OS 300 DESINFORMADOS

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Um abaixo assinado com 300 nomes de jornalistas, intelectuais e ativistas dos Direitos Humanos defendendo o cartunista Carlos Latuff, “acusado de antissemitismo” pelo Simon Wiesentahl Center, foi entregue à Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro. Mas porque esse manifesto, que deveria ser destinado ao Simon Wiesentahl Center, com sede em Nova York, foi entregue à Federação Israelita, com sede no Rio de Janeiro?

Na cabeça de Latuff e de seus defensores, talvez Simon Wiesentahl Center e Federação Israelita do Rio de Janeiro sejam uma mesma e única coisa, uma coisa de judeus, de judeus que são todos iguais, seja em Nova York, seja no Rio de Janeiro, seja de direita seja de esquerda, seja “amigo de Latuff” ou não. Pobre Silvio Tendler: na cabeça daquele a quem chama de “amigo”, ele não passa de um judeu.

Assim Latuff defendeu-se da acusação: “Eu estou na frente de um grupo da extrema-direita grega por ter feito charges criticando a postura do Estado de Israel. A expressão antissemita se refere a ódio aos judeus, ódio racial ou ódio religioso, nem uma coisa nem outra tem a ver com meu trabalho.”

A definição atual de antissemitismo não é tão simples quanto Latuff imagina ou pretende fazer acreditar que ele a assim imagina. Alguns ativistas árabes, por exemplo, alegam que a expressão “antissemitismo” refere-se ao ódio dirigido aos semitas; sendo os árabes tão semitas quanto os judeus, eles não poderiam ser acusados se antissemitismo em seus ataques aos judeus…

Por outro lado, a expressão “antissemitismo” referia-se, tradicionalmente, ao ódio aos judeus, à sua etnia, religião e cultura, quando os judeus não possuíam um Estado. A partir do momento em que os judeus passaram a possuir o Estado de Israel, o ódio aos judeus ganhou uma nova dimensão.

Essa dimensão confunde-se e mescla-se com o que passou a ser chamado de “antissionismo”. Por isso o “Top Ten” do Simon Wiesentahl Center no qual Latuff foi incluído em terceiro posto não se refere apenas a “antissemitismo”, como alega o cartunista. É o “Top Ten dos Antissemitas/Antissionistas”. E Latuff é declaradamente antissionista.

Na atualidade, os antissemitas preferem odiar o Estado de Israel e não mais os judeus, pois esse Estado agora representa a coletividade judaica de uma forma abstrata, fazendo com que o velho ódio primitivo, de tipo nazista, com seu conceito caduco de “raça”, ganhe feições “civilizadas” e “politicamente corretas”.

Professar o antissemitismo não é mais tão cool como o foi nos anos que precederam o nazismo, com suas  cruéis perseguições aos judeus. Depois do Holocausto, ser antissemita é algo de peçonhento e rançoso. Mas os antissemitas encontraram uma tábua de salvação: não precisam mais odiar os judeus diretamente, atacando sua “raça”, sua cultura e religião. Podem simplesmente odiar Israel. Isso hoje é cool e politicamente correto.

O novo antissemitismo sublimado pode ser assim adotado pelas esquerdas, pelos intelectuais, pelos jornalistas, pelos ativistas dos Direitos Humanos, pelos caricaturistas engajados e por toda subcultura, pois vem com um lindo verniz de libertarismo, anarquismo, pacifismo e humanitarismo. O novo antissemita nada tem contra os judeus, ele só critica Israel. Criticar Israel é legítimo, e pode ser uma prática sistemática, generalizada e, claro, sem limites.

É notável, enfim, que Latuff se defenda de ser antissemita alegando estar à frente de “um grupo da extrema direita grega”, sendo público e notório que seu compromisso político é oposto aos ideais desse grupo. Por que suas charges, que defendem posições de extrema-esquerda, são amadas pela extrema-direita? O que a extrema-direita e a extrema-esquerda têm em comum, além de seu extremismo? A resposta é simples: o ódio aos judeus, seja em sua velha forma antissemita, seja em sua nova forma antissionista.

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A ARTE DA DIFAMAÇÃO

Carlos Latuff - Latuff SVC.

Carlos Latuff: orgulhoso do terceiro lugar no Top Ten dos difamadores de Israel.

Na sessão de Carta dos Leitores do jornal eletrônico Rua Judaica, o cineasta Silvio Tendler fez questão de proclamar sua amizade pelo cartunista Carlos Latuff, divulgando o link de um blog com seleção criteriosa de alguns dos trabalhos de seu amigo antissionista, a fim de que a comunidade judaica brasileira pudesse constatar os bons sentimentos que moveriam o cartunista:

Tenho sido acusado de ser amigo do “antissemita” Latuff, de “Latuff, o sanguinário”. Pois bem, assumo e apresento O MEU AMIGO LATUFF, que os que se alimentam da guerra fazem questão de esconder, e ajudo a torná-lo público. O objetivo é um só: fazer justiça a um grande artista e caminharmos juntos rumo a um mundo de fraternidade. Conhecer estas charges de Latuff é um bom começo para começarmos 2013 com os espíritos desarmados: http://www.anis-online.de/1/rooms/latuff/forgiveness.htm.

Latuff pode ser considerado o Fips da era digital. Convidado pela Autoridade Palestina para conhecer, em 1998, os territórios ocupados, ele se converteu à causa palestina, passando a publicar seus trabalhos no Der Stürmer global que hoje são os milhares de sites e blogs extremistas, acessados por qualquer internauta. Ninguém esconde as lindas obras de Latuff, que foram por ele doadas ao mundo, com “free copyright licenses that anyone can use”.

O caricaturista brasileiro ficou tão conhecido por suas “críticas legítimas a Israel”, feitas através de imagens-choques que reduzem a maniqueísmos alguns dos mais complexos problemas do mundo atual, que ele obteve com mérito o segundo lugar no infame Concurso das “Caricaturas do Holocausto”, promovido pela Casa do Cartum do Irã, em 2006, com a imagem de um palestino chorando diante do Muro em Gaza como se fosse um judeu prisioneiro de Auschwitz:

Carlos Latuff - Holocausto, Segundo Lugar no Concurso das Caricaturas do Holocausto do Irã.. lugar.

Carlos Latuff – Holocausto, Segundo Lugar no Concurso das Caricaturas do Holocausto do Irã.

Em fins de 2012, Latuff conseguiu superar-se, galgando o infamante terceiro lugar na lista dos Top Ten 2012 do antissemitismo/antissionismo mundial, do Centro Simon Wiesentahl, por conta da caricatura que perpetrou do Rabino Marvin Hier retorcendo o cadáver de uma criança palestina para obter votos para Benjamin Netanyahu:

Carlos Latuff - Rabbi Marvin Hier, 2012.

Carlos Latuff – Rabbi Marvin Hier, 2012.

Apesar de Latuff ser simultaneamente cultuado pela extrema-direita e pela extrema-esquerda, graças ao seu imaginário escatológico e belicoso centrado no ódio a Israel, Silvio Tendler considera que existem ainda pessoas malignas, que se “alimentam da guerra”, e fazem “questão de esconder” as obras-primas do “grande artista” injustiçado. Nem é preciso dizer quem seriam esses bodes expiatórios de sempre, que impedem o Paraíso na Terra.

Porém, Tendler divulgou na Rua Judaica apenas as charges menos populares do “genial Latuff”, talvez para convencer os judeus hesitantes a caminharem “todos juntos rumo a um mundo de fraternidade” (em meio aos foguetes palestinos e às bombas israelenses?). Mas os que se alimentam da paz não deviam esconder as charges mais queridas de Latuff, aquelas que fizeram sua glória nas mídias extremistas.

Numa dessas charges, a estrela de Davi projeta-se num muro como a sombra de um neonazista que acabou de matar um mendigo a porrete, com a afirmação enigmática de que “nazismo já era, a suástica agora é bem outra”, associando gratuitamente o símbolo judaico (representando Israel? Os israelenses? Os sionistas? Os judeus?) ao assassinato de mendigos em São Paulo por neonazistas! Negando confundir judeus com Israel, hoje Latuff acusa o Simon Wiesentahl Center de confundir suas “críticas legítimas a Israel” com antissemitismo.

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Em suas charges contra Israel, verdadeiras obras-primas de difamação, inspiradas no mestre Fips, o “grande artista” Latuff exprime sua visão fraterna dos povos em conflito. Nelas ele não condena apenas “o governo israelense”, como insiste em alegar, com modéstia, em suas entrevistas, governo que é, claro, sempre mau. Ao utilizar os símbolos nacionais e religiosos do Estado Judeu (a bandeira de Israel, a estrela de Davi, o Knesset com a Menorah), Latuff engloba em seus ataques todos os israelenses, e os judeus em geral.

Latuff não critica um ou sucessivos governos de Israel, mas a existência desse Estado, não importando seus governos, pois a causa palestina que defende é aquela que sonha em varrer o Estado Judeu do mapa. Conta agora com o apoio das mídias de consumo, prostradas diante de seu discurso radical, como nessa espantosa entrevista da Folha, em que o repórter Douglas Lisboa, depois de acatar submisso, sem opor um argumento, todas as falas de Latuff, dele se despede com palavras de encantamento e ternura:

Caramba! Sim, poxa, legal, cara! Se eu pudesse conversava contigo mais… De qualquer modo, parabéns pelo trabalho, aí! Espero que você continue com sucesso… e que a gente possa conversar em outra oportunidade. E, se quiser alguma correção, ou se quiser algum contato mesmo… quiser me enviar ou escrever, pode ficar à vontade…

Divulgo, pois, algumas obras-primas de Latuff, para que todos possam reconhecer suas boas intenções ao comparar soldados judeus a carrascos nazistas, palestinos de Gaza a judeus de Auschwitz e cidadãos pró-Israel a cabeças-de-merda. Numa de suas expressões de “crítica legítima ao governo de Israel”, ele transforma Sharon em vampiro e Netanyahu num SS esportivo com cão-pastor Obama na coleira; e em seu sincero “pacifismo”, exalta um Guevara com lenço palestino. São imagens grotescas, raivosas e unilaterais, mas que Tendler consideraria sutis, fraternas e ponderadas, visando sempre um novo mundo possível, onde todos caminharão de mãos dadas rumo ao Paraíso:

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