PANORAMA DO CINEMA – AULA 2 (3)

O cinema impressionista francês – Parte 3

Em 1874, 30 pintores boêmios, avessos ao perfeccionismo da Academia de Belas Artes, tiveram suas pinturas desfocadas, pintadas com aparente desleixo, recusadas pelo Salão Oficial de Paris. Entre outros, Paul Cézanne, Edgar Degas, Claude Monet, Camille Pissarro, Auguste Renoir e Alfred Sisley recorreram ao ateliê do fotógrafo Nadar (Félix Tournachon) para expor seus trabalhos.

Debochando do estilo tosco das pinturas expostas, o crítico Louis Leroy usou o título de uma das obras, Impression soleil levant (Impressão, nascer do sol), de Monet, para qualificar os novos artistas de “impressionistas”. Mal sabia ele que o estilo desprezado cairia rapidamente no gosto do povo, pelo brilhantismo de seu colorido e vivacidade de suas formas, criadas por pinceladas rápidas que captavam a realidade num piscar de olhos.

As formas do mundo podiam ser agora registradas com precisão pelos fotógrafos (e a aliança entre Nadar e os impressionistas é significativa disso), cabendo aos pintores no presente registrar nas telas suas impressões subjetivas experimentadas diante da realidade.

Amantes da natureza, os impressionistas são pródigos em retratar paisagens e cenas bucólicas, bosques e jardins, flores e frutas, regatas e marinhas, festas em feiras e parques, piqueniques no campo. Monet declarou: “Pinto como os pássaros cantam”. Sua casa em Giverny, cercada por um lindo jardim que ele desenhou, é uma miniatura do Paraíso.



Se a fotografia e o primeiro cinema buscaram inicialmente o realismo, como nos filmes rodados na rua dos Irmãos Lumière, logo os cineastas franceses (e os próprios Lumière), imbuíram-se do espírito do impressionismo e procuraram criar em seus filmes experimentais impressões visuais que deformavam o mundo real, empregando cenários excêntricos criados em estúdios, truques adaptados do teatro de magia, técnicas de sobreimpressão de imagens, movimentos de câmera inusitados, tomadas de ângulos bizarras e efeitos óticos que dissolviam, granulavam, alongavam ou engordavam as imagens.


JEAN EPSTEIN

La Chute de la Maison de Usher (A queda da casa de Usher, 1928), de Jean Epstein, inspirado no conto homônimo de Edgar Allan Poe, com assistência de direção do espanhol Luis Buñuel, recorre ao impressionismo e ao expressionismo e para narrar a crise de um casal que vive isolado num castelo assombrado nos confins de um pântano.

Desamparado diante da misteriosa doença da esposa Madeline (Marguerite Gance), o aristocrático pintor Uscher (Jean Debucourt) apela a um amigo (Charles Lamy) para que venha visitá-lo e, se possível, decifrar o enigma do mal que envolve sua propriedade.

O amigo logo testemunha, perplexo, a atmosfera pestilenta que envolve tanto os interiores quanto os arredores da Casa de Usher. A paisagem parece estar envolta em eflúvios malignos: os arbustos secaram, as árvores desfolharam-se, a vegetação apodreceu, o lago turvou-se.

A melancolia sinistra que invadiu os cômodos do castelo – um corredor de cortinas esvoaçantes, livros que despencam lentamente de uma estante, tudo filmado com a câmara a ser arrastar pelo chão, tornando os espaços quase vazio mais amplos e desolados –  evoca um universo encharcado de angustia.

Soma-se ao quadro de mórbida desolação do castelo e seus entornos a interpretação intensa dos atores (os close-ups revelam a loucura de Usher, fixando os esgares de seu rosto e as contorções de suas mãos), como se o mundo exterior nada mais fosse que a projeção do mundo interior dos personagens.

Quando Usher pinta o retrato de Madeline, sob os arranjos musicais estridentes compostos por Rolande de Cande, descobrimos que são as pinceladas do quadro que estão a ferir a modelo, sugando sua força vital e canalizando-a para a pintura, tornando a figura pintada cada vez mais viva, enquanto a jovem fenece.

Tenaz e impulsivamente Madeline é lançada ao limiar da morte pela arte de seu marido, consciente do crime irresistível que comete. No enterro de Madelaine, a câmera caminha ao lado dos personagens e, numa sobreimpressão de imagens, os eucaliptos do bosque fundem-se a imagens de velas que parecem gigantescas. O horror está apenas começando…


https://www.cinematheque.fr/henri/film/48361-la-chute-de-la-maison-usher-jean-epstein-1928/


Tradução da Nota: La Chute de la Maison Usher foi restaurado em 1997 pela Cinémathèque Royale de Belgique (Cinemateca Real da Bélgica) e a Cinémathèque Française (Cinemateca Francesa), em colaboração com a Cineteca del Comune di Bologna (Cinemateca de Bolonha), o Nederlands Filmmuseum (Museu do Cinema da Holanda) e Archivo Nacional de la Imagen – Sodre (Arquivo Nacional da Imagem) de Montevidéu. Em 2013, o filme foi novamente restaurado, agora digitalmente, pela Cinémathèque Française, com música de Gabriel Thibaudeau interpretada pelo grupo Octuor de France.

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