BERLIN 36

Berlin 36 (2009). Sobre a atleta judia Gretel Bergmann.

Para avaliarmos o efeito deletério da propaganda triunfalista de Olympia (1936-1938), de Leni Riefenstahl, é preciso conhecer os bastidores das Olimpíadas 1936 de Berlim que  não podiam ser registrados com nenhuma das inúmeras câmeras da cineasta. Os 30 cinegrafistas colocados à disposição de Leni eram os seus muitos olhos bem abertos e atentos a todas as provas da competição, mas bem fechados e cegos em relação aos eventos sinistros que se desenrolavam nos bastidores. 

Berlin 36 (2009), de Kaspar Heidelbach, tem o mérito de resgatar para o público contemporâneo uma dessas histórias de bastidores das Olimpíadas 1936 de Berlim que o épico documentário de Leni Riefenstahl varreu para debaixo do tapete. Trata-se do caso da saltadora alemã em altura Gretel Bergmann, campeã europeia excluída da equipe olímpica da Alemanha por ser judia, e que vivia, em 1936, exilada na Inglaterra.

O Comitê Esportivo Americano, dividido entre participar ou não das Olimpíadas de Hitler sob a pressão política de muitos filiados que propunham boicote, decidiu que os EUA só participariam dos Jogos se atletas judeus não fossem excluídos da equipe olímpica alemã – era preciso garantir pelo menos uma aparência de “espírito olímpico”, embora a Rússia soviética estivesse completamente excluída da “Festa dos Povos”.

Para satisfazer a exigência americana sem deixar de servir ao propósito de Hitler de sancionar mundialmente sua teoria racial com a vitória esmagadora da Masterrace nas Olimpíadas, o Ministro dos Esportes assegurou a presença de uma atleta judia na equipe olímpica alemã evitando, porém, que ela ganhasse medalhas. Na última hora, noticiou-se o impedimento de Gretel Bergmann devido a um acidente que ferira sua perna.

Com Gretel Bergmann excluída da competição, cresciam as chances da predileta campeã alemã Dora Ratjen. Mas sob tremendo estresse, a campeã acabou ficando em quarto lugar. Por uma ironia do destino, a medalha de ouro foi conquistada pela húngara Ibolya Csák, que também era judia…

Em 1938, Dora Ratjen estabeleceu um novo recorde mundial feminino para salto em altura, tornando-se campeã europeia, Mas voltando de trem para casa, os passageiros notaram que a atleta estava com a barba por fazer: a campeã feminina alemã era, na verdade, um homem.

Talvez Dora Ratjen estivesse cansado de viver escondendo seu verdadeiro sexo e quisesse, até inconscientemente, acabar com a mentira de sua vida. O escândalo o afastou das competições e no ano seguinte, aos 21 anos de idade, Ratjen assumiu o nome de Heinrich, apelidado de Heinz. Heinz Ratjen morreu no anonimato em 2008, sem nunca ter dado uma entrevista sobre o caso.

Berlin 36, que leva em alemão o subtítulo ‘‘verdadeira história de uma vencedora’’, constitui outra fraude. Começa por mudar o nome de Dora Ratjen para Marie Ketteler, mantendo ao mesmo tempo o nome real de Gretel Bergmann, confundindo propositadamente a realidade com a ficção.

A trama faz de Marie Ketteler uma figura alheia às competições esportivas, uma aldeã tosca que ignoraria as técnicas do esporte, enquanto a verdadeira Dora era uma atleta profissional e campeã nas competições alemãs do salto em altura.

No filme, Dora / Marie é uma colaboradora forçada do governo nazista, aliciada para substituir a atleta judia, sob a ameaça de ser mandada para um hospício caso se recusasse a participar da farsa. Gretel Bergmann, também aliciada através de sua família, que ainda vivia na Alemanha, ameaçada de morte, descobre a verdade ao abrir a porta do banheiro e se deparar com Marie depilando a perna. Marie mostra seu sexo a Gretel e, após o choque, as duas tornam-se amigas.

Segundo o historiador Berno Bahro, da Universidade de Potsdam, a amizade entre Gretel Bergmann e Dora Ratjen nunca existiu, e os nazistas não “inventaram” a atleta “trans” num plano maquiavélico para transformá-la numa arma humana com a qual poderiam vencer a campeã judia.

Dora Ratjen era o nome legítimo do atleta, de sexo masculino, mas criado como menina pelos pais. Sempre temendo os outros, ele viveu isolado, refugiando-se no esporte até obter, fraudulentamente, a melhor marca entre as saltadoras em altura da Alemanha.  Gretel Bergmann era a segunda melhor neste esporte, mas a primeira entre as mulheres.

Bahro assegura que os nazistas ignoravam o segredo da identidade sexual de Ratjen e que eles não o usaram como arma de guerra contra Bergmann. Sua participação nas Olimpíadas 1936 de Berlim teria ocorrido de forma natural, tratando-se da campeã alemã de salto em altura. Seu fiasco no Pódio decepcionou o Führer, mas nada indica que foi proposital como sugerem os abusivos planos e contraplanos finais de Berlin 36.

Entrevistada aos 95 anos por ocasião do lançamento do filme pela revista alemã Der Spiegel, Margaret (Gretel) Bergmann declarou que as atletas se perguntavam durante os treinos por que Dora nunca ficava nua no chuveiro. Todas achavam estranho que uma jovem de dezessete anos ainda fosse tão tímida, mas ninguém imaginava tratar-se de um homem. Gretel só soube da verdade em 1966, ao ler uma reportagem de The Times na sala de espera do dentista. Ria tanto que todos ali pensaram que ela fosse louca.

Gretel Bergmann escreveu então uma carta para Dora Ratjen, mas nunca recebeu uma resposta. As duas não eram amigas, mas ferrenhas rivais. Gretel só queria obter a medalha de ouro, para provar aos alemães e ao mundo que os judeus não eram aquelas pessoas horríveis, gordas, feias e selvagens das caricaturas nazistas. Ela sonhava em mostrar que uma jovem judia podia vencer as alemãs diante de 100.000 pessoas.

Perguntada pela Der Spiegel o que pensava do filme, que modificava a História, mas terminava com um breve depoimento seu, Margaret (Gretel) Bergmann respondeu: “Sehr, sehr gut. Und ich mag beide Happy-Endings, das des Films und das des Lebens.” (“Muito, muito bom. E eu gosto dos dois finais felizes, o do filme e o da vida.”).

Sempre otimista, Gretel não se incomodou com o revisionismo de Berlin 36: a história truncada, que se afastava dos fatos para seguir o politicamente correto atual, fazia do transexual e da judia os representantes das minorias perseguidas, que se dão as mãos numa revanche bem sucedida das vítimas contra a conspiração nazista, simplificando a História e tornando suas contradições inócuas em prol de um melodrama adocicado.

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