TRANSMÚSICA

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O mundo conhecia poucas cantoras travestis, drags e trans até o segundo milênio: o pioneiro e bem educado ex-soldado operado na Dinamarca Christine Jorgensen, que fez uma  carreira de sucesso nos anos de 1950; o criativo Richard O’Brien, que escreveu e co-estrelou o filme (de sua peça) The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman, um marco na cultura queer, selecionado para preservação na National Film Registry pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos em 2005.

No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, havia shows de travestis apreciados por um público eclético e até familiar. As travestis, drags e trans tinham consciência de suas limitações e dublavam as grandes cantoras que admiravam em divertidas (auto)paródias obscenas. Vi Camille K no teatro carioca dos anos de 1980: era impagável dublando Yma Sumac em Gopher Mambo. Foi uma das travestis veteranas homenageadas no documentário Divinas Divas, de Leandra Leal.

Quando eu vivia na Alemanha, nos anos de 1990, apreciava as performances musicais da travesti Georgette Dee. No show All of me, com direção de Bettina Wilhelm, Dee interpretava Orlanda, um travesti-cantor de sucesso, que começava seu número com um suspense: depois de um longo silêncio, anunciava: Ich bin ein bißchen traurig… (Eu estou um pouco triste…). Ela queria se casar. E se casava… com uma mulher, interpretada por outro travesti, hilariante, chamado Mechthild Grossmann (da Pina Bauschs Truppe).

Orlanda era convidada para cantar em Varsóvia, e lá vivia um romance complicado que quase terminava em tragédia. Tudo era caricatural e absurdo, culminando com uma cena de masoquismo, em que ela se torturava espetando o dedão do pé.

No fim, um happy end com o casal reconciliado. Orlanda se apresentava no teatro dizendo: Stellen Sie sich mal vor (imaginem) que vocês viajam num navio, e o navio começa a afundar… O que fariam? Eu iria para o restaurante… Ali, em meio ao naufrágio, encontra o amor de sua vida, e descreve o fim de tudo cantando All of me.

O humor sarcástico, o pathos amargo e o glamour espalhafatoso faziam o encanto dos shows de travestis, que o filme australiano The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert (Priscilla, a Rainha do Deserto, 1994), de Stephan Elliott, capturou tão bem.  Mas se antigamente as cantoras travestis, drags e trans sonhavam em encarnar Marlene Dietrich ou Marylin Monroe, hoje sonham em encarnar Madonna ou Beyoncé.

Com a massificação das cirurgias de mudança de sexo e a difusão das Paradas Gays e movimentos LGBTQ, o mundo agora regurgita de cantores e cantoras travestis, drags e trans: a israelense Dana International; a austríaca mulher-barbada Conchita Wurst, que venceu o Festival Eurovisão em 2014; a alemã Kim Petras; a francesa Marie France; o canadense Lucas Silveira; a holandesa Romy Haag; a tailandesa Bell Nuntita; o neozelandês Ramon Te Wake; os ingleses Antony Hegarty e T. Thomason…

Nos EUA, o elenco é numeroso: depois das veteranas Amanda Lepore e Ru Paul, surgiram cantoras travestis, drags e trans em série: Ah Mer Ah Su, Anohni, Antony Hegarty, Betty, Breanna Sinclairé, Danica Roem, Eli Conley, Katastrophe, KC Ortiz, Laura Jane Grace, Laith Ashley, Mina Caputo, Mya Byrne, Nomi Ruiz, Peppermint, Ruth Pearce, Ryan Cassata, Shawnee, Skylar Kergil, Shea Diamond, Sophia-Doreen, etc.

Hoje tive a tristeza de ver alguns clipes da nova galera musical LGBTQ que embala o Brasil: Aretuza Lovi, Banda Uó, Danny Bond, Gloria Groove, Jaloo, Jhonny Hooker, Lia Clark, Lineker, Liniker, MC Linn da Quebrada, MC Trans, MC Transnitta, MC Xuxú, Mulher Banana, Mulher Pepita, Pablo Vittar, Rico Dalasam, etc.

Cantar não é pra qualquer uma. É preciso ter mais que uma boa voz e muito mais que uma vontade louca de cantar. É preciso nascer para isso e refinar-se, estudando música. Falta alguém para dizer-lhes: – ‘Miga, sua loca’, o mundo não é seu banheiro. E o público já não percebe a diferença entre uma cantora drag e uma drag que se põe a cantar. 

Não se trata de uma maldição que atinge as travestis, drags e trans que se arvoram em cantoras, surfando na onda benfazeja de programas de auditório e turnês internacionais de exotismo, até chegarem ao hit parade, garantindo seus quinze minutos de fama, com os quais poderão comprar um apartamento e assombrar-se para o resto de suas vidas.

O que torna lamentável o sucesso atual das cantoras travestis, drags e trans no Brasil é que elas emergem dentro do caldo envenenado da nossa música pop contemporânea, uma sopa feita de fezes e lantejoulas, onde o machismo do funk se completa com a boçalidade do sertanejo, igualando LGBTQ e CIS na mesma torpeza. As cantoras travestis, drags e trans agora sonham encarnar Tati Quebra Barraco, Valesca Popozuda e Anitta.

Os excluídos, marginalizados e periféricos trocaram o teatro de revista pelo videoclipe musical cheio de efeitos especiais. Adotam nomes artísticos americanizados e assumem sem questionamentos a condição de colonizados, ignorantes da cultura brasileira, gerados e alimentados no pop anglo-americano que dominou o mundo.

Com uma maquilagem grotesca e um visual bizarro, sentem-se “lacradores” e “empoderados” rebolando o traseiro e cantando pornô-músicas como Boquetáxi, Eu Faço Bocket, Enviadescer, Uma vez piranha, Eu fiz a chuca.

O público “progressista” vibra, aplaude, glorifica, enquanto o público “conservador” sente pena e aversão, sendo, porém, obrigado pelo ethos do politicamente correto da sociedade tolerante a reprimir seus sentimentos, calar sua boca e aceitar a putaria como norma. O ressentimento das Donas Reginas é explorado politicamente pela Direita, numa escalada de moralismo militante e histeria coletiva, seguindo o padrão da ascensão do nazismo na República de Weimar. A História não se repete mesmo?

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