O LEGADO DE UMA NULIDADE

Eva Braun.

Originalmente publicado no extinto caderno Sabático, de O Estado de S. Paulo, no dia 18 de junho de 2011 numa versão reduzida a 5000 caracteres sob o título: Sem lugar próprio na cena da história. Segue a versão integral.

Seguindo uma tendência da historiografia alemã de reinserir no panteão da História toda a galeria dos criminosos de massa do nazismo, à maneira de Der Untergang (A queda: as últimas horas de Hitler, 2004), de Oliver Hirschbiegel, com seu singelo crédito final dando conta do destino de cada um dos “heróis” que protagonizaram o pesado dramalhão do Bunker, a acadêmica Heike Görtemaker, doutora em germanística pela Universidade de Indiana e professora da Universidade Livre de Berlim, dispôs-se a exaltar com uma alentada biografia a vida da suposta amante de Hitler.

Uma tarefa bastante ingrata. Afinal, como biografar uma nulidade? E mais: para quê? Hannah Arendt já havia se escandalizado com a moda que viu despontar com o Hitler (1973), de Joachim Fest, de celebrar o ditador em livros-mamutes “à inglesa”, que esmiuçavam em detalhes a vida daquele genocida. Que dizer então do empreendimento de Görtemaker, de esmiuçar em Eva Braun, a vida com Hitler a apagada sombra da estéril acompanhante do genocida?

Nenhum feminismo justifica a empreitada. É um sentimento mal definido que leva a autora a tentar “virar a mesa” da historiografia clássica, que a seu ver só ressaltou a insignificância de Eva Braun. Mas, apesar de sua intensa pesquisa – suas notas, fontes, bibliografia e índices ocupam 100 das 400 páginas do livro –, a autora não encontrou nada de novo que pudesse modificar o quadro.

Eva Braun tinha para Hitler a mesma importância que seu cachorro predileto, o pastor alemão Blondi, no qual ele testou a fatal ampola de cianureto de hidrogênio que daria à “amante” no dia seguinte, a 30 de abril de 1945, quando ambos se mataram no Bunker cercado pelo Exército Vermelho (depois de tomar sua cápsula, o Führer também meteu uma bala na cabeça, para garantir-se um suicídio sem chance de fracasso).

Embora Heike Görtemaker tente provar que Eva Braun seria bem mais que uma criatura fútil e mesquinha, deslumbrada por um poder criminoso, só conseguiu reforçar a tolice de sua personagem, cuja vida se resumiu a esperar pelo ditador, que a tratava como uma privilegiada empregada doméstica ou cadela de estimação.

Ao contrário do que Görtemaker sugere, o sonho evidente de Eva Braun era mesmo viver casada com Hitler após sua “aposentadoria” no planejado palacete de Linz. O ditador só se casou com a suposta “amante” ao ter absoluta certeza de que ela se mataria imediatamente após a cerimônia, conforme haviam diversas vezes ensaiado, para nada saísse errado.

Hitler ditou à secretária Traudl Jung em seu Testamento: “Como, nos anos de luta, eu não me julgava em condições de contrair matrimônio, agora, no fim desta trajetória terrena, decidi desposar a moça que, depois de muitos anos de leal amizade, entrou na cidade já quase sitiada para compartilhar seu destino com o meu. Por desejo meu, é na qualidade de esposa que ela vai comigo para a morte.” (Hitler, apud Görtemaker, p. 298).

Embora a razão disso seja óbvia, Heike Görtemaker insiste em negar que a relação de Hitler com Eva Braun fosse apenas a de um amor platônico, como diversos membros do círculo íntimo do poder nazista asseguraram. Görtemaker mostra-se alheia às teorias sensacionalistas que ressaltaram os problemas sexuais de Hitler: ausência do testículo esquerdo, impotência sexual de fundo psicológico, homossexualidade recalcada, etc. Nenhuma referência a nada disso há em seu livro.

Görtemaker tampouco aborda a visão do amor heterossexual que o futuro ditador expôs na juventude ao seu único amigo, August Kubizek, conforme este relatou em Adolf Hitler, mein Jugendfreund (Adolf Hitler, meu amigo de juventude, 1953), e que se resume no conceito que ele definia como “A Chama da Vida”, em nome da qual os amantes deviam permanecer virgens até o casamento.

A autora prefere acreditar (seu livro é, aliás, cheio de suposições) que Hitler mantinha relações sexuais com Eva Braun, afastando, a partir desse seu parti pris, todos os testemunhos contrários como intrigas da oposição. Interpretando a seu modo a relação entre Hitler e sua “leal amiga”, Görtemaker não percebe o verdadeiro horror da vida de sua “heroína”.

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A jovem feiosa ou no máximo “bonitinha”, mas cheia de saúde, estava cegamente apaixonada por um ser repugnante, mas poderoso, e sonhava em casar-se para ser satisfeita e fecundada, realizando o ideal nazista da esposa-mãe proliferante, sendo mantida justamente por aquele que proclamava esse ideal num estado permanente de desejo insatisfeito, esterilizada pela ausência de sexo, sob a vigilância constante da Gestapo, que a impossibilitava de qualquer aventura sexual, dentro ou fora de sua gaiola dourada.

É esse drama digno do mais vetusto e “picante” romance naturalista do século XIX, atualizado para um universo totalitário, cercado de campos de concentração e filmes nazistas vistos e comentados com entusiasmo todas as noites após o jantar, tendo assassinos de massa como companhia, que explica a histeria de Eva Braun, suas duas tentativas de suicídio, seu freqüente mau humor, suas distrações medíocres como fazedora de álbuns de sua vida privada com Hitler. Hoje ela seria uma fanática do Facebook…

Fotógrafa e cineasta amadora de fim de semana, cujos filmes coloridos em 16mm, desprovidos de imaginação, rodados no “ninho de águia” do Berghof em Obersalzberg, foram retomados nos controversos documentários Swastika (Suástica, 1974), de Philippe Mora, e Hitler: Eine Karriere (Hitler: uma carreira, 1977), de Joachim Fest, Eva Braun exibia constrangedora ascendência sobre o homem mais amado e temido da Alemanha, refletindo em microcosmo um regime de extremo sadomasoquismo coletivo.

O poderoso ditador, que se recusava a ficar nu até para uma consulta médica, sentia-se vulnerável diante daquela tolinha que ele amava, e que sabia demais sobre sua intimidade, pelo que a jovem Braun era mantida escondida do público, excluída das recepções oficiais, constantemente vigiada e protegida, quer dizer, isolada, como uma refém, uma presidiária, do mundo exterior.

Por isso também a indiferença patológica de Eva Braun em relação ao sofrimento alheio, ao mundo à sua volta, ao seu próprio fim desgraçado. Depois de viver no luxo sórdido de um poder criminoso, esperando em vão por um sonho impossível, as últimas semanas no fétido Führerbunker de Berlim a fizeram quase feliz, ligada definitivamente ao seu dono, em franca degeneração física e mental: “Estou no lucro”, ela afirmou, ao se fechar naquela claustrofóbica antessala do inferno.

Ao se matar aos 33 anos de idade, após uma vida vazia, preenchida com fofocas palacianas e torpes fantasias românticas alimentadas pelo amado carniceiro, como bem retrata o Moloch (2000), de Aleksander Sokurov, Eva Braun não “assegurou para si um lugar na história, ainda que duvidoso”, como quer a autora, mas sim um não-lugar, incapaz de render uma biografia exclusiva, já que a quase totalidade das páginas de Eva Braun: a vida com Hitler não é dedicada a ela, mas ao ditador e ao seu círculo de assassinos de massa.

Luiz Nazario

Professor de História do Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG, autor de Todos os corpos de Pasolini (Editora Perspectiva) e pesquisador bolsista de produtividade do CNPq com o projeto Cinema e Holocausto.

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DE HEINRICH HEINE A GÜNTHER GRASS

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Terminei de ler O Rabi de Bacherach, de Heinrich Heine, um fragmento de romance cuja maior parte foi destruída ainda em manuscrito inacabado num incêndio trágico na casa do escritor. Ele dedicara décadas de pesquisas para escrever o romance, e já tinha escrito umas trezentas páginas, que desapareceram assim em minutos nas chamas. O que restou e foi refeito (o fragmento tem três capítulos e 100 páginas em tipo Palton corpo 13) não é, porém, grande coisa, embora apresentado na quarta-capa como “uma enciclopédia do destino judaico na sociedade feudal”.

Embora se pretenda, acima de tudo, uma denúncia do antissemitismo, o romance de Heine é eivado de personagens-clichês (o “judeu tolo”, o “judeu covarde”, a “bela judia”, a “judia maledicente”) e ainda afirma como “verdade histórica” uma barbaridade que não se sabe de onde Heine, judeu convertido ao catolicismo para poder seguir carreira acadêmica, possa ter tirado: “[…] todo o judeu pode fazer de uma moça judia sua esposa legal se conseguir enfiar-lhe um anel no dedo e ao mesmo tempo pronunciar as palavras: – Tomo-te por minha mulher segundo os costumes de Moisés e Israel.” (p. 19).

O posfácio de Günther Grass, “Como dizer aos nossos filhos”, em que tenta ao mesmo tempo esconjurar e assumir o passado nazista da Alemanha como uma herança a ser transmitida de maneira adequada, longe da negação e da banalização, começa bem, criticando as tentativas revisionistas do nazismo pela nova direita alemã diante da ascensão espantosa de Kurt Georg Kiesinger, membro do Partido Nazista de 1933 a 1945, que trabalhou desde 1940 na seção de radiodifusão política do Ministério das Relações Exteriores, em contato estreito com o Ministério da Propaganda, e que se tornou, em 1966, o chanceler da República Federal da Alemanha, cargo que manteve até 1969. Escreve Grass:

No final dos anos sessenta, depois dos últimos momentos da era Adenauer, com sua política interna restauradora, e da Guerra Fria, apresentou-se a oportunidade, pela primeira vez n República Federal da Alemanha, para uma permuta democrática de poder. Contudo, o governo de transição da Grande Coligação, formada por democrata-cristãos e socialdemocratas, na medida em que permitiu o definhamento da oposição parlamentar, converteu-se ao mesmo tempo no primeiro desafio para a autoconsciência democrática dos alemães-ocidentais, ainda não consolidada. À esquerda, originando-se do movimento dos protestos estudantis, formou-se uma “oposição extraparlamentar”; à direita, um partido neofacista, o NPD [Nationaldemokratische Partei Deutschlands], conseguiu rápida penetração, sobretudo porque o passado político do chanceler da Grande Coligação, Kurt Georg Kiesinger, enfraquecia os argumentos dos partidos do governo contra os neonazistas: membro por muitos anos do Partido Nacional-Socialista, Kiesinger desempenhara funções diretivas no Terceiro Reich, até o fim, sem se deixar abalar pelos crimes que lhe eram conhecidos. Seu posto como chanceler era um escárnio à resistência contra o nazismo. A avaliação política do seu passado colocava em xeque tudo aquilo que os alemães-ocidentais, por vinte anos alunos exemplares em matéria de democracia escolar, haviam adquirido: consciência da responsabilidade política, retorno ao direito liberal, não apenas um bom comportamento insípido, mas também vergonha advinda do conhecimento dos crimes alemães. E até quando o antigo emigrante Willy Brandt, até então caracterizado sub-repticiamente como herege, estava como vice-chanceler e ministro do Exterior ao lado do antigo nazista Kiesinger – mesmo este fato não conseguiu escamotear o compromisso podre. Sobretudo a geração do pós-guerra, cuja consciência se sensibilizara com os protestos contra a guerra do Vietnã, recusou a desacreditada “Liga da Conciliação”. Protestos de rua, porém, não abalaram o novo cartel de poder. Somente as eleições para o parlamento, marcadas para o outono de 1969, eram apropriadas para dissolver a Grande Coligação […] Nessa campanha eleitoral para o parlamento […] eu estive também envolvido de maneira decisiva, uma vez que organizara com amigos uma iniciativa socialdemocrata de eleitores no território da Alemanha Federal. Durante sete meses estive viajando. Na segunda-feira saía de meu domicílio em Berlim e voltava no fim de semana. Partindo e chegando, eu era confrontado com as perguntas dos meus filhos: O que você está fazendo lá? Para que você faz isso? Como assim, Kiesinger era nazista? Por que motivo Willy Brandt, quando moço, precisou sair da Alemanha? O que se passou exatamente com os judeus? E o que você fez na época? Pela primeira vez estive exposto à pergunta: Como explicar isso às crianças? Foi relativamente fácil esclarecer minha biografia, a de um membro da Juventude Hitlerista que no fim da guerra está com dezessete anos e numa última convocação vira soldado: eu era demasiado jovem para tornar-me culpado. Contudo, já a pergunta – Mas e se você fosse mais velho? – não permitiu uma resposta inequívoca. Eu não podia garantir por mim. (p. 132-134)

Mas o discurso de Grass, que começou assim tão bem, desvirtua-se no final, com o escritor criticando a série de TV Holocaust (Holocausto), exibida na Alemanha no final de janeiro de 1979, e que teve enorme repercussão, levando as novas gerações de alemães a um questionamento até então inédito do passado nazista de seus pais:

Quando meu livro ficou pronto [Os diários de um caracol], os meus filhos estavam todos mais velhos. Então eles poderiam ler. Mas não queriam mais velhas histórias. Só o presente contava. E um futuro revolucionário foi evocado. Os grandes saltos, que sempre terminam em retrocesso. Nesse meio tempo o passado já nos tinha (mais urna vez) alcançado. Horrorizados, sentam-se diante das telas das televisões familiares os filhos entrementes adultos, os filhos adolescentes, os pais transtornados de todas as maneiras, os avós ainda atônitos, e assistem à série Holocaust. De imediato, os pesquisadores de opinião arrolam as primeiras reações: confissões, espanto, atitudes defensivas, juramentos. Uns descobrem algum detalhe histórico falso e por isso tacham tudo de mentira, outros se mostram abalados, como se até esse momento jamais tivessem ouvido, visto ou lido nada semelhante. E então se diz: Nós não sabíamos disto! Isto nunca nos foi mostrado. Por que não nos contaram isso antes? Trinta e cinco anos depois de Auschwitz, os meios de comunicação de massa comemoram o seu triunfo. Só o resultado em larga escala é que conta, a elevada taxa de audiência. O que antes foi escrito, apresentado como documento, demonstrado em cuidadosas análises, e há trinta anos estava ao alcance de todos, não tem valor, era certamente demasiado complicado. Com a palavra de ordem “esclarecimento em massa” (o reflexo de “extermínio em massa”) toda crítica a essa série televisiva tão bem-sucedida quanto questionável é despachada. E os escritores – esses pássaros raros, efetivamente ameaçados de extinção, que (incorrigíveis em seu estilo antigo) querem exigir do indivíduo e da massa a leitura como atividade humana – esses são aconselhados com insistência a se desvencilharem de sua estética elitista, largarem mão de suas complicações e se consagrarem doravante ao esclarecimento em massa. A pergunta “Como dizer aos nossos filhos?” deve, sem limite algum, encontrar sua resposta (entre anúncios comerciais) tão-somente na televisão. É contra isso que se deve falar aqui. Em toda época, os êxitos do esclarecimento trivial sempre apresentaram resultados superficiais. Tão comprovadamente (através de pesquisas de opinião) como abalam e horrorizam a massa, provocam compaixão e vergonha – e este foi o resultado de Holocaust – tais êxitos não estão em condições de revelar a estratificação das responsabilidades, a complexa “modernidade” do genocídio. Em sua raiz, Auschwitz não é expressão da corriqueira bestialidade humana, mas sim o resultado repetível de uma responsabilidade organizada, ligada somente a imposições objetivas, que foi dividida até tomar-se irreconhecível e cristalizar-se como ausência de responsabilidade. Cada um dos que se envolveram ou não no crime atuou, com ou sem conhecimento de causa, a partir de seu estreito sentido do dever. Condenados foram apenas os executores concretos – chamem-se eles Kaduk ou Eichmann -, mas aqueles que, cônscios do dever, atenderam às suas mesas de trabalho ou todos aqueles que se fizeram de mudos, que não fizeram nada a favor e nada contra, que tinham conhecimento dos fatos e deixaram que acontecesse – estes não tiveram julgamento, não sujaram um dedo sequer. (p. 138-139).

Após o exorcismo dos meios de comunicação de massa como simplificadores, em nome da suposta complexidade das explicações do Holocausto pelos intelectuais, o discurso de Grass termina numa tentativa de encontrar novos culpados, aliviando um pouco os carrascos nazistas do peso de sua culpa, distribuindo-a mais equilibradamente por toda a sociedade e, sobretudo, descarregando boa parte de seu peso nas costas das Igrejas cristãs, omissas e colaboracionistas, embora os nazistas sempre tenham abominado conceitos cristãos como piedade e caridade. Grass culpa, assim, por Auschwitz, mais as Igrejas cristãs que os carrascos nazistas, ancorando-se na teoria da “banalidade do mal” de Hannah Arendt:

Até hoje a grave parcela de culpa das igrejas católica e protestante na Alemanha não foi avaliada. Contudo, a corresponsabilidade de ambas as igrejas por Auschwitz está comprovada pela aceitação passiva do crime. Referências atenuantes ao seu compromisso com a razão de Estado deixam ainda transparecer que a cristandade clericalmente organizada, enquanto ela própria não é atingida, refugia-se na irresponsabilidade, abstraindo da coragem de indivíduos que atuaram contrariamente às instruções de suas igrejas, e da confissão de culpa da Igreja Evangélica de Stuttgart, que permaneceu um caso isolado. Desde Auschwitz as instituições cristãs (pelo menos na Alemanha) perderam sua autoridade moral. As perseguições aos judeus na Idade Média – a descrição que Heinrich Heine faz da festa de Pessach em Bacherach – e o profundo ódio cristão aos judeus penetraram no moderno antissemitismo e se deformaram modernamente em irresponsabilidade passiva. Não foram bárbaros ou bestas em figura humana que deixaram o crime acontecer, mas sim os refinados representantes da religião do amor ao próximo: estes são mais responsáveis do que o executor junto à rampa, tenha ele se chamado Kaduk ou Eichmann. Também em Danzig os bispos de ambas as igrejas olharam impassíveis para o lado quando em novembro de 1938 as sinagogas em Langfuhr e Zoppot foram incendiadas e a mirrada comunidade sinagogal foi entregue ao terror do batalhão 96 da SA. Naquela época eu tinha onze anos e, apesar de membro da Juventude Hitlerista, era, no entanto, um fervoroso católico. Na Igreja Coração de Jesus, que ficava dez minutos a pé da sinagoga, jamais ouvi até guerra adentro qualquer oração em prol dos judeus perseguidos, mas matraqueei muitas orações que pediam pela vitória dos exércitos alemães e pelo bem-estar do Führer Adolf Hitler. Tanto quanto foi corajosa a resistência de cristãos isolados e grupos cristãos contra o nazismo, as igrejas católica e protestante converteram-se, na Alemanha, em cúmplices inativos. Isso as séries televisivas não tratam. A múltipla falência moral do Ocidente cristão também não se deixaria embrulhar numa ação eletrizante, comovente, que joga com o horror. Como dizer aos nossos filhos? Vejam os hipócritas. Desconfiem de seu sorriso brando. Temam sua bênção. Os fariseus bíblicos eram judeus, os atuais são cristãos. (p. 140-141).

Embora tudo isso pareça verdade, tudo isso também parece falso. A aparentemente lúcida e esclarecedora avaliação de Grass tornou-se obscura e perturbadora depois de sua recente confissão de que havia se alistado na SS antes do fim da guerra. Também ele havia escamoteado parte de seu passado, tendo sido, além de membro automático da Juventude Hitlerista e soldado convocado, também um jovem SS. Talvez não recebesse o Nobel se tivesse revelado antes esse grau a mais de envolvimento com o nazismo, que preferiu suprimir até então de sua biografia. Com isso cai por terra seu engajado discurso sobre os hipócritas de sorriso brando e sobre os novos fariseus da Alemanha. Ele não é menos fariseu que os alvos de sua crítica, e seu desprezo pelo seriado Holocaust e sua acusação aos cristãos em nome da modernidade podem ser agora lidos também como um eco de seu velho, renegado, mas mantido parcialmente escondido, entusiasmo pelo nazismo.

ACADEMIA DO TERROR

1

Gaza é dominada por quatro grupos terroristas: o Hamas, a Jihad Islâmica, o Comitê de Resistência Popular (CRP) e a Brigada Al-Nasser Salah Ad-Din. Esses grupos tentam ganhar apoio popular e alistar mais membros para suas unidades. Recentemente, o CRO e a Brigada Al-Nasser Salah Ad-Din uniram-se para criar a Academia Shahid Imad Hamad.

A academia leva o nome do comandante militar do CRP morto em 2011 pelo exército israelense, em Rafah, no mesmo dia em que múltiplos ataques terroristas em Eilat mataram oito israelenses. A primeira turma da Academia Shahid Imad Hamad formou-se no primeiro semestre de 2012, com especialização em combates em Corpo de Blindados.

Segundo Abu Suhaib, membro sênior do CRP, a missão da academia é a de aprimorar as habilidades de combate dos recrutas através de treinamentos intensivos com armas e mísseis, incutindo os princípios da guerra, sem esquecer os valores religiosos do Islã, “para enfrentar o inimigo sionista com fé no triunfo de Deus”.

Fonte: Rua Judaica, 31 ago. 2012.

2

No Brasil do Fuleco, onde a maioria da população só discute com paixão o futebol, quase ninguém repara nos avanços do terror mundo afora. Também a maioria dos intelectuais, em geral preocupados em justificar o injustificável, ignora os propósitos genocidas dos que apoiam o terrorismo islâmico.

Mas aos que mantêm a lucidez causa espanto a crescente pregação do fim de Israel, imaginada loucamente através de um Holocausto nuclear. Essa pregação ganha formas artísticas, com manifestações escandalosas, como a do egípcio Amr El Masry, que canta e dança o genocídio. O terror transcende a academia e conquista as almas sensíveis…

Em seu hit musical grotesco, e pretensamente irônico, Eu amo Israel, transmitido pela Melody TV em 2012, e traduzido via MEMRI no YouTube, o cantor Masry proclama seu ódio absoluto a Israel, martelado dezenas de vezes nas cabeças dos ouvintes: “Eu amo Israel… Possa ele ser riscado do mapa… possa ele desaparecer do universo”:

Pressionado pela cultura homofóbica terrorista, onde o Shahid (mártir) é cada vez mais cultuado como herói icônico da masculinidade, o artista corrupto, atraído pela popularidade dos mártires, posa de exterminador machão para encobrir sua persona de louca efeminada, adquirindo uma identidade perversa assimilável pelos poderosos do Islã.

PIONEIROS DA FOTOGRAFIA NO JAPÃO

O ítalo-inglês Felice Beato (1832-1909) e o austríaco Barão Raimund von Stillfried (1839-1911) introduziram a fotografia no Japão do século XIX e seus maravilhosos retratos de samurais foram a base técnica e estética sobre a qual o aplicado discípulo Kusakabe Kimbei (1841-1934) edificou sua arte, superando seus mestres.

Fotos de Felice Beato:

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Fotos do Barão Raimund von Stillfried:

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Fotos de Kusakabe Kimbei:

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Nas imagens de Kimbei, de uma beleza estonteante, o instantâneo é fabricado com arte, a chuva é feita de fios, a paisagem pintada em cartão, cenas cotidianas são recriadas numa  delicada estilização da vida real.

As cores esmaltadas acrescentam um efeito de estranhamento ainda maior ao exotismo das vestimentas e dos corpos, que parecem menores que os nossos – as pessoas eram mesmo menores antes da massificação dos esportes -, de modo que as figuras que temos diante de nós mais parecem de brinquedo.

Esses seres de fantasia só ganharão alguma realidade nos filmes de samurai de um Akira Kurosawa, que são na verdade as fantasias da realidade plasmada nos tableaux-vivants oníricos desse Japão imperial que Kimbei sintetizou em suas “fotopinturas”.

MONSTROS

ACESSE O VÍDEO AQUI

O relatório MEMRI n° 350 trouxe-nos esse clipe extraordinário que nos dá um profundo insight na mente terrorista, onde a crueldade e a insensibilidade em relação ao Outro mesclam-se à infantilidade e ao sentimento telúrico da felicidade coletiva entre os Iguais.

Ahlam Tamimi, do Hamas, imediatamente convertida em heroína e celebridade nos Territórios palestinos ao explodir dezesseis civis israelenses num atentado a bomba na pizzaria Sbarro, em Jerusalém, recorda num programa da TV Al-Aqsa, do Hamas, em Gaza, a 12 de julho de 2012, a sua reação e a dos palestinos ao massacre.

Tamimi começa elogiando a perfeição do trabalho do moudjahid Abdallah Barghouti, que fabricou o violão que continha a bomba e passa a descrever os instantes seguintes ao atentado, quando tomou, na Porta de Damasco, em Jérusalem, o ônibus para Ramallah.

Nenhum dos passageiros do ônibus, todos palestinos, sabia que fora ela quem havia conduzido a bomba humana Izz l’Al-Din até o local do massacre. Como co-autora do atentado, Tamimi sentia-se um pouco bizarra fingindo ser uma passageira comum.

Logo ela ouviu pelo rádio do ônibus as notícias do atentado, transmitidas em hebraico e traduzidas aos passageiros pelo motorista. Sentiu-se um pouco decepcionada com a primeira notícia de três mortos, pois esperava um total mais importante. Mesmo assim, louvou Allah pela mortandade.

Dois minutos mais tarde, uma atualização da notícia notificou o aumento do número de mortos para cinco e ela não conseguiu esconder seu sorriso. Louvou novamente Allah – ah, isso era maravilhoso…

A cada nova atualização da notícia, o número de mortos aumentava e, à medida que o número de mortos aumentava, os passageiros aplaudiam. A crescente mortandade das vítimas judias produzia nos passageiros palestinos uma também crescente alegria.

Ao chegar à fronteira de Ramallah, diante de uma barreira de policiais palestinos, Tamimi constatou que todos eles estavam a rir. Um deles esticou o pescoço para dar suas felicitações aos passageiros. Todo mundo ali estava feliz, ela conclui em seu relato.

Com a mente deformada por uma hedionda visão de mundo, a terrorista do Hamas não percebe o horror de suas ações. E o próprio povo palestino, enquanto coletividade engajada na mesma visão distorcida da realidade, reage de modo sinistro. Desconectados da humanidade, esse povo e seus heróis comportam-se como monstros.

ANTISSEMITAS DE PLANTÃO

O Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, abre o seminário 'The World Without Zionism' (O mundo sem sionismo, 2006).

O Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, abre o seminário 'The World Without Zionism' (O mundo sem sionismo, 2006).

Nos dias que correm, os antissemitas fazem plantão nas redações dos pequenos e grandes jornais, nas agências de notícias, blogs, sites e redes sociais. Nenhuma notícia sobre Israel deve ser publicada sem que sejam utilizados os termos aprovados pelo código de ética desses zelosos antissemitas. Tão seguros eles se encontram hoje no controle das mídias que nem percebem os deslizes que cometem no afã de destruir os judeus através da diabolização de Israel.

Não me dou mais ao trabalho de coletar essas matérias, tão abundantes, variadas e multifacetadas, para um dossiê do futuro, que poderia explicar de modo bastante didático, às gerações vindouras, como foi possível, em pleno século XXI, num mundo tão bem informado, um segundo Holocausto dos judeus.

Seguindo o código de ética dos antissemitas de plantão, as notícias devem fazer os leitores acreditarem que Israel ataca Gaza gratuitamente, numa rotina de ofensivas sem motivação, por pura crueldade. Todo ciclo de ataques e retaliações deve, segundo o código de ética antissemita, ser sempre iniciado pelos israelenses, jamais pelos palestinos. Sempre em resposta, os palestinos revidam, mas só para marcar sua posição de heróica resistência contra os agressores sionistas, em legítima defesa.

Tamanha distorção indica que os antissemitas de plantão se sentem bastante confiantes em suas manipulações dos fatos. Sem se dar mais ao trabalho de tomar cuidado com as palavras na preservação de um mínimo de pensamento lógico, um grande jornal já pode apresentar aos seus leitores, em boa parte doutrinados pelo código de ética antissemita, o revide israelense como um ataque e o ataque palestino como um revide, somando mais um grão de areia na ampulheta antissemita que marca o tempo que resta aos judeus antes da execução do Holocausto II.