A NOVA DIREITA PRÓ-ISRAEL

6 jun

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Lemos nos jornais que Marie Le Pen, na França, depois de afastar definitivamente seu polêmico pai Jean-Marie Le Pen do seu partido, a Frente Nacional, mudou seu nome para Reunião Nacional, em mais uma tentativa de dissociá-lo do seu passado fascista e antissemita, para transformá-lo de um partido de oposição em um partido de governo.

No Brasil, vemos o pré-candidato da Nova Direita liberal-fascistoide à Presidência, Jair Bolsonaro, visitando os EUA e Israel, e palestrando no clube judaico “A Hebraica” do Rio de Janeiro, onde proferiu algumas pesadas piadas racistas e machistas, divertindo uma plateia constituída em parte por seus seguidores fanáticos.

A Nova Direita liberal-fascistoide conseguiu conquistar uma parcela da comunidade judaica, representada pela organização Associação Sionista Brasil Israel, presidida pelo jornalista, advogado e empresário Ronaldo Gomlevsky, que saiu em defesa de Jair Bolsonaro, quando ele foi chamado de “nazista” pelo historiador liberal-revolucionário Marco Antonio Villa:

Apoiamos Bolsonaro por reconhecermos nele um amigo, um admirador da cultura e tradições judaicas e um defensor da soberania do Estado de Israel.

Acreditamos na sua sinceridade e empenho para combater a ideologia marxista que está destruindo o Brasil.

Compreendemos que a sociedade brasileira foi esgarçada de tal forma, que a única oportunidade do país se reerguer e se livrar deste câncer é dando uma guinada à direita para se reequilibrar e voltar ao centro.

Entendemos que um Congresso forte e livre de progressistas no poder é o que vai devolver o país à normalidade e aos valores morais e éticos que estruturaram a nossa sociedade.

Decidimos que é chegado o momento de nos posicionarmos, e isso significa rejeitar qualquer administração pública de qualquer matiz de esquerda.

[…]

Urge que o país se oxigene para o seu próprio bem. Estamos intoxicados com a desmoralização dos valores judaico-cristãos que perverteram a sociedade, mudando a ordem das coisas a ponto de transformar a exceção em regra e a regra em exceção.

Colocamo-nos à disposição da família Bolsonaro para organizar quaisquer eventos que ajudem a esclarecer a posição política diante dos questionamentos que todos estão fazendo sobre diferentes e polêmicos temas.

[…]

Ao acusar Bolsonaro e seus eleitores de nazistas, o historiador aponta seu dedo para boa parte da comunidade judaica que o apoia e se sente ofendida com este ataque desproporcional e histérico.

Claro que chamar Bolsonaro de “nazista” é um ataque desproporcional e histérico. Ninguém pode ser considerado nazista apenas por ter afirmado ser favorável à tortura e à sonegação de impostos; que se chegasse ao poder fecharia o Congresso e mataria 30 mil “vagabundos” de cara, incluindo o Presidente da República (na época Fernando Henrique Cardoso); e que a única solução para o Brasil seria, a seu ver, uma guerra civil, na qual morreriam alguns inocentes, mas tudo bem, que se danassem, isso fazia parte da coisa. Poderíamos também considerar desproporcional e histérico o apoio dos neonazistas brasileiros ao seu candidato, o Jair Bolsonaro.

Em 2004, o escritor cristão-fundamentalista Olavo de Carvalho, ex-comunista e ex-muçulmano, que frequentou a tarika do místico suíço Frithjof Schuon adotando o nome de Mohammed Ibrahim, sendo premiado no Concurso de Monografias sobre a vida do profeta Maomé, do Centro Islâmico do Brasil e no Concurso de Ensaios sobre História Islâmica da Embaixada do Reino da Arábia Saudita em 1986, passando depois a exaltar Israel como a ponta de lança do Ocidente no Oriente Médio, palestrou na Hebraica contra o totalitarismo islâmico. Aos 40:35 minutos da palestra, discorrendo sobre as diferenças entre o totalitarismo comunista e o totalitarismo nazista, Olavo fez uma digressão (transcrição e grifos nossos) ao lembrar-se de uma reportagem da TV (provavelmente o debate sobre os “100 anos de Hitler” na TV Bandeirantes):

No Brasil tudo é possível. Uma vez eu vi um sujeito na televisão dando entrevista, era o…. era o…  porta-voz do Partido Nazista Brasileiro, era um mulato. Eu não sei como é que ele conseguiu (risos). Mas não estou falando de brasileiro, estou falando de pessoas racionais. Racionalmente falando, quer dizer, uma ideologia da raça superior só interessa a quem pertence à raça superior, o que evidentemente não é o nosso caso, tá certo? Então, vocês vejam que não sei se vocês já repararam, sempre que existe uma teoria da superioridade racial, por uma maravilhosa coincidência essa raça é sempre a do teórico. (Pausa). Vocês já viram algum teórico racista que pertence à raça inferior? Só eu pertenço à raça inferior, os outros não… Aaaah… Onde quer que você veja uma pretensão de superioridade racial, e nós já a vimos não só no caso nazista, mas vimos hoje em certos teóricos do movimento Black americano, eu lendo esses camaradas, eu vejo como é fácil você argumentar neste sentido, desde que você esteja assegurado que o resultado da sua pesquisa científica será aprovado porque o superior é você. Porque se você estiver com uma suspeita, bom, vou investigar esse negócio, vai que eu provo que existe superioridade racial e eu caí justamente na inferior, eu não vou prosseguir com essa pesquisa, não sou besta. Então, por ser uma ideologia de tipo nacional e racista, é evidente que o interesse dela para outras nações, essa teoria só poderia ser vendida para outras nações na base da fraude, quer dizer, cada nova nação que os nazistas faziam aliança, vai ter que provar que eles pertencem à raça superior também, quer dizer, o italiano é ariano de algum modo, os árabes também vão ser um pouco arianos, e assim por diante, quer dizer, é um trabalho retórico, uma retórica muito tortuosa demais, tá certo? Então nós não podemos conceber uma… algo como uma Internacional Nazista. Vai chegar ao ponto em que você só provoca antagonismo.

A digressão é reveladora da visão que Olavo de Carvalho tem de si próprio, como um “teórico racista de raça inferior”, nascido num país miscigenado. Embora se sentisse desprezível enquanto membro de uma “raça inferior”, mas capaz de espertezas e desonestidades numa suposta pesquisa científica sobre “superioridade racial” que o colocasse entre os “inferiores”, ele ainda assim se considerava dotado de uma mente superior, o que lhe permitia considerar “os brasileiros” como “pessoas irracionais”, ou seja, um povo de cretinos e idiotas. Nos milhares de vídeos de Olavo no YouTube, editados do seu Curso de Filosofia e do seu True Outspeak, postados por seus alunos e replicados por outros tantos fãs, ele não se cansa de desprezar os brasileiros, como seres “inferiores”, “fracassados”, “sub-humanos”. Para Olavo, o Brasil é um país de “macacos”.

Em agosto de 2017, a jornalista Joice Hasselman foi convidada pela Pastora Evangélica Jane Silva, presidente da Comunidade Brasil-Israel, a um evento em Jerusalém onde falou “em nome do povo brasileiro” e pediu perdão pela agressão do governo brasileiro a Israel na UNESCO: “O Brasil é por Israel, ninguém pode rasgar a Bíblia”, afirmou Hasselman, entregando uma bandeira brasileira e um documento da Comunidade Brasil-Israel, atestando o “apoio do povo brasileiro” e seu “reconhecimento” de Jerusalém como a capital eterna de Israel, recebendo uma bandeira de Israel.

A Nova Direita liberal-fascistoide procura dissociar-se de seu passado fascista (“Nazismo é Esquerda”, é seu novo mantra protetor) e das fantasias antissemitas sobre os Rothschild (difundidas por seus ideólogos nos anos de 1930 e adotadas no Brasil pelo integralista Gustavo Barroso em obras como Brasil, colônia de banqueiros) ao mesmo tempo em que atualiza essas fantasias (emanadas dos Protocolos dos Sábios do Sião) em teorias conspiratórias pós-Auschwitz (que atribuem o domínio do mundo ao Clube Bilderberg e do Brasil ao Foro de São Paulo, à “onipresença” dos agentes do Mossad e do “todo-poderoso” investidor judeu George Soros nas sinistras ações progressistas). A que se deve o apoio da Nova Direita liberal-fascistoide a Israel? Podemos elencar três motivos:

(1) Anticomunismo requentado da Guerra-Fria. Como quase toda a Esquerda passou a condenar Israel e a apoiar a OLP após a Guerra dos Seis Dias (1967), abraçando as teorias “anticolonialistas” e “terceiro-mundistas”, que fazem da “causa palestina” a principal bandeira de sua política exterior, a Nova Direita liberal-fascistoide alinhou-se, num reflexo automático, a favor de Israel. Requentando o anticomunismo da Guerra-Fria, sua militância obteve grande sucesso nas mídias e redes sociais, explodindo em todo o mundo com o rico apoio das organizações anticomunistas americanas.

(2) Interesses materiais dissimulados. Os ícones da Nova Direita liberal-fascistoide querem conquistar os milhões de votos, os milhões de leitores e os milhões de likes dos evangélicos, que sustentam Israel por razões religiosas / financeiras (peregrinações a Israel, venda de água benta em Israel, criação do Templo de Salomão, etc.). Os evangélicos também possuem sua própria agenda de longo prazo, que é moralizar a sociedade brasileira e cristianizar o Estado Judeu, mas alianças entre a Bancada Evangélica e a Nova Direita liberal-fascistoide são recorrentes, com o senador Magno Malta tratando artistas como criminosos e o curador Gaudêncio Fidelis, coagido a prestar depoimento numa CPI dos Maus Tratos, como bandido e vagabundo; ou o deputado Pastor Marco Feliciano afirmando que os 24 milhões de funcionários públicos do Brasil vivem “escorados no Estado”, não passando de vagabundos que não trabalham.

(3) Fetichismo armamentista cristão-fundamentalista. Ser pró-Israel para os militantes da Nova Direita liberal-fascistoide é ser militarmente engajado contra o Islã, é ter a seu lado um poderoso Exército voltado contra o mundo árabe-muçulmano em defesa da civilização ocidental judaico-cristã (mais cristã que judaica em seu wishful thinking); é emular a fantasia fetichista do Cruzado, do super-soldado anti-islâmico armado até os dentes, que Israel representa aos seus olhos.

Olavo de Carvalho, Felipe Moura Brasil, Padre Paulo Ricardo, Jair Bolsonaro, Joice Hasselman, Nando Moura, Kim Kataguiri et caterva não são pró-Israel pelas razões corretas – por ter sido o Estado Judeu criado como resposta ao Holocausto nazista, com o apoio da maioria dos países da ONU, incluindo a URSS; por ser uma ilha de democracia cercada de ditaduras árabes por todos os lados; por ser um Estado Laico onde os gays têm seus direitos respeitados até dentro do Exército e que não discrimina suas minorias religiosas; onde as mulheres têm voz ativa; um Estado multiculturalista e pacifista (obrigado a defender-se nas guerras que os árabes não cessaram de mover contra ele).

A melhor prova de que a Nova Direita liberal-fascistoide é pró-Israel por anticomunismo requentado da Guerra Fria, interesses materiais dissimulados e fetichismo armamentista cristão-fundamentalista é que seus ideólogos continuam a defender a Inquisição (que, segundo Olavo de Carvalho, “foi um passo enorme na luta pelos Direitos Humanos”, uma instituição misericordiosa, que desconhecia aparelhos de tortura e não perseguia os judeus); e a atacar a tradição progressista judaica – de Marx & Engels (comparados a Hitler) à Escola de Frankfurt (acusada de envenenar o mundo com o “marxismo cultural”); dos sionistas de esquerda dos kibutzim (associados aos piores genocidas do século XX) às feministas judias Sulamtih Firestone, Betty Friedan e Judith Butler (abominadas como bruxas, feminazis e “inventoras da ideologia de gênero”).

A Nova Direita liberal-fascistoide não é exatamente uma defensora de Israel, mas uma defensora de sua própria fantasia de Israel como um país militarizado, cruel com os palestinos, idealmente limpo dos judeus de esquerda, sem lugar para sionistas socialistas, livre dos judeus capitalistas-comunistas que Olavo de Carvalho caracteriza como “Rothchilds e filhos da puta da ADL” [Anti-Defamation League] e que ele percebe como “traidores da pátria enchendo o cu de dinheiro”, os quais deveriam ser varridos de Israel, escorraçados do mapa, destinados à “Solução Final”.

padrePauloRicardo

Olavo de Carvalho, Padre Paulo Ricardo e um discípulo fiel posando com rifles: fetichismo armamentista cristão-fundamentalista. Imagem encontrada na Internet.

2 Respostas to “A NOVA DIREITA PRÓ-ISRAEL”

  1. 28/06/2018 às 01:08 #

    Que texto de merda! Pessimamente escrito mas que tenta abordar assuntos interessantes. Quanto a ser por Israel a explicação é que somos um País Cristão, crença que vem do Judaísmo. Ambas religiões odiada pelos revolucionarios da esquetda progressistas socialistas, nacional-socialistas, facistas e comunistas.

    • Luiz Nazario 28/06/2018 às 04:40 #

      Meu texto está muito bem escrito, ao contrário do seu, Zé Mané, com sua linguagem de sarjeta e erros primários de grafia e concordância. Mal educado e desinformante, ignora que somente em 1983 um Papa (João Paulo II) se dignou a entrar numa sinagoga; que o Vaticano só reconheceu o Estado de Israel em 1993; que a Igreja só pediu perdão por sua omissão durante o Holocausto em 1998; e que apenas em 2000 ela se desculpou pelos “erros” da Inquisição, que por mais de seis séculos perseguiu, saqueou e assassinou os israelitas por sua “fé errada”. Os cristãos que hoje defendem Israel pelas razões que elenquei são hipócritas e anticomunistas doentios, que continuam a negar os crimes e as omissões da Igreja contra os judeus, querendo recuperar as aberrações da velha Igreja que o santo João Paulo II tentou revogar. Mas, como escreveu Einstein, “é mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”. Quanto ao comunismo, ao fascismo e ao nazismo, é sempre bom lembrar que eles nasceram na Rússia, na Itália e na Alemanha, três dos países mais cristãos da Europa: esses socialismos de fundo anticapitalista cristão não poderiam florescer sem a secular tradição antijudaica dos patriarcas ortodoxos incitando os cossacos a dizimar os israelitas em pogroms; do católico João Crisóstomo pregando para milhares de fiéis “Adversus Judaeos” (“Contra os judeus”); ou do protestante Lutero incitando o povo a queimar as sinagogas e a perseguir os judeus em “Von den Juden und ihren Lügens” (“Dos judeus e suas mentiras”). Séculos de antissemitismo cristão não se apagam com um apoio oportunista da atual direita liberal-fascista a Israel.

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