PANORAMA DO CINEMA – AULA 2 (2)

O cinema impressionista francês – Parte 2

Podemos perceber pelas trajetórias de alguns dos primeiros gênios do cinema que no próprio modo de produção cinematográfico persistem contradições insuperáveis entre o cinema ideal e o cinema real, entre a arte e o comércio, entre o sonho e a realidade. A essência do cinema enquanto arte industrial mantém-se, desde os primórdios, pelo sacrifício de sua arte.

A história do cinema é a história do que restou da fantasia dos criadores, depois da destruição física das películas, da imposição de estéticas totalitárias, das mutilações da censura, das exigências dos produtores e dos condicionamentos do público. Como escreveu Gilles Deleuze, “a história do cinema é um martirológio”.

Abel Gance

Um dos primeiros mártires do cinema foi Abel Gance, que conquistou a fama com um pequeno filme cheio de humor e de invenção: La Folie du docteur Tube (A loucura do Dr. Tube, 1915): um cientista inventa um pó branco que muda o modo como as pessoas veem o mundo; aqueles que o aspiram passam a enxergar tudo distorcido. Um dos primeiros cineastas a experimentar a deformação da imagem, Gance usa espelhos deformantes para esticar as imagens, em efeitos que vão se intensificando com o aumento do consumo do pó, até que se atinge o limite do visível, e tudo volta ao normal.



Em 1918, Gance realizou o primeiro grande filme pacifista do cinema, condenando a insanidade da Primeira Guerra: J’accuse (Eu acuso, 1918). O épico metafísico gira em torno de François, casado com Edith, e de Jean, um poeta pacifista que se torna amante dela. Os dois vão lutar lado a lado nas trincheiras da Grande Guerra e suas angústias tornam-se um microcosmo dos horrores da guerra. Na cena final, os fantasmas de todos os mortos no conflito se levantam do cemitério da cidade (Gance utiliza verdadeiros mutilados de guerra para a sequência macabra em que eles avançam sobre a plateia) e acusam os vivos, que se remoem por não terem pensando naqueles que se imolaram inutilmente na guerra. O filme foi um grande sucesso, sendo distribuído nos EUA por David W. Griffith.

Em La Roue (A roda, 1923), Gance desejou transmitir a ideia abstrata da velocidade usando uma história banal de rivalidade amorosa entre um condutor de trem que salvara uma menina de um desastre ferroviário e a criara como filha, e seu próprio filho, quando ambos se revelam apaixonados pela agora bela mulher. Com duração original de nove horas, o drama ficou famoso pela edição inovadora, que atingia o clímax quando o maquinista enlouquecia, abandonando o trem desembestado. Os planos decupados das rodas do trem girando cada vez mais velozmente, em contraste com a calma da passageira que ignora seu destino, são retomados cada vez mais rápidos, até a iminência da catástrofe.

Em Au Secours! (1924), Gance levou a ligação telefônica ao seu paroxismo dramático. Max Linder vive um corajoso que aceita a aposta de que não conseguirá permanecer numa casa supostamente assombrada até a meia-noite; ele é assustado por tigres, esqueletos e fantasmas não muito assustadores, mas o teste torna-se sério quando a namorada, deitada em seu leito acortinado, telefona despreocupadamente para ele. Subitamente irrompe em seu quarto um monstro antropomórfico, espécie de fantasma-da-ópera que vai se aproximando da cortina. Ela papeia com o corajoso enquanto o espantalho se aproxima. Subitamente vê o monstro e grita por socorro, mas o herói não sabe se é um truque para fazê-lo perder a aposta ou se é verdade e deve correr para salvar a namorada, paralisado ainda pelo poder do telefone, que o retém na linha, enquanto o monstro avança inexoravelmente. O corajoso urra desesperado, mas nada pode fazer. Lágrimas jorram dos dois lados do fio. O malvado avança. “Socorro! Socorro!”, a jovem continua a implorar. O telefone liga-a ao namorado, que participa de seu pavor em completa impotência. Ele não ousa desligar o aparelho, enfeitiçado pelos sons que saem do fone, ouvindo a amante ser agarrada pelo monstro, sofrendo à distância uma agonia compartilhada.



Gance acreditava que o cinema poderia recontar a História do mundo, revivendo todas as lendas e todos os mitos que dormitavam nos livros, esquecidos nas bibliotecas. Cheio de entusiasmo pela nova arte, ele escreveu em 1927: “Todas as lendas, toda a mitologia e todos os mitos, todos os fundadores de religiões e mesmo todas as religiões esperam sua ressurreição luminosa, e os heróis acotovelam-se às nossas portas para entrar. O tempo da imagem chegou!”.

Gance realizava o filme pelo qual seria mais lembrado: Napoléon (Napoleão, 1927), onde o grande e louco ator, dramaturgo e escritor Antonin Artaud interpreta o revolucionário Jean-Paul Marat, assassinado por Charlotte Corday (Marguerite Gance, esposa do diretor). Gance experimentou nesse épico as técnicas mais ensandecidas para criar sensações novas de angulação e movimento nos espectadores:  a câmera é jogada no ar numa batalha de bolas de neve entre crianças na qual se destaca o pequeno Napoleão; colocada em balanços, cavalos, trenós e movida por cilindros de ar comprimido; puxada por cordas e arrastada em trilhos; envolvida em espuma, para ser socada; acoplada a um pêndulo. Máquinas foram criadas para fazer jorrar milhares de litros de água numa simulação de tempestade. Gance ainda ousou dividir a tela em nove quadros e, no clímax final, projetar as imagens simultaneamente em três telas, na sua chamada técnica de polyvision (“polivisão”) [1], que antecipou o Cinerama. Esse filme monumental durava originalmente nove horas, mas foi retalhado pelos distribuidores para viabilizar sua comercialização: são conhecidas ao menos 19 versões diferentes de Napoleão.

Gance imaginou o apocalipse em La fin du monde (O fim do mundo, 1931). A destruição da humanidade seria causada por um cometa em rota de colisão com a Terra. Um sábio, ajudado por seu irmão, consegue unificar todas as nações do mundo e a República Universal é proclamada. O cometa, contudo, passa apenas raspando na Terra. Após a orgia de desespero pelo iminente fim do mundo, os homens deliram de alegria e se unem numa nova fraternidade. O filme foi um grande fracasso, e levou o cineasta à ruína.

Un Grand Amour de Beethoven (Um grande amor de Beethoven, 1937) é uma cinebiografia do compositor. Gance utiliza o som dramaticamente, fazendo com que o público perceba juntamente com o músico a perda progressiva de sua audição e os efeitos psicológicos que a mutilação opera no compositor surdo. O filme foi bastante mutilado pelos produtores.

Na iminência da eclosão da Segunda Guerra, Gance teve uma nova visão do horror e realizou uma versão sonora de seu clássico panfleto pacifista de 1918: J’accuse (1938). Ele enviou uma cópia do filme à cineasta Leni Riefenstahl, pedindo-lhe que a entregasse ao seu grande amigo Adolf Hitler, na esperança de que ele não embarcasse na aventura da guerra. Tal era a ingenuidade do grande cineasta do cinema mudo, e que nada de grandioso conseguiu realizar no cinema sonoro.

Em Austerlitz (A batalha de Austerlitz / Com sangue se escreve a história, 1960), Gance reconstruiu em estúdio a batalha de Austerlitz, na qual Napoleão Bonaparte obteve sua maior vitória militar. Mas encenar uma grande batalha em estúdio é sempre uma derrota para o cinema, com as ações violentas assumindo um aspecto teatral inconvincente, como em Alexander Nevsky (1938), de Sergei Eisenstein.

Curiosamente, em 1˚ de outubro de 1964, Gance encontrou-se com Mao Tsé Tung, convidado pelo ditador chinês para organizar a produção do cinema de seu país. Parece que Gance não estava interessado em coordenar o cinema chinês, mas sim em obter financiamento para o projeto com o qual sonhou toda a vida: recriar a odisseia de Cristóvão Colombo num filme ainda mais grandioso que seu Napoleão, e que a seu ver poderia ser uma coprodução internacional entre França, Espanha e Brasil. Sem obter apoio financeiro para esse projeto, Gance o modificou ao longo dos anos até transformá-lo num esboço de minissérie para a TV francesa; nem assim ele conseguiu realizá-lo: dele só restou um roteiro de quase mil páginas.

Nos anos de 1980, o historiador inglês Kewin Brownlow realizou a mais completa reconstituição de Napoléon, com 5 horas. Mais tarde, na França, o cineasta George Mourier foi encarregado pela Cinémathèque Française de uma nova reconstrução e restauração da obra-prima de Gance. Mourier também fez um inventário das invenções de Gance, entre as quais listou a “introvisão” através do pictographe (pictógrafo), inserindo atores em imagens de decorados reduzidos à dimensão de cartões postais; o brachyscope (“braquiscópio”) e a perspective sonore (“perspectiva sonora”).


Filmografia

La Digue (França, 1911). Direção: Abel Gance.

Il y a des pieds au plafond (França, 1912). Direção: Abel Gance.

La Pierre philosophe (França, 1912). Direção: Abel Gance.

Le Masque d’horreur (França, 1912). Direção: Abel Gance.

Le Nègre blanc (França, 1912). Direção: Abel Gance.

La Fleur des ruines (França, 1915). Direção: Abel Gance.

La Folie du docteur Tube (França, 1915, 18’, p&b mudo). Direção: Abel Gance.

L’Énigme de dix heures (França, 1915). Direção: Abel Gance.

L’Héroïsme de Paddy (França, 1915). Direção: Abel Gance.

Strass et Compagnie (França, 1915). Direção: Abel Gance.

Un drame au château d’Acre (França, 1915). Direção: Abel Gance.

Ce que les flots racontent (França, 1916). Direção: Abel Gance.

Fioritures (França, 1916). Direção: Abel Gance.

Le Fou de la falaise (França, 1916). Direção: Abel Gance.

Le Périscope (França, 1916). Direção: Abel Gance.

Les Gaz mortels / Le brouillard sur la ville (França, 1916). Direção: Abel Gance.

Barberousse (França, 1917). Direção: Abel Gance.

La Zone de la mort (França, 1917). Direção: Abel Gance. Filme perdido.

Le Droit à la vie (França, 1917). Direção: Abel Gance.

Mater Dolorosa (França, 1917). Direção: Abel Gance.

Ecce Homo (França, 1918). Filme não concluído. Direção: Abel Gance.

La Dixième Symphonie (França, 1918). Direção: Abel Gance.

J’accuse (França, 1918, p&b, mudo). Direção: Albel Gance.

La Roue (A roda, França, 1923, p&b, mudo). Direção: Abel Gance.

Au Secours! (França, 1923, 23’, p&b, mudo). Direção: Abel Gance.

Napoléon (Napoleão, França, 1927, p&b, mudo). Direção: Abel Gance. Com Paul Amiot, Annabella, Albert Dieudonné, Gina Manès, Edmond Van Daële, Alexandre Koubitzky, Antonin Artaud.

Marines et cristaux (França, 1928, CM, p&b, mudo). Direção: Abel Gance.

La Fin du monde (França, 1931, p&b). Direção: Abel Gance.

Mater Dolorosa (França, 1932, p&b). Direção: Abel Gance.

Le Maître de forges (França, 1933, p&b). Direção: Abel Gance e Fernand Rivers.

La Dame aux camélias (França, 1934, p&b). Direção: Abel Gance e Fernand Rivers.

Poliche (França, 1934, p&b). Direção: Abel Gance.

Jérôme Perreau, héros des barricades (França, 1935, p&b). Direção: Abel Gance.

Le Roman d’un jeune homme pauvre (França, 1935, p&b). Direção: Abel Gance.

Lucrèce Borgia (Lucrécia Bórgia, 1935, 92’, p&b). Direção: Abel Gance. Com Edwige Feuillère, Gabriel Gabrio.

Napoléon Bonaparte (França, 1935, p&b). Direção: Abel Gance.

Un amour de Beethoven (Beethoven, França, 1937, p&b). Direção: Abel Gance. Com Jean-Louis Barrault, Harry Baur.

J’accuse (França, 1938, p&b). Direção: Abel Gance.

Le Voleur de femmes (França, 1938, p&b). Direção: Abel Gance.

Louise (França, 1939, p&b). Direção: Abel Gance.

Paradis perdu (França, 1940, p&b). Direção: Abel Gance.

Vénus aveugle (França, 1941, p&b). Direção: Abel Gance. Com Viviane Romance (Clarisse), Georges Flamant (Madère), Henri Guisol (Ulysse), Jean Aquistapace (Indigo), Lucienne Le Marchand (Gisèle), Roland Pégurier, Jean-Jack Meccati (o admirador), Mary-Lou (Mireille), Marcel Millet (Goutaret), Philippe Grey (o oficial), Gérard Lecomte (o contramestre), Renée Reney (a cantora).

Le Capitaine Fracasse (França, 1943, p&b). Direção: Abel Gance.

Quatorze juillet (França, 1953, p&b, doc). Direção: Abel Gance.

La Tour de Nesle (França, 1955, cor). Direção: Abel Gance. Com Michel Bouquet.

Magirama (França, 1956, cor). Direção: Abel Gance. Série de curta-metragens: Auprès de ma blondeFête foraineBegone Dull CareLe Départ de l’armée d’ItalieChâteaux de nuages.

Austerlitz (A batalha de Austerlitz / Com sangue se escreve a história, Itália / França / Liechtenstein, 1960, 165’, cor). Direção: Abel Gance. Com Rossano Brazzi e Claudia Cardinale.

Cyrano et d’Artagnan (França, 1964, cor). Direção: Abel Gance. Com Jose Ferrer.

Marie Tudor (França, 1966, cor). Direção: Abel Gance. Filme para televisão.

Valmy (França, 1967, cor). Direção: Abel Gance. Filme para televisão terminado por Jean Chérasse.

Bonaparte et la Révolution (França, 1971, cor). Direção: Abel Gance.

Sobre Gance

Abel Gance – Hier et Demain / Et Son Napoleon (França, 2003, doc, p&b e cor). Direção: Nelly Kaplan.

À l’ombre des grands chênes (França, 2005, doc, p&b e cor). Direção: Georges Mourier.


Referências

GANCE, Abel. Prisme. Carnets d’un cinéaste. Paris: Samuel Tastet, 1986.

MOURIER, Georges. Les inventions techniques d’Abel Gance: Mythe ou réalité? Une conférence de Georges Mourier, 25 octobre 2013. Disponível em: https://www.canal-u.tv/video/cinematheque_francaise/les_inventions_techniques_d_abel_gance_mythe_ou_realite_conference_de_georges_mourier.


[1]  Experiência anterior de “polivisão” aparece no encantador pequeno filme In Youth, Beside the Lonely Sea (Na juventude, junto ao mar solitário, 1925, 5′), da American Mutoscope & Biograph Co. De diretor anônimo, inspirado no poema de Thomas Bailey Aldrich, o curta foi editado com precisão na forma de um tríptico, com a tela central enquadrando o personagem que se torna um adulto sonhador que envelhece amargamente, e as laterais dedicadas aos seus sonhos feéricos de juventude. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7KPjaVItjFo.

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