OITO HORAS NÃO SÃO UM DIA

 

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O cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) viveu como um duende enfurecido: antes, durante e depois dos relacionamentos caóticos que estabelecia com os agregados ao seu grupo de Aktion-Theater ou Anti-Theater, ele atuou em 30 filmes de outros diretores, escreveu e dirigiu dezenas de peças e realizou 44 filmes em 15 anos de carreira, além de duas séries para a emissora de TV alemã WDR (Westdeutscher Rundfunk, de Colônia): Acht Stunden sind kein Tag (Oito horas não são um dia, 1972) e Berlin Alexanderplatz (Berlin Alexanderplatz, 1980).

A série Berlin Alexanderplatz foi restaurada em 2007, exibida em festivais de cinema e lançada em DVD. Mas somente agora Oito horas não fazem um dia ganhou uma restauração da Fundação Rainer Werner Fassbinder, dirigida por Juliane Lorenz (editora dos últimos filmes de Fassbinder e sua segunda esposa), e foi lançada em Bluray nos EUA, com o apoio do MoMA, da FFA, da ARRI, da RWFF, da RWF Werkschau e da Verlag der Autoren.

Não é todo dia que uma grande obra desconhecida de um grande autor do cinema morto há décadas vem à tona. Oito horas não fazem um dia é uma dessas maravilhas silenciadas pelo tempo e que ganham uma nova vida quase por milagre. Sua própria existência foi improvável e controversa: os três últimos episódios tiveram sua produção vetada, de modo que a série que teria oito episódios terminou no quinto, sem ser concluída como fora escrita. Os cinco episódios produzidos (101’ + 101’ + 93’ + 91’ + 90’), divididos em três partes/discos, somam 476 minutos, ou oito horas de duração.

Como explica o subtítulo da série, trata-se de um drama de família. Mas ao contrário daqueles que a TV sempre apresenta ao seu público habitual, centrados nas vidas burguesas de suas classes médias e altas, com seus empregados e serviçais em papéis marginais, o foco de Fassbinder é a classe trabalhadora: seus personagens principais são um grupo de operários de uma fábrica de ferramentas industriais da cidade de Colônia.

O universo limitado dos trabalhadores alemães nos anos de 1970 é descortinado através das relações familiares, de amor e de amizade entre os membros do “núcleo operário” que abriga os tipos mais diversos: Jochen (Gottfried John), o jovem líder nato e principal fio condutor das tramas; Giuseppe (Grigorios Karipidis), o imigrante italiano que tem boas ideias; o trabalhador negro (El Hedi ben Salem), que evita falar; Rüdiger (Herb Andress), o operário racista; Franz (Wolfgang Schenck), o chefe inseguro que precisa estudar matemática para manter seu posto; Wolf (Wolfried Lier), o pai de Jochen, um  aposentado histérico, casado com a lúcida, mas conformada Käthe (Anita Bucher); etc.

Nesse meio, as mulheres se destacam pela força: embora todas sofram o machismo – no caso de Monika (Renate Roland), casada com o pequeno-burguês Harald (Kurt Raab), até o extremo da aniquilação –, a Oma / Vovó (Luise Ullrich) domina o marido submisso Gregor (Werner Finck) enquanto a jovem Marion (Hanna Schygulla), namorada de Jochen, se coloca como sua igual – estas duas mulheres inteligentes sabem conduzir seus homens até um porto seguro.

A série abre com uma festa aflitiva de aniversário, atingindo em poucos segundos um ápice de horror. Os sentimentos dos personagens revelam-se nestas comemorações pobres, nas apressadas refeições em família que terminam em brigas explosivas, nas reuniões tensas do grupo na fábrica, nas discussões mais relaxadas nos banhos coletivos (ocasião para Fassbinder quebrar o tabu do nu masculino na TV).

Os embates se dão entre os maridos e suas esposas, entre os pais e seus filhos, entre os operários e suas namoradas, entre os patrões e seus empregados. Os preconceitos de alguns se manifestam de forma sutil – a funcionária Irmgard Erlkïnig (Irm Hermann) que se sente superior aos operários – ou violenta – o operário racista que ataca seus colegas imigrantes –, mas os personagens principais são amorosos e humanos como raramente o são nos filmes de Fassbinder: torcemos por eles, queremos que eles se deem bem, que consigam realizar seus pequenos sonhos, pelos quais lutam com tanta dificuldade, mas também com inteligência e tenacidade.

Contudo, mesmo quando os operários são vitoriosos em suas reivindicações por meio de protestos organizados contra os chefes a serviço de forças maiores e ocultas, a luta de classes ganha um tom sombrio pela ótima trilha sonora de filme de ficção científica composta por Jean Gepoint (Fuzzy) e de rápidos zooms nos rostos assustados, sugerindo que o novo capitalismo transcende aquele das fábricas descrito por Karl Marx, integrando os operários a um sistema mundial infinitamente mais complexo.

O pessimismo de Fassbinder, expresso pela personagem de Hanna Schygulla, foi criticado pelos comunistas alemães, que viram em Oito horas não são um dia a expressão do conformismo burguês. Na verdade, a visão de Fassbinder conecta-se perfeitamente à da Nova Esquerda, à teoria crítica de Herbert Marcuse, que previu ainda nos anos de 1950 a integração do proletariado ao capitalismo.

Os operários de Fassbinder afogam suas mágoas em litros de álcool e rock’and roll – a trilha pop inclui After the Gold Rush, de Neil Young, e Me and Bobby McGee na versão de Janis Joplin. Eles ainda agem de forma solidária e comunitária, mas seus valores já são os da pequena-burguesia, com a qual se misturam e se confundem.

Os principais agregados de Fassbinder estão todos aqui: Hanna Schygulla (a heroína amoral de O casamento de Maria Braun); Gottfried John (o vilão perverso de Berlin Alexanderplatz); Irm Hermann (a esposa do Mercador das quatro estações); Kurt Raab (o marido enlouquecido de Por que deu a louca no Sr. R. ?); Margit Carstensen (a estilista infeliz de As lágrimas amargas de Petra von Kant); Ulli Lommel (um dos jogadores da Roleta chinesa); Eva Mattes (a filha do transexual de Um ano de treze luas); El Hedi ben Salem (o imigrante turco de O medo corrói a alma); Brigitte Mira (a mãe terrorista de A viagem de Mãe Küster para o céu); Klaus Löwitsch (o cientista rebelde de O mundo por um fio); Peer Raben (compositor de Berlin Alexanderplatz, Lili Marlene, Lola, O Desespero de Veronika Voss, Querelle); Lilo Pempeit (a mãe do diretor, que cuidava da contabilidade de suas produções e com quem ele discutia em Alemanha no outono).

Mas são dois veteranos atores do cinema alemão, a vienense Louise Ullrich (1910-1985)[1] e Werner Finck (1902-1978)[2], que dão um show de interpretação em Oito horas não são um dia como um casal de idosos românticos e astutos, cômicos e absurdos, excêntricos e impagáveis, que enfrentam a burocracia para abrir uma creche estatal com o objetivo altruísta de tirar as crianças da rua, que no fundo esconde outro, mais importante, de conseguir um salário de monitores para complementar suas baixas rendas e poder, assim, alugar um apartamento.

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Notas

[1] Louise Ullrich, filha de um major do exército austro-húngaro, atuou com Werner Krauss em Rauhnacht (1932) no Lessing Theater de Berlim. Foi então convidada por Luis Trenker para trabalhar em seu filme Der Rebell (1932). Foi coadjuvante em Redenção (1933), de Max Ophüls, estrelado por Magda Schneider (mãe de Romy). No ano seguinte apareceu no papel-título de Regina (1935), de Erich Waschneck. Louis B. Mayer ofereceu-lhe um contrato na MGM em 1938, mas Louise recusou deixar o Reich. Numa viagem à América do Sul encontrou seu futuro marido, Conde Wulf Dietrich zu Castell, diretor do aeroporto de Munique-Riem. Atuou em filmes de prestígio no cinema nazista como Viktoria (1935), Annelie (1941) e Nora (1944), retomando sua carreira no pós-guerra. Em 1973 publicou suas memórias e, nos seus últimos anos, dedicou-se à literatura e à pintura. Morreu de câncer em 1985.

[2] Werner Finck, filho de um farmacêutico, começou sua carreira como narrador de contos de fadas na década de 1920. Foi cofundador do cabaré berlinense Die Katakombe (A Catacumba) em 1929 e ganhou destaque na década de 1930 satirizando o regime nazista no palco, até ser preso por seis semanas no campo de concentração de Esterwegen, sendo liberado após sua amiga atriz Käthe Dorsch interceder por ele junto a Herman Goering. Em 1938, Finck alistou-se na Wehrmacht como soldado para escapar de uma nova prisão, e só retomou sua carreira de cabaretista e ator depois da guerra.

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