PANORAMA DO CINEMA – AULA 2 (1)

O cinema impressionista francês – Parte 1

Os autocromos dos Irmãos Lumière

Fotografias coloridas já haviam sido feitas na França desde os anos de 1860, mas os processos permaneciam imperfeitos, especialmente com a necessidade de se fazer três tomadas diferentes para um mesmo clichê.

Os irmãos Louis e Auguste Lumière não inventaram apenas o cinematógrafo em 1895 e cujo nome passou a identificar, em todas as línguas, a nova mídia que surgia no mundo: le cinéma, il cinema, el cine, the cinema, das Kino, кино (KINO), o cinema… Eles também inventaram, em 1904, uma técnica complexa batizada de autochrome (autocromo, “a cor por si mesma”), produzindo as mais lindas fotos coloridas até então.

Os netos de Louis Lumière montaram uma exposição dos autocromos do seu célebre avô no Hôtel du Département, em Lyon, no centenário da invenção, em 2004. Eles recordaram que seu avô sempre lhes dizia que para inventar o cinematográfico bastaram alguns meses, mas “me foram precisos sete anos de esforços ininterruptos” para criar o processo do autocromo, e que nesse período “não me dediquei a mais nada, e nunca perdi o ânimo”.  

Milhões de minúsculos grãos de amido de batata (fécula) eram tingidos de verde, laranja e violeta, misturados em certa proporção e espalhados sobre uma chapa de vidro, numa camada muito fina, como um slide, e sobrepostos a uma imagem fotográfica em preto e branco. A seguir a chapa era coberta por uma camada de verniz impermeável, que isolava os grãos dos banhos de processamentos. As placas eram então imersas numa emulsão pancromática, sensível a todas as cores. Ao passar pelos grãos, a luz se decompunha e surgiam imagens de um colorido pastel, suave, com um ligeiro efeito granulado.  

Os clichês positivos transparentes do suporte de vidro produziam imagens muito mais luminosas e naturais que as impressas no suporte de papel opaco. Como nas pinturas pontilhistas de Georges Seurat e Paul Signac era a globalidade do olhar que formava o efeito colorido encantador dessas imagens, que também lembram os quadros impressionistas de Claude Monet e Auguste Renoir.





















O projeto pacifista de Albert Kahn

Em 1907 os Irmãos Lumière apresentaram seu processo de autocromo ao público e as fotos coloriadas amadoras se multiplicaram. O banqueiro milionário e filantropo Albert Kahn (1860-1940) adquiriu o processo e decidiu registrar em imagens coloridas todos os povos do mundo acreditando, em seu idealismo ingênuo, poder assim promover a paz mundial. Em 1909, Kahn enviou fotógrafos e fotógrafas para mais de 50 países.

Sob o serviço de Kahn, os fotógrafos puderam tirar as primeiras fotos coloridas do Vietnã e do Brasil, da Mongólia e da Noruega, de Benin e dos EUA; do Taj Mahal e das Pirâmides do Egito; das mulheres curdas do Norte do Iraque; de trabalhadores, camponeses e artesãos da Europa ocidental, das Américas, da Ásia e da África; de dançarinos do Balé Khmer em Angkor; de caçadores mongóis nas fronteiras da Rússia. Seus autocromos documentaram o fim do Império Otomano e do Império Austro-Húngaro, as últimas vilas celtas na Irlanda e, ironicamente, soldados de vários países se engajando na Primeira Guerra Mundial…

Atingido pela crise de 1929, Kahn teve que abandonar seu projeto, que se manteve por vinte anos sem interrupção. No campo da fotografia, os autocromos que dominaram as duas primeiras décadas do século XX também foram superados nos anos de 1930, quando as películas coloridas foram criadas e preferidas às placas de vidro, mais frágeis para serem manipuladas que o acetato. Kahn morreu em 1940, deixando como legado uma maravilhosa coleção de 72.000 autocromos, preservada pelo Museu Albert Kahn, num subúrbio de Paris.

A coleção era pouco conhecida até que, recentemente, ganhou destaque com a publicação do livro The Dawn of the Color Photograph, de David Okefuna, pela Princeton University Press, e a realização da série de documentários The Wonderful World of Albert Kahn, da BBC. O diretor do Museu Albert Kahn, Gilles Baud-Berthier, vê o banqueiro filatropo como um homem do século XIX, ou talvez mesmo do século XVIII, mas não do século XX, pois seu idealismo seria hoje inconcebível. Mas graças a esse idealismo ingênuo aliado a uma grande fortuna Kahn deixou ao mundo um legado precioso, um acervo espetacular de imagens de inestimável valor histórico e artístico – 72.000 imagens coloridas, 4.000 em preto e branco e 120 horas de filmes documentários.


















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