O EMBURRECIMENTO DO MUNDO

DUMBING DOWN

Esta entrevista de John Simon realizada por Flávia Sekles é bem antiga, creio que dos anos de 1990. Infelizmente eu a recortei sem a data do Jornal do Brasil – um ótimo jornal que não existe mais. Reproduzo-a aqui, pois ela nada perdeu de sua atualidade e de sua verdade. Simon resume com precisão a nossa época.

A visão profética de John Simon é também atual por reduzir a pó o leit-motiv dos aberrantes discursos de Olavo de Carvalho voltados contra o Brasil e sua cultura atual: acusando intelectuais, professores e jornalistas brasileiros de serem “criminosos que deviam ser presos” por reduzirem “50% dos universitários” ao analfabetismo funcional, excetuando dessa decadência apenas seus discípulos abobados que só conseguem repetir seus bordões anticomunistas como micos amestrados, aquele megalomaníaco egocêntrico finge ignorar que o fenômeno do emburrecimento é universal e se espalha pelo mundo a partir da Matrix norte-americana que ele idolatra.

O filme Idiocracy (Idiocracia, 2006), de Mike Judge, é outro exemplo dessa realidade americana que se globalizou pelo poder de suas mídias e que o filósofo da sarjeta tenta grotescamente localizar e reduzir ao Brasil, quando justamente os seus próprios discípulos são o melhor exemplo de dumbing down que podemos encontrar entre nós, demonstrando toda sua incompetência nos postos que assumiram na desastrosa administração de Jair Bolsonaro.

Como as raízes do dumbing down encontram-se no neocapitalismo da sociedade de consumo, Olavo força uma coincidência absurda entre o consumismo e o comunismo, que ele tenta colar à realidade da globalização capitalista para reviver a putrefata ideologia da Guerra-Fria, em completa dissociação cognitiva com o mundo real. Dentro de sua bolha fétida, Olavo vende as mais loucas fantasias de “explicação do mundo” para tontos ressentidos que delas necessitam para legitimar suas próprias alucinações.

NINGUÉM APRENDE MAIS NADA

Flávia Sekles

Jornal do Brasil

Aos 72 anos, o crítico americano John Simon, colaborador da revista New York, continua a escrever sobre teatro e cinema, mas sem o mesmo prazer de outros tempos. Um imigrante da Iugoslávia formado em Harvard, ele é o autor do texto introdutório da polêmica antologia Dumbing down: the strip-mining of american culture. O livro recém-publicado reúne ensaios onde vários autores lamentam e denunciam os padrões cada vez mais baixos que predominam na cultura americana (o dumb do título quer dizer estúpido). Simon é um dos que reclamam de uma sociedade cada vez mais banal em todos os aspectos: culturais, políticos, religiosos. “Eu tenho uma visão do cidadão de hoje preso entre a tela do computador e da televisão. Ele está num banco giratório e só se movimenta entre um e outro. As telas são de fato espelhos nos quais esse cidadão sem sorte vê ele mesmo se diminuindo ao infinito”, escreve, amargo e saudosista de um passado no qual havia mercado para seus ensaios publicados em forma de livro. “Hoje sou mais conhecido, mas não encontro nenhuma editora interessada”, diz. “Tudo se orienta ao comercial, e não ao cultural”. Segundo Simon, trata-se de um fenômeno internacional. Sua faxineira em Nova York foi uma professora no Brasil, mas não conhece Villa-Lobos e não acredita que ele possa ter sido um compositor brasileiro.

O livro Dumbing down argumenta que, em todas as áreas da vida cultural – educação, política, jornalismo, literatura, cinema, religião – se pode observar uma decadência. O senhor acredita que as coisas estão realmente tão ruins assim?

Acredito. Ninguém aprende mais nada. Na escola ou em casa. As razões são muitas, mas as duas maiores são a televisão e o computador. Não apenas crianças adoram brincar de computador e ver televisão, mas são incentivadas a fazê-lo pela escola e pelos pais. Com todos os demônios, o computador, a Internet e a televisão, com todos os seus programas imbecis, têm suas utilidades, mas não são ferramentas para o aprendizado como as escolas e professores gostariam que fossem.

O computador e a televisão nunca ensinam?

Sim, tanto o computador quanto a televisão podem ser ferramentas de ensino, mas não é para isso que são usados e sim para o entretenimento. De fato, a grande maioria das pessoas usa a televisão e o computador para evitar aprender. Preenchem todo o tempo de uma pessoa com besteiras. É muito fácil ver o tempo passar na frente de uma TV.

Exatamente o que as pessoas estão deixando de aprender?

O mais sério, em minha opinião, é a linguagem. Não importa se é o inglês, português ou chinês. A linguagem é a ferramenta que nós temos para nos transformar em seres civilizados. Tudo vem da linguagem, pela linguagem e através da linguagem. Quem não tem uma linguagem não tem nada. É um animal ou pior. Nós aprendemos através da linguagem e pensamos através da linguagem. Sem ela, sem palavras, não podemo pensar, interagir com as outras pessoas, expressar o amor. É com as palavras que deixamos nossa marca no mundo. Nas escolas, hoje, o professor de inglês, ou português, ensina a língua, mas o professor de ciência e matemática não se incomoda se o aluno comete erros, contanto que saiba as suas matérias. Antigamente, as escolas ensinavam a língua – desde a caligrafia e a gramática – muito melhor. Hoje, para que falar bem ou escrever bem, quando o computador verifica a ortografia?

O senhor vê essa decadência em todos os lugares?

Sim, desde o garçom que me serve no restaurante ao eletricista que vem consertar alguma coisa no meu apartamento. Em qualquer nível, os trabalhadores não sabem mais dar aos clientes informações corretas, ou exercer sua função. Isso acontece por duas razões. Ou o trabalhador não aprendeu direito, ou se acha bom demais para aquela função que exerce. Hoje todos acreditam que são bons demais para fazer aquilo que fazem. Acham que deveriam estar fazendo o trabalho do chefe. O professor quer ser diretor da escola, o condutor do trem quer sentar no escritório. Todos querem estar no mínimo dois passos acima na escala de promoções quando não desempenham bem suas tarefas. O resultado é uma força de trabalho que despreza o que faz e o faz mal.

Isso não é resultado da economia em que vivemos? Todos querem ganhar mais e para ganhar mais têm que avançar.

Infelizmente, o dinheiro hoje é a prova do valor de cada pessoa. Quem ganha bem é importante: quem ganha pouco não é. Nessa sociedade em que vivemos os trabalhos mais intelectuais e mais difíceis recebem menos do que muitas profissões mais vulgares. Quem escreve a coluna de fofoca para um jornal geralmente ganha mais do que quem escreve críticas de literatura e música. Isso nos jornais que ainda fazem esse tipo de crítica. Antigamente, o The New York Times era assim. Hoje, tem páginas e páginas sobre a horrenda música pop e seus músicos.

Mas jornais e a televisão dão ao público o que ele quer…

O que é um problema. Hoje as escolas têm que ensinar a seus alunos o que eles querem aprender. Como se eles soubessem. Os leitores têm que ler o que querem, como se eles, necessariamente, soubessem o que é importante. Nós partimos do pressuposto de que o cliente está sempre certo. Isso funciona em lojas de sapato, mas não em jornais e escolas, que vendem educação. As pessoas que não são bem educadas não têm como saber o que é bom ou ruim para elas, até serem educadas. Mas nós deixamos os ignorantes e os vulgares decidir o que devem ler ou aprender.

Como chegamos a isso?

Graças à permissividade. As escolas não podem mais reprovar alunos, por razões políticas, porque os que mais precisam ser reprovados são negros ou hispanos, que precisam de toda a ajuda possível. Os professores têm medo dos alunos, que vão à escola armados. Tudo é possível.

O que o senhor acha de ebonies: o inglês-negro? Algumas escolas querem integrar o ebonies no currículo para ajudar o negro a aprender o inglês padrão.

É uma idiotice profunda; é ridículo. Como esperar que crianças que não são suficientemente inteligentes para falar uma língua bem falem duas línguas? Foi inventado para fazer alunos de minorias que são incompetentes parecerem competentes, sem ter que ensiná-los a falar direito. É o caminho mais fácil e politicamente correto.

O senhor não vê uma nova genialidade no mundo hoje? Bill Gates, o dono da Microsoft, não é um gênio?

Sim, ele é um gênio de alguma espécie. Mas gênio é um termo relativo e não absoluto. Napoleão também era um gênio, e um homem terrível ao mesmo tempo. É seguro dizer que Leonardo da Vinci foi um gênio, mas não é tão seguro dizer que Phillip Glass é um gênio.

Por que não? Ele é um compositor bem-sucedido.

Eu acho sua música horrorosa, mas tem gente que gosta. Tudo hoje é simplificado. A música nova é simples porque se repete. A nova pintura é simples, porque artistas não precisam se preocupar com a representação, jogam tinta ou cospem na tela. Tudo é abstrato. Artistas colocam uma imagem numa garrafa de sua urina e chamam isso de arte. Quando tudo vira arte, é muito mais fácil ser um artista.

Não há nada de novo de que o senhor goste

É claro. Pela lei da média, tem que haver algo bom em algum lugar. A questão é: quanto? Se tem um filme bom para cada mil, não é tão bom como se tivéssemos um bom filme em cada doze. Apontar aquele trabalho brilhante é bom, mas não nos diz nada sobre o estado geral da cultura. O estado da cultura não pode ser medido pelo gênio único, mas pela média. Até na TV algumas coisas individuais têm valor, mas a média é ruim.

E na música? Esse século trouxe diversos novos estilos, desde o jazz ao rock, bastante inovadores.

Esse é o terrível culto do novo, responsável por muito do que é ruim na cultura hoje. As pessoas confundem o que é novo com aquilo que é bom. Algumas coisas novas são realmente boas, mas muitas delas são ruins. Ser diferente não é necessariamente ser melhor, e nós não compreendemos isso na moda, ou na música, ou na atitude do ser humano. Eu gosto de jazz, eu gosto de música de teatro, trilhas sonoras. Mas há muita música popular feita hoje por indivíduos que não entendem nada de tradição, folclore, ou história, que me deixa com o estômago revirado.

Além de todo o lixo, a Internet tem também museus, literatura, música, história. Mas o senhor a descarta como um novo meio para a tri­vialidade?

Literatura também tem na biblioteca, mas quantas pessoas leem? É verdade que a Internet pode ser uma ferramenta de ensino e enriquecimento cultural, mas a realidade de nossa cultura é que o mais baixo denominador é que é popular. Editoras querem publicar apenas livros que vendem. Redes de TV querem produzir apenas programas com apelo comercial.

  1. Parabéns por tirar do fundo do baú esta entrevista. Como professor, me tocam amargamente as considerações do entrevistado, embora não concorde com algumas delas. Remete um pouco ao crítico George Steiner, no seu Lições dos Mestres. De fato, prevalecem concepções negativas com relação ao ato de ensinar, em certas visões pedagógicas; o que, consequentemente,leva ao “não aprendizado”, resultando no emburrecimento do mundo.

    PS: Desculpe por mudar de assunto, mas, pesquisando sobre questões relativas ao bolsonarismo, polarização política, ódio nas redes etc. acabei me deparando com sites nitidamente nazistas e antissemitas, ainda que seu layout não demonstre; só quando começamos a ler as postagens. O que se pode fazer quanto a isso?

    • Caro professor Borges, poderia enviar-me o material que mencionou? Sou o relator para o Brasil do Relatório Mundial sobre o Antissemitismo da Universidade de Tel Aviv.

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