LO SGUARDO DI MICHELANGELO

lo sguardo di michelangelo

Durante algumas semanas de 2004, a Basílica de San Pietro in Vincoli só abriu de manhã para visitação. As tardes foram reservadas para o nonagenário cineasta Michelangelo Antonioni rodar um documentário sobre o Moisés de Michelangelo. No filme de curta-metragem Lo sguardo di Michelangelo (O olhar de Michelangelo, 2004) o velho cineasta, três anos antes de morrer, “devora” sensualmente, com seus olhos e suas mãos, o grupo de estátuas criado por Michelangelo para o túmulo do Papa Júlio II.

É o autorretrato de um cineasta que não hesita em acariciar as formas perfeitas esculpidas no mármore pelo maior artista do Renascimento, como se assim exprimisse seu desejo quase sexual pela obra de arte, após o derrame que o deixou sem voz e parcialmente paralisado. Antonioni emerge das sombras e caminha com passos hesitantes em direção ao túmulo do Papa Júlio II, fixando seu olhar nos olhos mortos, cerrados, dessa figura triste, que o artista retratou amarfanhado no alto de sua própria tumba.

O velho Antonioni se emociona, impressionado com o olhar vivo do glorioso Moisés, igualmente idoso, mas pleno de força e beleza. É como se ele visse o Moisés de Michelangelo pela primeira vez, a partir da nova condição de velho cineasta, desprovido da agilidade e da energia de outrora: a partir de uma identidade de nomes artísticos e olhares vivos e mortos, Antonioni expõe, diante da obra-prima que só falta falar, sua própria dolorosa senilidade, como a esperar, um tanto ingenuamente talvez, uma última redenção através do Belo:

KLAUS MANN: CULTURA E “BOLCHEVISMO CULTURAL”

Nazistas se divertem queimando materiais de esquerda.
Bücherverbrennung (Queima de livros) na Opernplatz, em maio de 1933, em Berlim.

Traduzo aqui o ensaio de Klaus Mann, “Culture e bolchevisme cultural” (1933), publicado na França na coletânea Contre la barbarie (1925-1948). [Contra a barbárie (1925-1948)] (Paris: Phébus, 2009, pp. 34-40), inédito no Brasil. O ensaio foi retomado na coletânea Mise en garde [Alerta] (Paris: Phébus, 2016, pp. 13-20), na verdade uma seleta da publicação anterior da mesma editora. As notas, com exceção da nota 5, deste tradutor, integram a edição. O livro de Klaus Mann também foi publicado em 2017 em Portugal pela Editora Gradiva, sob o titulo Contra a barbárie: um alerta para os nossos dias, que enfatiza sua perturbadora atualidade. Exilado em Paris, Klaus Mann escreveu “Cultura e bolchevismo cultural” apenas um mês antes das Bücherverbrennungen (Queimas de livros) na Alemanha. Escrito no calor da hora, seu breve relato sobre a perseguição nazista da cultura alemã destaca o conceito-espantalho de “bolchevismo cultural” e representa “um alerta para nossos dias” na medida em que o revisionismo histórico contemporâneo recicla aquele conceito-espantalho do arsenal ideológico do nazismo no “novo” conceito-espantalho de “marxismo cultural”, no bojo de um movimento político que se apresenta ora como “nova direita”, ora como “conservador”, ora como “neoliberal”, ora como “liberal na economia e conservador nos costumes”, ora ainda como “libertário” – diferentes nomes para uma mesma prática fascista.

Luiz Nazario

Bücherverbrennung (Queima de livros) na Opernplatz, em maio de 1933, em Berlim. Bundesarchiv, Bild_102-14597.

Segundo um manuscrito datilografado portando a menção: “Paris, abril de 1933”, conservado no Fundo Klaus Mann.

A expressão “bolchevismo cultural” é a arma da qual se servem as potências hoje reinantes na Alemanha para sufocar toda produção intelectual que não se coloca ao serviço de suas tendências políticas. Seria desconfortável dar uma definição precisa do “bolchevismo cultural”. Passa-se com esse conceito o mesmo que com todo o pathos da “nova Alemanha”: é mais cômodo explicitá-lo pela negativa. (O novo pathos alemão mostra-se muito mais facilmente contra que a favor de alguma coisa: contra o marxismo, contra o Tratado de Versalhes, contra os judeus.) Para começar, pois, o espírito do “bolchevismo cultural” não é nacionalista, o que já basta para condená-lo. De reste, o bolchevique cultural não tem a menor necessidade de ter o menor laço com o bolchevismo, geralmente ele não tem nenhum. Basta apenas que ele tenha laços com a cultura, os quais são em si mesmos motivos de suspeita. De qualquer forma, ele merece morrer porque ele é “anti-alemão”, “refratário”, “judeu-analítico”, desprovido de respeito diante das boas velhas tradições (a saber, as corporações estudantis e os desfiles militares), não o bastante “ligado à terra”, não o bastante “dinâmico” e, por isso,  de todas as reprimendas, a mais terrível – “pacifista”! O bolchevique cultural está ligado à França, aos judeus e à União soviética. Ele é simultaneamente marxista e anarquista (coloca-se tudo no mesmo saco). Ele recebe todos os dias dinheiro dos francos-maçons, dos sionistas e de Stalin. É preciso exterminá-lo.

Antes que tentar compreender o conceito de “bolchevismo cultural”, grotesco por sua total imprecisão, seria melhor determinar tudo o que ele já destruiu na Alemanha em termos de valores culturais. Entretanto, não falaremos das organizações que, por natureza, se situam entre o intelectual e o político, e cuja ambição sofre talvez dessa posição intermediária entre dois elementos separados na Alemanha – penso na Liga dos Direitos do Homem, na Cruz Vermelha, nas diversas associações pacifistas. No caso delas, a repressão poderia ainda ser interpretada como uma operação necessária no interesse dos dirigentes e onde a dimensão intelectual não saberia ser tomada em consideração. Nós nos limitaremos, pois, ao domínio puramente cultural. Na matéria, os novos mestres parecem acreditar serem muito ricos, ou será então a consciência deles sobre esse ponto ainda mais insensível do que o pensamos.

Um dos domínios onde se “intervém” (para retomar uma expressão muito linda do novo jargão) com uma brutalidade particular é evidentemente aquele da educação da juventude. É capital não transmitir aos cérebros e aos corações infantis senão o conhecimento desses ideais que chamam hoje de “novos” – de maneira um pouco paradoxal já que são na realidade os mais antigos. Somente alguns dias após a “tomada do poder nacional-socialista”, a Escola Karl Marx (que gozava de um nível pedagógico notável) e a Escola Heinrich Zille foram interditadas em Berlim.

Todos os outros estabelecimentos liberais de Berlim ou do Reich encontram-se ameaçados ou já foram fechados. Os nazistas mostram-se particularmente suspeitosos em relação às comunidades escolares livres, que perpetuam o espírito inicial do Movimento da juventude: por exemplo, a Escola Wickersdorf ou a Escola de Odenwald[1], onde reinam a tolerância e o amor à paz. Essas instituições passam por antros de bolchevismo cultural, de antigermanismo repugnante – enquanto, justamente, são elas que são tipicamente alemãs ou pelo menos são assim percebidas no estrangeiro, como o esperamos. Mesmo o bastante conservador diretor Kurt Hahn, que dirige, segundo o modelo inglês, a Escola de Salem, à beira do lago de Constança, e que não merecia absolutamente ser suspeitado de simpatias revolucionárias, teve que passar por uma estadia na prisão.

Quanto à ciência, e notadamente às universidades, seu nível já está ameaçado pelo antissemitismo, que se mostra aí particularmente virulento. As universidades alemãs são há anos um bastião reacionário. Eminentes sábios judeus foram impedidos de exercer livremente suas funções, e isso por tipos que, sobre esta Terra, não tinham outro mérito que o de pertencer à raça ariana, e ainda isso é preciso provar. O escândalo de Breslau a propósito do Professor Cohn produziu-se antes da chegada ao poder oficial de Adolf Hitler, assim como outros escândalos similares em Heidelberg, Munique, Hamburgo, etc. Nesses círculos, estavam preparados para o novo tom. Quando Albert Einstein teve seus bens confiscados, renunciou à nacionalidade alemã, apresentou sua demissão à Academia, essa respondeu ao sábio mais célebre da Alemanha que ela não tinha nenhuma razão de deplorar sua partida. Quanto a nós, não temos nenhuma razão para deplorar que a vida científica alemã se encontre logo ao abrigo no plano internacional.

A sorte dos grandes editores liberais ou de esquerda não parece ainda completamente comprometida. Mas seria demasiado otimismo esperar que possam continuar a existir. Se eles não foram objeto de uma proibição pura e simples serão asfixiados lentamente, o que não será melhor: as livrarias boicotarão sua produção, se é que já não é o caso. Se não houve ainda proibições de livros foi porque essa matéria está afastada demais dos novos dirigentes. Mas os editores já evitam publicar obras que poderiam chocar. As obras de Lion Feuchtwanger, Sucesso e A guerra dos judeus, estão praticamente proibidas. Os livros do poeta satírico Kästner foram queimadas na praça do mercado de uma pequena cidade. Quase todos os escritores alemães conhecidos no estrangeiro são mal vistos na nova Alemanha e figuram em listas negras: de Wassermann, Thomas e Heinrich Mann [2] a Bruckner e Hasenclever, passando por Emil Ludwig, Stefan Zweig, Arnold Zweig, Alfred Kerr, Georg Kaiser, Bert Brecht. Poder-se-ia alongar a lista à vontade. Bolcheviques culturais, “novembristas” [3], “literatos do betume”, eis o que são os escritores que não cessaram de desonrar o povo alemão (por exemplo conquistando para ele o Prêmio Nobel e a atenção do mundo inteiro). Thomas Mann, que a imprensa de Praga fez recentemente o mensageiro único e insubstituível do espírito alemão, se vê qualificado com predileção como “escrevinhador” no Der Angriff. No lugar desses ditos escrevinhadores, o fascismo germânico propões à nação e ao mundo tipos como come Hanns Heinz Ewers (o célebre e demoníaco pornógrafo de luxo, o lamentável autor de Mandrágora) e Hanns Johst [4], cujos títulos de peças traem o espírito que ele encarna: sua última comédia se intitulava muito lindamente Der Herr Monsieur[5] e gozava da “clique dos expatriados alemães”- em quais termos eu não quero saber.

A imprensa alemã não existe mais, toda liberdade de expressão, mesmo a mais modesta, é reprimida com um radicalismo notável (que ultrapassa mesmo, se isso é possível, a dos italianos). Como é sabido, todos os jornais dos partidos de esquerda estão proibidos. A “grande imprensa liberal” se vendeu ou, se esse ainda não é o caso, está constrangida a fazer soar a trombeta fascista (mesmo o boicote antissemita não suscitou uma palavra de crítica). De qualquer modo ela sucumbiu sem a menor resistência a uma morte pouco gloriosa e bem merecida. Os jornais do governo mentem já por princípio. Não há meio nenhum de se informar. Estão evidentemente proibidas as revistas que conservaram até o fim uma atitude corajosa e um nível elevado: Tagebuch e Weltbühne. Seus editores estão em fuga ou na prisão. Os jornais católicos tampouco estão em melhor situação. Quanto às revistas que foram forçadas a mudar de redatores, a escolha dos sucessores que lhes foi imposta é reveladora. Um exemplo entre muitos outros: para substituir o diretor da Literarische Welt, Willy Haas, escritor de grandes méritos e vasta experiência, designaram certo Eberhart Meckel, um jovem na faixa dos vinte anos, que publicou apenas alguns poemas e que tem a seu favor apenas uma irrepreensível “loirice.

Os teatros são submetidos a terem o essencial de seus repertórios escolhido por uma “liga de combate pela cultura alemã”; de resto, mesmo sem isso eles não ousariam apresentar outra coisa que peças nacionalistas. Os diretores judeus ou aqueles que não são irrepreensíveis politicamente são constrangidos a partir – entre eles os melhores e os mais meritórios, como Gustav Hartung em Darmstadt, que montou Édipo de André Gide –, quando eles não são espancados, como aconteceu ao diretor Barnay em Breslau. Nem a maior notoriedade é uma garantia, como o demonstra o caso de Max Reinhardt [6], a quem proibiram de trabalhar no Teatro Alemão, o qual ele havia fundado. O talento tampouco ajuda os atores judeus alemães a retornar aos palcos da Alemanha: Elisabeth Bergner, Pallenberg, Kortner, a Massary (para citar apenas os grandes nomes) seriam vaiados – supondo que se lhes permitissem se apresentarem. E já faz algum tempo que homens como Piscator não podem mais trabalhar na Alemanha.

A rádio, que já não brilhava por seu progressismo, tornou-se um instrumento de propaganda do regime. Os locutores ou autores judeus forma excluídos. Quando Hitler ou Göring não estão fazendo um discurso, transmitem a peça Schlageter[7] de Hanns Johst. Os diretores que tinham ambição intelectual, como Flesch, da rádio de Berlim, não conseguiam se manter nem antes da “tomada do poder”. Outro instrumento de propaganda muito importante, o filme. Arruínam as companhas de produção judias para assegurar o monopólio da UFA. Foi assim que proibiram sem razão plausível o principal filme da firma Nero, O testamento do doutor Mabuse. Foram igualmente proibidos todos os filmes russos, todos os filmes suspeitos de opiniões pacifistas (a começar por Nada de novo no front), assim como quase todos os que se passavam no meio operário (como o filme de Bert Brecht, Ventres gelados). Parece que querem limitar a produção às operetas e aos panfletos nacionalistas. Um incidente típico: quando o senhor Goebbels – provavelmente por inadvertência – citou recentemente o Potemkin entre os filmes podendo servir de modelo, essa observação escandalosa foi suprimida na notícia do discurso que o Angriff publicou.

Não recuam sequer diante da profanação da música, a arte com a qual os alemães mantêm a relação mais sentimental e respeitosa. Alguns dos maiores chefes de orquestra alemães são judeus. Esses deverão agora trabalhar no estrangeiro. O caso Bruno Walter [8] é o que fez mais barulho. Os casos de Klemperer, Kleiber, Blech não ficam  atrás na matéria [9]. Não somente Berlim teve que deixar de ser um centro intelectual, foi preciso também que ela perdesse seu status de cidade da música. Nem é preciso que o maestro boicotado seja judeu, basta que alguma coisa nele desagrade aos homens da S.A.: é o caso de Fritz Busch, que impediram de exercer suas funções de diretor musical da Ópera de Dresden. Mesmo Toscanini foi boicotado por ter ousado protestar contra o tratamento infligido a Bruno Walter. Ninguém duvida que será uma bagatela para o Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães apresentar aos melômanos alemães um maestro do nível de Toscanini. Assim como os maestros, o repertório musical muda. Os bolcheviques culturais como Hindemith (particularmente execrado) não são mais executados. Além de Richard Wagner, será cultuado de preferência seu filho Siegfried, que goza no Partido de uma grande consideração.

Com toda evidência, não é diferente para a pintura e para todos os outros campos culturais. Também ali a palavra de ordem é: fim das experimentações, retorno aos bons velhos tempos, a Alameda da Vitória retornou à moda! A Alemanha que desperta tem uma forte tendência para o Kitsch. Quando prendem um homem de letras, julgam particularmente comprometedor descobrir em suas paredes desenhos de George Grosz – de resto, mais que as opiniões políticas do pintor chocava sua técnica “revolucionária”. Paul Klee, Kokoschka, Beckmann devem desaparecer das paredes alemãs. Quem sabe se Cézanne e Van Gogh serão ainda tolerados. A Secessão de Hamburgo foi proibida antes mesmo de abrir suas portas: ela foi suspeita de bolchevismo cultural. A Galeria Flechtheim em Berlim foi fechada. Em Dessau, os Nolde, os Kokoschka e outros foram arrancados do museu e manchados pelos valentes S.A. A palavra “expressionismo” – que esses bravos nazistas sabem tão pouco o que ela significa quanto a palavra “marxismo” – é empregada como sinônimo de “bolchevismo”). São ainda mais desconfiados em relação às tendências modernas em arquitetura. O teto liso, por exemplo, é considerado de imediato como uma espécie de traição – sabe Deus por que. Arquitetos como Poelzig ou Gropius nada mais têm a fazer na nova Alemanha, que tem necessidade de forças “estruturantes”. O fechamento da Bauhaus de Dessau apenas marcou o início da destruição das novas tendências arquitetônicas.

Vê-se que nada é esquecido, podemos prosseguir essa lista triste, da dança e da fotografia até as artes decorativas e a cultura física. Cultura e política devem ser “coordenadas” – para retomar outra expressão favorita da nova Alemanha. Esta tem incontestavelmente os meios para tal. Resta saber quem sofrerá no fim das contas. Salvo erro da nossa parte, será a Alemanha. Porque sabemos bem que é mais fácil destruir que construir. Ora, que valores culturais a nova Alemanha produz e coloca no lugar daqueles que ela destrói? Somos extremamente céticos em relação aos novos valores. Porque aqui não é “um” espírito em luta contra outro espírito, é o anti-espírito em luta contra o espírito e, a menos que ocorra um milagre, ele vencerá.


[1] As escolas de Wickersdorf e de Odenwald haviam sido criadas respectivamente em 1906 e 1910. Elas dispensavam uma educação humanista bastante livre e voltada para a modernidade, fundada sobre os valores da fraternidade e da democracia. Nos anos de 1922 e 1923, Klaus Mann frequentou a Escola de Odenwald, dirigida por seu fundador, Paul Geheeb.

[2] Thomas Mann (1875-1955): prêmio Nobel da Literatura em 1929. Autor de Considerações de um apolítico (1918), ele se opôs violentamente a seu irmão Heinrich, também escritor, que criticava a burguesia nacionalista e conservadora e defendia um engajamento social e humanista. Thomas Mann, no entanto, rapidamente se uniu à República de Weimar. Em 1933, ele deixou a Alemanha pela França, assim como seu irmão, depois emigrou para os EUA. Ele recusou retornar à Alemanha depois de 1945. Bibliografia sucinta: Os Buddenbrook (1901), Tonio Krüger (1903), Morte em Veneza (1912), A montanha mágica (1924), José e seus irmãos (1933-1943), Doutor Fausto (1947), As confissões de Félix Krull, cavalheiro de indústria (1954).

[3] Esse termo injurioso é utilizado como um sinônimo, abusivo no plano histórico, de “bolchevique”. Ele faz referência à revolução de novembro de 1918 que seguiu a queda do império e precedeu o estabelecimento da República de Weimar. Mais que a extrema-esquerda, foi o SPD, partido então no poder, que jogou um papel essencial nesses acontecimentos.

[4] Hanns Johst (1890-1978): dramaturgo conhecido por sua peça Schlageter onde se encontra a famosa réplica “Quando ouço a palavra cultura, saco meu revólver”. Ele presidiu a Câmara dos Escritores do Reich e a Academia dos Poetas. Julgado em 1949, foi condenado a três anos e meio de prisão.

[5] O senhor (em alemão) Monsieur (“senhor” em francês).

[6] Max Reinhardt (1873-1943): encenador austríaco que se voltou rapidamente para o teatro de vanguarda. Em 1905, ele assume a direção do Deutsches Theater de Berlim. Ele será, entre outros, o artífice do sucesso do ator Gustaf Gründgens. Depois de ter dirigido numerosos teatros na Áustria e na Alemanha, ele emigra para os Estados Unidos em 1933.

[7] Albert Leo Schlageter: soldado franco condenado à morte por um tribunal militar francês durante a ocupação do Ruhr em 1923. Johst via nele “o primeiro soldado do Terceiro Reich”.

[8] Bruno Walter (1876-1962): chefe de orquestra, marcado por seu encontro com Gustav Mahler na Ópera de Hamburgo (1894), grande intérprete dos reportórios austríaco e alemão. Diretor Geral da Música em  Munque (1913-1922), ele se manteve amizade com Thomas Mann e sua esposa Katia e contribuiu grandemente à educação musical de Klaus e Erika Mann. Obrigado a deixar a Alemanha em 1933 por suas origens judaicas, ele se refugiou na Áustria, depois, após a Anschluss, nos EUA, onde ele terminou sua carreira como regente da Metropolitan Opera de Nova York.

[9] Os maestros Bruno Walter, Otto Klemperer, Erich Kleiber e Leo Blech foram boicotados pelo regime nazista devido às suas origens judaicas.


O OURO DOS TOLOS

Não é por acaso que a reedição do livro O imbecil coletivo (1996) de  Olavo de Carvalho se encontra na lista dos best-sellers do Brasil de Bolsonaro. Trata-se de uma coletânea de artigos jornalísticos do dito “filósofo” que ganhou fama nas redes sociais por seu anticomunismo delirante (sua teoria da conspiração “Foro de São Paulo” arrebatou os internautas brasileiros) e sua boca imunda (os mais sujos palavrões jorram com facilidade de sua mente obcecada por imagens grotescas de uma sexualidade repulsiva).

Olavo de Carvalho começou sua carreira de jornalista na imprensa marrom (no tabloide “Notícias Populares”) e foi militante no grupo Ação Libertadora Nacional, uma dissidência armada do Partido Comunista Brasileiro. Durante a ditadura militar, essa “ala marighelista do PCB” (1) assim se definia nas palavras de seu líder Carlos Marighela: “Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução. O centralismo democrático não se aplica a Organizações revolucionárias como a nossa.” (2)

Durante a ditadura, o hoje fanático anticomunista Olavo participou como voluntário, com outros dois fanáticos militantes comunistas, de uma ação “revolucionária”, sequestrando, para o “interrogatório” de seus chefes, um jornalista que o grupo armado suspeitava de ter uma nova amante que seria agente do DOPS – suspeita que jamais teria sido comprovada, mas que selou a carreira do jornalista caído em desgraça nas redações “dominadas pela esquerda”. Mais tarde, Olavo viu sua vítima mendigando esfarrapado, e dele se afastou repugnado. Refletindo sobre seus atos infames, com a consciência pesada por seu crime, Olavo deixou seu grupo armado.

Logo Olavo adaptou suas convicções marxistas ao seu misticismo visceral, tornando-se astrólogo profissional e professor de astrologia de uma anunciada (em 1989) Escola Superior de Astrologia.  Converteu-se também ao Islamismo e teve uma monografia sobre Maomé premiada na Arábia Saudita. Posteriormente, abraçou um fundamentalismo cristão paradoxal, capaz de acolher o ódio, a inveja, a difamação e todos os vícios em nome de Jesus. Sempre revolucionário Olavo continuou atacando o sistema capitalista (renomeado de globalista) e considerando Stalin “um gênio”, “o maior estrategista da História humana”, o “criador do Nazismo”, segundo a teoria revisionista do historiador austríaco Ernst Topitsch (3), que ele encampa, deslocando Hitler para o segundo plano.

Embebido na leitura de Marx, à qual dedicou os oito primeiros anos de sua vida intelectual; e de toda a literatura marxista, leninista e stalinista, que devorou nos cinquenta anos seguintes, Olavo aprendeu as técnicas mais eficazes da propaganda comunista: a distorção dos fatos, as falácias argumentativas, os reducionismos radicais, os silogismos sofísticos, as generalizações absurdas (“Eles…”, “Vocês…”), o uso de meias-verdades, o assassinato de reputações.

Olavo aprecia especialmente o stalinista húngaro György Lukács, considerando sua obra História e consciência de classe (1923) a base da estratégia de Antonio Gramsci e da Escola de Frankfurt e, portanto, do novo “marxismo cultural”, que atacaria os fundamentos cristãos da sociedade. Os ataques comunistas seriam desferidos pelos métodos mais diversos e surpreendentes: psicopatia social, estímulo à criminalidade, decadência moral, degenerescência estética, difusão da homossexualidade, casamento gay, legalização da pedofilia, adoção da zoofilia, defesa do incesto, analfabetismo funcional, tráfico de drogas, etc.

Substituindo a luta de classes do proletariado contra a burguesia pela luta cultural das minorias contra as maiorias, a nova revolução comunista seria ainda sustentada por “metacapitalistas”, geralmente de ascendência judaica, como os “megabilionários” mais citados pela teoria da conspiração “Grupo Bilderberg”: os Rothschild, George Soros, Mark Zuckerberg… É notável a semelhança (ainda que devidamente adaptada ao mundo pós-Auschwitz) entre a teoria do “marxismo cultural” e as teses defendidas nos mais famosos panfletos antissemitas anteriores ao nazismo, como os anônimos Protocolos dos sábios de Sião, forjados pela Polícia Czarista, e O judeu internacional, de Henry Ford, livros de cabeceira de Hitler, que neles se inspirou para criar sua teoria do “bolchevismo cultural”.

Na aurora do nazismo, Klaus Mann descreveu no ensaio Cultura e
bolchevismo cultural” como esta grotesca expressão tornou-se “a arma da qual se servem as potências hoje reinantes na Alemanha para sufocar toda produção intelectual que não se coloca ao serviço de suas tendências políticas.” (4) Através do combate ao “bolchevismo cultural”, esse conceito-espantalho deliberadamente impreciso para abarcar tudo o que os nazistas não podiam entender e não suportavam, a rica cultura de Weimar foi perseguida, censurada e destruída.

O combate ao “bolchevismo cultural” começou com a repressão às organizações humanitárias (Liga dos Direitos do Homem, Cruz Vermelha, associações pacifistas), prosseguiu com o fechamento das escolas livres (a Escola Karl Marx, de alto nível pedagógico; a Escola Heinrich Zille,  a Escola Wickersdorf e a Escola de Odenwald, baseadas na tolerância e no pacifismo; e mesmo a mais conservadora Escola de Salem) e chegou à perseguição dos maiores cientistas, artistas e escritores alemães – uma lista enorme encabeçada por Albert Einstein, Thomas Mann, Bertolt Brecht, Fritz Lang.

Klaus Mann escreveu seu lúcido ensaio em abril de 1933, ou seja, pouco antes da Bücherverbrennung (Queima de Livros), em manifestações organizadas pelo Partido Nazista nas principais cidades alemãs, entre 10 de maio e 21 de junho de 1933, e nas quais as obras dos mais ilustres autores judeus, marxistas e pacifistas foram lançadas às fogueiras armadas por estudantes entusiasmados e jovens hitleristas. Foi o triunfo do combate ao “bolchevismo cultural”, que prosseguiria, contudo, até o fim do regime.

Como se vê, o novo conceito-espantalho de “marxismo cultural” nada tem de novo: é uma reciclagem pura e simples do velho conceito-espantalho nazista do “bolchevismo cultural”, perseguindo inclusive os mesmos autores judeus, marxistas e pacifistas da Escola de Frankfurt (agora mortos), que tiveram que fugir da Alemanha em 1933 para não serem enviados a campos de concentração e de extermínio. O combate contra o “marxismo cultural” na atualidade promete consequências equiparáveis, ainda que devidamente adaptadas à nova era digital.

Leitor voraz, mas incapaz de submeter-se a exames e concursos, tendo abandonado a escola com seu curso primário incompleto, o autodidata Olavo de Carvalho usou e abusou da desinformação para tentar demolir, junto ao seu público cativo, o sistema educacional, cultural e político (a superestrutura no sentido marxista) do país que despreza profundamente pelo ressentimento de jamais ter tido aí o seu alegado altíssimo QI reconhecido por seus pares. Quase não há vídeo de Olavo no YouTube em que ele não descarregue seu ódio virulento ao Brasil e aos brasileiros.

Olavo desenvolveu uma complexa teoria da conspiração na qual todo aquele que se desviar do que ele estabelece como verdade é um esquerdista perigoso, psicopata, canalha e genocida (ele associa todo e qualquer “esquerdista” aos 100 milhões de mortos do comunismo, segundo o Livro Negro do Comunismo) e defende que sejam varridos do mapa e substituídos pelos seus alunos, alguns dos quais ele considera verdadeiros gênios.

Sem público algum nos EUA, onde mora há anos, Olavo aliciou na Internet os brasileiros mais recalcados e incultos para seus cursos de “filosofia”, criando um exército de seguidores fanáticos apavorados pela modernidade, percebida por eles como um “avanço irrefreável do comunismo”. No caos lamentável do mundo dominado pelos vermelhos, eles se sentem guiados com mão de ferro e língua de fogo pelo “querido professor”, “o maior intelectual do Brasil”, “aquele que eu queria ter como avô”, “a pessoa que mais amo depois do meu pai”, etc.

Com seus artigos de jornal, seu site Mídia sem Máscara, seus programas radiofônicos “True Outspeak” (2006-2010), seus blogs e seus cursos de filosofia no YouTube, Olavo conquistou uma massa de incultos, recalcados, sociopatas, frustrados, reprimidos, irracionalistas, perturbados mentais e revoltados on line. Eficaz na empreitada foi o uso dos palavrões como alegada estratégia política para conquistar a turba inculta para sua revolução cultural, jargões que ele afirmava não serem sua língua pessoal, mas que suas imundas postagens pessoais no Facebook desmentem largamente. Azeitada pelos palavrões e pelas injúrias, Olavo inoculava nessa massa perturbada sua doutrina iniciática, onde a verdade é estabelecida única e exclusivamente pelo Mestre iniciador.

Ao longo dos anos, o autor conseguiu distorcer a realidade na mente de milhares de leitores e internautas, assassinando centenas de reputações e formando replicantes fanatizados em seu “conservadorismo”, que se acreditam “iluminados” pelos seus ensinamentos dogmáticos. Sua filosofia fraudulenta, que ele próprio resumiu com precisão na frase “Eu vim para foder com tudo”, gerou o mantra neofascista “Olavo tem razão”, uma patologia social que ganhou a juventude inculta e uma parcela da sociedade brasileira, caracteristicamente elitista e socialmente apática.

Foi esse “olavismo cultural” que levou ao poder o diminuído mental Jair Bolsonaro, que tem Olavo de Carvalho por seu mentor intelectual: durante a campanha presidencial, o então candidato da extrema-direita ostentava a lombada “IDIOTA” de outra coletânea jornalística de Olavo na mesa de seu Bunker, ao lado da Bíblia e das memórias de Winston Churchill…

Ao eleger-se Presidente da República, Bolsonaro teria assediado Olavo para ser o Ministro da Educação ou da Cultura de seu governo. Olavo teria recusado por não suportar a burocracia e não querer voltar ao Brasil. Mas indicou dois de seus discípulos mais assustadores (que aceitaram a indicação) para os cargos de Ministro da Educação e de Ministro das Relações Exteriores, e pleiteou para si próprio o cômodo posto de embaixador brasileiro nos EUA, alegando que poderia ali “conseguir dinheiro para o Brasil”, país cuja imagem ele não cessa de arrastar na lama.

Apenas um exemplo: num seminário organizado por estudantes da Universidade Harvard, Olavo afirmou que “80% dos formandos das universidades brasileiras são analfabetos funcionais”. Confrontado por uma estudante da platéia, que acompanhava essas pesquisas e jamais vira tal número, querendo saber a fonte, Olavo respondeu que a mostraria assim que a achasse. Nunca a achou. Mais tarde, confrontado pelo blogueiro Clayson, que detalhou a real estatística de 4% de universitários analfabetos funcionais, Olavo não reconheceu seu erro absurdo de leitura (digno de um analfabeto funcional). Em recente entrevista a Leda Nagle, refez sua fantasia afirmando que “as escolas brasileiras produzem 50% de analfabetos funcionais por ano”. Para Olavo, toda mentira é válida para denegrir a imagem do Brasil.

O imbecil coletivo (1996) é uma salada tóxica de raciocínios turvos e dogmáticos sobre política, cultura, psicologia, religião, comportamento e, segundo seu autor, integra, com A nova era e a revolução cultural (1994) e O jardim das aflições (1995), uma trilogia filosófica que situaria a cultura brasileira contemporânea no quadro maior da história das ideias no Ocidente desde Epicuro até Chaim Perelman e, “que eu saiba”, afirma com a modéstia de um Lula, “ninguém fez antes um esforço de pensar o Brasil nessa escala. Meus únicos antecessores parecem ter sido Darcy Ribeiro, Mário Vieira de Mello e Gilberto Freyre.” (5)

Separando-se desses autores pelo alcance maior de sua empreitada, Olavo se gaba ainda mais: “Estou, portanto, sozinho na jogada, e posso alegar em meu favor o temível mérito da originalidade.” (6) Ao ler essa avaliação da obra pelo seu autor, um leitor não imbecilizado já se sente bastante enojado. Mas é só o começo. Ainda restam 400 páginas de argumentações doentias para revirar o estômago de qualquer pessoa culta.

NOTAS

(1) CARVALHO, Olavo de. O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras. Rio de Janeiro: Editora Record, 2018, p. 291.

(2) MARIGHELLA, Carlos. “Sobre a organização dos revolucionários, agosto de 1969”, in O homem por trás do mito. São Paulo: Editora UNESP, 1999, pp. 551-553. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/08/sobre.htm.
Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

(3) TOPISCH, Ernst. Stalin’s War: a radical new theory of the origins of the second war. London: Fourth Estate, 1987. Versão inglesa de Arthur Taylor da primeira edição alemã de 1985.

(4) MANN, Klaus. “Culture e bolchevisme cultural” , in Contre la barbarie (1925-1948). Paris: Phébus, 2009, pp. 34-40; in Mise en garde. Paris: Phébus, 2009, pp. 13-20 [este livro é uma seleta do anterior].

(5) CARVALHO, Olavo. Op. cit., p. 27.

(6) CARVALHO, Olavo. Op. cit., pp. 27-28.

O NAZISMO SEGUNDO BOLSONARO

Jair Bolsonaro com bigode de Hitler..jpg

Em 6 de abril de 2011, o deputado Jair Bolsonaro, após ser retratado com um bigode de Hitler num cartaz exibido por manifestantes durante protesto na Câmara, declarou ao portal G1 que não ficou ofendido: “Ficaria bravo se tivesse brinquinho, batom na boca e eles usassem isso em uma passeata gay”. Bolsonaro preferia ser caricaturado como Hitler a ser caricaturado como gay.

No mesmo ano Bolsonaro submeteu-se a um “teste do polígrafo” no programa CQC, da TV Bandeirantes, expondo sua visão deformada da História. O programa que foi ao ar foi editado, mas uma versão completa da gravação do mesmo, incluindo o ensaio das perguntas e das respostas e uma intervenção de Guga Noblat, caiu na rede, revelando o que Bolsonaro pensa de Hitler, do Nazismo e do Holocausto.

O ex-capitão Bolsonaro deve ter enforcado as aulas de História, dada a gigantesca ignorância que demonstra da Segunda Guerra Mundial. Sua admiração por Hitler enquanto “estrategista” é acompanhada pela espantosa ideia de que o Holocausto – o assassinato sistemático de seis milhões de judeus por fome e doenças provocadas, torturas, trabalho forçado, fuzilamentos e câmaras de gás – foi, na verdade, mera consequência de “desvio de recursos da saúde na Alemanha”.

Igualmente surpreendente é a visão de Bolsonaro sobre Hitler ter sido uma vítima da guerra (não fica claro se da Primeira ou da Segunda); de que destruiu outros países para defender seu povo e “impor sua raça”, e sobre o alistamento automático dos alemães ao Exército, ignorando não apenas os alemães que se exilaram, como a própria possibilidade da resistência, aceitando o totalitarismo como natural e inevitável.

Finalmente, a revelação algo chocante de que seu bisavô alemão, Carl Hintze, falecido em Campinhas em 1969, teria sido um soldado de Hitler, tendo servido na Wehrmacht e perdido um braço na guerra. Segundo o estudo da árvore genealógica de Bolsonaro realizado pelo sociólogo Daniel Taddone, editor de genealogia da revista Insieme e presidente do Comitato degli Italiani all’Estero do Recife, fica claro não ser crível que o bisavô alemão de Bolsonaro tenha sido soldado de Hitler, tendo nascido em Hamburgo em 1876 e imigrado para o Brasil em 1883, anda criança.

Quando Hitler invadiu a Polônia em 1939, desencadeando a guerra, Carl já teria 63 anos. É sabido que Goebbels organizou um exército de idosos no fim da guerra, quando o bisavô de Bolsonaro teria 68 anos. Mas que ele tenha se voluntariado para lutar na Alemanha com essa idade provecta é bastante inverossímil. Nem há notícia de ele tenha deixado o Brasil durante a guerra.

É mais plausível que o bisavô alemão pudesse ter se voluntariado para lutar na Primeira Guerra (1914-1918). Mesmo assim Carl teria entre 38 e 42 anos, tendo passado da idade de alistamento. Bolsonaro mente ou fantasia sobre o bisavô alemão? Ele confunde a Primeira Guerra com a Segunda? Ele admira tanto Hitler que fez do bisavô um herói de guerra da Wehrmacht nazista, perdendo um braço pelo ‘Terceiro Reich’? Há um fato obscuro aí que o agora Presidente Bolsonaro precisa elucidar.

Três anos depois da revelação no programa CQC de seu “bisavô soldado de Hitler”, Bolsonaro voltou a mencioná-lo numa homenagem da Câmara dos Deputados, em novembro de 2014, aos 70 anos do desembarque da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Uma declaração ambígua, com semitons revisionistas:

Agradeço neste momento, também, o exército americano, tão criticado por setores de esquerda do mundo todo, em especial do nosso país. Agradeço, então, ao povo americano por não estar falando alemão. Apesar de meu bisavô ser alemão e ter sido soldado de Hitler. Ele não tinha opção: era ser soldado ou paredão. Graças a Deus ele perdeu a guerra. Mas ele me contou muitas histórias que eu não vou falar aqui agora.

Dado seu proclamado amor à família, de raízes alemãs e italianas (com parentes possivelmente nazistas e fascistas), as “muitas histórias” falsas, revisionistas, justificadoras do nazifascismo, que Bolsonaro ouviu na infância e juventude, explicam sua admiração pelo “estrategista” Hitler, a contrapelo da historiografia militar séria e sua ignorância deliberada e acintosa do Holocausto, que ele despreza ao propagar o mesmo discurso de ódio que o embasa.

Uma versão curta, editada, dos bastidores do CQC, foi divulgada no site 247. Mas logo em seguida o próprio 247 retirou o vídeo do site, publicando uma errata na qual explicava que o vídeo era fake, tratando-se de uma edição. De fato, o clipe postado fora editado.

Mas o vídeo integral dos bastidores também caiu na rede, e podemos agora perceber que sua versão editada publicada no site 247 apenas sintetizava o conteúdo do original, sem o falsear em nada. O vídeo integral dos bastidores comprova que Bolsonaro declarou mesmo tudo aquilo em favor de Hitler e do nazismo, relativizando e banalizando o Holocausto ao atribui-lo a uma situação similar à corrupção no Brasil, de desvio de verbas públicas!

Omitindo deliberadamente o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler.

Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu ataque ao “bolchevismo cultural”, seus campos de concentração e de extermínio. É assim que Bolsonaro legitima seu discurso de ódio, isentando-o da inspiração nazista.

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TRANSCRIÇÃO DOS BASTIDORES DO PROGRAMA CQC

ENSAIO

Repórter CQC: Você tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: Não. Você tem que entender que guerra é guerra. Ele foi um grande estrategista.

Jair Bolsonaro: Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto para aniquilar o outro país, destruir o outro país, para defender o seu povo.

Homem do Polígrafo: O Hitler pra ele, levando (em conta) o segmento militar, era uma pessoa que ele achou bastante interessante, pra nível militar.

Repórter CQC: Perfeito.

GRAVANDO

Repórter CQC: Senhor Jair Bolsonaro, Deputado Jair Bolsonaro, o senhor tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né? Porque foi pra… morte de inocentes, né, Holocausto, etc. Tá OK?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: O que você tem que entender é o seguinte: guerra é guerra, e o país que não quer ser submetido ao que Hitler [se] submeteu naquela época tem que preparar suas Forças Armadas. E as nossas Forças Armadas no Brasil hoje em dia estão completamente largadas pelos últimos governos. Quem não quer sofrer, né, o que aquele povo sofreu, cuide de suas Forças Armadas. E naquela guerra, a guerra era de extermínio. Hoje em dia você faz embargos, é uma guerra completamente diferente. Então você… eu não concordo com Hitler, mas você tem que entender o que aconteceu naquela época e seu plano de dominar o mundo e de impor a sua raça. Os vencedores em batalhas impõem as suas vontades e o Hitler queria impor a sua vontade. Lógico, hoje em dia não admitiria. Naquela época era outra história. Tanto é que um homem apenas queria aquilo, e todos aderiram, quase todos aderiram, na Alemanha.

Repórter CQC: Mas há algo admirável no Hitler para o senhor?

Jair Bolsonaro: Profissionalmente, ele foi um grande estrategista. Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto pra aniquilar o outro país, destruir o outro país, pra defender o seu povo. Não o…

Repórter CQC: Mesmo sendo um genocida?

Jair Bolsonaro: O general… O genocídio é outra história, o genocídio é outra história, ok, eu não concordo logicamente com o que ele fez lá. O genocídio você pratica hoje em dia quando você desvia como estamos vendo hoje em dia desvia recursos da saúde, tem gente que morre, na mesma situação que os judeus lá na Alemanha. Muitos povos também morriam porque o governo alemão simplesmente sequestravam seus alimentos, simplesmente morriam de fome, inanição, de frio. Se um país não quer sofrer isso um dia, e podemos sofrer, porque nós temos ameaça externa, e muitos idiotas acham que não. Nós temos aqui uma reserva amazônica enorme, com tudo, e temos ai países nucleares como China e Índia, com um bilhão, ou melhor, juntos com dois bilhões e meio de habitantes, onde a alimentação básica é arroz, e peixe e produtos aí vindos da batata, basicamente isso. Quando descobriram isso aqui, já descobriram, né, mas quando a população crescer demais podem querer vir pra cá. Vamos fazer o quê com nossas Forças Armadas completamente despreparadas por negligência dos governos que  nos… têm passado por aqui.

INTERRUPÇÃO

Guga Noblat: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, o senhor teria se alistado, se o senhor fosse alemão, teria se alistado no Exército nazista?

Repórter CQC: Posso fazer esta (pergunta)?

Jair Bolsonaro: Pode, sem problema nenhum. Eu tenho uma resposta muito boa pra te dar, inclusive.

GRAVANDO

Repórter CQC: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, incluindo toda morte nos campos de concentração, o Holocausto, aqueles seis milhões de judeus assassinados, você teria se alistado como militar se fosse da Alemanha naquele contexto?

Jair Bolsonaro: Olha, o meu bisavô foi soldado de Hitler, ele perdeu um braço, inclusive na guerra, né.

Repórter CQC: Seu bisavôooooo

Jair Bolsonaro: Qual o problema? A minha família era toda de alemães e italianos. Agora a pergunta não cabe, porque você não tinha direito de se alistar ou não, você era alistado automaticamente. Quem não se alistasse, era…

Repórter CQC: E se naquela época fosse facultativo? Pode ou não se alistar, você iria?

Jair Bolsonaro: Na verdade, ninguém quer ir pra guerra, nem nós militares queremos ir para a guerra. Por isso queremos os melhores meios pra você trabalhar para evitar uma guerra. O militar bom, o exército bom, não faz guerra, evita guerra.

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Sem dizer uma única palavra sobre o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente ou inconsciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler. Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu anticomunismo e seus campos de concentração e de extermínio.

É desta forma que Bolsonaro legitima o seu próprio discurso de ódio, inspirado no discurso nazista. Em outro programa do CQC, também de 2011, este discurso extravasou de seus limites mentalmente controlados para excitar seus seguidores sem jogá-los na ilegalidade, e um Bolsonaro distraído pensou ter ouvido a palavra “gay” (sua obsessão persecutória, sendo o “gay” o seu “judeu”) quando a cantora Preta Gil perguntou o que ele faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra. Sua resposta descuidada revelou, num ato falho, simultaneamente seu racismo e sua homofobia:

Processado por racismo e por quebra do decoro parlamentar, o deputado Jair Bolsonaro conseguiu safar-se alegando que a fita havia sido montada e depois apagada para que não pudesse ser periciada, acusando Marcelo Tas de gravar outro programa por cima para se livrar da prova de sua inocência. Mas essa é uma prática comum na TV brasileira, em canais de recursos escassos, com exceção talvez da Rede Globo, que após o incêndio de seu acervo, passou a valorizar a conservação de suas gravações.

Não havia como editar pergunta e resposta porque, como explicou o CGC, o programa gravava apenas uma pergunta de cada convidado, e é claro a qualquer espectador que a resposta se segue imediatamente à pergunta, sem possibilidade de uma montagem tão imperceptível. Danilo Gentili estava presente à gravação e declarou em seu programa que  não houve montagem alguma. O próprio Bolsonaro admitiu que pode ter se confundido. Mas a alegação mentirosa livrou-o da punição no processo, e o estimulou a processar Marcelo Tas por difamação. A resposta de Tas aparentemente encerrou o caso.

NOTA

Agradeço ao historiador João Araujo o envio de artigos publicados em jornais e sites sobre a genealogia de Bolsonaro. É curioso que os jornalistas só tenham pesquisado o ramo italiano de sua família, investigando pouco o ramo alemão. Segundo o site Ethninicity of CelebsBolsonaro seria 81,25% italiano, 12,5% alemão e 6,25% brasileiro (português, possivelmente outros)… Mas parece que o ramo alemão influenciou mais o pequeno Bolsonaro e o impulsionou à vida militar e à confessa admiração de Hitler.

BRASILEIROS DOENTIOS

Milhões de eleitores brasileiros queriam eleger um presidiário para a Presidência da República; os doentes petistas insistiram até o último minuto na inverossímil candidatura de Lula. Quando essa fantasia se mostrou totalmente inviável, partiram para o plano B, o candidato-tampão Fernando Haddad, que se apresenta com a máscara de Lula. Mas quem é o boneco de quem? Quem é o ventríloquo de quem?

Haddad-Lula. Foto de Ricardo Stuckert - Instituto Lula.

Haddad-Lula. Foto de Ricardo Stuckert – Instituto Lula.

Outros milhões de eleitores brasileiros querem eleger um candidato esfaqueado em situação periclitante; os doentes bolsominions não cogitam em montar outra chapa, não têm plano B, acreditam que o entubado vai se levantar para colocar a faixa presidencial. O acamado ganhou um hino místico-patético: “Capitão levanta-te”, do compositor e cantor venezuelano El Veneco, acompanhado de seu filho de voz irritante.

 

Bolsonaro teve alta da Unidade de Terapia Intensiva, mas ainda não pode sair do hospital. O “Mito” (na alucinação dos bolsominions) não vai caminhar sobre as águas depois da facada na barriga: ele só pode dar alguns passos de andador, com bolsa de fezes a tiracolo. Só sai do hospital em fins de setembro, se não piorar.

A eleição é dia 7 de outubro. Mesmo saindo do hospital, Bolsonaro não poderá circular por aí. Por isso seus filhos políticos assumiram o corpo-a-corpo da campanha, fazendo lives direto do hospital, enquanto o vice do candidato, general Mourão, e o “noivo” Paulo Guedes, prometido para o Ministério da Economia, se apresentavam em entrevistas.

Mas os tapa-buracos do candidato começaram a colocar as asinhas de fora e a bater cabeças com declarações inapropriadas e propostas contraditórias, para o desespero do candidato imobilizado, que ordenou que eles se calassem até entrarem num acordo. Bolsonaro fez então nova live hospitalar declarando: “Nunca me senti tão bem em minha vida”. Efeito da morfina?

Bolsonaro precisará de um mês ou dois de recuperação. E então entrará de novo na faca, para fechar a barriga e tirar a bolsa de fezes que terá de carregar até essa terceira cirurgia. Terá então que ficar mais um mês de cama até se recuperar, e só depois disso, se não houver complicações na terceira cirurgia, ele voltará a andar sozinho, de barriga fechada, sem bolsa de fezes a tiracolo.

A autoproclamada “missão divina” de Bolsonaro levou uma facada, dada por um crente esquerdista e antimaçônico que diz ter ouvido a voz de Deus. A Providência tem estranhos caminhos. O capitão não se levantará tão cedo, mesmo com todas as preces de seus seguidores fanáticos, com toda a ajuda de Deus ou do Diabo. Até quando os doentes bolsominions levarão adiante sua farsa de Bolsonaro Presidente?

O FASCISMO POR UMBERTO ECO

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O FASCISMO ETERNO

Texto de Umberto Eco produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa.

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício.

Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder da resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos… aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade…”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica.

Alguns dias depois vi os primeiros soldados norte-americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores norte-americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j’aime le champagne…” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d’água para que ficasse fresco para o dia seguinte.

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido liberados.

Hoje na Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela liberação. Penso que, também para os jovens norte-americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.

Hoje na Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.

Grudado ao rádio, passava as noites — as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso — escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem legendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A liberação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.

Hoje na Itália tem gente que diz que a guerra de liberação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.

Mas quem são “eles”?

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do MSI (Movimento Social e Italiano), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, em sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?

Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos.

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e de seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os norte-americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” — entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom norte-americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais norte-americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazista”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários.

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini.

O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se — conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista.

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy [1]. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideais políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prêmios artísticos: o Prêmio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prêmio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceito.

O poeta nacional era D’Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do heroísmo — com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês.

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d’Italia, que tratava o luar com grande respeito.

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas ideias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los.

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro.

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).

A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”:

1 – 2 – 3 – 4

abc bcd cde def

Suponhamos que exista uma série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 e é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.

A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

  1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico. Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas. Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva. Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo. Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.
  2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.
  3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) [2] ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.
  4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.
  5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.
  6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.
  7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.
  8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.
  9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.
  10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabem muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.
  11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heroica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.
  12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja pênis permanente.
  13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia [3] ou do estádio de Nuremberg. Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi:“Eu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o Parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.
  14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista.

Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” — Deus meu —, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”.

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:

Sulla spalletta del ponte

Le teste degli impiccati

Nell’acqua della fonte

La bava degli impiccati

Sul lastrico del mercato

Le unghie dei fucilati

Sull’erba secca del prato

I denti dei fucilati

Mordere l’aria mordere i sassi

La nostra carne non à più d’uomini

Mordere l’aria mordere i sassi

Il nostro cuore non à più d’uomini.

Ma noi s’è letto negli occhi dei morti

E sulla terra faremo libertà

Ma l’hanno stretta i pugni dei morti

La giustizia che si farà. 

Na amurada da ponte

A cabeça dos enforcados

Na água da fonte

A baba dos enforcados

No calçamento do mercado

As unhas dos fuzilados

Sobre a grama seca do prado

Os dentes dos fuzilados

Morder o ar morder as pedras

Nossa carne não é mais de homens

Morder o ar morder as pedras

Nosso coração não é mais de homens

Mas lemos nos olhos dos mortos

E sobre a terra a liberdade havemos de fazer

Mas estreitaram-na nos punhos os mortos

A justiça que se há de fazer.

FONTE:

ECO. Umberto. “O Fascismo Eterno”, in: Cinco Escritos Morais. Tradução: Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Record, 2002, pp. 29-53.

NOTAS:

[1] Usado atualmente em lógica para designar conjuntos “esfumados”, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como “esfumado”, “confuso”, “impreciso”, “desfocado”. [Eliana Aguiar]

[2] A frase atribuída ora a Goebbels, ora a Goering, provém da peça Schlageter (1933), de Hans Johst, que glorificava o militar Albert Leo Schlageter (1894-1923), membro do movimento de extrema-direita Freikorps executado pelos franceses na Primeira Guerra, e considerado pelos nazistas como “o primeiro soldado do Terceiro Reich”. A peça foi dedicada a Hitler e tornou-se um manifesto teatral do regime, sendo representada durante seus doze anos, de 1933 a 1945. Na peça, um personagem chamado Thiemann clama a certa altura: “Quando ouço ‘cultura’, libero a trava de segurança de minha Browning.” [Luiz Nazario. Fonte: SONTAG, Susan. Reaching for the Gun. The New York Review of Books, 19 nov. 1981. Disponível em: https://www.nybooks.com/articles/1981/11/19/reaching-for-the-gun/.]

[3] Praça em Roma, onde Mussolini fazia seus discurso. [Eliana Aguiar]

 

PASOLINI POR HERBERT LIST

O fotógrafo alemão Herbert List

O fotógrafo alemão Herbert List.

Herbert List (1903-1975) foi um fotógrafo alemão que manteve uma relação ambígua com o poder nazista, fazendo passar o homoerotismo de suas imagens de contrabando no culto ao corpo do regime (ele é representado pelo personagem Joachim Lenz no belo romance autobiográfico The Temple, de Stefen Spender).

Por não ser um “ariano puro”, tendo um avô judeu, List não podia publicar suas fotos, mas isso não o impediu, por outro lado, de ser engajado no Exército, servindo em 1941 na campanha da Noruega como desenhista de mapas. Numa viagem a Paris, retratou Picasso, Jean Cocteau, Christian Bérard, Georges Braque, Jean Arp, Juan Miró e outros artistas que o nazismo proibia como “degenerados”.

Após a guerra, Robert Capa o apresentou à Magnum Photos e ele passou a trabalhar para revistas como Vogue, Harper’s Bazaar e Life. Suas composições em preto e branco, austeras e clássicas, especialmente seus nus masculinos realizados na Itália e na Grécia, tiveram grande influência na fotografia contemporânea homoerótica ligada à moda (Herb Ritts, Bruce Weber).

Em suas viagens à Itália, Herbert List fotografou diversas personalidades locais, entre as quais Pier Paolo Pasolini, em Roma. As fotos de Pasolini por List são publicadas em livros e na Internet como se tivessem sido batidas todas no mesmo ano, sendo este ano diferente conforme a publicação: 1949, 1950, 1953.

No próprio site oficial da Magnum Photos elas foram classificadas e datadas como sendo todas de 1953. Imagino, contudo, que esse aparente conjunto único de fotos de Pasolini por List constitua, na verdade, duas séries distintas, e que tenham sido tiradas em dois momentos diferentes da vida do retratado.

Eu dataria a primeira série com o ano de 1950, logo depois que o jovem poeta perdeu seu emprego de professor devido ao escândalo sexual em Ramuscello em 1949, quando chegou a Roma desempregado, sobrevivendo num pequeno apartamento na Piazza Costaguti, com a mãe trabalhando como empregada doméstica.

Ou mesmo de 1951, quando, ao conseguir um emprego de professor numa escola particular de Ciampino, Pasolini, que se locomovia de ônibus pela cidade, alugou uma casa na via Tagliere, na borgata Rebibbia, onde passou a abrigar o pai militar aposentado, que se entregava à bebida, retornando assim ao triste convívio familiar, depois de ter expulsado Pasolini de casa. Foi o período mais difícil da vida do poeta.

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A segunda série eu dataria de 1954, quando Pasolini começou a ganhar dinheiro como roteirista na Cinecittà, abandonando o emprego de professor, ou de 1955, quando a publicação de Ragazzi di vita (e o escândalo que o romance provocou) fez de Pasolini uma celebridade cultural: ei-lo agora mais maduro e feliz, frequentando restaurantes da moda, andando pela cidade em seu próprio automóvel…

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