ALGO DE SINISTRO OCORRE NAS LIVRARIAS

Cenário de livro numa montagem da Ópera de Bregenz, maior palco aquático do mundo.

Ópera de Bregenz, maior palco aquático do mundo. Reprodução da Internet.

 

Alguém mais já se deu conta de que ler livros hoje no Brasil é um privilégio dos ricos e milionários – que raramente leem livros? Quem pode adquirir agora na Estante Virtual o livrinho Visita a Israel: Crônicas, reunindo entrevistas e reportagens com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, com 80 páginas, por R$305,57?

Quem há de adquirir os Contos Completos de Flannery O’Connor, vendidos na Estante Virtual por R$450,00 e R$750,00 ou na Amazon por R$480,00, R$605,00 e  R$750,00?

Estuda a arte cinematográfica e precisa comprar o livro clássico sobre o cinema da República de Weimar, o De Caligari a Hitler, de Siegfried Kracauer? Encontrará apenas duas ofertas na Estante Virtual, uma por R$299,99 e outra por R$726,73.

Aqueles meus livros que ainda podem ser encontrados nas livrarias físicas brasileiras a preços normais, atingem um preço louco nos EUA: Todos os corpos de Pasolini, por exemplo, pode ser comprado na Amazon brasileira a R$59,99, mas na Amazon americana seu preço é US$175,15, ou seja, R$652,27.

Se quiser adquirir o livro nem tão essencial Filosofia política contemporânea, de Will Kymlicka, publicado pela Martins Fontes, em 2006, encontrará um exemplar pela bagatela de R$700,00, além de outras duas ofertas de R$799,00, na Estante Virtual, ou ao ao preço de R$950,00 no Mercado Livre.

Um exemplar único de A fragilidade da bondade, de Martha C. Nussbaum, é vendido na Estante Virtual a R$ 989,00.

Quer ler as Cartas a Lucílio na única edição completa em língua portuguesa, a da Fundação Calouste Gulbenkian, em capa dura? Há dois exemplares: um por R$499,00 e outro por R$1.289,00.

Há duas ofertas bastante inacessíveis na Estante Virtual do estudo Religião e declínio da magia, de Keith Thomas, editado pela Companhia das Letras em 1991, uma por R$830,00, e outra por R$1.500,00.

O único exemplar à venda da edição espanhola de Bajo la Mole, pequeno livro de Antonio Gramsci com 144 páginas, só pode ser adquirido na Amazon a R$1.816,00.

O livro em espanhol El destino de una revolución, de Victor Serge, editado pela Amelia Romero Editora, em 2011, com 356 páginas, atingiu o preço de R$ 2.592,00.

Um estudo mais alentado, de 434 páginas, intitulado La revuelta contra la civilización: D.H. Lawrence y el romanticismo antimoderno, aproveita-se da circunstância de ser a única oferta da Amazon e cobra o preço de R$ 3.108,00. Não se trata de uma obra antiga e rara, esgotada há um século, mas de um livro publicado em 2001.

Assim também um breve ensaio de 120 páginas de David Rieff traduzido para o espanhol numa edição de 2012, Contra la memoria, cujo único exemplar restante na Amazon é oferecido pelo livreiro que o detém pelo preço astronômico de R$ R$ 4.883,87. Quem há de pagar tanto para possuir um livro de papel?

Se nos meus tempos de estudante, sempre sem dinheiro, eu saía dos sebos carregando pencas de livros ótimos, comprados a preço de banana, hoje os livros velhos atingem valores astronômicos, estratosféricos. A que se deve essa sandice? O fenômeno possui causas múltiplas e, mesmo sem ter feito qualquer estudo aprofundado a respeito, adianto aqui algumas hipóteses:

(1) O acelerado declínio da cultura humanista faz com que muitas obras clássicas, importantes, que todo estudante há algumas décadas era obrigado a conhecer, não sejam mais reeditadas em papel; os exemplares das velhas edições remanescentes no mercado tornam-se raridades;

(2) Ao reunir milhares de sebos num só espaço virtual, a Internet revelou não só aos leitores interessados, mas também aos livreiros ávidos de vendas, a existência em todo o mundo de poucos exemplares de determinada obra (quando não de um único exemplar), o que estimulou seus possuidores, desinteressados nesses objetos de desejo dos pesquisadores e colecionadores, a fixar-lhes preços escorchantes;

(3) A crescente baixa do número de leitores de livros em papel faz com que as edições tenham uma tiragem menor, e quando a primeira tiragem se esgota, não há mais tiragens da obra;

(4) Assim como as livrarias de rua foram suplantadas pelas livrarias virtuais, as pequenas editoras empenhadas estão desaparecendo (o custo das edições em papel tornou-se impraticável), e seus catálogos não são assumidos pelas grandes editoras comerciais;

(5) Muitos livros passam a ter somente versões digitais (e-books) para tablets, que às vezes também apresentam preços bastante elevados;

(6) A imensa quantidade de livros supérfluos, escritos por “famosos” da TV, manuais de autoajuda, best-sellers eróticos, etc. faz com que os livros importantes desapareçam das prateleiras das livrarias físicas e virtuais. Perdendo a visibilidade, não são mais procurados pelos leitores nem mais reeditados, tornando-se raridades em sebos, com preços exorbitantes.

Ainda não é o fim do livro, mas o fim das boas bibliotecas particulares, compostas de obras que os leitores cultos gostavam de ter para o estudo e o prazer da leitura e que só venderiam em último caso. Os bons livros desaparecem do mercado, e os poucos exemplares disponíveis em sebos e antiquários passam a custar tanto que num futuro próximo apenas os nababos poderão ostentar uma seleta biblioteca particular.

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