O NAZISMO SEGUNDO BOLSONARO

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Em 6 de abril de 2011, o deputado Jair Bolsonaro, após ser retratado com um bigode de Hitler num cartaz exibido por manifestantes durante protesto na Câmara, declarou ao portal G1 que não ficou ofendido: “Ficaria bravo se tivesse brinquinho, batom na boca e eles usassem isso em uma passeata gay”. Bolsonaro preferia ser caricaturado como Hitler a ser caricaturado como gay.

No mesmo ano Bolsonaro submeteu-se a um “teste do polígrafo” no programa CQC, da TV Bandeirantes, expondo sua visão deformada da História. O programa que foi ao ar foi editado, mas uma versão completa da gravação do mesmo, incluindo o ensaio das perguntas e das respostas e uma intervenção de Guga Noblat, caiu na rede, revelando o que Bolsonaro pensa de Hitler, do Nazismo e do Holocausto.

O ex-capitão Bolsonaro deve ter enforcado as aulas de História, dada a gigantesca ignorância que demonstra da Segunda Guerra Mundial. Sua admiração por Hitler enquanto “estrategista” é acompanhada pela espantosa ideia de que o Holocausto – o assassinato sistemático de seis milhões de judeus por fome e doenças provocadas, torturas, trabalho forçado, fuzilamentos e câmaras de gás – foi, na verdade, mera consequência de “desvio de recursos da saúde na Alemanha”.

Igualmente surpreendente é a visão de Bolsonaro sobre Hitler ter sido uma vítima da guerra (não fica claro se da Primeira ou da Segunda); de que destruiu outros países para defender seu povo e “impor sua raça”, e sobre o alistamento automático dos alemães ao Exército, ignorando não apenas os alemães que se exilaram, como a própria possibilidade da resistência, aceitando o totalitarismo como natural e inevitável.

Finalmente, a revelação algo chocante de que seu bisavô alemão, Carl Hintze, falecido em Campinhas em 1969, teria sido um soldado de Hitler, tendo servido na Wehrmacht e perdido um braço na guerra. Segundo o estudo da árvore genealógica de Bolsonaro realizado pelo sociólogo Daniel Taddone, editor de genealogia da revista Insieme e presidente do Comitato degli Italiani all’Estero do Recife, fica claro não ser crível que o bisavô alemão de Bolsonaro tenha sido soldado de Hitler, tendo nascido em Hamburgo em 1876 e imigrado para o Brasil em 1883, anda criança.

Quando Hitler invadiu a Polônia em 1939, desencadeando a guerra, Carl já teria 63 anos. É sabido que Goebbels organizou um exército de idosos no fim da guerra, quando o bisavô de Bolsonaro teria 68 anos. Mas que ele tenha se voluntariado para lutar na Alemanha com essa idade provecta é bastante inverossímil. Nem há notícia de ele tenha deixado o Brasil durante a guerra.

É mais plausível que o bisavô alemão pudesse ter se voluntariado para lutar na Primeira Guerra (1914-1918). Mesmo assim Carl teria entre 38 e 42 anos, tendo passado da idade de alistamento. Bolsonaro mente ou fantasia sobre o bisavô alemão? Ele confunde a Primeira Guerra com a Segunda? Ele admira tanto Hitler que fez do bisavô um herói de guerra da Wehrmacht nazista, perdendo um braço pelo ‘Terceiro Reich’? Há um fato obscuro aí que o agora Presidente Bolsonaro precisa elucidar.

Três anos depois da revelação no programa CQC de seu “bisavô soldado de Hitler”, Bolsonaro voltou a mencioná-lo numa homenagem da Câmara dos Deputados, em novembro de 2014, aos 70 anos do desembarque da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Uma declaração ambígua, com semitons revisionistas:

Agradeço neste momento, também, o exército americano, tão criticado por setores de esquerda do mundo todo, em especial do nosso país. Agradeço, então, ao povo americano por não estar falando alemão. Apesar de meu bisavô ser alemão e ter sido soldado de Hitler. Ele não tinha opção: era ser soldado ou paredão. Graças a Deus ele perdeu a guerra. Mas ele me contou muitas histórias que eu não vou falar aqui agora.

Dado seu proclamado amor à família, de raízes alemãs e italianas (com parentes possivelmente nazistas e fascistas), as “muitas histórias” falsas, revisionistas, justificadoras do nazifascismo, que Bolsonaro ouviu na infância e juventude, explicam sua admiração pelo “estrategista” Hitler, a contrapelo da historiografia militar séria e sua ignorância deliberada e acintosa do Holocausto, que ele despreza ao propagar o mesmo discurso de ódio que o embasa.

Uma versão curta, editada, dos bastidores do CQC, foi divulgada no site 247. Mas logo em seguida o próprio 247 retirou o vídeo do site, publicando uma errata na qual explicava que o vídeo era fake, tratando-se de uma edição. De fato, o clipe postado fora editado.

Mas o vídeo integral dos bastidores também caiu na rede, e podemos agora perceber que sua versão editada publicada no site 247 apenas sintetizava o conteúdo do original, sem o falsear em nada. O vídeo integral dos bastidores comprova que Bolsonaro declarou mesmo tudo aquilo em favor de Hitler e do nazismo, relativizando e banalizando o Holocausto ao atribui-lo a uma situação similar à corrupção no Brasil, de desvio de verbas públicas!

Omitindo deliberadamente o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler.

Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu ataque ao “bolchevismo cultural”, seus campos de concentração e de extermínio. É assim que Bolsonaro legitima seu discurso de ódio, isentando-o da inspiração nazista.

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TRANSCRIÇÃO DOS BASTIDORES DO PROGRAMA CQC

ENSAIO

Repórter CQC: Você tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: Não. Você tem que entender que guerra é guerra. Ele foi um grande estrategista.

Jair Bolsonaro: Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto para aniquilar o outro país, destruir o outro país, para defender o seu povo.

Homem do Polígrafo: O Hitler pra ele, levando (em conta) o segmento militar, era uma pessoa que ele achou bastante interessante, pra nível militar.

Repórter CQC: Perfeito.

GRAVANDO

Repórter CQC: Senhor Jair Bolsonaro, Deputado Jair Bolsonaro, o senhor tem orgulho da história de vida de Hitler?

Jair Bolsonaro: Não, orgulho não tenho, né? Porque foi pra… morte de inocentes, né, Holocausto, etc. Tá OK?

Repórter CQC: Mas gosta dele?

Jair Bolsonaro: O que você tem que entender é o seguinte: guerra é guerra, e o país que não quer ser submetido ao que Hitler [se] submeteu naquela época tem que preparar suas Forças Armadas. E as nossas Forças Armadas no Brasil hoje em dia estão completamente largadas pelos últimos governos. Quem não quer sofrer, né, o que aquele povo sofreu, cuide de suas Forças Armadas. E naquela guerra, a guerra era de extermínio. Hoje em dia você faz embargos, é uma guerra completamente diferente. Então você… eu não concordo com Hitler, mas você tem que entender o que aconteceu naquela época e seu plano de dominar o mundo e de impor a sua raça. Os vencedores em batalhas impõem as suas vontades e o Hitler queria impor a sua vontade. Lógico, hoje em dia não admitiria. Naquela época era outra história. Tanto é que um homem apenas queria aquilo, e todos aderiram, quase todos aderiram, na Alemanha.

Repórter CQC: Mas há algo admirável no Hitler para o senhor?

Jair Bolsonaro: Profissionalmente, ele foi um grande estrategista. Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto pra aniquilar o outro país, destruir o outro país, pra defender o seu povo. Não o…

Repórter CQC: Mesmo sendo um genocida?

Jair Bolsonaro: O general… O genocídio é outra história, o genocídio é outra história, ok, eu não concordo logicamente com o que ele fez lá. O genocídio você pratica hoje em dia quando você desvia como estamos vendo hoje em dia desvia recursos da saúde, tem gente que morre, na mesma situação que os judeus lá na Alemanha. Muitos povos também morriam porque o governo alemão simplesmente sequestravam seus alimentos, simplesmente morriam de fome, inanição, de frio. Se um país não quer sofrer isso um dia, e podemos sofrer, porque nós temos ameaça externa, e muitos idiotas acham que não. Nós temos aqui uma reserva amazônica enorme, com tudo, e temos ai países nucleares como China e Índia, com um bilhão, ou melhor, juntos com dois bilhões e meio de habitantes, onde a alimentação básica é arroz, e peixe e produtos aí vindos da batata, basicamente isso. Quando descobriram isso aqui, já descobriram, né, mas quando a população crescer demais podem querer vir pra cá. Vamos fazer o quê com nossas Forças Armadas completamente despreparadas por negligência dos governos que  nos… têm passado por aqui.

INTERRUPÇÃO

Guga Noblat: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, o senhor teria se alistado, se o senhor fosse alemão, teria se alistado no Exército nazista?

Repórter CQC: Posso fazer esta (pergunta)?

Jair Bolsonaro: Pode, sem problema nenhum. Eu tenho uma resposta muito boa pra te dar, inclusive.

GRAVANDO

Repórter CQC: Sabendo da história da Segunda Guerra Mundial, incluindo toda morte nos campos de concentração, o Holocausto, aqueles seis milhões de judeus assassinados, você teria se alistado como militar se fosse da Alemanha naquele contexto?

Jair Bolsonaro: Olha, o meu bisavô foi soldado de Hitler, ele perdeu um braço, inclusive na guerra, né.

Repórter CQC: Seu bisavôooooo

Jair Bolsonaro: Qual o problema? A minha família era toda de alemães e italianos. Agora a pergunta não cabe, porque você não tinha direito de se alistar ou não, você era alistado automaticamente. Quem não se alistasse, era…

Repórter CQC: E se naquela época fosse facultativo? Pode ou não se alistar, você iria?

Jair Bolsonaro: Na verdade, ninguém quer ir pra guerra, nem nós militares queremos ir para a guerra. Por isso queremos os melhores meios pra você trabalhar para evitar uma guerra. O militar bom, o exército bom, não faz guerra, evita guerra.

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Sem dizer uma única palavra sobre o anticomunismo e o antissemitismo, as duas colunas vertebrais do nazismo e do Holocausto, Bolsonaro opera uma denegação consciente ou inconsciente da perseguição das oposições políticas, dos judeus e outras minorias na Alemanha de Hitler. Bolsonaro defende Hitler como uma “vítima da guerra”, justificando o fortalecimento das Forças Armadas para evitar que os brasileiros sofram o que os alemães “sofreram”, suprimindo da História a responsabilidade de Hitler pela guerra, o discurso de ódio do nazismo, sua legislação racista, sua homofobia, seu anticomunismo e seus campos de concentração e de extermínio.

É desta forma que Bolsonaro legitima o seu próprio discurso de ódio, inspirado no discurso nazista. Em outro programa do CQC, também de 2011, este discurso extravasou de seus limites mentalmente controlados para excitar seus seguidores sem jogá-los na ilegalidade, e um Bolsonaro distraído pensou ter ouvido a palavra “gay” (sua obsessão persecutória, sendo o “gay” o seu “judeu”) quando a cantora Preta Gil perguntou o que ele faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra. Sua resposta descuidada revelou, num ato falho, simultaneamente seu racismo e sua homofobia:

Processado por racismo e por quebra do decoro parlamentar, o deputado Jair Bolsonaro conseguiu safar-se alegando que a fita havia sido montada e depois apagada para que não pudesse ser periciada, acusando Marcelo Tas de gravar outro programa por cima para se livrar da prova de sua inocência. Mas essa é uma prática comum na TV brasileira, em canais de recursos escassos, com exceção talvez da Rede Globo, que após o incêndio de seu acervo, passou a valorizar a conservação de suas gravações.

Não havia como editar pergunta e resposta porque, como explicou o CGC, o programa gravava apenas uma pergunta de cada convidado, e é claro a qualquer espectador que a resposta se segue imediatamente à pergunta, sem possibilidade de uma montagem tão imperceptível. Danilo Gentili estava presente à gravação e declarou em seu programa que  não houve montagem alguma. O próprio Bolsonaro admitiu que pode ter se confundido. Mas a alegação mentirosa livrou-o da punição no processo, e o estimulou a processar Marcelo Tas por difamação. A resposta de Tas aparentemente encerrou o caso.

NOTA

Agradeço ao historiador João Araujo o envio de artigos publicados em jornais e sites sobre a genealogia de Bolsonaro. É curioso que os jornalistas só tenham pesquisado o ramo italiano de sua família, investigando pouco o ramo alemão. Segundo o site Ethninicity of CelebsBolsonaro seria 81,25% italiano, 12,5% alemão e 6,25% brasileiro (português, possivelmente outros)… Mas parece que o ramo alemão influenciou mais o pequeno Bolsonaro e o impulsionou à vida militar e à confessa admiração de Hitler.

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BRASILEIROS DOENTIOS

Milhões de eleitores brasileiros queriam eleger um presidiário para a Presidência da República; os doentes petistas insistiram até o último minuto na inverossímil candidatura de Lula. Quando essa fantasia se mostrou totalmente inviável, partiram para o plano B, o candidato-tampão Fernando Haddad, que se apresenta com a máscara de Lula. Mas quem é o boneco de quem? Quem é o ventríloquo de quem?

Haddad-Lula. Foto de Ricardo Stuckert - Instituto Lula.

Haddad-Lula. Foto de Ricardo Stuckert – Instituto Lula.

Outros milhões de eleitores brasileiros querem eleger um candidato esfaqueado em situação periclitante; os doentes bolsominions não cogitam em montar outra chapa, não têm plano B, acreditam que o entubado vai se levantar para colocar a faixa presidencial. O acamado ganhou um hino místico-patético: “Capitão levanta-te”, do compositor e cantor venezuelano El Veneco, acompanhado de seu filho de voz irritante.

 

Bolsonaro teve alta da Unidade de Terapia Intensiva, mas ainda não pode sair do hospital. O “Mito” (na alucinação dos bolsominions) não vai caminhar sobre as águas depois da facada na barriga: ele só pode dar alguns passos de andador, com bolsa de fezes a tiracolo. Só sai do hospital em fins de setembro, se não piorar.

A eleição é dia 7 de outubro. Mesmo saindo do hospital, Bolsonaro não poderá circular por aí. Por isso seus filhos políticos assumiram o corpo-a-corpo da campanha, fazendo lives direto do hospital, enquanto o vice do candidato, general Mourão, e o “noivo” Paulo Guedes, prometido para o Ministério da Economia, se apresentavam em entrevistas.

Mas os tapa-buracos do candidato começaram a colocar as asinhas de fora e a bater cabeças com declarações inapropriadas e propostas contraditórias, para o desespero do candidato imobilizado, que ordenou que eles se calassem até entrarem num acordo. Bolsonaro fez então nova live hospitalar declarando: “Nunca me senti tão bem em minha vida”. Efeito da morfina?

Bolsonaro precisará de um mês ou dois de recuperação. E então entrará de novo na faca, para fechar a barriga e tirar a bolsa de fezes que terá de carregar até essa terceira cirurgia. Terá então que ficar mais um mês de cama até se recuperar, e só depois disso, se não houver complicações na terceira cirurgia, ele voltará a andar sozinho, de barriga fechada, sem bolsa de fezes a tiracolo.

A autoproclamada “missão divina” de Bolsonaro levou uma facada, dada por um crente esquerdista e antimaçônico que diz ter ouvido a voz de Deus. A Providência tem estranhos caminhos. O capitão não se levantará tão cedo, mesmo com todas as preces de seus seguidores fanáticos, com toda a ajuda de Deus ou do Diabo. Até quando os doentes bolsominions levarão adiante sua farsa de Bolsonaro Presidente?

O FASCISMO POR UMBERTO ECO

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O FASCISMO ETERNO

Texto de Umberto Eco produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa.

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício.

Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder a resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos… aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade…”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica.

Alguns dias depois vi os primeiros soldados norte-americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores norte-americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j’aime le champagne…” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d’água para que ficasse fresco para o dia seguinte.

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido liberados.

Hoje na Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela liberação. Penso que, também para os jovens norte-americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.

Hoje na Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.

Grudado ao rádio, passava as noites — as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso — escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem legendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A liberação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.

Hoje na Itália tem gente que diz que a guerra de liberação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.

Mas quem são “eles”?

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do MSI (Movimento Social e Italiano), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?

Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos.

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e de seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os norte-americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” — entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom norte-americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais norte-americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazista”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários.

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini.

O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se — conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista.

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy [1]. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideais políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prêmios artísticos: o Prêmio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prêmio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceito.

O poeta nacional era D’Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do heroísmo — com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês.

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d’Italia, que tratava o luar com grande respeito.

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas ideias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los.

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro.

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).

A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”:

1 – 2 – 3 – 4

abc bcd cde def

Suponhamos que exista uma série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 e é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.

A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

  1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico. Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas. Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva. Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo. Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.
  2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.
  3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) [2] ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.
  4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.
  5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.
  6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.
  7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.
  8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.
  9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.
  10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabem muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.
  11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heroica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.
  12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja pênis permanente.
  13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia [3] ou do estádio de Nuremberg. Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi:“Eu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o Parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.
  14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista.

Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” — Deus meu —, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”.

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:

Sulla spalletta del ponte

Le teste degli impiccati

Nell’acqua della fonte

La bava degli impiccati

Sul lastrico del mercato

Le unghie dei fucilati

Sull’erba secca del prato

I denti dei fucilati

Mordere l’aria mordere i sassi

La nostra carne non à più d’uomini

Mordere l’aria mordere i sassi

Il nostro cuore non à più d’uomini.

Ma noi s’è letto negli occhi dei morti

E sulla terra faremo libertà

Ma l’hanno stretta i pugni dei morti

La giustizia che si farà. 

Na amurada da ponte

A cabeça dos enforcados

Na água da fonte

A baba dos enforcados

No calçamento do mercado

As unhas dos fuzilados

Sobre a grama seca do prado

Os dentes dos fuzilados

Morder o ar morder as pedras

Nossa carne não é mais de homens

Morder o ar morder as pedras

Nosso coração não é mais de homens

Mas lemos nos olhos dos mortos

E sobre a terra a liberdade havemos de fazer

Mas estreitaram-na nos punhos os mortos

A justiça que se há de fazer.

FONTE:

ECO. Umberto. “O Fascismo Eterno”, in: Cinco Escritos Morais. Tradução: Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Record, 2002, pp. 29-53.

NOTAS:

[1] Usado atualmente em lógica para designar conjuntos “esfumados”, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como “esfumado”, “confuso”, “impreciso”, “desfocado”. [Eliana Aguiar]

[2] A frase atribuída ora a Goebbels, ora a Goering, provém da peça Schlageter (1933), de Hans Johst, que glorificava o militar Albert Leo Schlageter (1894-1923), membro do movimento de extrema-direita Freikorps executado pelos franceses na Primeira Guerra, e considerado pelos nazistas como “o primeiro soldado do Terceiro Reich”. A peça foi dedicada a Hitler e tornou-se um manifesto teatral do regime, sendo representada durante seus doze anos, de 1933 a 1945. Na peça, um personagem chamado Thiemann clama a certa altura: “Quando ouço ‘cultura’, libero a trava de segurança de minha Browning.” [Luiz Nazario. Fonte: SONTAG, Susan. Reaching for the Gun. The New York Review of Books, 19 nov. 1981. Disponível em: https://www.nybooks.com/articles/1981/11/19/reaching-for-the-gun/.]

[3] Praça em Roma, onde Mussolini fazia seus discurso. [Eliana Aguiar]

 

PASOLINI POR HERBERT LIST

O fotógrafo alemão Herbert List

O fotógrafo alemão Herbert List.

Herbert List (1903-1975) foi um fotógrafo alemão que manteve uma relação ambígua com o poder nazista, fazendo passar o homoerotismo de suas imagens de contrabando no culto ao corpo do regime (ele é representado pelo personagem Joachim Lenz no belo romance autobiográfico The Temple, de Stefen Spender).

Por não ser um “ariano puro”, tendo um avô judeu, List não podia publicar suas fotos, mas isso não o impediu, por outro lado, de ser engajado no Exército, servindo em 1941 na campanha da Noruega como desenhista de mapas. Numa viagem a Paris, retratou Picasso, Jean Cocteau, Christian Bérard, Georges Braque, Jean Arp, Juan Miró e outros artistas que o nazismo proibia como “degenerados”.

Após a guerra, Robert Capa o apresentou à Magnum Photos e ele passou a trabalhar para revistas como Vogue, Harper’s Bazaar e Life. Suas composições em preto e branco, austeras e clássicas, especialmente seus nus masculinos realizados na Itália e na Grécia, tiveram grande influência na fotografia contemporânea homoerótica ligada à moda (Herb Ritts, Bruce Weber).

Em suas viagens à Itália, Herbert List fotografou diversas personalidades locais, entre as quais Pier Paolo Pasolini, em Roma. As fotos de Pasolini por List são publicadas em livros e na Internet como se tivessem sido batidas todas no mesmo ano, sendo este ano diferente conforme a publicação: 1949, 1950, 1953.

No próprio site oficial da Magnum Photos elas foram classificadas e datadas como sendo todas de 1953. Imagino, contudo, que esse aparente conjunto único de fotos de Pasolini por List constitua, na verdade, duas séries distintas, e que tenham sido tiradas em dois momentos diferentes da vida do retratado.

Eu dataria a primeira série com o ano de 1950, logo depois que o jovem poeta perdeu seu emprego de professor devido ao escândalo sexual em Ramuscello em 1949, quando chegou a Roma desempregado, sobrevivendo num pequeno apartamento na Piazza Costaguti, com a mãe trabalhando como empregada doméstica.

Ou mesmo de 1951, quando, ao conseguir um emprego de professor numa escola particular de Ciampino, Pasolini, que se locomovia de ônibus pela cidade, alugou uma casa na via Tagliere, na borgata Rebibbia, onde passou a abrigar o pai militar aposentado, que se entregava à bebida, retornando assim ao triste convívio familiar, depois de ter expulsado Pasolini de casa. Foi o período mais difícil da vida do poeta.

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A segunda série eu dataria de 1954, quando Pasolini começou a ganhar dinheiro como roteirista na Cinecittà, abandonando o emprego de professor, ou de 1955, quando a publicação de Ragazzi di vita (e o escândalo que o romance provocou) fez de Pasolini uma celebridade cultural: ei-lo agora mais maduro e feliz, frequentando restaurantes da moda, andando pela cidade em seu próprio automóvel…

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A IGREJA-SAPATO DE TAIWAN

A IGREJA-SAPATO DE BUDAI EM CHIAYI, TAIWAN. (2)

Em 2016, foi inaugurada em Budai, na província litorânea de Chiayi, em Taiwan, uma igreja no formato de um sapato feminino de salto alto. Segundo Pan Tsuei-ping, gerente do órgão de Turismo responsável pela ideia, essa nova igreja não será usada para missas de rotina, mas só para cerimônias de matrimônio.

A ideia é atrair mulheres de todo o país para ali realizar seus casamentos: “Nosso plano é fazer um local feliz e romântico… Toda menina imagina como será quando se vestir de noiva”. A estrutura com 320 painéis de vidro azul, com 17m de altura e 11m de comprimento, foi edificada em três meses por US$ 685 mil.

A Igreja-sapato causou espécie nos meios cristãos pelo seu formato pouco convencional. Depois de décadas de intolerância, os católicos brasileiros já aceitam o modernismo de um Oscar Niemeyer na Igreja da Pampulha ou na Catedral de Brasília. Mas o pós-modernismo de uma igreja-sapato desafia conceitos tradicionais de beleza e os padrões vigentes do funcionalismo da arquitetura.

Os idealizadores da Igreja-sapato não pretenderam desrespeitar nenhuma religião, mas criar um “lindo” cenário para casamentos. Embora pareça evocar o sapatinho de cristal que Cinderela perdeu no baile da Corte antes de sua carruagem voltar a ser uma abóbora, e graças ao qual ela fisgou seu Príncipe Encantado, a Igreja-sapato pretenderia homenagear uma mulher da região cuja vida não foi nenhum conto de fadas.

Na década de 1960, uma jovem pobre chamada Wang, de 24 anos, ficou doente e teve que amputar as duas pernas, tendo seu casamento cancelado. Ela viveu o resto de sua vida solteira, morando numa igreja.

Não se sabe, porém, se esta triste história é verdadeira ou apenas um conto de fadas pós-moderno para aplacar as críticas dos fundamentalistas raivosos que odiaram a Igreja-sapato pela sua evocação da tradição das “princesas” da Disney.

A IGREJA-SAPATO DE BUDAI EM CHIAYI, TAIWAN.

Um ano após a inauguração da Igreja-sapato, os entornos do suposto templo foram enriquecidos com esculturas e luminárias de anéis de casamento e outros enfeites Kitsch relacionados aos enlaces matrimoniais, de modo a tornar o local um pequeno parque temático para o turismo casamenteiro.

 

O FASCISMO SOB A MÁSCARA DO COMBATE À CORRUPÇÃO

Lula

Caricatura de Lula por Néo Correia.

Cartaz nazista escrito em russo.

Cartaz nazista antissemita escrito em russo.

Antropóloga social especialista no nazismo e no neonazismo, Adriana Dias analisou centenas de representações antissemitas do judeu e pode perceber, de imediato, na imagem de Lula na prisão, a intenção consciente do chargista Néo Correia em demonizá-lo e animalizá-lo através de uma estilização característica do nariz e das orelhas como o faziam os caricaturistas nazistas com os judeus.

Mais que isso, Adriana Dias percebeu que o uniforme de Lula na caricatura não é aquele tradicionalmente usado pelos criminosos em algumas prisões americanas, que se universalizaram como símbolo de prisioneiros, com listras horizontais para não se confundirem com as barras das celas, mas o uniforme dos judeus e outros perseguidos do nazismo nos campos de concentração e de extermínio, com listras verticais.

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Uniforme das prisões americanas que se universalizaram como símbolo de prisioneiros.

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Uniforme nazista dos prisioneiros de Auschwitz.

A caricatura de Lula por Néo Correia plasmou um ódio espalhado em certos meios que ultrapassa o desejo comum do combate à corrupção, configurando o desejo de extermínio típico do fascismo. Não faltou no uniforme nazista da caricatura de Lula o distintivo “Lula 13” para fazer as honras dos distintivos nazistas geométricos baseados na estrela amarela dos judeus para os diversos “inimigos objetivos do regime”.

Distintivos dos diversos prisioneiros dos KZ, criados a partir da estrela amarela dos judeus.

Distintivos dos diversos prisioneiros dos KZ, criados a partir da estrela amarela dos judeus.

CRONOLOGIA DAS PROIBIÇÕES A LULA

12/07/2017: Juiz Sergio Moro proíbe Lula de concorrer a cargos públicos por 19 anos.

25/01/2018: Juiz do DF proíbe Lula de deixar o País.

10/04/2018: Juiz Sergio Moro proíbe que Lula tenha “privilégios” na prisão.

23/04/2018: Juíza proíbe que o advogado e deputado Wadih Damous visite Lula após ser nomeado seu advogado.

23/04/2018: Justiça proíbe visitas de amigos a Lula no cárcere da PF.

26/04/2018: Juíza Cristina Lebbos proíbe que médico de Lula o visite na prisão.

11/07/2018: Juíza proíbe Lula de gravar vídeos e fazer pré-campanha na prisão.

20/07/2018: Ministro do STJ proíbe que Lula conceda entrevistas na prisão.

QUEM SÃO OS PEDÓFILOS?

 

 

A Nova Direita intensificou sua campanha de propaganda pela eleição do ex-capitão Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil disseminando uma série de Fake News tentando associar o movimento LGBT e a Esquerda à pedofilia. Mesmo desmentidas, as fraudes continuam operando no inconsciente do eleitorado, já amplamente doutrinado pelo pseudo-filósofo Olavo de Carvalho e seus milhares de replicantes nas redes sociais, incluindo militantes disfarçados de jornalistas que induzem leitores e ouvintes a votar em Bolsonaro pelo ataque sistemático aos demais candidatos.

A súbita preocupação dos replicantes com a pedofilia é apenas uma estratégia política desesperada, sem qualquer real interesse pelo sofrimento das crianças vitimadas. Vale lembrar que Heloísa de Carvalho Martins Arribas, a filha mais velha de Olavo de Carvalho, declarou ter sido bolinada aos nove anos de idade por um adulto enquanto o pai fazia sexo com suas alunas particulares; e que, quando confrontado pela filha já adulta, limitou-se a dizer, violando qualquer lógica, que a culpa era dela:

E onde estava o pai da “família margarina” que, quando soube que eu tinha sido abusada sexualmente, não fez absolutamente nada, e que há uns quatro meses ainda me culpou pelo abuso? Acho que você esqueceu de que eu só tinha 9 anos.

Fonte: Carta aberta a Olavo de Carvalho, meu pai.

O aclamado “campeão da ética” (“Me chama de corrupto!”) o “Mito” da Nova Direita faz há três anos campanha eleitoral ilegal, viajando pelo Brasil e pelo mundo com financiamentos não declarados. Adepto do Estado Policial (com carta branca à polícia para matar quem ela quiser), da militarização das escolas públicas, da ditadura militar e da tortura, ele promete, se eleito, canonizar como “Herói Nacional” o coronel Brilhante Ustra, primeiro torturador do Regime Militar condenado pela Justiça.

Esse candidato das trevas atende aos anseios primitivos da classe média radicalizada, adepta do Extermínio como Solução, da Escola sem Partido (a Escola da Mordaça), da volta da Censura e do “fim do comunismo”, que começaria pelo fechamento dos Partidos de Esquerda e terminaria possivelmente com a instituição de campos de concentração.

Sem o aceite dos vices convidados na chapa da Presidência, o pastor-senador Magnus Malta e o general Augusto Heleno, isolado pelos partidos políticos de cujo apoio sempre disse desdenhar, Bolsonaro viu-se colocado diante da consequência lógica de seu discurso marginal: terá apenas alguns segundos de TV. Seus partidários tentam então encontrar uma nova estratégia de crescimento eleitoral.

Por que não explorar o velho filão da pedofilia? Foi em M (M, o vampiro de Düsseldorf, 1931), de Fritz Lang, com roteiro de Thea von Harbou, uma entusiasta de Hitler, que a figura do pedófilo (ainda mais um serial killer) pode mostrar seu poder catalizador da psicose coletiva, sendo oferecida como um bode expiatório da infelicidade alemã durante a República de Weimar, abalada por sucessivas crises econômicas e políticas.

Como ninguém, em sã consciência, é a favor da pedofilia, as mídias sujas da Nova Direita que desejam eleger Bolsonaro como seu mais fiel representante ideológico tentam agora uma última cartada fraudulenta, acusando seus adversários de serem “pedófilos”.

Os replicantes do ideólogo Olavo de Carvalho (Nando Moura, Alexandre FrotaJoice TVTerça Livre, Diego Rox, Caneta Desesquerdizadora, MBLArtur Mamãe Falei, Paula MarisaBernardo Küster, Paulo Kogos, etc.) montaram no YouTube canais de propaganda fascistoide dedicados a martelar, dia e noite, os constructos da doutrina olavista, segundo o método inspirado por Goebbels da redução dos temas complexos às fórmulas mais rasas, com a repetição ad infinitum da mentira resultante até virar verdade, tornando o mistério do mundo inteligível aos ignorantes da maneira desejada:

  • O marxismo cultural domina o mundo
  • Escola sem Partido contra o marxismo cultural
  • Foro de São Paulo
  • 100 milhões de mortos do comunismo
  • Ditaduras de Cuba e Venezuela
  • Planos comunistas de Lula e Dilma
  • Financiamento do comunismo por George Soros
  • Brasil salvo do comunismo pela ditadura militar
  • Não houve ditadura militar no Brasil
  • Necessidade de todos terem armas
  • Todo político é socialista e bandido, menos Bolsonaro
  • Heroísmo da PM
  • Maravilhas do Livre Mercado
  • Horrores das Leis de Incentivo
  • Podridão da Rede Globo
  • Feminazis e gayzismo
  • Aborto e pedofilia
  • Esquerda enfia ideologia de gênero goela abaixo
  • Todo professor é maconheiro
  • A culpa da educação ruim é do construtivismo de Paulo Freire
  • Os livros do MEC e os professores de História mentem
  • Revelação de que o nazismo é de esquerda

Quem discordar de qualquer constructo da doutrina olavista será considerado um herege, e acusado de petista, comunista, bandido e pedófilo pelos seguidores dos replicantes, que reinterpretam cada nova transformação da velha sociedade pela modernidade consumista do capitalismo pós-industrial como uma conspiração orquestrada pela ONU e por George Soros para erotizar as crianças e normalizar a pedofilia na Nova Ordem Mundial a serviço do comunismo.

Alimentando-se de artigos falaciosos produzidos por grupos fascistas americanos, os replicantes da Nova Direita reproduzem suas distorções dos fatos, atacam médicos e psiquiatras que estudam o problema e reportam somente os casos registrados de petistas pedófilos, como os do ex-assessor da Casa Civil da Presidência da República Eduardo Gaievski; do fundador do PT do Acre; e do prefeito de Baldim. Varrem assim para debaixo do tapete milhares de casos registrados de pedófilos nos meios cristãos:

4.500 CASOS DE PEDOFILIA NA IGREJA CATÓLICA

ARCEBISPO DE BOSTON PROTEGEU PADRES PEDÓFILOS

TOP 10 DOS PASTORES PEDÓFILOS E ESTUPRADORES DO BRASIL

PAPA DEBOCHA DE VÍTIMAS DA PEDOFILIA

PAPA ADMITE QUE RECEBE COM FREQUÊNCIA VÍTIMAS DE PADRES PEDÓFILOS

VÍTIMAS DE PADRE PEDÓFILO DENUNCIAM PACTO DE SILÊNCIO NA IGREJA DO CHILE

CASOS DE PASTORES PEDÓFILOS

O CASO DO PADRE PEDÓFILO QUE DESAFIOU O PAPA

OS ESCÂNDALOS DE PEDOFILIA NA IGREJA CATÓLICA

CORONEL MONSTRO PEDÓFILO

MILITAR PRESO POR PEDOFILIA

SARGENTO PRESO POR PEDOFILIA

MILITAR PEDÓFILO PRESO

etc.

Flávio Bolsonaro, que propõe cortar o financiamento público da Parada Gay, publicou uma fake news sobre suposto “P” de pedofilia na sigla LGBTP, no que foi amplamente desmentido pela comunidade LGBT. Quando o padre Júlio Lancelotti ousou criticar Jair Bolsonaro num sermão foi difamado como “padre pedófilo” seguindo orientações dissimuladas do mesmo Flávio Bolsonaro que, depois de posar ao lado de um pedófilo, tentou coibir a divulgação da imagem como se ela fosse falsa.

A erotização das crianças não é promovida por constructos fictícios como “marxismo cultural” e “globalismo comunista”. O fenômeno se enraíza na realidade da sociedade de consumo. A tentativa de colar LGBTs e esquerda à pedofilia é uma clara denegação da realidade da pedofilia, cuja maior incidência se constata na “sagrada” instituição da família, sem falar da pedofilia heterossexual enraizada no Islã (as milhões de noivas-crianças) que remonta ao notório casamento de Maomé com a menina Aisha.

A “pedofilia comunista” é outro constructo produzido pela mesma fábrica de conceitos dissolventes da realidade (“ideologia de gênero”, “esquerda fabiana”, “nazismo de esquerda”, “Inquisição misericordiosa”, etc.) montada no Brasil por Olavo de Carvalho, empregando milhares de replicantes em constantes refutações pela conquista do Santo Graal da Verdadeira Direita Pura: um misto de wishful thinking com revisionismo histórico e propaganda barata do tipo “se colar, colou”. Uma calculada estratégia para arrebanhar as massas despolitizadas para a arapuca doutrinadora da Direita fascistoide.

Inútil desmentir as Fake News da Nova Direita provando por A + B sua desonestidade, como na reportagem venenosa de Terça Livre, que finge dissociar-se da difamação para difamar ainda mais. É da essência do fascismo negar a realidade. Por mais que se os desmascarem, os adeptos de Bolsonaro continuarão a apostar, com a falta de ética e o irracionalismo obsceno que lhes são característicos, na falaciosa denúncia da “pedofilia comunista”. É a estratégia insana do “olavismo cultural” para chegar ao poder.