APOCALIPSE RACIAL

25 ago

 

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Rise of the Planet of the Apes (Planeta dos Macacos: a origem, 2011), de Rupert Wyatt, fez 482 milhões de dólares nas bilheterias; Dawn of the Planet of the Apes (Planeta dos Macacos: o confronto, 2014), de Matt Reeves, lucrou 710 milhões de dólares nos cinemas – somando a isso uns 250 milhões de dólares de produtos relacionados, os dois filmes lucraram mais de 1,5 bilhão de dólares; já War for the Planet of the Apes (O Planeta dos Macacos: a guerra, 2017), de Matt Reeves, arrecadou sozinho três bilhões de dólares em bilheteria e produtos relacionados, superando todos os filmes e todas as séries da História do cinema até hoje. Com base nessa soma, Mark Hughes, da Forbes, considerou  War for the Planet of the Apes o melhor filme do ano.

Trata-se, antes, do pior filme do ano. O cartaz já o anuncia: “Pela Liberdade. Pela Família. Pelo Planeta.” Esqueçam a Liberdade e o Planeta. É a Família o tema do filme. Família é a chave de tudo, a panaceia universal. Todo seriado americano, do mais recatado ao mais escandaloso, gira em torno da Família, e Rise of the Planet of the Apes vende essa droga em doses cavalares, ou “símias”: todos os personagens vivem a perda de sua família.

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O maior impacto de Planet of the Apes (O Planeta dos Macacos, 1968), de Franklin J. Schaffner, concentrava-se na imagem-choque final: a revelação de que o Planeta dos Macacos era, na verdade, resultado de mutações radioativas sofridas pelos habitantes dos Estados Unidos da América, com a Estátua da Liberdade afundada na areia.

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A fantasia apocalíptica gerou as sequências Beneath the Planet of the Apes (De volta ao Planeta dos Macacos, 1970), de Ted Post; Escape from the Planet of the Apes (Fuga do Planeta dos Macacos, 1971), de Don Taylor; Conquest of the Planet of the Apes (A Conquista do Planeta dos Macacos, 1972) e Battle for the Planet of the Apes (A Batalha do Planeta dos Macacos, 1973), de J. Lee Thompson; os seriados de TV Planet of the Apes (Planeta dos Macacos, 1974) e Return to the Planet of the Apes (1975); o telefilme Behind the Planet of the Apes (1998); e uma infinidade de paródias e subprodutos.

A infeliz refilmagem Planet of the Apes (O Planeta dos Macacos, 2001), de Tim Burton, despertou novamente a serpente, gerando a série atual e seus subprodutos. A popular fantasia da ficção-científica dos macacos falantes sublima, critica e alimenta cada vez mais o racismo americano: os símios humanizados pelos efeitos especiais são uma metáfora acintosa para os negros. Mas as fantasias racistas da série são bem aceitas porque se afirmam “claramente” antirracistas.

No racismo antirracista da nova série, geralmente os macacos humanizam-se ao demonstrar sentimentos humanos e os humanos animalizam-se, ou tornam-se piores que os macacos, quando se mostram intolerantes aos elos de amor e de amizade entre as duas raças. Claro que a fantasia dos macacos humanizados vai além do racismo, implicando a própria suposta origem símia da humanidade, mas a convivência entre macacos e humanos evoca inevitavelmente os conflitos raciais, especialmente agudos na sociedade americana.

Na cena de abertura de Rise of the Planet of the Apes, para dirimir qualquer dúvida de que os macacos NÃO representam os negros, um soldado negro atira contra os macacos. O racismo é assim exorcizado de cara e a fantasia racista dos macacos falantes pode avançar sob a proteção do álibi dos negros inimigos dos macacos, sem o perigo das interpretações maldosas.

O fantasma da Guerra Civil Americana ronda os EUA desde o assassinato do jovem negro Rodney King em Atlanta, em 1992, quando massas de jovens negros se revoltaram contra o racismo da Polícia e saquearam selvagemente lojas e supermercados, num protesto político que não descartava a pura e simples ladroagem em causa própria.

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A absolvição do segurança George Zimmerman no caso da morte a tiros do adolescente negro Trayvon Martin em 2013; a morte do jovem negro Michael Brown em Ferguson, e de Eric Garner em Nova York, em 2014, causaram mais protestos e distúrbios, tornando o movimento Black Live Matter (BLM) conhecido nacionalmente.

Desde então os militantes do BLM protestam regularmente contra a morte de negros em ações policiais ou sob a custódia da polícia. A morte de Freddie Gray levou a novos tumultos em Baltimore. O BLM  tornou-se uma das forças contra Donald Trump nas eleições de 2016. O total de protestos do BLM chegou ao número de 2.019 em 1.133 dias, segundo o monitoramento permanente do site Elephrame.

Uma das consequências do antirracismo do BLM é a justificação da criminalidade dos jovens negros como se estes não tivessem outra opção na sociedade racista, culpando a Polícia e os Brancos Racistas pela reação ao crime, como se a “sociedade branca” devesse pagar por seu racismo sendo assaltada e vandalizada impunemente.

War For The Planet Of The Apes reflete esses conflitos levando a solidariedade à luta antirracista dos jovens brancos liberais a um ponto tão radical que o filme resulta ser o mais politicamente correto da História do Cinema. O público é instado, com artimanhas chorosas do roteiro e da trilha sonora, a torcer pelos macacos.

Curiosamente, o macaco mais querido do público, o Bad Ape, incomodou o ativista DeRay Mckesson, do BLM, por usar uma jaqueta azul como a sua, sendo ridicularizado por Whoopi Goldberg, que o mandou ver o filme de 1968, onde os macacos já usavam jaquetas azuis.

A defesa do filme pela atriz negra oscarizada procede: a Hollywood de esquerda não quer ser vista como racista, ela exige mesmo uma identificação a qualquer preço com a luta dos negros. Uma luta que não é mais por direitos iguais, mas contra o racismo branco, o que abre um leque infinito de possibilidades.

No filme, o genial chimpanzé estrategista Ceasar (performado por Andy Serkis) lidera o povo dos macacos bons, após derrotar, em Dawn of the Planet of the Apes, o totalitário Koba (um dos codinomes de Stalin), que aglutinava ao seu redor os macacos mais cruéis, gorilas cujas ações evocavam ditadores africanos como Jean-Bédel Bokassa (República Centro-Africana); Idi Amim Dada (Uganda), Obiang Mbasogo (Guiné Equatorial), Yahya Jammeh (Gâmbia), Blaise Compaoré (Burkina Faso), Rei Mswati III (Suazilândia); etc.

Agora, Caesar é um líder popular negro vitorioso, como Mandela, e enfrenta o Coronel, novo líder totalitário, agora do gênero humano, um fascista que pretende, como Donald Trump, erguer um Muro bem alto para salvar a América da decadência produzida pelos macacos que infectam os humanos com o vírus símio, que produz uma estranha doença que os deixa mudos. Para construir o Muro, o Coronel (Woody Harrelson) utiliza a mão de obra dos chimpanzés, aprisionados e escravizados num campo de concentração.

Os chimpanzés são torturados por gorilas, antigos partidários de Koba, que se submetem passivamente, a despeito de sua força superior, ao degradante domínio dos mercenários, que os chamam de jumentos. Alegando medo da punição de Caesar (uma explicação pouco convincente dada por ele, já que não é dado a vinganças), os gorilas toleram o extermínio de seus “primos” pelas tropas fanatizadas do Coronel.

Aqui a fantasia da Guerra dos Macacos dialoga com a Guerra do Vietnã mediada por Hollywood. Os macacos são chamados pelos soldados de kongs, numa alusão tanto ao gorila gigante da série King Kong quanto aos vietkongs que as tropas americanas combatiam na selva em meio ao pesadelo de uma guerra insana, destinada ao fracasso.

O próprio personagem do Coronel é decalcado do Coronel Kurtz de Apocalypse Now: ensandecido depois de matar o próprio filho que contraiu o vírus símio, ele arregimenta um exército ilegal de fanáticos, que compartilham de sua visão de mundo malsã, para escravizar os macacos e obrigá-los a construir o Muro.

As tropas ilegais do Coronel, combatidas pelo Exército, dialogam, por sua vez, com os grupos da extrema-direita americana, como as Milícias de Michigan, a Ku-Klux-Klan e os militantes da All-right, que cultuam armas, bandeiras confederadas, heróis escravocratas da Guerra Civil, símbolos e slogans nazistas.

Embora a fantasia racista reivindique para si o politicamente correto, especialmente após o incidente de Charlottesville, ela permanece racista em sua essência. Essa contradição é levada ao extremo na cena em que Caesar e seus companheiros, em missão de caça ao Coronel (que inclui um descarado merchandising da Coca-cola), matam em legítima defesa um homem isolado numa casa abandonada. Logo descobrem a filha dele escondida dentro da casa: uma loirinha muda de olhos azuis (Amiah Miller). Ela não lamenta nem um pouco a morte do pai, permanecendo indiferente junto ao seu cadáver.

Contudo, levada pelos macacos bons, a menina reage à morte de um deles chorando muito e devolvendo ao cadáver do gorila a flor que recebera dele de presente. Afirma-se aí a profunda e irracional solidariedade da jovem geração de brancos de esquerda à luta dos negros. Não por acaso, a menina muda, loucamente identificada com seus amigos macacos, ganha de brinquedo um pedaço de metal com a marca Chevy Nova da Chevrolet, sendo batizada, num product placement nostálgico, de Nova.

No final, Caesar liberta seus irmãos escravizados, que fogem do campo de concentração, ao mesmo tempo em que o exército americano liquida a tropa racista do Coronel. Quando Caesar vai matá-lo, contra sua bondade, assolado pelo desejo de vingança, é poupado disso, pois o Coronel contraiu o vírus símio e perdeu a voz: vitimado pelo que condenava em outras vítimas, ele se condena e pune, puxando o gatilho.

Para coroar a saga de Caesar e seu movimento popular de libertação, quando o exército americano, após liquidar as tropas fascistas do Coronel, se volta contra os macacos em fuga, uma providencial avalanche varre os soldados da face da Terra.

Salvam-se os macacos trepados nas árvores e a adotada menina Nova. A correção política do antirracismo celebra o extermínio dos humanos, já que eram racistas e não toleravam conviver com os macacos. A morte de Caesar, ferido na luta, anuncia a aurora de um Planeta renovado, onde o apocalipse da América branca é agora um final feliz.

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