O OURO DOS TOLOS

Não é por acaso que a reedição do livro O imbecil coletivo (1996) de  Olavo de Carvalho se encontra na lista dos best-sellers do Brasil de Bolsonaro. Trata-se de uma coletânea de artigos jornalísticos do dito “filósofo” que ganhou fama nas redes sociais por seu anticomunismo delirante (sua teoria da conspiração “Foro de São Paulo” arrebatou os internautas brasileiros) e sua boca imunda (os mais sujos palavrões jorram com facilidade de sua mente obcecada por imagens grotescas de uma sexualidade repulsiva).

Olavo de Carvalho começou sua carreira de jornalista na imprensa marrom (no tabloide “Notícias Populares”) e foi militante no grupo Ação Libertadora Nacional, uma dissidência armada do Partido Comunista Brasileiro. Durante a ditadura militar, essa “ala marighelista do PCB” (1) assim se definia nas palavras de seu líder Carlos Marighela: “Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução. O centralismo democrático não se aplica a Organizações revolucionárias como a nossa.” (2)

Durante a ditadura, o hoje fanático anticomunista Olavo participou como voluntário, com outros dois fanáticos militantes comunistas, de uma ação “revolucionária”, sequestrando, para o “interrogatório” de seus chefes, um jornalista que o grupo armado suspeitava de ter uma nova amante que seria agente do DOPS – suspeita que jamais teria sido comprovada, mas que selou a carreira do jornalista caído em desgraça nas redações “dominadas pela esquerda”. Mais tarde, Olavo viu sua vítima mendigando esfarrapado, e dele se afastou repugnado. Refletindo sobre seus atos infames, com a consciência pesada por seu crime, Olavo deixou seu grupo armado.

Logo Olavo adaptou suas convicções marxistas ao seu misticismo visceral, tornando-se astrólogo profissional e professor de astrologia de uma anunciada (em 1989) Escola Superior de Astrologia.  Converteu-se também ao Islamismo e teve uma monografia sobre Maomé premiada na Arábia Saudita. Posteriormente, abraçou um fundamentalismo cristão paradoxal, capaz de acolher o ódio, a inveja, a difamação e todos os vícios em nome de Jesus. Sempre revolucionário Olavo continuou atacando o sistema capitalista (renomeado de globalista) e considerando Stalin “um gênio”, “o maior estrategista da História humana”, o “criador do Nazismo”, segundo a teoria revisionista do historiador austríaco Ernst Topitsch (3), que ele encampa, deslocando Hitler para o segundo plano.

Embebido na leitura de Marx, à qual dedicou os oito primeiros anos de sua vida intelectual; e de toda a literatura marxista, leninista e stalinista, que devorou nos cinquenta anos seguintes, Olavo aprendeu as técnicas mais eficazes da propaganda comunista: a distorção dos fatos, as falácias argumentativas, os reducionismos radicais, os silogismos sofísticos, as generalizações absurdas (“Eles…”, “Vocês…”), o uso de meias-verdades, o assassinato de reputações.

Olavo aprecia especialmente o stalinista húngaro György Lukács, considerando sua obra História e consciência de classe (1923) a base da estratégia de Antonio Gramsci e da Escola de Frankfurt e, portanto, do novo “marxismo cultural”, que atacaria os fundamentos cristãos da sociedade. Os ataques comunistas seriam desferidos pelos métodos mais diversos e surpreendentes: psicopatia social, estímulo à criminalidade, decadência moral, degenerescência estética, difusão da homossexualidade, casamento gay, legalização da pedofilia, adoção da zoofilia, defesa do incesto, analfabetismo funcional, tráfico de drogas, etc.

Substituindo a luta de classes do proletariado contra a burguesia pela luta cultural das minorias contra as maiorias, a nova revolução comunista seria ainda sustentada por “metacapitalistas”, geralmente de ascendência judaica, como os “megabilionários” mais citados pela teoria da conspiração “Grupo Bilderberg”: os Rothschild, George Soros, Mark Zuckerberg… É notável a semelhança (ainda que devidamente adaptada ao mundo pós-Auschwitz) entre a teoria do “marxismo cultural” e as teses defendidas nos mais famosos panfletos antissemitas anteriores ao nazismo, como os anônimos Protocolos dos sábios de Sião, forjados pela Polícia Czarista, e O judeu internacional, de Henry Ford, livros de cabeceira de Hitler, que neles se inspirou para criar sua teoria do “bolchevismo cultural”.

Na aurora do nazismo, Klaus Mann descreveu no ensaio Cultura e
bolchevismo cultural” como esta grotesca expressão tornou-se “a arma da qual se servem as potências hoje reinantes na Alemanha para sufocar toda produção intelectual que não se coloca ao serviço de suas tendências políticas.” (4) Através do combate ao “bolchevismo cultural”, esse conceito-espantalho deliberadamente impreciso para abarcar tudo o que os nazistas não podiam entender e não suportavam, a rica cultura de Weimar foi perseguida, censurada e destruída.

O combate ao “bolchevismo cultural” começou com a repressão às organizações humanitárias (Liga dos Direitos do Homem, Cruz Vermelha, associações pacifistas), prosseguiu com o fechamento das escolas livres (a Escola Karl Marx, de alto nível pedagógico; a Escola Heinrich Zille,  a Escola Wickersdorf e a Escola de Odenwald, baseadas na tolerância e no pacifismo; e mesmo a mais conservadora Escola de Salem) e chegou à perseguição dos maiores cientistas, artistas e escritores alemães – uma lista enorme encabeçada por Albert Einstein, Thomas Mann, Bertolt Brecht, Fritz Lang.

Klaus Mann escreveu seu lúcido ensaio em abril de 1933, ou seja, pouco antes da Bücherverbrennung (Queima de Livros), em manifestações organizadas pelo Partido Nazista nas principais cidades alemãs, entre 10 de maio e 21 de junho de 1933, e nas quais as obras dos mais ilustres autores judeus, marxistas e pacifistas foram lançadas às fogueiras armadas por estudantes entusiasmados e jovens hitleristas. Foi o triunfo do combate ao “bolchevismo cultural”, que prosseguiria, contudo, até o fim do regime.

Como se vê, o novo conceito-espantalho de “marxismo cultural” nada tem de novo: é uma reciclagem pura e simples do velho conceito-espantalho nazista do “bolchevismo cultural”, perseguindo inclusive os mesmos autores judeus, marxistas e pacifistas da Escola de Frankfurt (agora mortos), que tiveram que fugir da Alemanha em 1933 para não serem enviados a campos de concentração e de extermínio. O combate contra o “marxismo cultural” na atualidade promete consequências equiparáveis, ainda que devidamente adaptadas à nova era digital.

Leitor voraz, mas incapaz de submeter-se a exames e concursos, tendo abandonado a escola com seu curso primário incompleto, o autodidata Olavo de Carvalho usou e abusou da desinformação para tentar demolir, junto ao seu público cativo, o sistema educacional, cultural e político (a superestrutura no sentido marxista) do país que despreza profundamente pelo ressentimento de jamais ter tido aí o seu alegado altíssimo QI reconhecido por seus pares. Quase não há vídeo de Olavo no YouTube em que ele não descarregue seu ódio virulento ao Brasil e aos brasileiros.

Olavo desenvolveu uma complexa teoria da conspiração na qual todo aquele que se desviar do que ele estabelece como verdade é um esquerdista perigoso, psicopata, canalha e genocida (ele associa todo e qualquer “esquerdista” aos 100 milhões de mortos do comunismo, segundo o Livro Negro do Comunismo) e defende que sejam varridos do mapa e substituídos pelos seus alunos, alguns dos quais ele considera verdadeiros gênios.

Sem público algum nos EUA, onde mora há anos, Olavo aliciou na Internet os brasileiros mais recalcados e incultos para seus cursos de “filosofia”, criando um exército de seguidores fanáticos apavorados pela modernidade, percebida por eles como um “avanço irrefreável do comunismo”. No caos lamentável do mundo dominado pelos vermelhos, eles se sentem guiados com mão de ferro e língua de fogo pelo “querido professor”, “o maior intelectual do Brasil”, “aquele que eu queria ter como avô”, “a pessoa que mais amo depois do meu pai”, etc.

Com seus artigos de jornal, seu site Mídia sem Máscara, seus programas radiofônicos “True Outspeak” (2006-2010), seus blogs e seus cursos de filosofia no YouTube, Olavo conquistou uma massa de incultos, recalcados, sociopatas, frustrados, reprimidos, irracionalistas, perturbados mentais e revoltados on line. Eficaz na empreitada foi o uso dos palavrões como alegada estratégia política para conquistar a turba inculta para sua revolução cultural, jargões que ele afirmava não serem sua língua pessoal, mas que suas imundas postagens pessoais no Facebook desmentem largamente. Azeitada pelos palavrões e pelas injúrias, Olavo inoculava nessa massa perturbada sua doutrina iniciática, onde a verdade é estabelecida única e exclusivamente pelo Mestre iniciador.

Ao longo dos anos, o autor conseguiu distorcer a realidade na mente de milhares de leitores e internautas, assassinando centenas de reputações e formando replicantes fanatizados em seu “conservadorismo”, que se acreditam “iluminados” pelos seus ensinamentos dogmáticos. Sua filosofia fraudulenta, que ele próprio resumiu com precisão na frase “Eu vim para foder com tudo”, gerou o mantra neofascista “Olavo tem razão”, uma patologia social que ganhou a juventude inculta e uma parcela da sociedade brasileira, caracteristicamente elitista e socialmente apática.

Foi esse “olavismo cultural” que levou ao poder o diminuído mental Jair Bolsonaro, que tem Olavo de Carvalho por seu mentor intelectual: durante a campanha presidencial, o então candidato da extrema-direita ostentava a lombada “IDIOTA” de outra coletânea jornalística de Olavo na mesa de seu Bunker, ao lado da Bíblia e das memórias de Winston Churchill…

Ao eleger-se Presidente da República, Bolsonaro teria assediado Olavo para ser o Ministro da Educação ou da Cultura de seu governo. Olavo teria recusado por não suportar a burocracia e não querer voltar ao Brasil. Mas indicou dois de seus discípulos mais assustadores (que aceitaram a indicação) para os cargos de Ministro da Educação e de Ministro das Relações Exteriores, e pleiteou para si próprio o cômodo posto de embaixador brasileiro nos EUA, alegando que poderia ali “conseguir dinheiro para o Brasil”, país cuja imagem ele não cessa de arrastar na lama.

Apenas um exemplo: num seminário organizado por estudantes da Universidade Harvard, Olavo afirmou que “80% dos formandos das universidades brasileiras são analfabetos funcionais”. Confrontado por uma estudante da platéia, que acompanhava essas pesquisas e jamais vira tal número, querendo saber a fonte, Olavo respondeu que a mostraria assim que a achasse. Nunca a achou. Mais tarde, confrontado pelo blogueiro Clayson, que detalhou a real estatística de 4% de universitários analfabetos funcionais, Olavo não reconheceu seu erro absurdo de leitura (digno de um analfabeto funcional). Em recente entrevista a Leda Nagle, refez sua fantasia afirmando que “as escolas brasileiras produzem 50% de analfabetos funcionais por ano”. Para Olavo, toda mentira é válida para denegrir a imagem do Brasil.

O imbecil coletivo (1996) é uma salada tóxica de raciocínios turvos e dogmáticos sobre política, cultura, psicologia, religião, comportamento e, segundo seu autor, integra, com A nova era e a revolução cultural (1994) e O jardim das aflições (1995), uma trilogia filosófica que situaria a cultura brasileira contemporânea no quadro maior da história das ideias no Ocidente desde Epicuro até Chaim Perelman e, “que eu saiba”, afirma com a modéstia de um Lula, “ninguém fez antes um esforço de pensar o Brasil nessa escala. Meus únicos antecessores parecem ter sido Darcy Ribeiro, Mário Vieira de Mello e Gilberto Freyre.” (5)

Separando-se desses autores pelo alcance maior de sua empreitada, Olavo se gaba ainda mais: “Estou, portanto, sozinho na jogada, e posso alegar em meu favor o temível mérito da originalidade.” (6) Ao ler essa avaliação da obra pelo seu autor, um leitor não imbecilizado já se sente bastante enojado. Mas é só o começo. Ainda restam 400 páginas de argumentações doentias para revirar o estômago de qualquer pessoa culta.

NOTAS

(1) CARVALHO, Olavo de. O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras. Rio de Janeiro: Editora Record, 2018, p. 291.

(2) MARIGHELLA, Carlos. “Sobre a organização dos revolucionários, agosto de 1969”, in O homem por trás do mito. São Paulo: Editora UNESP, 1999, pp. 551-553. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/08/sobre.htm.
Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

(3) TOPISCH, Ernst. Stalin’s War: a radical new theory of the origins of the second war. London: Fourth Estate, 1987. Versão inglesa de Arthur Taylor da primeira edição alemã de 1985.

(4) MANN, Klaus. “Culture e bolchevisme cultural” , in Contre la barbarie (1925-1948). Paris: Phébus, 2009, pp. 34-40; in Mise en garde. Paris: Phébus, 2009, pp. 13-20 [este livro é uma seleta do anterior].

(5) CARVALHO, Olavo. Op. cit., p. 27.

(6) CARVALHO, Olavo. Op. cit., pp. 27-28.

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