UMA VELHA POLÊMICA

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FOLHA DE S. PAULO

Jornal de Resenhas, São Paulo, Sábado, 11 de Dezembro de 1999

Defesa do filme mudo

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs1112199910.htm

LÚCIA NAGIB

 

FOLHA DE S. PAULO

Jornal de Resenhas, São Paulo, Sábado, 08 de Janeiro de 2000

RÉPLICA

Chavões da crítica

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs0801200011.htm

LUIZ NAZARIO

Gostaria de apontar algumas incorreções da resenha de meu livro As Sombras Móveis, publicada neste Jornal de Resenhas (11/12/99). Lúcia Nagib aí afirma que o livro propõe provar a tese de que existem motivos para se reanimar uma velha discussão sobre a defesa do cinema silencioso. Falso. O livro não pretende provar tese alguma: ele é, como adverte a “Nota do Autor”, uma coletânea de “ensaios”.

O livro tampouco se destina a um “leitor especializado”, pois, segundo a própria resenha, a “Nota” parece coerente com a “rapidez impressionista da crítica de imprensa”, o capítulo inicial é um “apanhado vertiginoso das primeiras experiências cinematográficas”, e o conjunto de ensaios compõe “um panorama rápido dos primeiros tempos do cinema”. Um livro de 334 páginas, que se lê a tal velocidade, destina-se a um público amplo. E se o “leitor especializado” vê-se obrigado a fazer “garimpagem das novidades em meio a páginas e páginas de lugares-comuns” ou tornar-se “leitor paciente que saiba extrair (do livro) as boas ideias”, esse minerador de novidades e ideias preciosas poderia ter poupado seu tempo se fosse capaz de perceber, como Paulo Roberto Pires (“Monstros e Vencidos”, in “Cinema”, nº 18), que minha defesa da “atualidade do cinema mudo” não passa de uma ironia.

Ao analisar “a parte mais controversa do livro”, o ensaio “Contra o Cinema Conceitual”, que se inicia à pág. 89, a resenhista imagina de início uma crítica a Bazin, e só percebe tratar-se de uma crítica a Eisenstein ao chegar à pág. 117, atribuindo, então, a mim, o desconhecimento da teoria desse cineasta, citada, contudo, desde o título, à pág. 89 por suposto, declaradamente contra a teoria do “cinema conceitual”, teoria esta defendida, entre 1927 e 1931, por – quem diria! – Eisenstein.

No mesmo parágrafo, a resenhista atribui-me a negação da “interface do cinema com a literatura, a música, a pintura, o teatro e, por que não, a filosofia”, a negação, portanto, “do cinema como um todo”, afirmando que faço a “mais primária defesa do cinema puro”. Desafio a resenhista a provar essas afirmações. Tampouco aceito a afirmação de que o cinema expressionista alemão é “o preferido de Nazário”. Meu gosto não é tão limitado. E como poderia eu desconhecer as origens do expressionismo, se meu ensaio “A Revolta Expressionista” vem, de acordo com a resenhista, “acrescentar informações preciosas” aos dois clássicos estudos de Kracauer e Eisner?

A resenhista afirma ainda que meu ensaio “O Caso Fritz Lang”, sobre esse cineasta, “acaba se reduzindo às suas prováveis inclinações nazistas, quando a própria história do cinema já provou que os filmes foram muito maiores do que as supostas opções políticas do diretor”. Que afirmação é essa? A história do cinema “prova” alguma coisa? Não é essa história uma estrutura dinâmica, que se refaz sem cessar por meio da historiografia? E, então, como decidir levianamente que a obra de um autor é “maior” que suas “supostas opções políticas”, sem proceder ao exame dessas “opções” no contexto da obra, verificando se não configuram uma ideologia, sendo esta inseparável da obra?

Prosseguindo no mesmo tom leviano, a resenhista sugere que o ensaio “se deixa fascinar pelas descobertas, já nem tão recentes, das ligações do grande cineasta com o nazismo”, inscrevendo-me na “moda atual” de destruir o mito de Lang, oferecendo como exemplo Patrick McGilligan (que não cito). Ora, escrevi a maior parte do ensaio antes da descoberta do passaporte de Lang por Gösta Werner, que colocou em questão o episódio de sua fuga da Alemanha na mesma noite em que foi convidado por Goebbels a dirigir o cinema nazista. A descoberta confirmou minha análise, que foi então completada com os novos dados; ofereci uma primeira versão dela a Amir Labaki, como subsídio à reportagem “Diretor Voltou à Alemanha Nazista Após ‘Fuga’” (cf. Folha, 29/09/90). Um resumo dessa análise foi então publicado na Set, sob o título “A Sombra Móvel”, que adotei para o livro, no plural.

Quanto a The Nature of the Beast, se o livro saiu antes do meu ensaio, foi provavelmente escrito depois dele; e em nada me influenciou: até hoje não tive tempo de ler esse catatau – por que deveria citá-lo? Acreditar que um autor brasileiro esteja sempre a reboque das modas americanas ou europeias é ignorar a dinâmica de nosso mercado editorial. E afirmar que meu ensaio reduz a obra de Lang às suas prováveis inclinações nazistas é reduzir meu ensaio a isso, nada percebendo da complexidade das questões nele abordadas.

Parece-me, enfim, que é a resenhista quem opera um reducionismo, desprezando a historiografia para reiterar os chavões da crítica, que santifica um artista consagrado suprimindo suas contradições.

Luiz Nazario é professor de teoria e história do cinema na Universidade Federal de Minas Gerais e autor de As Sombras Móveis (Ed. da UFMG).

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