PANORAMA DO CINEMA – AULA 4

O cinema mudo soviético

(Em construção)

Dziga Vertov

Denis Arkadyevich Kaufman (1896-1954) nasceu em Bialystock (atualmente território da Polônia), filho de um casal de bibliotecários judeus, que se fixaram em Moscou com o avanço dos alemães durante a Primeira Guerra. Vertov estudou música e medicina, mas influenciado pelo futurismo, apaixonou-se pelo cinema – como seus irmãos Mikhail e Boris, que se tornaram diretores de fotografia – e adotou o apelido de Dziga (“pião” em russo e “cigano” em ucraniano) Vertov (de “girar” em russo).

Vertov começou realizando cinejornais: a série Kino-Nedelia (Cinema Semanal, 1918-1919) teve 43 edições. Nelas, Lenin, Trotski e outros líderes da Revolução de 1917 aparecem no meio do povo, como pessoas comuns. Em 1922, Vertov publicou na revista Kinofot, órgão oficial do movimento construtivista, o primeiro manifesto do grupo Kinoki, palavra inventada, algo como “cinóticos”, que formou com sua esposa montadora e seu irmão Mikhail, que operava a câmera de seus cinejornais:

“Nós”

Nós, os kinokis, proclamamos que os velhos filmes baseados em romances, peças e que tais são leprosos. – Fiquem longe deles! – Mantenham seus olhos afastados deles! – Eles são mortalmente perigosos! – Contagiosos! Afirmamos o futuro da arte do cinema negando o presente.

Vertov queria revolucionar o cinema no sentido de uma arte pura, com sua linguagem própria, sem contaminações de outras artes. Entre 1922 e 1925, o cineasta produziu a série Kino-Pravda (Cinema-Verdade), “jornal da tela” que aludia em seu título ao jornal Pravda (Verdade), fundado por Lenin. Lançada sem regularidade e em poucas cópias, a série totalizou 23 edições.

Entre 1924 e 1937, Vertov realizou diversos documentários poéticos de longas-metragens, entre os quais O aniversário da Revolução (1919, recentemente restaurado), Kinoglaz (Cine-olho, 1924), A sexta parte do mundo (1926), O décimo primeiro ano (1928), O Homem com a Câmera (1929), Entusiasmo / Sinfonia do Donbass (1930), Três cantos sobre Lenin / Réquiem a Lenin (1934).

Durante a produção deste último, sofreu tantas perseguições do Departamento de Cinema da RAPP (Associação Russa de Escritores Proletários) que teve o sistema nervoso abalado e perdeu vários dentes que pareciam saudáveis e fortes (VERTOV, 1934). Quando se recuperou da doença, Vertov obteve autorização formal para continuar a filmar seus “documentários poéticos”, mas as perseguições continuaram. Isolado, tendo seus projetos sistematicamente vetados, Vertov morreu aos 58 anos de câncer no estômago.

Redescoberto pelos críticos franceses na década de 1960, Vertov tornou-se grande referência para o cinema revoluci0nário de Jean-Luc Godard (“Grupo Vertov”) e os documentaristas ideólogos do Cinéma-Vérité, assim como para o fotógrafo brasileiro Eduardo Escorel, que dedicou diversos artigos ao cineasta.

Em 1970, o Instituto de Cinema Sueco recuperou a série Kinonedelja. Em 1971, Parte inferior do formulárioGeorge Sadoul dedicou um livro ao cineasta: Le cinéma de Dziga Vertov. No prefácio, Jean Rouch recordou que ele fora um “pioneiro genial que o cinema oficial soviético deixou na sombra como um simples cinegrafista”.

Annette Michelson, que editou a primeira das coletâneas dos escritos do cineasta – Kino-eye – The Writings of Dziga Vertov (1984) –, considerou Vertov “o Trotski do cinema”.

A edição n˚12 da série Kino-Pravda perdeu-se, mas as demais 22 sobreviveram. Entre 2017 e 2018, elas foram digitalizadas, legendadas em alemão e inglês e colocadas on line pelo Museu do Filme de Viena: https://vertov.filmmuseum.at/en/film_online/kino-pravda.

Referências

BO, João Lanari. Cinema para russos, cinema para soviéticos. Brasília: Bazar do Tempo, 2020.

ESCOREL, Eduardo. Ele e eu – Dziga Vertov em apuros. Folha de S. Paulo / Piauí, 11 dez. 2019. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/ele-e-eu-dziga-vertov-em-apuros/.

ESCOREL, Eduardo. Milagre em Amsterdã – o jovem Dziga Vertov. Folha de S. Paulo / Piauí, 28 nov. 2018. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/milagre-em-amsterda-o-jovem-dziga-vertov-ressuscitado/.

ESCOREL, Eduardo. O homem com a câmera. 1˚ abr. 2013.

GRANJA, Vasco. Dziga Vertov. Lisboa: Livros Horizonte, 1981.

MACKAY, John. Dziga Vertov Life and Work (Volume 1: 1896-1921). Academic Studies Press, 2019.

VERTOV, Dziga.  Kino-Eye: The Writings of Dziga Vertov. Versão deKevin O’Brien. Introdução de Annette Michelson. University of California Press, 1985.

VERTOV, Dziga.  Sobre minha doença, 1934, apud ESCOREL, Eduardo. O homem com a câmera. 01 abr. 2013. VERTOV, Dziga. Kino-Pravda – Online Edition. Film Museum Wien. Disponível em: https://vertov.filmmuseum.at/en/film_online/kino-pravda