O LEGADO DE UMA NULIDADE

Eva Braun.

Originalmente publicado no extinto caderno Sabático, de O Estado de S. Paulo, no dia 18 de junho de 2011 numa versão reduzida a 5000 caracteres sob o título: Sem lugar próprio na cena da história. Segue a versão integral.

Seguindo uma tendência da historiografia alemã de reinserir no panteão da História toda a galeria dos criminosos de massa do nazismo, à maneira de Der Untergang (A queda: as últimas horas de Hitler, 2004), de Oliver Hirschbiegel, com seu singelo crédito final dando conta do destino de cada um dos “heróis” que protagonizaram o pesado dramalhão do Bunker, a acadêmica Heike Görtemaker, doutora em germanística pela Universidade de Indiana e professora da Universidade Livre de Berlim, dispôs-se a exaltar com uma alentada biografia a vida da suposta amante de Hitler.

Uma tarefa bastante ingrata. Afinal, como biografar uma nulidade? E mais: para quê? Hannah Arendt já havia se escandalizado com a moda que viu despontar com o Hitler (1973), de Joachim Fest, de celebrar o ditador em livros-mamutes “à inglesa”, que esmiuçavam em detalhes a vida daquele genocida. Que dizer então do empreendimento de Görtemaker, de esmiuçar em Eva Braun, a vida com Hitler a apagada sombra da estéril acompanhante do genocida?

Nenhum feminismo justifica a empreitada. É um sentimento mal definido que leva a autora a tentar “virar a mesa” da historiografia clássica, que a seu ver só ressaltou a insignificância de Eva Braun. Mas, apesar de sua intensa pesquisa – suas notas, fontes, bibliografia e índices ocupam 100 das 400 páginas do livro –, a autora não encontrou nada de novo que pudesse modificar o quadro.

Eva Braun tinha para Hitler a mesma importância que seu cachorro predileto, o pastor alemão Blondi, no qual ele testou a fatal ampola de cianureto de hidrogênio que daria à “amante” no dia seguinte, a 30 de abril de 1945, quando ambos se mataram no Bunker cercado pelo Exército Vermelho (depois de tomar sua cápsula, o Führer também meteu uma bala na cabeça, para garantir-se um suicídio sem chance de fracasso).

Embora Heike Görtemaker tente provar que Eva Braun seria bem mais que uma criatura fútil e mesquinha, deslumbrada por um poder criminoso, só conseguiu reforçar a tolice de sua personagem, cuja vida se resumiu a esperar pelo ditador, que a tratava como uma privilegiada empregada doméstica ou cadela de estimação.

Ao contrário do que Görtemaker sugere, o sonho evidente de Eva Braun era mesmo viver casada com Hitler após sua “aposentadoria” no planejado palacete de Linz. O ditador só se casou com a suposta “amante” ao ter absoluta certeza de que ela se mataria imediatamente após a cerimônia, conforme haviam diversas vezes ensaiado, para nada saísse errado.

Hitler ditou à secretária Traudl Jung em seu Testamento: “Como, nos anos de luta, eu não me julgava em condições de contrair matrimônio, agora, no fim desta trajetória terrena, decidi desposar a moça que, depois de muitos anos de leal amizade, entrou na cidade já quase sitiada para compartilhar seu destino com o meu. Por desejo meu, é na qualidade de esposa que ela vai comigo para a morte.” (Hitler, apud Görtemaker, p. 298).

Embora a razão disso seja óbvia, Heike Görtemaker insiste em negar que a relação de Hitler com Eva Braun fosse apenas a de um amor platônico, como diversos membros do círculo íntimo do poder nazista asseguraram. Görtemaker mostra-se alheia às teorias sensacionalistas que ressaltaram os problemas sexuais de Hitler: ausência do testículo esquerdo, impotência sexual de fundo psicológico, homossexualidade recalcada, etc. Nenhuma referência a nada disso há em seu livro.

Görtemaker tampouco aborda a visão do amor heterossexual que o futuro ditador expôs na juventude ao seu único amigo, August Kubizek, conforme este relatou em Adolf Hitler, mein Jugendfreund (Adolf Hitler, meu amigo de juventude, 1953), e que se resume no conceito que ele definia como “A Chama da Vida”, em nome da qual os amantes deviam permanecer virgens até o casamento.

A autora prefere acreditar (seu livro é, aliás, cheio de suposições) que Hitler mantinha relações sexuais com Eva Braun, afastando, a partir desse seu parti pris, todos os testemunhos contrários como intrigas da oposição. Interpretando a seu modo a relação entre Hitler e sua “leal amiga”, Görtemaker não percebe o verdadeiro horror da vida de sua “heroína”.

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A jovem feiosa ou no máximo “bonitinha”, mas cheia de saúde, estava cegamente apaixonada por um ser repugnante, mas poderoso, e sonhava em casar-se para ser satisfeita e fecundada, realizando o ideal nazista da esposa-mãe proliferante, sendo mantida justamente por aquele que proclamava esse ideal num estado permanente de desejo insatisfeito, esterilizada pela ausência de sexo, sob a vigilância constante da Gestapo, que a impossibilitava de qualquer aventura sexual, dentro ou fora de sua gaiola dourada.

É esse drama digno do mais vetusto e “picante” romance naturalista do século XIX, atualizado para um universo totalitário, cercado de campos de concentração e filmes nazistas vistos e comentados com entusiasmo todas as noites após o jantar, tendo assassinos de massa como companhia, que explica a histeria de Eva Braun, suas duas tentativas de suicídio, seu freqüente mau humor, suas distrações medíocres como fazedora de álbuns de sua vida privada com Hitler. Hoje ela seria uma fanática do Facebook…

Fotógrafa e cineasta amadora de fim de semana, cujos filmes coloridos em 16mm, desprovidos de imaginação, rodados no “ninho de águia” do Berghof em Obersalzberg, foram retomados nos controversos documentários Swastika (Suástica, 1974), de Philippe Mora, e Hitler: Eine Karriere (Hitler: uma carreira, 1977), de Joachim Fest, Eva Braun exibia constrangedora ascendência sobre o homem mais amado e temido da Alemanha, refletindo em microcosmo um regime de extremo sadomasoquismo coletivo.

O poderoso ditador, que se recusava a ficar nu até para uma consulta médica, sentia-se vulnerável diante daquela tolinha que ele amava, e que sabia demais sobre sua intimidade, pelo que a jovem Braun era mantida escondida do público, excluída das recepções oficiais, constantemente vigiada e protegida, quer dizer, isolada, como uma refém, uma presidiária, do mundo exterior.

Por isso também a indiferença patológica de Eva Braun em relação ao sofrimento alheio, ao mundo à sua volta, ao seu próprio fim desgraçado. Depois de viver no luxo sórdido de um poder criminoso, esperando em vão por um sonho impossível, as últimas semanas no fétido Führerbunker de Berlim a fizeram quase feliz, ligada definitivamente ao seu dono, em franca degeneração física e mental: “Estou no lucro”, ela afirmou, ao se fechar naquela claustrofóbica antessala do inferno.

Ao se matar aos 33 anos de idade, após uma vida vazia, preenchida com fofocas palacianas e torpes fantasias românticas alimentadas pelo amado carniceiro, como bem retrata o Moloch (2000), de Aleksander Sokurov, Eva Braun não “assegurou para si um lugar na história, ainda que duvidoso”, como quer a autora, mas sim um não-lugar, incapaz de render uma biografia exclusiva, já que a quase totalidade das páginas de Eva Braun: a vida com Hitler não é dedicada a ela, mas ao ditador e ao seu círculo de assassinos de massa.

Luiz Nazario

Professor de História do Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG, autor de Todos os corpos de Pasolini (Editora Perspectiva) e pesquisador bolsista de produtividade do CNPq com o projeto Cinema e Holocausto.

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SERGIO PAULO ROUANET E OS TERRÍVEIS SIMPLIFICADORES

 

Pilhas de ossos: Holocausto

No artigo “Os terríveis simplificadores” [1], o ensaísta Sergio Paulo Rouanet exercitou sua retórica liberal esclarecida recordando o historiador Jacob Burckhardt, que disse no final do século XIX que o século seguinte seria o dos “terríveis simplificadores”. A profecia de Burckardt teria se realizado com Adolf Hitler e Josef Stálin, que simplificaram a história, reduzindo-a a um confronto maniqueísta entre o bem e o mal, com o resultado da produção em massa de “seres humanos radicalmente simplificados, convertidos em cinzas e ossadas”.  Rouanet alertava que os simplificadores não haviam desaparecido. Ele os percebia operando por meio da “distorção holística”, ou seja, “a tendência a ver o todo como um conjunto indiferenciado, sem perceber que qualquer totalidade é tensa, que qualquer harmonia é aparente, que todo conjunto é fraturado por forças contraditórias”.

O ensaísta afirmava ser preciso opor aos simplificadores o que Edgar Morin chamava de “pensamento complexo”, para evitar generalizações espúrias. Para Rouanet, os simplificadores de hoje atuariam em várias frentes, mas, sobretudo, na relação com os Estados Unidos e com Israel. Na primeira frente, a distorção holística teria como foco uma totalidade abstrata que eles ignoravam ser composta de duas esferas que muitas vezes se opunham: governo e sociedade. Para os simplificadores, só existiria um conjunto homogêneo de “americanos”, representado por Bush. Rouanet qualificava, contudo, o atual governo norte-americano como um “grupo de extrema direita (sic) que tomou o poder (sic) na Casa Branca e no Pentágono, composto por fanáticos religiosos, por acadêmicos neoconservadores e por representantes de interesses empresariais”.

Rouanet solidarizava-se com os simplificadores que criticava ao confundir a “posição anti-Bush” (que compartilhava) com uma “posição anti-americana” (que supostamente não compartilhava). Aqui Rouanet destacava o movimento pacifista norte-americano, em radical oposição aos que “fizeram e apoiaram a guerra contra o Iraque” e que hoje se “opõem à ocupação daquele país”. Para Rouanet, a identificação da administração Bush com os EUA também tornava “invisível o corte qualitativo que ela representa com o passado”. Ou seja, “há uma enorme diferença entre a antiga política externa herdada do período da Guerra Fria, que bem ou mal reconhecia a existência do resto do mundo, e a nova doutrina estratégica dos EUA, que proclama a legitimidade de todos os meios considerados necessários para manter a hegemonia mundial de Washington”. Como se vê, Rouanet também usava a palavra “EUA” para definir o atual governo norte-americano, e ao considerar sua política externa como fascista, não distinguia entre EUA e Bush, tal como acusava os “simplificadores”.

Assim, logo ele adiantava que os “simplificadores” de esquerda (como ele) não constituíam um problema: “Os piores simplificadores vêm do campo dos que apóiam Bush, porque cometem duas vezes a distorção holística, e não apenas uma”. Aqui, a retórica de Rouanet dava mais uma entortada. Ele afirmava que os “Estados Unidos” eram um universal vazio (sic), sendo a atitude positiva com relação a esse universal vazio a primeira distorção; além disso, os partidários de Bush (que ele identificava aos “Estados Unidos”) consideravam todos os críticos não-americanos de Bush culpados de antiamericanismo:

Do seu ponto de vista, não deixam de ter razão, porque, se de fato o governo Bush se identifica com o país, atacar Bush é ser antiamericana. Mas, com isso, seu campo visual exclui a percepção dos outros críticos, dos que não somente não são antiamericanos, mas criticam Bush exatamente por levarem a sério os valores de liberdade e democracia embutidos no Iluminismo norte-americano. Esses simplificadores pró-Bush floresceram na França, na esteira dos atentados do 11 de Setembro. Os ‘novos filósofos’, hoje não tão novos assim, fizeram questão de dizer que as críticas à invasão do Iraque nada mais eram que a ressurreição dos velhos clichês do ‘antiamericanismo vulgar’, endêmico entre os intelectuais europeus desde os tempos da Guerra Fria. Jean-François Revel publicou um livro deplorando o que ele considera a ‘obsessão’ antiamericana. A verdade é que, se muitos críticos de Bush se enquadram nessa categoria, em sua maioria os críticos da invasão do Iraque estavam simplesmente condenando uma guerra imoral e ilegal, o que era seu direito e, quase diria, seu dever.

Defendendo, em última análise, o antiamericanismo como dever legítimo dos esquerdistas, Rouanet acabava por considerar intelectuais como André Gluksman, Bernard Henri-Levy e Jean-François Revel como os mais perigosos “simplificadores” –  comparáveis aos dois “terríveis simplificadores”– Hitler e Stalin. Mas o antiamericanismo foi apenas um preâmbulo para o verdadeiro alvo da retórica de Rounaet: Israel. Aqui, ele identificava a segunda frente da distorção holística que compreenderia o governo de Israel, a sociedade israelense e o povo judeu como um “todo”. Essa homogeneização fazia com que “uma crítica em si legítima ao governo de Ariel Sharon possa degenerar numa contestação a Israel – e mesmo numa posição antissemita – e no risco simétrico de que qualquer crítica a Sharon, mesmo sem essas características, possa ser interpretada, erroneamente, como anti-israelense e antissemita”. O objetivo dos contor4cionismos retóricos de Rouanet tornava-se mais claro: ele queria criticar Sharon (“Israel”) à vontade, sem medo de ser tomado por um antissemita.

Rouanet reconhecia que “boa parte da esquerda mundial está indo além da crítica a Sharon: ela está demonizando o próprio Estado de Israel. E está fazendo algo de infinitamente grave: pelo menos por omissão, está sendo cúmplice de uma nova onda antissemita, a mesma que tem incendiado sinagogas na França e na Turquia”. Ele observava que o antissemitismo de cunho fascista, latente no Brasil desde o Estado Novo, e difundido no tempo de Vargas por figuras como Gustavo Barroso, estava mudando de lado, que um antissemitismo que se pretendia de esquerda se generalizava cada vez mais: “Um partido socialista tem entre seus quadros um editor neonazista que nega a realidade do Holocausto. O direito desse neonazista de divulgar suas opiniões foi defendido, em nome da liberdade de expressão, por um juiz cuja origem ideológica era aparentemente de esquerda. Tenho ouvido jovens entusiastas, com impecáveis credenciais petistas, exprimirem seu repúdio a Sharon dizendo coisas que poderiam ter saído dos Protocolos dos sábios de Sion.”

Mas Rouanet identificava também “simplificadores no campo oposto”. Para ele, “muitos defensores de Israel concluem que qualquer crítica às atuais políticas governamentais daquele país tem características anti-israelenses e antissemitas. Vêem antissemitas em toda parte, como os antissemitas vêem judeus em toda parte”. Rouanet apontava que esses eram os piores “simplificadores”, já que suas simplificações “são também direta ou indiretamente responsáveis por terríveis catástrofes humanas”. Teria sido uma simplificação desse tipo, “inspirada por um anti-americanismo primário”, que teria levado ao atentado contra as Torres Gêmeas, que teria por sua vez alimentado “a alegria obscena com que milhares de pessoa comemoraram esse ato de barbárie, e que fez com que muitos intelectuais no fundo se regozijassem com o ataque”.

Seria ainda uma simplificação, inspirada pelo ódio contra Israel, que estaria “na raiz dos abomináveis atentados suicidas praticados pelos palestinos e que faz com que muitos brasileiros que se dizem racionais dêem estatuto heróico aos mártires, ao invés de lamentarem a atrocidade do seu ato de fanatismo”. Seriam também “simplificadores terríveis” os americanos que “declararam guerra ao mundo islâmico, sem se darem conta de que a vasta maioria da população muçulmana se dissociou do terrorismo”, e os membros do governo israelense “que tratam toda a população palestina como se fosse composta de terroristas”. Seriam, enfim, “terrivelmente simplificadores os que rotulam de antiamericanos e antissemitas todos os críticos de Bush e de Sharon”.

Tendo a retórica anti-distorção holística de Rouanet provado que os americanos, os membros do governo israelense, os defensores de Bush e de Sharon são “terríveis simplificadores”, ele concluía que “chegou a hora de acabar com as simplificações”. E oferecia-nos então uma receita de “pensamento complexo”:

No caso da relação com os Estados Unidos, uma esquerda mundial que se deixe guiar pela lógica do pensamento complexo saberá distinguir entre o governo Bush e os segmentos crescentes da população americana que se opõem à política belicista da atual administração. Seus interlocutores serão Noam Chomsky, Susan Sontag e Michael Moore, e não os pastores fundamentalistas e os magnatas do petróleo que hoje em dia circulam nos corredores de Washington. No caso da relação com Israel, essa mesma esquerda saberá […] fazer a distinção entre Israel e o judaísmo e, portanto, não imaginará que os interesses do Estado de Israel sejam representados pelos partidos religiosos ultra-ortodoxos, que, invocando as promessas feitas por Deus a Abraão, se opõem a qualquer retirada dos territórios ocupados. Em conseqüência, ela se identificará com os grupos de mentalidade secular que desejam sinceramente o entendimento com os árabes, e não com a coligação de partidos de direita e de extremistas religiosos dirigida pelo primeiro-ministro Sharon. Seus interlocutores serão pessoas como o romancista Amos Oz e o cineasta Amos Gitai ou os aviadores que se recusaram a atacar territórios palestinos. Seu modelo poderá ser o plano de paz conhecido como Iniciativa de Genebra, recém-negociado entre pessoas de boa vontade, com participação de políticos israelenses. Essa iniciativa, mesmo simbólica, mostra que ainda há lugar para a razão, num conflito complexo que duas intolerâncias rivais parecem condenar à mais extrema das formas de simplificação – o extermínio mútuo.

Não poderia, é claro, haver maior simplificação. Reduzir o governo Bush a um grupo de “pastores fundamentalistas e magnatas do petróleo circulando nos corredores de Washington” e o governo Sharon a uma coligação de “partidos de direita e de extremistas religiosos ultra-ortodoxos que invocam as promessas feitas por Deus a Abraão para se opor a qualquer retirada dos territórios ocupados” é de uma ignorância assustadora. É por ignorância que Rouanet aponta, como interlocutores americanos para uma nova esquerda mundial de “pensamento complexo”, os intelectuais Noam Chomsky e Susan Sontag e o propagandista Michael Moore, e como interlocutores israelenses o escritor Amos Oz e o cineasta Amos Gitai.

Os interlocutores escolhidos a dedo já estavam, contudo, em desacordo: Sontag declarava não acreditar em nada do que Chomsky escrevia. Intelectual americano e judeu que, por razões obscuras, odeia Israel com a mesma intensidade quanto odeia os Estados Unidos, Chomsky foi desmistificado até no filme Tolerância zero, onde foi citado como útil à “nossa causa” pelos militantes neonazistas. E se Gitai ainda não percebeu como sua posição – assim como a de alguns pilotos israelenses que se recusam a cumprir ordens – é usada pelos antissemitas em todo o mundo, Oz passou a recusar a farsa do “processo de paz” mantida pelas esquerdas, não vendo mais possibilidades de diálogo com os palestinos em meio aos atentados suicidas.


[1] ROUANET, Sergio Paulo. Os terrríveis simplificadorfes. Folha de S. Paulo, 4 jan. 2004, Caderno Mais.

HEIDEGGER E O NAZISMO

1934: Martin Heidegger, reitor da Universidade de Freibourg, usando a insígnia do Partido Nazista

Em 1988, os meios acadêmicos da França reagiram com inusitado furor quando o chileno Victor Farias publicou Heidegger e o nazismo [1], um estudo brilhante denunciando as implicações da adesão ao nazismo do filósofo alemão Martin Heidegger (Messkirch, 1889-1976) no interior de sua filosofia. Essas reações demonstraram, antes de tudo, que esses círculos já estavam preparados para defender a filosofia de Heidegger como um sistema autônomo e couraçado contra influências internas e externas das posições políticas de seu próprio autor.

Parecia importante aos acadêmicos preservar a ideia de que um “grande pensador” pudesse aderir ao nazismo sem ter as produções de seu intelecto afetadas, garantindo uma continuidade da assimilação de seus pensamentos sem restrições pelos contemporâneos. Por extensão, qualquer artista ou intelectual de alguma estatura que tivesse colaborado com o nazismo poderia ter suas obras consumidas na atualidade sem contra-indicações. Os “erros” políticos de um criador ou intelectual não afetariam suas obras artísticas, seus sistemas filosóficos.

No artigo “Ainda Heidegger e o nazismo”, por exemplo, o acadêmico francês Pierre Aubenque estranhou que a denúncia do nazismo de Heidegger fizesse mais barulho em 1988 que em 1933 e, como ilustração, lembrou que Jean-Paul Sartre, “o primeiro e mais célebre discípulo francês de Heidegger […] estava neste momento em Berlim, e devia ler os jornais” [2].

De fato, Sartre estudava a fenomenologia de Husserl em Berlim, mas bastante alheio ao que se passava a seu redor. A política só passou a ocupar seu pensamento com a mobilização e ele só veio a ler Heidegger quando foi internado num campo de prisioneiros. Em 1944, Sartre defendeu Heidegger dos críticos comunistas, tentando separar sua filosofia de seu engajamento nazista [3]. Fazia uma autodefesa, na medida em que se considerava influenciado pelo pensamento de Heidegger. No entanto, a diferença que o excluía deste pensamento foi revelada pelo próprio Heidegger, ao recusar recebê-lo para uma entrevista. Assim, se o engajamento nazista de Heidegger não perturbara Sartre, à época, isto prova apenas a ingenuidade deste filósofo.

Por outro lado, Herbert Marcuse, que se acreditava mais profundamente influenciado por Heidegger, experimentou, em 1933, uma indignação igual à manifestada por Farias. Tendo aprendido filosofia com Heidegger em Freiburg, Marcuse chocou-se ao vê-lo, quatro meses depois da tomada do poder pelos nacional-socialistas, apoiar Hitler com entusiasmo, em palavras e atos, filiando-se formalmente ao NSDAP (o Partido Nazista) a 1° de maio de 1933. Assumiu o Reitorado da Universidade de Freiburg em abril de 1933 por votação unânime do conselho plenário da universidade. Heidegger mentiu sobre isso ao Tribunal de Desnazificação ao dizer que nunca foi membro do NSDAP. Quatro meses depois da nomeação de Hitler como chanceler, ele discursou sobre a “grandeza e magnificência da reabilitação nacional”. E exaltou a ditadura nazista em seu discurse de posse, A auto-afirmação da universidade alemã (1933):

“A tão decantada ‘liberdade acadêmica’ se vê corrida da universidade alemã, porque esta liberdade era inautêntica, porque somente negadora. Ela significava principalmente a despreocupação, o arbitrário dos projetos e das inclinações, a licença em tudo o que se fazia ou não se fazia. O conceito de liberdade do estudante alemão é agora reconduzido à sua verdade. É dela que se desprendem no futuro as obrigações e o serviço dos estudantes alemães.”

“A primeira obrigação é a que os conduz à comunidade popular. Ele os leva ao dever de […] meter a mão na massa. Essa obrigação é desde agora afixada e enraizada na existência estudantil pelo serviço do trabalho.”

“A segunda obrigação é a que os liga à honra e ao destino da nação no meio dos outros povos. Ela exige uma disponibilidade – assegurada pelo saber e a capacidade, e fortificada pela disciplina – a se engajar até o fim. Essa obrigação encerra e penetra desde então a existência estudantil enquanto serviço militar.”

“A terceira obrigação da comunidade estudantil é a que a liga à missão espiritual do povo alemão [que] trabalha para o seu destino na medida em que coloca sua história numa certa possibilidade: a de manifestar a superpotência de todas as potências formadoras do mundo da existência humana e onde ele conquista sempre novamente seu mundo espiritual […] o serviço do saber” [4].

As duas primeiras obrigações (o serviço do trabalho e o serviço militar são claras, mas a terceira (o serviço do saber) é um tanto obscura: referindo-se à “missão espiritual histórica” da Alemanha e ao “destino do povo alemão” entrevisto por Heidegger sob o nazismo, seria esta uma de forma cifrada de obrigar a juventude à missão de dominar o mundo até torná-lo “espírito puro” como só o povo alemão seria capaz de sê-lo e de fazê-lo. As três novas “obrigações” da juventude alemã defendidas por Heidegger estavam perfeitamente de acordo com as medidas tomadas pela ditadura do novo Estado nazista.

“Tal era então a minha convicção”, declarou o filósofo em 1966 numa entrevista originalmente concedida à revista Der Spiegel, publicada apenas em 1976, por ocasião de sua morte, “eu não via outra alternativa na época. No meio da confusão geral das opiniões e das tendências políticas representadas por 22 partidos, tratava-se de encontrar uma posição nacional e, sobretudo, social, no sentido geral da tentativa de Friedrich Naumann” [5]. Ou seja, a ditadura nazista e suas “obrigações” impostas à juventude alemã pareciam a Heidegger (e ainda lhe pareciam em 1966) a única alternativa viável aos “males” da democracia liberal – que era, contraditoriamente à declaração de Heidegger, o ideal de Friedrich Naumann.

Na mesma entrevista, Heidegger defendeu-se das acusações de antissemitismo, revelando um episódio de resistência pessoal: dois dias depois de aceitar o cargo de reitor, o chefe dos estudantes nacional-socialistas e dois companheiros foram ao reitorado renovar o pedido de colocação dos cartazes contra judeus. Heidegger teria recusado. Os três estudantes teriam se retirado observando que a proibição seria comunicada à chefatura dos estudantes nacional-socialistas. Alguns dias depois Dr. Baumann, chefe de grupo da S.A., teria telefonado a Heidegger exigindo a autorização para afixar os cartazes, como já se fizera em outras universidades. No caso de recusa, Heidegger seria destituído do cargo e a universidade poderia ser fechada. Heidegger teria buscado apoio junto ao Ministro da Educação de Baden e ouvido dele que nada podia fazer contra as S.A. No entanto, Heidegger teria se mantido firme na negativa [6]. Não foi demitido por isso, nem a universidade foi fechada pelo regime…

Ernildo Stein também exibiu uma carta inédita de Heidegger em que ele se defende das acusações de antissemitismo: ‘Ide a Munique e perguntai ao Pe. Karl Rahner que assistiu às minhas aulas de 1934 a 1936, para verem a crítica que se ousava contra o biologismo, o racismo do nacional-socialismo’. [7] Contudo, de seu posto de poder no reitorado, onde permaneceu até fevereiro de 1934, Heidegger aprovou diversas medidas de Hitler, entre as quais o ato pelo qual a Alemanha deixou a Sociedade das Nações [8].

Por motivos obscuros – que Faria associa ao massacre das S. A. na Noite das Facas Longas –, Heidegger demitiu-se no décimo mês dos quatro anos que tinha pela frente. Seus cursos passaram a ser supervisionados por agentes do regime, mas ele não foi perseguido, nem censurado: continuou lecionando e publicando. Segundo testemunhas oculares, Heidegger usou a insígnia do Partido Nazista na lapela (foto) até fins de 1938. Não se desligou do NSDAP até o fim da guerra, em 1945. A partir de então, ficou proibido de lecionar pelo Tribunal da Desnazificação.

Marcuse procurou, na própria filosofia do mestre, sinais que pudessem explicar a aparente “conversão” do filósofo do Ser ao admirador de Hitler, encontrando, em Ser e tempo (1927), uma série de categorias que faziam Heidegger interpretar o Dasein a partir dos medos e frustrações produzidos numa sociedade repressiva, uma existência sem alegria, obscurecida pela morte e a ansiedade – material humano para a personalidade autoritária [9]. Assim, já em 1934 Marcuse denunciou a traição de Heidegger à filosofia ocidental que ele pretendia representar [10].

Em 1947, Herbert Marcuse visitou Heidegger em sua cabana em Todtnauberg, na Floresta Negra, esperando do filósofo que o influenciara com Ser e tempo uma palavra que o dissociasse de uma vez por todas do nazismo. A palavra esperada não foi proferida. Inconformado, Marcuse enviou a Heidegger, dos Estados Unidos, um pacote de alimentos, dedicados “ao homem com o qual aprendi filosofia de 1928 a 1932”, exprimindo sua esperança de vê-lo manifestar publicamente sua dissociação em relação ao nazismo ou uma efetiva mudança de pensamento. Heidegger respondeu a Marcuse com uma série de racionalizações.

Ele teria esperado do nacional-socialismo um “renascimento espiritual da vida em sua totalidade, uma reconciliação de antagonismos sociais e uma libertação do Dasein ocidental dos perigos do comunismo”. E teria reconhecido seu “erro” em 1934, retirando-se do Reitorado “em protesto contra o Estado e o Partido”. Mais tarde, teria incorporado em suas leituras e cursos “um ponto de vista que era tão inequívoco que entre aqueles que foram meus estudantes, nenhum caiu vítima da ideologia nazista”. Heidegger concluía que a guerra fizera dos alemães ocidentais vítimas na mesma medida que os judeus, com a diferença de que “tudo o que ocorreu desde 1945 tornou-se conhecimento público, enquanto o terror sanguinário dos nazistas na realidade foi mantido em segredo do povo alemão” [11].

Marcuse observou que ignorar a diferença entre os campos de concentração nazistas e as deportações e internamentos do pós-guerra era colocar-se fora da dimensão do Logos, o que tornava todo diálogo impossível: “O senhor, o filósofo, confundiu a liquidação do Dasein ocidental com o seu renascimento? Mas esta liquidação não era já evidente em cada palavra dos “líderes”, em cada gesto e morte das S.A. muito tempo antes de 1933?… Talvez estejamos ainda experimentando a continuação do que começou em 1933. Que o senhor ainda considere isso como um “renascimento”, eu não estou certo.” [12] Com isso Marcuse rompeu todas as relações com Heidegger.

Nos anos de 1950, sua ex-aluna e ex-amante Hannah Arendt, depois de afastar-se dele devido ao engajamento nazista do mestre, voltou a procurá-lo e, perdoando-o, empenhou-se na sua reabilitação intelectual. Numa carta à sua aluna mais brilhante, datada de 12 de abril de 1950, Heidegger, anticomunista de longa data, rejeitou as atitudes de pessimismo e desespero da filósofa diante do início da Guerra Fria insistindo para que ela entendesse o “ser” sem reduzi-lo a uma mera ocorrência histórica. Defendia que “o destino dos judeus e dos alemães tem a própria verdade que não pode ser alcançada pelo nosso raciocínio histórico… Quando o Mal sobrevém, e isso tem acontecido, então o ser ascende, desse ponto em diante, e se torna um mistério para o pensamento e para a ação dos homens; pois o fato de alguma coisa existir não significa que seja boa e justa… Não sou experiente nem tampouco talentoso no domínio do político.” Heidegger abdicava da resistência e mesmo de qualquer crítica aos desmandos do poder, colocando-se do lado dos “alemães”, ou seja, dos colaboradores, submetido às “forças irracionais”, ou seja, ao nazismo, além de qualquer explicação ou “intelecção”.

Em La poésie comme expérience, Philippe Lacoue-Labarthe comentou a tentativa fracassada de diálogo com Heidegger empreendida em julho de 1967 pelo poeta romeno Paul Celan, cujos pais haviam sido mortos num campo de concentração, do qual ele escapara, exilando-se em Paris. Na Floresta Negra, Celan esperava ouvir uma explicação do filósofo sobre Auschwitz. Tudo o que se sabe é que saiu da cabana de Heidegger com a decisão de nunca mais encontrá-lo. Exprimiu mais tarde sua frustração no poema “Todtnauberg”, que registra, hermeticamente, a ausência da palavra que seu coração esperava receber [13]. Considerado o grande poeta do Holocausto, Celan suicidou-se poucos anos depois, em 1970.

Esses mal-entendidos em torno da posição política e da postura ética de Heidegger devem-se, em grande parte, como já notara Pierre Bourdieu, à linguagem cifrada criada pelo filósofo [14]. Hannah Arendt justificava o engajamento nazista de Heidegger como um “erro político” do mesmo tipo que o de Platão em relação à tirania [15]. E Karl Jaspers tentou até o fim da vida “entender” o sentido do Reitorado de Heidegger, em anotações cada vez mais céticas, em seus diários [16]. Atraídos pelo incompreensível, Sartre e Marcuse projetaram, no emaranhado da filosofia de Heidegger, seus próprios pensamentos, descobrindo nele uma genialidade que não passava do reflexo de suas mentes. No caso de Celan, o emaranhado assumiu a aparência de um pensamento abismal, digno de reverência, mesmo depois de viver o inferno do Holocausto. Contudo, em oposição aos seus “discípulos” visceralmente éticos, Heidegger jamais distinguiu padrões de aplicação da racionalidade técnica a objetos ou seres humanos. Provam-no as duas únicas passagens conhecidas de sua obra em que ele se referiu ao Holocausto:

“Agricultura é hoje uma indústria alimentícia motorizada, em essência o mesmo que a fabricação de cadáveres nas câmaras de gás e campos de extermínio, o mesmo que o bloqueio e fome de países, o mesmo que a fabricação de bombas atômicas.”

“Centenas de milhares morrem en masse. Eles morrem? Eles perecem. Eles foram suprimidos. Eles morrem? Eles tornam-se itens do material disponível para a fabricação de cadáveres. Eles morrem? Dito duramente, eles foram liquidados em campos de extermínio. E, além disso, milhões perecem agora de fome na China. Morrer, entretanto, significa suportar a morte em sua essência. Ser capaz de morrer significa ser capaz de suportar esta morte. Mas estamos aptos a isso somente quando a essência da morte tem uma afinidade com nossa essência.”

Essas pérolas estão incrustadas em duas de quatro leituras que Heidegger apresentou em 1949 no Clube de Bremen [17]. Aí, a técnica assume o papel do diabo, atravessando o mundo e reduzindo homens e coisas a uma única matéria orgânica. A questão de saber quem manipula a técnica, e com que finalidade, é irrelevante no sistema de Heidegger, que apreende a História como uma catástrofe metafísica. O que ele nega radicalmente é o próprio fundamento da liberdade, que obriga cada homem a assumir a responsabilidade de suas ações frente às ações alheias, num mundo eternamente em conflito.

A seu ver, a técnica é o mal, fora do controle humano, capaz de ser dominada apenas por um deus, um messias, um Führer. Heidegger espera que esse deus apareça para salvar a humanidade ou que não apareça e tudo então se aniquile na nulidade do nada, constituindo sua filosofia no preparar espiritualmente os homens para esse grande momento de salvação ou de aniquilação:

“[…] A técnica em sua essência é algo que o homem não pode dominar. […] a técnica moderna não é um utensílio e nada tem a ver com os utensílios. […] Tudo funciona, isto é o inquietante, que funcione, e que o funcionamento nos impila sempre a um maior funcionamento […] a técnica dos homens separa-os da terra e os desarraiga sempre mais. […] eu me assusto ao ver as fotos da Terra vista da lua. Não precisamos de bombas atômicas, o desenraizamento dos homens é um fato. Temos apenas puras relações técnicas. Não há um só canto da Terra em que o homem, hoje, possa viver. […] A filosofia não pode realizar imediatamente uma mudança no atual estado do mundo. […] Só um deus pode salvar-nos ainda. Resta-nos a única possibilidade de prepararmo-nos, pelo pensar e poetar, para a aparição de um deus ou sua ausência no ocaso. Frente à ausência de um deus, nos afundamos. […] A preparação para essa espera é a primeira ajuda. O mundo, o que é e como é, não pode ser só para os homens, mas tampouco sem eles. […]” [18]

Heidegger é capaz de sugerir, através de uma sutil distinção entre morrer e perecer, que os seis milhões de “eles” (a palavra “judeus” é tabu no seu sistema; Heidegger também reduz os seis milhões a “centenas de milhares”) gaseados nos campos de extermínio, comparados a milhões de chineses dizimados pela fome, não “morreram”, pois, “incapazes de morrer”, limitaram-se a “perecer” (como “pulgas”, diria Joseph Goebbels: se para morrer é preciso merecer a morte, somente os soldados morrem, na guerra, uma morte afinada com sua essência). 

O comportamento aético ou mesmo antiético de Heidegger, que inclui a denúncia do químico Hermann Staudinger (futuro Premio Nobel) e do filósofo Eduard Baumgarten, não perturba Pierre Aubenque, que se irrita, sim, com o sucesso do livro de Farias, duvidando de sua competência: “As escassas análises a que se propõe ou são curtas demais ou estão redondamente erradas. A gente fica se perguntando, como disse com justeza J. Derrida, a seu respeito, ‘se ele lê Heidegger há mais de uma hora’. Mas, argumentar-se-á, talvez seja um livro de História. Também não acredito nisso, não apenas por estar repleto de erros como também porque seu fim único e confesso consiste em erigir um requisitório”. Aubenque interroga-se sobre a natureza do livro, ataca o tom das afirmações do autor, acusa-o de malevolência por abrir e encerrar a obra com a figura do escritor e pregador anti-semita Abraham a Sancta Clara, cujo estilo Heidegger admirava desde a juventude: “Para a maior parte dos franceses, sem dúvida, este nome não significa nada, o que permitiu ao senhor Farias abismar-se nesta ignorância”. Mas Farias não escreveu seu livro para os franceses: Heidegger e o nazismo só foi publicado na França depois que as editoras alemãs procuradas recusaram publicá-lo.

Aubenque fala em “impostura”, “delírio de interpretação” e “insinuações que teriam ido parar nos tribunais se Heidegger fosse vivo” quando Farias ousa imaginar porque Heidegger jamais se manifestou publicamente a respeito de Auschwitz. Por fim, é obrigado a admitir: “O que fica de todo esse embrulho é o que já se sabia”. Cuidadosamente, Aubenque evitou examinar a causa de sua irritação, ligada à tese de Farias, descartada como “sumária”. Em que consiste essa tese? É muito simples, clara e coerente: Heidegger teria sido um nazista essencial, isto é, o seu nazismo estaria em sua própria maneira de ser, pensar e exprimir-se, tanto quanto no único engajamento político que tomou em sua vida. Identificava-se com o movimento espartano das S.A., traído por Hitler na Noite das Facas Longas, permanecendo irrealizado e idealizado.

Ora, admitir a existência de um nazismo essencial – uma ideologia que transcende o momento histórico, com pontos de contato em diversas outras ideologias, numa tradição que encontra continuidade e permanência, independente dos movimentos nos quais se encarna, é admitir a possibilidade de se aderir a ele inconscientemente, ou sem a necessidade de uma prévia identificação. O fato de Heidegger “fechar-se numa solidão desgostosa” a partir de 1934, e “consagrar-se unicamente ao ensino até 1944” não o teria impedido de permanecer fiel ao que ele uma vez chamou de “a verdade interna do movimento nacional-socialista”.

Aubenque inquieta-se com a questão decisiva de haver ou não “uma relação essencial entre a filosofia de Heidegger e seu engajamento nacional-socialista”. Se houver uma dependência essencial, como os documentos levantados por Farias o indicam – e muitos arquivos relativos à questão continuam fechados, o que significa, perigosamente para os defensores de Heidegger, que apenas a ponta do iceberg emergiu do oceano – os heideggerianos não poderão mais vangloriar-se de ler Heidegger há mais de uma hora, e haverá de pairar para sempre, sobre o hermetismo de seus discursos, a sombra indesejável de Auschwitz. Antes de Farias, eles podiam orgulhar-se de seu mestre, mesmo sabendo, e sabendo que todos sabiam, que ele havia sido um nazista militante, por um curto período de tempo, logo tomando suas distancias críticas – discretas, coerentes e dignas de sua “grandeza”. Até Jünger Habermas tentou vislumbrar esta “grandeza” ao interpretar o silencio de Heidegger como uma forma de não suportar a vaidade ferida por não ter sido sempre o porta-voz da verdade[19]. Mas teria sido Heidegger alguma vez o porta-voz da verdade?

Desconcertado com a negação desta “grandeza”, Aubenque busca socorro até junto a um ideólogo nazista, Ernst Krieck, que criticava, à época, o pensamento e a linguagem heterodoxos de Heidegger, e se reconforta na fantasia de um monolitismo na visão de mundo nacional-socialista, como se Adolf Hitler, Joseph Goebbels, Otto Strasser, Alfred Rosenberg ou Carl Schmitt pensassem em uníssono: “Há ou não uma relação de dependência essencial entre a filosofia de Heidegger e seu engajamento nacional-socialista? E. Krieck, que conhecia bem o nazismo, pensava que não. Também acredito que não.” O problema é que, em que pese a opinião do ideólogo nazista, a crença de Aubenque não altera a tese de Farias.

Aubenque procura, então, detectar, no emaranhado dos conceitos forjados por Heidegger, algum sinal, algum sussurro, que demonstre, de forma cabal e retumbante, que ele se distanciou do nazismo, que o criticou, sim, “à sua maneira”. É uma tarefa ingrata: Heidegger “desconfia dos valores morais”. O filósofo “se esforça, através do pensamento, para galgar novamente uma encosta”. Mas as pedras são escorregadias: Heidegger tropeça sem cessar. Aubenque joga-lhe uma corda, tenta dar-lhe a mão, deduzindo a partir do nada que o filósofo compreendeu o nazismo “como a realização mais monstruosa, porque mais completa, da administração total da sociedade e do ente”. Mas Aubenque só engana a si mesmo. E ele precisa desta automistificação. Afinal, o que mais o perturba é o fato de o engajamento nazista de Heidegger despertar em Farias uma indignação moral e intelectual que ele desconhece, pois sempre tomou este engajamento de forma leve, como um episódio biográfico a registrar e desconsiderar.

Frustrado, Aubenque culpa os “novos tempos” de estarem estigmatizando o nazismo, reduzindo-o ao Holocausto, numa “estilização” enquanto “figura do mal absoluto”, “bloco errático da História” ou “cesura apocalíptica”, representações “cujo efeito é tornar cada vez mais odioso, cada vez mais indesculpável todo e qualquer contato, mesmo o mais superficial, com ele”. Afinal, em 1948, quando Aubenque travou conhecimento com Heidegger, a militância nazista do filósofo não diminuiu sua admiração por ele: “Sabíamos que Heidegger fora nazista… seria a inconsciência da juventude que nos tornava, então, de tal modo indiferentes?”.

Não, não era a inconsciência da juventude: Aubenque não é mais jovem, e continua indiferente. Ele considera o Reitorado de Heidegger uma “relação superficial” com o nazismo, incapaz de indignar-se com a adesão de um “grande pensador” a um regime que estava queimando livros, exilando o melhor da cultura alemã, perseguindo judeus e internando opositores em campos de concentração. A explicação para a indiferença de Aubenque diante do colaboracionismo de Heidegger está no colaboracionismo latente entre os acadêmicos, o que lhes relativiza e suaviza a visão. É sua simpatia pelo ideal nazista, que o faz constatar, algo surpreso, que algumas das reivindicações nazistas de Heidegger, como as de “reabilitar o trabalho manual e de aproximar os estudantes do mundo do trabalho, não são inteiramente desprezíveis”, achando apenas absurdo “depositar nos nazistas a esperança de satisfazê-las”. Sim, o nazismo histórico não poderia esgotar o nazismo essencial, que sempre projetou e projetará suas reivindicações sobre todos os movimentos sociais, independentemente de sua cor política.

Em Heidegger: Introdução do nazismo na filosofia (2005), Emmanuel Faye, professor de Filosofia da Universidade de Paris, em Nanterre, levou a crítica do fascismo essencial ao extremo: as ideias fascistas estariam tão entremeadas na filosofia de Heidegger que as livrarias deveriam colocar suas obras não nas estantes de Filosofia, mas nas de História do Nazismo, em sinal de advertência, do mesmo modo que se coloca uma caveira na etiqueta das garrafas de veneno, para impedir a difusão descuidada de seu “discurso de ódio”, que inclui: exaltação do Estado em relação ao indivíduo, impossibilidade da moralidade, anti-humanismo, pureza racial. Foi o ataque mais violento a Heidegger, cuja leitura é geralmente obrigatória nas faculdades de Filosofia. Faye alerta para o culto a Heidegger na extrema direita, mas observa que os intelectuais da esquerda quase sempre foram inspirados por ele.

O livro de Faye reacendeu a polêmica: Richard Wolin declarou não ter se convencido de que o pensamento de Heidegger “esteja inteiramente (sic) contaminado pelo nazismo” [20]. Mais ambígua foi a “defesa” de Heidegger por Richard Rorty: “Você não pode ler a maioria dos grandes filósofos mais recentes sem levar o pensamento de Heidegger em conta […] O cheiro da fumaça dos crematórios sobreviverá nas suas páginas” [21]. Citando Bernard Wasserstein, Ron Rosenbaum, autor de Explaining Hitler, sugeriu até que a visão do Holocausto por Hannah Arendt tenha sido corrompida pelas ideias de Heidegger, que lhe teriam inspirado o conceito da “banalidade do mal”. Já Carlin Romano, no artigo Heil Heidegger!” (The Chronicle of Higher Education), chutou o pau da barraca qualificando Heidegger como “o falastrão da Floresta Negra” [22].

Vimos como Sartre e Marcuse equivocaram-se em seu contato com a filosofia de Heidegger. Mais problemática é a influência acrítica que essa filosofia exerceu e exerce nos pós-modernistas, anticolonialistas e ecologistas, baseando nela suas críticas à razão, à ética e à tecnologia. Alexandre Marques Cabral fala de uma destruição da ética em Heidegger [23]. Mas teólogos basearam sua defesa do ato da fé na crítica heideggeriana da razão. Arquitetos se inspiraram na rejeição das convenções em Heidegger ao introduzir novas formas e materiais em seus projetos. A crítica heideggeriana da tecnologia atraiu não apenas filósofos, como também críticos literários, ambientalistas, urbanistas, poetas. Tanta simpatia por um luminar nazista dá o que pensar…

Os defensores de Heidegger à direita e à esquerda consideram o engajamento nazista de Heidegger um “erro”, que atribuem à sua “ingenuidade política” e ao seu “desconhecimento do mundo real”.  Para Gianni Vattimo, o erro foi “filosófico”, ou seja: “Heidegger acreditou que [na Alemanha nazista] fosse possível reconstruir uma situação histórica análoga àquela da Grécia pré-clássica, na qual, errando, porque esquecia a diferença ontológica, pensou que o ser pudesse ‘dar-se’ de modo não-metafísico. Mas era um erro, antes de tudo filosófico.” Ainda em defesa de Heidegger, Vattimo estende sua crítica a outros filósofos: “Acredito que o Heidegger dos anos trinta […] se deu conta de que a autenticidade da qual falava Ser e tempo, não é algo que se possa procurar ‘sozinhos’. Autenticidade significa co-responder à chamada do ser; mas o ser assim entendido é também a própria comunidade, a sociedade na qual se vive, etc. Também por isso Heidegger se empenhou com Hitler, errando. Mas devemos pensar que naqueles anos Lukacs e Bloch estavam com Stalin, Giovanni Gentile com Mussolini, etc.” Os desculpadores sempre terminam com um “mas”, citando outros culpados, como se muitos culpados de diferentes culpas desculpassem o culpado da culpa maior…

Vattimo completa seu pensamento fraco com uma apreciação parcial da atualidade: “Se Heidegger visse o que acontece hoje por causa do fundamentalismo, da pretensão de ser ‘correto’ (Bush acredita de verdade, como os nazistas, no Gott mit uns, Deus está conosco; e age exatamente como eles), enfraqueceria muito as próprias posições” [24]. Desculpando Heidegger pelo forte apoio a Hitler, culpa Bush de agir exatamente como os nazistas (com campos de extermínio? Câmaras de gás? Genocídios?). Já os verdadeiros fundamentalistas, os terroristas islâmicos, não merecem do pensador fraco qualquer crítica, forte ou fraca: o pensamento fraco também acabará desculpando Hitler pelo Holocausto?

Para Ernildo Stein, Heidegger “fez um juízo equivocado sobre o regime que estava começando, pensando que aceitando a reitoria teria condições de criar a nova universidade que substituiria a universidade dos mandarins […] O filósofo foi ingênuo porque desconhecia as ciências humanas da sociologia, da política, da economia e pensava, contudo, poder diagnosticar o futuro de um regime. […] os filósofos não foram feitos para serem heróis da resistência […]. O silêncio do filósofo sobre o gesto de que ele confessou a Jaspers que ‘se sentia envergonhado do passo dado’, deve-se […] à convicção de que uma confissão pública não tinha sentido porque não apagaria nada.” [25]  Mas como dar algum crédito a um filósofo que desconhece a sociologia, a política e a economia? A um pensador que luta contra os “mandarins” da universidade, mas exalta Hitler, e cujos defensores consideram como alguém incapaz de entender o mundo em que vive?

Já à extrema-direita Henri Crétella e Stéphane Zagdanski tentam embaralhar o jogo fazendo de Heidegger um antinazista visceral, um humanista radical cuja filosofia seria a única capaz de explicar, resistir e combater o nazismo, devendo ser esse filósofo considerado como um “pensador judeu”, o que transformaria os críticos que o “difamam” em “criminosos” e “nazistas” [26]. Sem comentários.

Pode-se separar a filosofia de Heidegger de seu compromisso com o nazismo? A questão é mais clara quando pensamos no cinema: alguém em sã consciência dirá que a obra de D. W. Griffith não foi de modo algum contaminada por sua visão racista do mundo? Basta rever The Birth of a Nation (O nascimento de uma nação, EUA, 1914). Mas é preciso identificar em qualquer discurso todos os seus sentidos, tanto os óbvios quanto os obtusos. O racismo de Griffith impregna-se em seu cinema, que permanece datado sob esse aspecto. Por outro lado, seus filmes não se limitam aos clichês racistas, e comovem ainda hoje porque sob os estereótipos reside uma essência humanista que os redime. Griffith jamais seria um nazista. Mas que dizer de Heidegger? Sua filosofia foi comprometida pela sua fé no nazismo, mas ela também não se limita a essa ideologia. Infelizmente para Heidegger, ela tampouco é redimida pelo humanismo, que o filósofo rejeita. Por sua vez, o antifascista Faye trilha um caminho perigoso ao sugerir, para além da crítica, e mesmo da crítica mais radical da filosofia e do engajamento nazista de Heidegger, o banimento físico, material, de suas obras: num mundo de fanáticos, o fascismo essencial irrompe mesmo entre os antifascistas…

ADENDO 2015

Uma nota sobre os Cadernos negros de Heidegger.


[1] FARIAS, Victor. Heidegger e o nazismo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1988, 1ª edição, 368p.

[2] AUBENQUE, Pierre. Heidegger e o nazismo. Novos Estudos Cebrap, n° 22, São Paulo, 1991.

[3] SARTRE, Jean-Paul. A propos de l’existentialisme: mise au point. In: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Les Écrits de Sartre. Paris: Gallimard, 1970, p. 653-658.

[4] HEIDEGGER, Martin. L’auto-affirmation de l’université allemande. Discurso proferido na cerimônia oficial de posse do cargo de Reitor da Universidade de Fribourg-em- Brisgau a 27 de maio de 1933. Traduzido do alemão por Gérard Granel. Paris: Trans-Europ-Repress, 1982, P. 15-16. Tradução do autor.

[5] HEIDEGGER Martin. Réponses et questions sur l’histoire et la politique. Traduzido do alemão por Jean Launay. Paris: Mercure de France, 1988, p, 17. Tradução do autor.

[6] HEIDEGGER Martin. Réponses et questions sur l’histoire et la politique. Traduzido do alemão por Jean Launay. Paris: Mercure de France, 1988, p, 13-14. Tradução do autor.

[7] STEIN, Ernildo. A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. Entrevista com Ernildo Stein. O século de Heidegger. Revista IHU On-Line, n° 185, 9 jun. 2006, p. 6. URL: http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/edicoes/1158344730.57pdf.pdf.

[8] A revista Les Temps Modernes, sob a direção de Jean-Paul Sartre, publicou diversos artigos sobre o caso Heidegger em 1946 e 1947, assinados por Towarnicki, Candillac, Loewith, De Waelhens e Eric Weil, sendo este último reputado o mais importante deles.

[9] MARCUSE, Herbert. Heidegger’s Politics: An Interview. In: PIPPIN, Robert (ed.), Marcuse: Critical Theory and the Promise of Utopia, Bergin and Garvey, South Hadley, M. A., 1988, p. 99.

[10] MARCUSE, Herbert. La lutte contre le libéralisme dans la conception totalitaire de l’État. In: MARCUSE, Herbert. Culture et Société. Paris: Les Éditions de Minuit, 1970, pp. 61-102.

[11] MARCUSE, Herbert; HEIDEGGER, Martin. New German Critique, n° 53, p. 28-30.

[12] WOLIN, Richard. Introduction to Herbert Marcuse and Martin Heidegger: An Exchange of Letters. New German Critique, n° 53, Spring/Summer 1991, p. 21-32.

[13] ANDERSON, Mark M. The ‘Impossibility of Poetry’: Celan and Heidegger in France. New German Critique, n° 53, p. 3-19.

[14] BOURDIEU,Pierre. Ontologia Política de Martin Heidegger. Sao Paulo: Papirus, 1989.

[15] ARENDT, Hannah. Martin Heidegger a quatre-vingt ans. In: ARENDT, Hannah. Vies Politiques. Paris: Gallimard, 1974, pp. 307-320.

[16] JASPERS, Karl. In: SANER, H. (ed.). Notizen zu Martin Heidegger. Munique: Pipper, 1981.

[17] NESKE, Gunther; KETTERING, Emil (ed.). Martin Heidegger and the Nationalsocialism. Nova York: Paragon House, 1990, p. XXIX.

[18] HEIDEGGER, Martin. Entrevista com Martin Heidegger a Der Spiegel, gravada em 1966 e publicada apenas em 1976, após a morte do filósofo. Folhetim, Folha de S. Paulo, 15 jan. 1988.

[19] HABERMAS, Jünger. Martin Heidegger – L’oeuvre et l’engagement. Paris: Les Éditions du Cerf, 1988.

[20] COHEN, Patricia. Heidegger sob novo ataque. O Estado de S. Paulo,15 nov 2009. URL: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27552.

[21] COHEN, Patricia. Heidegger sob novo ataque. O Estado de S. Paulo,15 nov 2009. URL: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27552.

[22] COHEN, Patricia. Heidegger sob novo ataque. O Estado de S. Paulo,15 nov 2009. URL: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27552.

[23] CABRAL. Alexandre Marques Heidegger e a destruição da ética. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, 208p.

[24] VATTIMO, Gianni. O nazismo e o “erro” filosófico de Heidegger. Instituro Humanitas Unisinos, 1° jul. 2006. URL: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=2934

[25] STEIN, Ernildo. A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. Entrevista com Ernildo Stein. O século de Heidegger. Revista IHU On-Line, n° 185, 9 jun. 2006, p. 6. URL: http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/edicoes/1158344730.57pdf.pdf.

[26] RANCIÈRE, Jacques. Heidegger, filósofo judeu? Folha de S. Paulo, 4 set. 2005.

A MORTE DE HITLER

Raio-x da cabeça de Hitler (The National Archives, Londres, CN 4/13).

Às 15h30 do dia 30 de abril de 1945, acuado  no seu Bunker pelas forças soviéticas, o ditador nazista Adolf Hitler, após planejar sua morte em todos os detalhes, deu um tiro na boca após ingerir uma cápsula de cianureto, enquanto Eva Braun morria engolindo sua cápsula de veneno. Como parte desse rito de morte, eles haviam se casado na véspera, realizando o sonho da amante, que provavelmente nunca fora sexualmente amada pelo Führer: a morte foi sua lua de mel. O planejamento do duplo suicídio incluía 180 litros de combustível a serem usados para queimar os dois corpos. Hitler estava assustado com a notícia da morte de Benito Mussolini, a 28 de abril (o Duce e sua amante Clara Petacci foram executados e dependurados em praça pública pela resistência comunista) e temia cair igualmente vivo nas mãos do Exército Vermelho. Antes de matar-se, Hitler apertou a mão dos funcionários do Bunker, entre os quais a de sua secretária particular Traudl Junge. Pouco depois, quando ela dispensava cuidados ao pequeno Helmut, filho do Ministro de Propaganda, Joseph Goebbels, ouviu-se o tiro.

Após a morte de Hitler, Goebbels tentou pateticamente  “negociar” um cessar-fogo com o marechal russo Georgy Zhukov. Diante da exigência de rendição sem condições, o Ministro da Propaganda decidiu acabar com sua vida e com a de toda sua família. Os seis filhos de Goebbels, de entre quatro e doze anos, foram obedientemente envenenados pela mãe, Magda, antes que o casal se suidasse com suas cápsulas de cianureto. O cadáver de Hitler foi cremado numa cratera aberta por uma bomba explodida perto do Bunker, mas não totalmente. Com as tropas soviéticas obcecadas em encontrar os despojos de Hitler, grupos competiam numa verdadeira  “caça ao troféu”. No dia 2 de maio de 1945, os corpos da família Goebbels foram descobertos pelos soviéticos nos jardins da Chancelaria do Reich. Três dias depois, a 5 de maio de 1945, o Exército Vermelho achou os restos de Hiter e de Eva Braun na cratera onde eles haviam sido enterrados. Os especialistas forenses ficaram maravilhados ao perceber que as arcadas dentárias do Führer estavam intactas: “Essas são as chaves”, disse um deles. Além dessas mandíbulas, um pedaço do crânio de Hitler, de 10 centímetros, furado a bala, comprovando a causa de sua morte, foi conservado.

O Coronel Vassilii Gorbushin, chefe da inteligência soviética, encarregado da identificação dos restos presumidos de Hitler, incumbiu a jovem Elena Rzhevskaya, junto com dois oficiais superiores, de levar as mandíbulas de Hitler, através da assistente Käthe Häusermann, ao dentista do Führer, Hugo Blaschke. Nas ruínas de Berlim, segurando uma pequena caixa, Rzhevskaya presenciou a capitulação a 8 de maio de 1945, quando o alto comando alemão rendeu-se às forças russas, britânicas e americanas. As rivalidades entre os vencedores afloraram desde o momento da vitória, e elas prosseguiriam durante a Guerra Fria. Apenas os dois oficiais que acompanhavam Elena Rzhevskaya sabiam o que ela carregava na caixinha. Ela celebrou a vitória bebendo com os colegas: segurava uma taça de vinho numa das mãos e na outra a caixinha com as mandíbulas de Hitler. Finalmente encontrado, o dentista confirmou serem aquelas as arcadas de seu paciente. Rzhevskaya só revelou sua missão secreta em 1960, quando publicou um livro contando toda a história. “Para mim foi um momento de imensa solenidade e emoção, era vitória”, ela declarou ao The Guardian, entrevistada em 2005, aos 85 anos de idade.

Em junho de 1945, os restos de Hitler e de Eva Braun foram transportados e novamente enterrados em Rathenau, antes de serem novamente transferidos para uma cova secreta, a 21 de fevereiro de 1946, num terreno da Westendstrasse, perto da Quadra 36, em Magdeburgo, na Alemanha Oriental, sob jurisdição soviética, e de acesso proibido pela KGB.  Segundo Lev Bezymenski, oficial da inteligência soviética, em seu relato sobre Der Tod von Adolf Hitler (A morte de Adolf Hitler), a KGB ordenara-lhe a criação de versões diferentes da autópsia de Hitler para fins de propaganda. Parece que Josef  Stalin desejava cercar a morte de Hitler de mistério. Contudo, o grande historiador inglês Hugh Trevor-Roper, em seu livro The Last Days of Hitler (Os últimos dias de Hitler), publicado em 1947, reconstituiu os fatos em torno dessa morte mesmo sem ter tido acesso aos arquivos soviéticos. Como oficial MI6, ele conseguira, contudo, os raios-X da cabeça de Hitler, e os comparara com os esboços das mandíbulas que o dentista Hugo Blaschke desenhara de memória, comprovando a coincidência.

Em 1960, o revisionista inglês David Irving chegou, a despeito de seus parti-pris ideológicos, comparando as fotos da KGB das mandíbulas de Hitler, as chapas de raio-X de seu crânio e o desenho do dentista, às mesmas conclusões a que chegara, com menos elementos, o perspicaz Trevor-Roper: as três provas coincidiam, estabelecendo mais uma vez a identidade do morto e a causa mortis. Em 1970, o especialista forense norueguês Dr. Reidar Sognnaes, examinando os mesmos documentos, chegou novamente, por métodos mais científicos que lógico-dedutivos, às conclusões convergentes dos historiadores Trevor-Roper e David Irving, em que pesem suas visões de mundo politicamente antagônicas.

No dia 13 de março de 1970, o então chefe da KGB, Yuri Andropov, escreveu uma carta (reproduzida numa reportagem de abril de 1995 pela revista alemã Der Spiegel) ao então secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista soviético, Leonid Brejnev, recomendando que os restos mortais de Hitler, de Eva Braun e da família Goebbels fossem destruídos para impedir cultos de adoração fascista: “Remover e destruir os restos de criminosos de guerra, enterrados em Magdeburg […]”. No dia 4 de abril de 1970, foi aberta a cova onde estavam enterrados os alvos da Operação Os Arquivos e “os restos foram incinerados em uma área vazia fora de Shoenebeck, a 11 km de Magdeburg. As cinzas foram reunidas e lançadas no Rio Biederitz”, perto de Magdeburg. Dois documentos secretos confirmam a execução da ordem por agentes da KGB. Apenas o crânio furado a bala e as mandíbulas de Hitler foram conservados: em 1993, o chefe da KGB na antiga Alemanha Oriental, Serghei Konratschova, divulgou através da revista oficial do Serviço de Segurança Federal de Moscou (FSB) que este órgão ainda mantinha, em cinco caixa, saquelas “relíquias” do Führer, assim como seus trajes militares e objetos de outros líderes nazistas – broches, estojos para cigarros e jóias – encontrados no Bunker.

A autenticidade das “relíquias” foi questionada pelo historiador alemão Werner Maser e pelo arqueólogo norte-americano Nicholas Bellantoni, de Connecticut, que examinou o crânio e levantou a hipótese de pertencer a  uma mulher, “talvez Eva Braun”.  O escritor inglês Peter Watson e a veterana jornalista russa Ada Petrova, autores do livro A morte de Hitler – A história completa, com novas provas surgidas dos arquivos secretos russos (1996), examinaram as “relíquias”, conservadas por Anatoli Propenko, diretor do Arquivo de Troféus Especiais do Estado: além das mandíbulas e do crânio de Hitler, uniformes pessoais chamuscados, 42 desenhos e aquarelas do Führer, seu álbum de família e seis pastas com documentos sobre seus últimos dias no Bunker. Estes pequeno e sinistro acervo era conhecido na NKVD (predecessora da KGB) como Arquivo Operação Mito, Dossiê I-G-23. Segundo um dos documenetos conservados, com a saúde comprometida após o atentado de 1944, Hitler exalava um mau cheiro insuportável; Albert Speer odiava quando o Führer tirava o paletó, sempre manchado de comida, para trabalhar em mangas de camisa; sua flatulência era incontrolável; e a vida no Bunker era um horror. Ainda segundo Peter Watson e Ada Petrova, a foto muito divulgada do cadáver de Hitler era na verdade do corpo de seu dublê, Gustav Weler.

Em 1995, durante uma pesquisa sobre a morte de Hitler, a famosa chapa de seu crânio, examinada no fim da guerra por Trevor-Roper, foi encontrada em Londres, em meio a documentos militares. Os registros médicos que a acompanhavam indicavam que ele teria cistite e ferimentos no ouvido. O raio-X fora requisitado pelo médico particular do Führer, Dr. Theo Morell, após o atentado de julho de 1944, no qual ele sofrera ferimentos internos. A chapa fora tirada pelo Dr. Giesing no Hospital do Exército, em Ratsenburg, em setembro de 1944. O aspecto especialmente macabro desse raio-X do crânio de Hitler é ressaltado pela concentração da morte nessa única imagem: 1) pela própria natureza do raio-X na revelação do esqueleto do paciente; 2) pela associação do crânio de Hitler a uma mente particularmente criminosa; 3) pelo fato de Hitler ter acabado de escapar da morte no atentado de julho de 1944; 4) por estar Hitler próximo da morte que daria a si próprio; 5) por Hitler personificar a morte através de sua política de guerra e de genocídio.

Como os russos não abriram seus arquivos senão após o fim do comunismo e como não houve testemunhos oculares do suicídio de Hitler, alguns historiadores formularam hipóteses fantasiosas sobre como Hitler teria se matado. Em abril de 1995, o jornal alemão Bild divulgou a teoria do historiador britânico Hugh Thomas de que faltara a Hitler coragem de matar-se com um tiro, tendo sido então estrangulado por um de seus ordenanças, o oficial das SS Heinz Linge, depois que este tentara em vão introduzir uma cápsula de cianureto na boca do ditador. Essa hipótese contraria a autópsia oficial e o testemunho fidedigno da secretária de Hitler, que se encontrava no Bunker, e que ouviu o tiro, vendo em seguida os corpos de Hitler e Eva Braun sendo carregados para fora. O testemunho de outro ordenança de Hitler confirmou a morte por tiro: a única dúvida, de que ele se atirara na boca ou na têmpora, parece ter sido resolvida quando o crânio foi achado. A autópsia tamém confirmou que Hitler tomara, antes do tiro, sua cápsula de cianureto.

Em 1996, um programa da Spiegel TV noticiou que uma cova descoberta sob o quartel-general do antigo Serviço de Inteligência Soviético, em Magdeburgo, na antiga Alemanha Oriental, contendo 32 esqueletos não identificados, poderia conter os restos da família Goebbels e de Eva Braun. Mas nenhum fato novo veio à tona desde as provas apresentadas por Watson e Petrova em 1995, que confirmaram a morte do Führer por bala no crânio, em 1945, e a queima de seus ossos em 1970, com exceção do crânio e das mandíbulas, conservados em Moscou.

Em 2000, a Rússia exibiu os fragmentos do crânio de Hitler com o buraco da bala (estando muito frágeis as mandíbulas foram apresentadas apenas em fotos). A exposição A agonia do ‘Terceiro Reich’: A Retribuição teve lugar nos Arquivos Federais de Moscou, marcando o 55º aniversário do fim da guerra, e incluía os documentos do serviço secreto soviético que identificaram os restos de Hitler. A diretora da exposição, Aliya Borkovets, declarou não haver qualquer dúvida sobre a origem dos restos expostos e os especialistas confirmaram a autenticidade daquele pedaço de crânio.

Em 2002, pouco antes de morrer, a secretária de Hitler de 1942 até 1945 prestou um longo depoimento no filme Im toten Winkel – Hitlers Sekretärin (“Eu fui a secretária de Hitler”, Áustria, 2002), de André Heller e Othmar Schmiderer, recordando os dias quase irreais que passou trabalhando no Bunker. O filme resume-se a uma longa entrevista, mas o conteúdo do depoimento de Traudl Junge, que também serviu de base para algumas das reconstituições do revisionista Der Untergang /The Downfall (“A queda: Os últimos dias de Hitler”, 2004), de Olivier Hirschbiegel, consegue manter nossos olhos grudados na tela.Note-se que, antes de Der Untergang outros filmes já haviam sido realizados sobre os últimos dias de Hitler, com interpretações tão notáveis quanto a de Bruno Ganz neste filme: a de Albin Skoda, em Der letzte Akt (1955), de Georg Wilhelm Pabst; a de Billy Frick, em Is Paris Burning? (1966), de René Clément; a de Frank Finlay, em The Death of Adolf Hitler (1973), de Rex Firkin; a de Alec Guinness, em Hitler: The Last Ten Days (1973), de Ennio De Concini; a de Anthony Hopkins, em The Bunker (1981), de George Schaefer; e a de Leonid Mozgovoy em Molokh (1999), de Aleksandr Sokurov.

Traudl Junge havia prestado consultoria na reconstituição do Bunker em Der letzte Akt e aparecido em alguns documentários. Em seu último e mais consistente depoimento, ela rememora os fatos com precisão, sem conseguir esconder, contudo, a emoção que a toma quando, recordando a morte de Hitler, sentiu-se traída, como se tivesse, agora, como todo alemão sobrevivente ao nazismo, que pagar sozinha, sem o escudo protetor do Führer a chamar para si toda a responsabilidade pelos crimes do regime. Percebendo a morte aproximar-se, aos 81 anos de idade, ela buscou, através de seu depoimento, algum tipo de remissão da culpa profunda de ter comungado do ideal macabro do ‘Terceiro Reich’ no centro mesmo do poder e na intimidade insalubre dos líderes, até a apocalíptica derrocada.

Em 2009 foi noticiado um exame de DNA sobre “amostras do fragmento do crânio de Hitler”,  feito por cientistas da Universidade de Connecticut, depois que o arqueólogo Nicholas Bellantoni suspeitou que “os ossos eram muito finos para serem de um homem, além de parecerem mais jovens” (sic). O arqueólogo declarou ao Daily Mail que o exame veio “comprovar sua teoria”. O crânio seria de uma mulher com idade entre 20 e 40 anos, “sem lugar para dúvidas”, conforme atestou Linda Strausbaugh, professora de biologia molecular e celular, responsável pelo estudo. Sua equipe analisou amostras de DNA que o arqueólogo Nicholas Bellantoni obteve “numa viagem à Rússia”. O arqueólogo não explicou bem, nas reportagens, como obteve junto aos arquivos estatais russos as amostras dos fragmentos do crânio que levou aos cientistas para a realização do teste. Foi levantada a hipótese de o crânio pertencer a Eva Braun. Mas a cientista responsável pela investigação explicou ser complicado averiguar tal possibilidade dado que a amostra corresponderia a “um perfil parcial […] devido ao seu estado de degradação”, deixando lugar para muitas dúvidas sobre o exame. O tenente-general Vassili Khristoforov, chefe arquivista do Serviço Federal de Segurança (SFS) da Rússia (antiga KGB), reafirmou então ao Daily Mail, que “os arquivos da SFS detêm o maxilar de Hitler e os arquivos estatais um fragmento do crânio de Hitler. Com a exceção desses fragmentos, adquiridos no dia 5 de maio de 1945, não há nenhuma outra parte do corpo de Hitler”.

Em 2010 foi publicado em livro os resultados mais que suspeitos de uma nova investigação levantando a hipótese fantasiosa de que Hitler teria sobrevivido ao cerco do Exército Vermelho e fugido para a América do Sul, refugiando-se na Argentina, sob a proteção do Vaticano ou dos EUA, como outros criminosos nazistas, como Eichamnn e Mengele, como se o Führer fosse uma peça importante na elaboração de uma nova estratégia anticomunista para a Guerra Fria. Não há, contudo, a menor chance de Hitler ter escapado com vida do Bunker. E, de qualquer forma, ele teria sido imediatamente reconhecido, ou descoberto, sob qualquer disfarce, em qualquer lugar do mundo. Mas permanece latente nos revisionistas e neonazistas o desejo de que Hitler não tenha morrido… A Operação Mito levada a efeito pela KGB sob as ordens de Stalin até hoje revela sua tenebrosa eficiência.

Fragmento do crânio de Hitler com buraco de bala.

REVISIONISMO BASTARDO EM TECNICOLOR

Que se poderia esperar quando um Quentin Tarantino encena uma fantasia antissemita disfarçada pelo antinazismo de um fictício grupo de “soldados judeus americanos conhecidos como Os bastardos” dispostos a degolar soldados alemães, no filme intitulado de modo propositadamente errado Inglourious Basterds (2009)? Mais um hediondo filme revisionista invertendo papéis, mostrando os judeus como carniceiros sádicos e os nazistas como vítimas de terroristas. A Vanity Fair publicou stills do filme que “surgem com todo o glamour das produções antigas e dos astros de Hollywood” (Notícias da Rua Judaica, 19/04/2009), tornando a carniçaria que os cartazes não disfarçam mais palatável ao público fashion. Mas a imagem que ilustra a matéria mostra um judeu carniceiro escolhendo as armas mais afiadas para cometer seus escalpos, à maneira das tão vulgares caricaturas de “Fips” para o jornal nazista Der Stürmer:

Judeu como carniceiro de nazistas em "Inglourious Bastards".
Judeu como carniceiro de nazistas em Inglourious Bastards.
Judeus como carniceiros de anjos loiros no jornal nazista "Der Stürmer".
Judeus como carniceiros de anjos loiros em Der Stürmer.

Claro que, para efeito de bilheteria, os judeus do filme de Tarantino são mais bonitos, e é o galã Brad Pitt quem interpreta o tenente americano Aldo Raine que os organiza. Esse não é exatamente um “caçador de nazistas” como o feioso Simon Wiesenthal, mas um charmant torturador cujo objetivo não é tanto combater o nazismo quanto opor ao nazismo alemão um nazismo judeu capaz de apavorar até Adolf Hitler: “Membros do Partido Nacional-socialista conquistaram a Europa para assassinar, torturar, intimidar, e aterrorizar. E isso é exatamente o que nós vamos fazer a eles. Seremos cruéis com os alemães e através de nossa crueldade eles saberão quem somos nós. Eles encontrarão a evidência de nossa crueldade nos corpos destroçados, desmembrados, desfigurados de seus irmãos que deixaremos para trás e os alemães […] terão medo de nós. Nazistas não têm humanidade! Eles precisam ser destruídos. Cada um dos homens sob o meu comando deve-me cem escalpos nazistas… E eu quero os meus escalpos!” (trailer do filme).

Num mundo que assume descaradamente seu anti-semitismo comparando judeus a nazistas, não mais somente nas mídias islamitas, neo-stalinistas, neonazistas, mas até nas mídias liberais, esse novo blockbuster de Hollywood reforça para o grande público o conceito que hoje se espalha em meio aos conflitos no Oriente Médio, fazendo dos judeus não apenas os novos nazistas, mas os piores nazistas.

Bastardos inglórios é, pois, um filme detestável. Seu humor é sádico e grotesco; sua violência, vulgar e grosseira, caracteriza um típico pastelão de sangue; os diálogos são perfeitos para imbecis que se acham inteligentes sacando a “inteligência dos diálogos”. Um verdadeiro lixo. As referências ao cinema nazista podem parecer profundas para quem não conhece o cinema nazista, mas é fácil para quem o conhece perceber os buracos.

Georg Wilhelm Pabst, por exemplo, é citado com admiração, pois Tarantino só deve conhecer a fase alemã muda e a fase francesa dele, não a fase nazista (Komödianten, Paracelsus, Der Fall Molander). Assim, ele critica a Riefenstahl, mas preserva o Pabst, anunciado “sem necessidade” (como nota o jovem soldado Zoller) no cartaz de Pitz Palü, que não foi produzido na Alemanha nazista, mas na República de Weimar.

Claro, uma “Semana Alemã” em uma sala de cinema de Paris sob a Ocupação poderia estar exibindo uma reprise. Mas por que não algum filme nazista de Veit Harlan ou Hans Steinhoff? Ah, sim, a dona do cinema, Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), é uma jovem judia camponesa escapada de um massacre graças ao estranho “au revoir” do supostamente impiedoso “caçador de judeus”; ela chegou caminhando, ou sabe Deus como, do interior da França até a Paris ocupada, onde herdou legalmente, sabe Deus como, um cinema em plena Ocupação; e, claro, cinéfila inveterada, ela mantém um arquivo de filmes, de onde sacou esse velho filme, embora deteste Riefenstahl, exibindo Pitz Palü apenas como uma homenagem a Pabst…

Ora, precisamente nessa altura Pabst estava trabalhando na Alemanha nazista (ele devolveu ao governo francês, dois meses antes da declaração de guerra, uma medalha da Legião de Honra que ganhara, e com a eclosão da guerra, em 1939, ele retornou à Áustria, de onde seguiu para a Alemanha para realizar filmes de propaganda nazista a convite de Goebbels, ajudando, inclusive, a Riefenstahl – que a jovem judia camponesa proprietária de cinema e cinéfila inveterada detesta – na direção de algumas cenas em que ela atuava em seu Tiefland

Em certa cena, uma canção cantada por Zarah Leander é ouvida ao fundo, mas o nome da maior diva nazista não é mencionado, apenas o da secundária Brigitte Fossey e da veterana Pola Negri (personagens no jogo de adivinha) e o de Lilian Harvey (inglesa que após trabalhar em alguns filmes nazistas imigrou para os EUA, onde não fez sucesso; o Goebbels de Tarantino fica furioso no cinema quando lembram o nome dela).

Já a estrela nazista Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), que ajuda os Bastardos, parece vagamente inspirada em Olga Tchekova (que espionava para o NKVD, diretamente subordinada a Lavrentiy Beria, segundo a recente biografia escrita por Antony Beevor, que também revela o trabalho de espionagem para os soviéticos de Zarah Leander, subordinada a Zoia Ribkina) e em Renate Müller (que tinha um amante judeu na Inglaterra, para onde escapava às escondidas, e que acabou sendo “suicidada” pela Gestapo).

De qualquer forma, as referências ao cinema nazista são sempre vagas e imprecisas – como a súbita irrupção de um nada parecido Emil Jannings na seqüência da estréia de O orgulho da nação… Na crônica “Bastardos gloriosos” (Folha de S. Paulo, 13/10/2009), João Pereira Coutinho perguntou: “Vocês, caros leitores, estão habituados a filmes sobre o Holocausto onde os judeus são meros carneiros nas matanças nazistas? Filmes de um sentimentalismo vulgar […]? [Em Bastardos inglórios] os judeus, agora, não são apenas vítimas; também são vingadores […]”. Ou seja, os filmes que tentaram apreender a verdade sobre o Holocausto, como Ostatni etap; Ulica Graniczna; Daleká cesta; Professor Mamlock; A orquestra de Auschwitz; Shoah; As 200 crianças do Dr. Korczak; A lista de Schindler, O pianista, etc. são “de um sentimentalismo vulgar” porque neles os judeus são vítimas… Quando não o foram?

O cronista e seus leitores preferem a “inversão de estereótipos” do Cirque de Soleil sangrento de Tarantino. Não percebem que o cineasta, sem qualquer cultura (ou, antes, formado pela subcultura de filmes de Kung Fu e Blaxploitation, com algumas doses da Nazi-exploitation que inclui títulos como Ilsa, She Wolf of the SS; La bestia in calore, L’ultima orgia del III Reich e Quel maledetto treno blindato, intitulado The Inglorious Bastards nos EUA, e cujo diretor, Enzo Castellari, interpreta um pequeno papel no filme de Tarantino) cai nos estereótipos mais antigos sobre os judeus: a gangue dos Bastardos – assim como a esquizofrênica Shosanna Dreyfus (nome escolhido a dedo) – são movidos pelo ódio vingativo como o Shylock de O mercador de Veneza, de William Shakespeare; o Judeu errante, de Eugène Sue; ou o Samuel Mayer do romance mediúnico A vingança do judeu, do “espírito” J. W. Rochester, revelando-se tão carniceiros quanto os “judeus” das caricaturas de Der Stürmer

No revisionismo dos trapalhões escalpeladores de Tarantino, os principais dirigentes nazistas, incluindo Joseph Goebbels (Sylvester Groth) e Adolf Hitler (Martin Wuttke), são mortos pelos judeus Bastardos. Todos são representados por atores tão pouco parecidos quanto o grotesco Winston Churchill caracterizado por Rod Taylor, escondido como uma aranha num canto de seu sombrio gabinete. E os judeus ainda são aí homens-bombas terroristas e massacradores de nazistas “indefesos” (eles incendeiam um cinema lotado e queimam vivos uns 400 nazistas desarmados na platéia).

É incrível como a sensibilidade do público deteriorou-se, a ponto de tantos acharem inteligente, divertido, excitante ver judeus arrancando a faca o couro cabeludo dos corpos de nazistas – o escalpe “apache” que, em 1975, Pier Paolo Pasolini associou para sempre aos torturadores fascistas de Salò… Há uma tendência moderna que consiste em saciar o sadismo das massas fascistóides contra os “vilões”. Tarantino radicaliza essa tendência, fazendo com que seus vilões nazistas sofram “como judeus” nas mãos de judeus que agem como os nazistas: supostamente bons, esses “heróis” podem praticar todo tipo de atrocidade contra os tradicionais “vilões”: escalpelamento, cremação massiva, estouro de crânios, etc.

Notável, nesse sentido, que o personagem de Brad Pitt, o Kapo americano não-judeu que organiza os Bastardos, nunca suje suas mãos, a não ser para marcar os nazistas. Ele encarrega os judeus de todo o trabalho sujo, eles é que têm de esmigalhar crânios e arrancar escalpos, supostamente se vingando, como um bando de cães, lobos ou ursos amestrados a serviço de seu “dono”. O Kapo Aldo Raine reserva-se apenas o privilégio de enfiar o dedo na ferida da estrela que trai os nazistas e de rabiscar a facão suásticas nas testas dos nazistas que deixa escapulir. E aí está mais uma ambigüidade do filme, pois ao mesmo tempo em que o personagem afirma que essa escarificação tornará os nazistas “visíveis” mesmo ao se livrarem de seus uniformes, o fato é que a escarificação de suásticas nas testas das vítimas é uma conhecida prática de gangues neonazistas.

Em resumo, no filme de “clichês trocados” de Tarantino, os verdadeiros nazistas são os judeus… A alcunha que o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz) recebe, de “caçador de judeus”, é uma “indireta” dirigida ao “caçador de nazistas” Simon Wiesentahl. Com exceção do assassinato da família Dreyfus no começo do filme (seqüência copiada de A lista de Schindler, de Steven Spielberg, e de A lenda do cavaleiro sem cabeça, de Tim Burton), são sempre os judeus que trucidam, bombardeiam, metralham, cremam vivos, “tatuam” os inimigos na carne e queimam bens culturais – o auto-de-fé nazista de livros é aí transformado num judaico auto-de-fé de filmes.

Em “Tarantino Touch” (Folha de S. Paulo, 18/10/2009), Jorge Coli chegou a comparar Bastardos inglórios à magistral e sofisticada comédia antinazista Ser ou não ser, de Ernst Lubitch, e o “discurso vingador” de Shosanna ao emocionante discurso final de O grande ditador, de Charles Chaplin, com desvantagem para esse último: o discurso de Tarantino “nada tem do tom didático [de Chaplin]… é uma esplêndida apoteose feita com o prazer de filmar para o prazer de assistir”. Quer dizer que o grosseiro pastiche de Tarantino evocaria o Lubitch Touch e superaria a obra-prima de Chaplin? Quanta baboseira!

Sintomático que o ato final de barbárie da “heroína” vingadora tenha sido interpretado por diversos críticos como uma prova do grande “amor” que Tarantino dedicaria ao cinema. Estranho amor, que se demonstra queimando todo um acervo de películas em nitrato e explodindo uma bela sala de cinema, atribuindo esse “holocausto” a uma judia e a um negro… E depois Tarantino tem o desplante de ir a Israel mostrar seu filme, talvez esperando que o “exército nazista do Estado Judeu” (na visão dos novos antissemitas) se “reconheça” nos seus personagens, aplaudindo Bastados inglórios como as platéias alheias à História que gargalham nos cinemas multiplex que fedem a mofo e pipoca amanteigada…