compromisso de se fazer entender de maneira fácil, o que só um jornalista é capaz de fazer”.

O secretário de Educação, Claudio Mendonça, explicou que “o objetivo das cartilhas é estimular a discussão sobre temas da nossa [sic] história contemporânea, em sala de aula, para garantir que fatos importantes sejam entendidos e permaneçam presentes na memória dos estudantes. Professores de história e geografia orientarão os estudantes em pesquisas, debates e na preparação de textos e cartazes sobre o conflito no Oriente Médio.”.

Segundo a reportagem, os alunos ficariam sabendo que Arafat foi “um dos maiores líderes do Estado Palestino, escapou de mais de 50 atentados e muitas conspirações ao longo de sua trajetória. Morto em 2004, lutou por mais de 40 anos pela criação do Estado Palestino e ganhou, em 1994, o Prêmio Nobel da Paz, depois de protagonizar um histórico aperto de mãos com o primeiro-ministro israelense Itzhak Rabin, que selou o primeiro acordo para a autonomia palestina.”

Bem, se o objetivo era fazer os alunos do ensino médio entender o conflito no Oriente Médio, o projeto deveria lançar, simultaneamente, uma cartilha David Ben-Gurion, ou uma cartilha Golda Meir. E, se quisesse ficar apenas na atualidade, uma cartilha Ariel Sharon. E, claro, uma cartilha George Bush. Mas não creio que o projeto incluísse cartilhas sobre líderes populares do outro lado do conflito no Oriente Médio. Isso complicaria um pouco o fácil entendimento das questões abordadas.

O Brasil é uma página em branco que aceita tudo, até uma horrenda propaganda monumental erigida na Paraíba do Sul, em homenagem a Arafat, prova do amor que os brasileiros dedicam ao fundador da terrorista Fatah, corrupto consumado que presidiu de 1969 até sua morte (por AIDS) a Organização pela Libertação da Palestina, drenando recursos do povo palestino para sua conta particular e que, junto com seu Prêmio Nobel da Paz, carregou para o túmulo uma boa tonelada de sangue inocente.

Ambicioso, o projeto das Cartilhas Contemporâneas previa a publicação de uma nova cartilha a cada dois meses (!) e a premiação de trabalhos de alunos sobre os temas nelas abordados: “Ficamos muito sensibilizados quando os trabalhos começaram a chegar. Isso estreitou ainda mais o relacionamento entre os parceiros do projeto”, declarou a subsecretária de Planejamento Pedagógico, Alba Cruz.

Os primeiros alunos premiados ganharam aparelhos de CD e os professores orientadores somaram pontos para concorrer mais adiante a um computador. A terceira cartilha seria sobre o líder sul-africano Nelson Mandela – outro “pastor de povos” que militava no Partido Comunista. Mas as Cartilhas Contemporâneas desapareceram das mídias. Talvez o projeto, exaustivo, tenha perdido o fôlego, talvez tenha, sim, continuado, mas no modo silencioso…

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