O NAZISMO SEGUNDO BOLSONARO

Jair Bolsonaro com bigode de Hitler..jpg

Em 6 de abril de 2011, o deputado Jair Bolsonaro, após ser retratado com um bigode de Hitler num cartaz exibido por manifestantes durante protesto na Câmara, declarou ao portal G1 que não ficou ofendido: “Ficaria bravo se tivesse brinquinho, batom na boca e eles usassem isso em uma passeata gay”. Bolsonaro preferia ser caricaturado como Hitler a ser caricaturado como gay.

No mesmo ano Bolsonaro submeteu-se a um “teste do polígrafo” no programa CQC, da TV Bandeirantes, expondo sua visão deformada da História. O programa que foi ao ar foi editado, mas uma versão completa da gravação do mesmo, incluindo o ensaio das perguntas e das respostas e uma intervenção de Guga Noblat, caiu na rede, revelando o que Bolsonaro pensa de Hitler, do Nazismo e do Holocausto.

O ex-capitão Bolsonaro deve ter enforcado as aulas de História, dada a gigantesca ignorância que demonstra da Segunda Guerra Mundial. Sua admiração por Hitler enquanto “estrategista” é acompanhada pela espantosa ideia de que o Holocausto – o assassinato sistemático de seis milhões de judeus por fome e doenças provocadas, torturas, trabalho forçado, fuzilamentos e câmaras de gás – foi, na verdade, mera consequência de “desvio de recursos da saúde na Alemanha”.

Igualmente surpreendente é a visão de Bolsonaro sobre Hitler ter sido uma vítima da guerra (não fica claro se da Primeira ou da Segunda); de que destruiu outros países para defender seu povo e “impor sua raça”, e sobre o alistamento automático dos alemães ao Exército, ignorando não apenas os alemães que se exilaram, como a própria possibilidade da resistência, aceitando o totalitarismo como natural e inevitável.

Finalmente, a revelação algo chocante de que seu bisavô alemão, Carl Hintze, falecido em Campinhas em 1969, teria sido um soldado de Hitler, tendo servido na Wehrmacht e perdido um braço na guerra. Segundo o estudo da árvore genealógica de Bolsonaro realizado pelo sociólogo Daniel Taddone, editor de genealogia da revista Insieme e presidente do Comitato degli Italiani all’Estero do Recife, fica claro não ser crível que o bisavô alemão de Bolsonaro tenha sido soldado de Hitler, tendo nascido em Hamburgo em 1876 e imigrado para o Brasil em 1883, anda criança.

Quando Hitler invadiu a Polônia em 1939, desencadeando a guerra, Carl já teria 63 anos. É sabido que Goebbels organizou um exército de idosos no fim da guerra, quando o bisavô de Bolsonaro teria 68 anos. Mas que ele tenha se voluntariado para lutar na Alemanha com essa idade provecta é bastante inverossímil. Nem há notícia de ele tenha deixado o Brasil durante a guerra.

É mais plausível que o bisavô alemão pudesse ter se voluntariado para lutar na Primeira Guerra (1914-1918). Mesmo assim Carl teria entre 38 e 42 anos, tendo passado da idade de alistamento. Bolsonaro mente ou fantasia sobre o bisavô alemão? Ele confunde a Primeira Guerra com a Segunda? Ele admira tanto Hitler que fez do bisavô um herói de guerra da Wehrmacht nazista, perdendo um braço pelo ‘Terceiro Reich’? Há um fato obscuro aí que o agora Presidente Bolsonaro precisa elucidar.

Três anos depois da revelação no programa CQC de seu “bisavô soldado de Hitler”, Bolsonaro voltou a mencioná-lo numa homenagem da Câmara dos Deputados, em novembro de 2014, aos 70 anos do desembarque da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Uma declaração ambígua, com semitons revisionistas:

Agradeço neste momento, também, o exército americano, tão criticado por setores de esquerda do mundo todo, em especial do nosso país. Agradeço, então, ao povo americano por não estar falando alemão. Apesar de meu bisavô ser alemão e ter sido soldado de Hitler. Ele não tinha opção: era ser soldado ou paredão. Graças a Deus ele perdeu a guerra. Mas ele me contou muitas histórias que eu não vou falar aqui agora.

Dado seu proclamado amor à família, de raízes alemãs e italianas (com parentes possivelmente nazistas e fascistas), as “muitas histórias” falsas, revisionistas, justificadoras do nazifascismo, que Bolsonaro ouviu na infância e juventude, explicam sua admiração pelo “estrategista” Hitler, a contrapelo da historiografia militar séria e sua ignorância deliberada e acintosa do Holocausto, que ele despreza ao propagar o mesmo discurso de ódio que o embasa.

Uma versão curta, editada, dos bastidores do CQC, foi divulgada no site 247. Mas logo em seguida o próprio 247 retirou o vídeo do site, publicando uma errata na qual explicava que o vídeo era fake, tratando-se de uma edição. De fato, o clipe postado fora editado.

Mas o vídeo integral dos bastidores também caiu na rede, e podemos agora perceber que sua versão editada publicada no site 247 apenas sintetizava o conteúdo do original, sem o falsear em nada. O vídeo integral dos bastidores comprova que Bolsonaro declarou mesmo tudo aquilo em favor de Hitler e do nazismo, relativizando e banalizando o Holocausto ao atribui-lo a uma situação similar à corrupção no Brasil, de desvio de verbas públicas!

Omitindo deliberadamente o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler.

Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu ataque ao “bolchevismo cultural”, seus campos de concentração e de extermínio. É assim que Bolsonaro legitima seu discurso de ódio, isentando-o da inspiração nazista.

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TRANSCRIÇÃO DOS BASTIDORES DO PROGRAMA CQC

ENSAIO

Repórter CQC: Você tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: Não. Você tem que entender que guerra é guerra. Ele foi um grande estrategista.

Jair Bolsonaro: Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto para aniquilar o outro país, destruir o outro país, para defender o seu povo.

Homem do Polígrafo: O Hitler pra ele, levando (em conta) o segmento militar, era uma pessoa que ele achou bastante interessante, pra nível militar.

Repórter CQC: Perfeito.

GRAVANDO

Repórter CQC: Senhor Jair Bolsonaro, Deputado Jair Bolsonaro, o senhor tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né? Porque foi pra… morte de inocentes, né, Holocausto, etc. Tá OK?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: O que você tem que entender é o seguinte: guerra é guerra, e o país que não quer ser submetido ao que Hitler [se] submeteu naquela época tem que preparar suas Forças Armadas. E as nossas Forças Armadas no Brasil hoje em dia estão completamente largadas pelos últimos governos. Quem não quer sofrer, né, o que aquele povo sofreu, cuide de suas Forças Armadas. E naquela guerra, a guerra era de extermínio. Hoje em dia você faz embargos, é uma guerra completamente diferente. Então você… eu não concordo com Hitler, mas você tem que entender o que aconteceu naquela época e seu plano de dominar o mundo e de impor a sua raça. Os vencedores em batalhas impõem as suas vontades e o Hitler queria impor a sua vontade. Lógico, hoje em dia não admitiria. Naquela época era outra história. Tanto é que um homem apenas queria aquilo, e todos aderiram, quase todos aderiram, na Alemanha.

Repórter CQC: Mas há algo admirável no Hitler para o senhor?

Jair Bolsonaro: Profissionalmente, ele foi um grande estrategista. Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto pra aniquilar o outro país, destruir o outro país, pra defender o seu povo. Não o…

Repórter CQC: Mesmo sendo um genocida?

Jair Bolsonaro: O general… O genocídio é outra história, o genocídio é outra história, ok, eu não concordo logicamente com o que ele fez lá. O genocídio você pratica hoje em dia quando você desvia como estamos vendo hoje em dia desvia recursos da saúde, tem gente que morre, na mesma situação que os judeus lá na Alemanha. Muitos povos também morriam porque o governo alemão simplesmente sequestravam seus alimentos, simplesmente morriam de fome, inanição, de frio. Se um país não quer sofrer isso um dia, e podemos sofrer, porque nós temos ameaça externa, e muitos idiotas acham que não. Nós temos aqui uma reserva amazônica enorme, com tudo, e temos ai países nucleares como China e Índia, com um bilhão, ou melhor, juntos com dois bilhões e meio de habitantes, onde a alimentação básica é arroz, e peixe e produtos aí vindos da batata, basicamente isso. Quando descobriram isso aqui, já descobriram, né, mas quando a população crescer demais podem querer vir pra cá. Vamos fazer o quê com nossas Forças Armadas completamente despreparadas por negligência dos governos que  nos… têm passado por aqui.

INTERRUPÇÃO

Guga Noblat: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, o senhor teria se alistado, se o senhor fosse alemão, teria se alistado no Exército nazista?

Repórter CQC: Posso fazer esta (pergunta)?

Jair Bolsonaro: Pode, sem problema nenhum. Eu tenho uma resposta muito boa pra te dar, inclusive.

GRAVANDO

Repórter CQC: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, incluindo toda morte nos campos de concentração, o Holocausto, aqueles seis milhões de judeus assassinados, você teria se alistado como militar se fosse da Alemanha naquele contexto?

Jair Bolsonaro: Olha, o meu bisavô foi soldado de Hitler, ele perdeu um braço, inclusive na guerra, né.

Repórter CQC: Seu bisavôooooo

Jair Bolsonaro: Qual o problema? A minha família era toda de alemães e italianos. Agora a pergunta não cabe, porque você não tinha direito de se alistar ou não, você era alistado automaticamente. Quem não se alistasse, era…

Repórter CQC: E se naquela época fosse facultativo? Pode ou não se alistar, você iria?

Jair Bolsonaro: Na verdade, ninguém quer ir pra guerra, nem nós militares queremos ir para a guerra. Por isso queremos os melhores meios pra você trabalhar para evitar uma guerra. O militar bom, o exército bom, não faz guerra, evita guerra.

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Sem dizer uma única palavra sobre o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente ou inconsciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler. Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu anticomunismo e seus campos de concentração e de extermínio.

É desta forma que Bolsonaro legitima o seu próprio discurso de ódio, inspirado no discurso nazista. Em outro programa do CQC, também de 2011, este discurso extravasou de seus limites mentalmente controlados para excitar seus seguidores sem jogá-los na ilegalidade, e um Bolsonaro distraído pensou ter ouvido a palavra “gay” (sua obsessão persecutória, sendo o “gay” o seu “judeu”) quando a cantora Preta Gil perguntou o que ele faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra. Sua resposta descuidada revelou, num ato falho, simultaneamente seu racismo e sua homofobia:

Processado por racismo e por quebra do decoro parlamentar, o deputado Jair Bolsonaro conseguiu safar-se alegando que a fita havia sido montada e depois apagada para que não pudesse ser periciada, acusando Marcelo Tas de gravar outro programa por cima para se livrar da prova de sua inocência. Mas essa é uma prática comum na TV brasileira, em canais de recursos escassos, com exceção talvez da Rede Globo, que após o incêndio de seu acervo, passou a valorizar a conservação de suas gravações.

Não havia como editar pergunta e resposta porque, como explicou o CGC, o programa gravava apenas uma pergunta de cada convidado, e é claro a qualquer espectador que a resposta se segue imediatamente à pergunta, sem possibilidade de uma montagem tão imperceptível. Danilo Gentili estava presente à gravação e declarou em seu programa que  não houve montagem alguma. O próprio Bolsonaro admitiu que pode ter se confundido. Mas a alegação mentirosa livrou-o da punição no processo, e o estimulou a processar Marcelo Tas por difamação. A resposta de Tas aparentemente encerrou o caso.

NOTA

Agradeço ao historiador João Araujo o envio de artigos publicados em jornais e sites sobre a genealogia de Bolsonaro. É curioso que os jornalistas só tenham pesquisado o ramo italiano de sua família, investigando pouco o ramo alemão. Segundo o site Ethninicity of CelebsBolsonaro seria 81,25% italiano, 12,5% alemão e 6,25% brasileiro (português, possivelmente outros)… Mas parece que o ramo alemão influenciou mais o pequeno Bolsonaro e o impulsionou à vida militar e à confessa admiração de Hitler.

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