PASOLINI POR HERBERT LIST

18 ago
O fotógrafo alemão Herbert List

O fotógrafo alemão Herbert List.

Herbert List (1903-1975) foi um fotógrafo alemão que manteve uma relação ambígua com o poder nazista, fazendo passar o homoerotismo de suas imagens de contrabando no culto ao corpo do regime (ele é representado pelo personagem Joachim Lenz no belo romance autobiográfico The Temple, de Stefen Spender).

Por não ser um “ariano puro”, tendo um avô judeu, List não podia publicar suas fotos, mas isso não o impediu, por outro lado, de ser engajado no Exército, servindo em 1941 na campanha da Noruega como desenhista de mapas. Numa viagem a Paris, retratou Picasso, Jean Cocteau, Christian Bérard, Georges Braque, Jean Arp, Juan Miró e outros artistas que o nazismo proibia como “degenerados”.

Após a guerra, Robert Capa o apresentou à Magnum Photos e ele passou a trabalhar para revistas como Vogue, Harper’s Bazaar e Life. Suas composições em preto e branco, austeras e clássicas, especialmente seus nus masculinos realizados na Itália e na Grécia, tiveram grande influência na fotografia contemporânea homoerótica ligada à moda (Herb Ritts, Bruce Weber).

Em suas viagens à Itália, Herbert List fotografou diversas personalidades locais, entre as quais Pier Paolo Pasolini, em Roma. As fotos de Pasolini por List são publicadas em livros e na Internet como se tivessem sido batidas todas no mesmo ano, sendo este ano diferente conforme a publicação: 1949, 1950, 1953.

No próprio site oficial da Magnum Photos elas foram classificadas e datadas como sendo todas de 1953. Imagino, contudo, que esse aparente conjunto único de fotos de Pasolini por List constitua, na verdade, duas séries distintas, e que tenham sido tiradas em dois momentos diferentes da vida do retratado.

Eu dataria a primeira série com o ano de 1950, logo depois que o jovem poeta perdeu seu emprego de professor devido ao escândalo sexual em Ramuscello em 1949, quando chegou a Roma desempregado, sobrevivendo num pequeno apartamento na Piazza Costaguti, com a mãe trabalhando como empregada doméstica.

Ou mesmo de 1951, quando, ao conseguir um emprego de professor numa escola particular de Ciampino, Pasolini, que se locomovia de ônibus pela cidade, alugou uma casa na via Tagliere, na borgata Rebibbia, onde passou a abrigar o pai militar aposentado, que se entregava à bebida, retornando assim ao triste convívio familiar, depois de ter expulsado Pasolini de casa. Foi o período mais difícil da vida do poeta.

Este slideshow necessita de JavaScript.

A segunda série eu dataria de 1954, quando Pasolini começou a ganhar dinheiro como roteirista na Cinecittà, abandonando o emprego de professor, ou de 1955, quando a publicação de Ragazzi di vita (e o escândalo que o romance provocou) fez de Pasolini uma celebridade cultural: ei-lo agora mais maduro e feliz, frequentando restaurantes da moda, andando pela cidade em seu próprio automóvel…

Este slideshow necessita de JavaScript.

A IGREJA-SAPATO DE TAIWAN

15 ago

A IGREJA-SAPATO DE BUDAI EM CHIAYI, TAIWAN. (2)

Em 2016, foi inaugurada em Budai, na província litorânea de Chiayi, em Taiwan, uma igreja no formato de um sapato feminino de salto alto. Segundo Pan Tsuei-ping, gerente do órgão de Turismo responsável pela ideia, essa nova igreja não será usada para missas de rotina, mas só para cerimônias de matrimônio.

A ideia é atrair mulheres de todo o país para ali realizar seus casamentos: “Nosso plano é fazer um local feliz e romântico… Toda menina imagina como será quando se vestir de noiva”. A estrutura com 320 painéis de vidro azul, com 17m de altura e 11m de comprimento, foi edificada em três meses por US$ 685 mil.

A Igreja-sapato causou espécie nos meios cristãos pelo seu formato pouco convencional. Depois de décadas de intolerância, os católicos brasileiros já aceitam o modernismo de um Oscar Niemeyer na Igreja da Pampulha ou na Catedral de Brasília. Mas o pós-modernismo de uma igreja-sapato desafia conceitos tradicionais de beleza e os padrões vigentes do funcionalismo da arquitetura.

Os idealizadores da Igreja-sapato não pretenderam desrespeitar nenhuma religião, mas criar um “lindo” cenário para casamentos. Embora pareça evocar o sapatinho de cristal que Cinderela perdeu no baile da Corte antes de sua carruagem voltar a ser uma abóbora, e graças ao qual ela fisgou seu Príncipe Encantado, a Igreja-sapato pretenderia homenagear uma mulher da região cuja vida não foi nenhum conto de fadas.

Na década de 1960, uma jovem pobre chamada Wang, de 24 anos, ficou doente e teve que amputar as duas pernas, tendo seu casamento cancelado. Ela viveu o resto de sua vida solteira, morando numa igreja.

Não se sabe, porém, se esta triste história é verdadeira ou apenas um conto de fadas pós-moderno para aplacar as críticas dos fundamentalistas raivosos que odiaram a Igreja-sapato pela sua evocação da tradição das “princesas” da Disney.

A IGREJA-SAPATO DE BUDAI EM CHIAYI, TAIWAN.

Um ano após a inauguração da Igreja-sapato, os entornos do suposto templo foram enriquecidos com esculturas e luminárias de anéis de casamento e outros enfeites Kitsch relacionados aos enlaces matrimoniais, de modo a tornar o local um pequeno parque temático para o turismo casamenteiro.

 

OITO HORAS NÃO SÃO UM DIA

12 ago

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

O cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) viveu como um duende enfurecido: antes, durante e depois dos relacionamentos caóticos que estabelecia com os agregados ao seu grupo de Aktion-Theater ou Anti-Theater, ele atuou em 30 filmes de outros diretores, escreveu e dirigiu dezenas de peças e realizou 44 filmes em 15 anos de carreira, além de duas séries para a emissora de TV alemã WDR (Westdeutscher Rundfunk, de Colônia): Acht Stunden sind kein Tag (Oito horas não são um dia, 1972) e Berlin Alexanderplatz (Berlin Alexanderplatz, 1980).

A série Berlin Alexanderplatz foi restaurada em 2007, exibida em festivais de cinema e lançada em DVD. Mas somente agora Oito horas não fazem um dia ganhou uma restauração da Fundação Rainer Werner Fassbinder, dirigida por Juliane Lorenz (editora dos últimos filmes de Fassbinder e sua segunda esposa), e foi lançada em Bluray nos EUA, com o apoio do MoMA, da FFA, da ARRI, da RWFF, da RWF Werkschau e da Verlag der Autoren.

Não é todo dia que uma grande obra desconhecida de um grande autor do cinema morto há décadas vem à tona. Oito horas não fazem um dia é uma dessas maravilhas silenciadas pelo tempo e que ganham uma nova vida quase por milagre. Sua própria existência foi improvável e controversa: os três últimos episódios tiveram sua produção vetada, de modo que a série que teria oito episódios terminou no quinto, sem ser concluída como fora escrita. Os cinco episódios produzidos (101’ + 101’ + 93’ + 91’ + 90’), divididos em três partes/discos, somam 476 minutos, ou oito horas de duração.

Como explica o subtítulo da série, trata-se de um drama de família. Mas ao contrário daqueles que a TV sempre apresenta ao seu público habitual, centrados nas vidas burguesas de suas classes médias e altas, com seus empregados e serviçais em papéis marginais, o foco de Fassbinder é a classe trabalhadora: seus personagens principais são um grupo de operários de uma fábrica de ferramentas industriais da cidade de Colônia.

O universo limitado dos trabalhadores alemães nos anos de 1970 é descortinado através das relações familiares, de amor e de amizade entre os membros do “núcleo operário” que abriga os tipos mais diversos: Jochen (Gottfried John), o jovem líder nato e principal fio condutor das tramas; Giuseppe (Grigorios Karipidis), o imigrante italiano que tem boas ideias; o trabalhador negro (El Hedi ben Salem), que evita falar; Rüdiger (Herb Andress), o operário racista; Franz (Wolfgang Schenck), o chefe inseguro que precisa estudar matemática para manter seu posto; Wolf (Wolfried Lier), o pai de Jochen, um  aposentado histérico, casado com a lúcida, mas conformada Käthe (Anita Bucher); etc.

Nesse meio, as mulheres se destacam pela força: embora todas sofram o machismo – no caso de Monika (Renate Roland), casada com o pequeno-burguês Harald (Kurt Raab), até o extremo da aniquilação –, a Oma / Vovó (Luise Ullrich) domina o marido submisso Gregor (Werner Finck) enquanto a jovem Marion (Hanna Schygulla), namorada de Jochen, se coloca como sua igual – estas duas mulheres inteligentes sabem conduzir seus homens até um porto seguro.

A série abre com uma festa aflitiva de aniversário, atingindo em poucos segundos um ápice de horror. Os sentimentos dos personagens revelam-se nestas comemorações pobres, nas apressadas refeições em família que terminam em brigas explosivas, nas reuniões tensas do grupo na fábrica, nas discussões mais relaxadas nos banhos coletivos (ocasião para Fassbinder quebrar o tabu do nu masculino na TV).

Os embates se dão entre os maridos e suas esposas, entre os pais e seus filhos, entre os operários e suas namoradas, entre os patrões e seus empregados. Os preconceitos de alguns se manifestam de forma sutil – a funcionária Irmgard Erlkïnig (Irm Hermann) que se sente superior aos operários – ou violenta – o operário racista que ataca seus colegas imigrantes –, mas os personagens principais são amorosos e humanos como raramente o são nos filmes de Fassbinder: torcemos por eles, queremos que eles se deem bem, que consigam realizar seus pequenos sonhos, pelos quais lutam com tanta dificuldade, mas também com inteligência e tenacidade.

Contudo, mesmo quando os operários são vitoriosos em suas reivindicações por meio de protestos organizados contra os chefes a serviço de forças maiores e ocultas, a luta de classes ganha um tom sombrio pela ótima trilha sonora de filme de ficção científica composta por Jean Gepoint (Fuzzy) e de rápidos zooms nos rostos assustados, sugerindo que o novo capitalismo transcende aquele das fábricas descrito por Karl Marx, integrando os operários a um sistema mundial infinitamente mais complexo.

O pessimismo de Fassbinder, expresso pela personagem de Hanna Schygulla, foi criticado pelos comunistas alemães, que viram em Oito horas não são um dia a expressão do conformismo burguês. Na verdade, a visão de Fassbinder conecta-se perfeitamente à da Nova Esquerda, à teoria crítica de Herbert Marcuse, que previu ainda nos anos de 1950 a integração do proletariado ao capitalismo.

Os operários de Fassbinder afogam suas mágoas em litros de álcool e rock’and roll – a trilha pop inclui After the Gold Rush, de Neil Young, e Me and Bobby McGee na versão de Janis Joplin. Eles ainda agem de forma solidária e comunitária, mas seus valores já são os da pequena-burguesia, com a qual se misturam e se confundem.

Os principais agregados de Fassbinder estão todos aqui: Hanna Schygulla (a heroína amoral de O casamento de Maria Braun); Gottfried John (o vilão perverso de Berlin Alexanderplatz); Irm Hermann (a esposa do Mercador das quatro estações); Kurt Raab (o marido enlouquecido de Por que deu a louca no Sr. R. ?); Margit Carstensen (a estilista infeliz de As lágrimas amargas de Petra von Kant); Ulli Lommel (um dos jogadores da Roleta chinesa); Eva Mattes (a filha do transexual de Um ano de treze luas); El Hedi ben Salem (o imigrante turco de O medo corrói a alma); Brigitte Mira (a mãe terrorista de A viagem de Mãe Küster para o céu); Klaus Löwitsch (o cientista rebelde de O mundo por um fio); Peer Raben (compositor de Berlin Alexanderplatz, Lili Marlene, Lola, O Desespero de Veronika Voss, Querelle); Lilo Pempeit (a mãe do diretor, que cuidava da contabilidade de suas produções e com quem ele discutia em Alemanha no outono).

Mas são dois veteranos atores do cinema alemão, a vienense Louise Ullrich (1910-1985)[1] e Werner Finck (1902-1978)[2], que dão um show de interpretação em Oito horas não são um dia como um casal de idosos românticos e astutos, cômicos e absurdos, excêntricos e impagáveis, que enfrentam a burocracia para abrir uma creche estatal com o objetivo altruísta de tirar as crianças da rua, que no fundo esconde outro, mais importante, de conseguir um salário de monitores para complementar suas baixas rendas e poder, assim, alugar um apartamento.

2018 - Série - Rainer Werner Fassbinder - Oito horas não fazem um dia..jpg

Notas

[1] Louise Ullrich, filha de um major do exército austro-húngaro, atuou com Werner Krauss em Rauhnacht (1932) no Lessing Theater de Berlim. Foi então convidada por Luis Trenker para trabalhar em seu filme Der Rebell (1932). Foi coadjuvante em Redenção (1933), de Max Ophüls, estrelado por Magda Schneider (mãe de Romy). No ano seguinte apareceu no papel-título de Regina (1935), de Erich Waschneck. Louis B. Mayer ofereceu-lhe um contrato na MGM em 1938, mas Louise recusou deixar o Reich. Numa viagem à América do Sul encontrou seu futuro marido, Conde Wulf Dietrich zu Castell, diretor do aeroporto de Munique-Riem. Atuou em filmes de prestígio no cinema nazista como Viktoria (1935), Annelie (1941) e Nora (1944), retomando sua carreira no pós-guerra. Em 1973 publicou suas memórias e, nos seus últimos anos, dedicou-se à literatura e à pintura. Morreu de câncer em 1985.

[2] Werner Finck, filho de um farmacêutico, começou sua carreira como narrador de contos de fadas na década de 1920. Foi cofundador do cabaré berlinense Die Katakombe (A Catacumba) em 1929 e ganhou destaque na década de 1930 satirizando o regime nazista no palco, até ser preso por seis semanas no campo de concentração de Esterwegen, sendo liberado após sua amiga atriz Käthe Dorsch interceder por ele junto a Herman Goering. Em 1938, Finck alistou-se na Wehrmacht como soldado para escapar de uma nova prisão, e só retomou sua carreira de cabaretista e ator depois da guerra.

O FASCISMO SOB A MÁSCARA DO COMBATE À CORRUPÇÃO

27 jul
Lula

Caricatura de Lula por Néo Correia.

Cartaz nazista escrito em russo.

Cartaz nazista antissemita escrito em russo.

Antropóloga social especialista no nazismo e no neonazismo, Adriana Dias analisou centenas de representações antissemitas do judeu e pode perceber, de imediato, na imagem de Lula na prisão, a intenção consciente do chargista Néo Correia em demonizá-lo e animalizá-lo através de uma estilização característica do nariz e das orelhas como o faziam os caricaturistas nazistas com os judeus.

Mais que isso, Adriana Dias percebeu que o uniforme de Lula na caricatura não é aquele tradicionalmente usado pelos criminosos em algumas prisões americanas, que se universalizaram como símbolo de prisioneiros, com listras horizontais para não se confundirem com as barras das celas, mas o uniforme dos judeus e outros perseguidos do nazismo nos campos de concentração e de extermínio, com listras verticais.

d1c51a9c22f2a5bf

Uniforme das prisões americanas que se universalizaram como símbolo de prisioneiros.

Wilhelm+Brasse 04

Uniforme nazista dos prisioneiros de Auschwitz.

A caricatura de Lula por Néo Correia plasmou um ódio espalhado em certos meios que ultrapassa o desejo comum do combate à corrupção, configurando o desejo de extermínio típico do fascismo. Não faltou no uniforme nazista da caricatura de Lula o distintivo “Lula 13” para fazer as honras dos distintivos nazistas geométricos baseados na estrela amarela dos judeus para os diversos “inimigos objetivos do regime”.

Distintivos dos diversos prisioneiros dos KZ, criados a partir da estrela amarela dos judeus.

Distintivos dos diversos prisioneiros dos KZ, criados a partir da estrela amarela dos judeus.

CRONOLOGIA DAS PROIBIÇÕES A LULA

12/07/2017: Juiz Sergio Moro proíbe Lula de concorrer a cargos públicos por 19 anos.

25/01/2018: Juiz do DF proíbe Lula de deixar o País.

10/04/2018: Juiz Sergio Moro proíbe que Lula tenha “privilégios” na prisão.

23/04/2018: Juíza proíbe que o advogado e deputado Wadih Damous visite Lula após ser nomeado seu advogado.

23/04/2018: Justiça proíbe visitas de amigos a Lula no cárcere da PF.

26/04/2018: Juíza Cristina Lebbos proíbe que médico de Lula o visite na prisão.

11/07/2018: Juíza proíbe Lula de gravar vídeos e fazer pré-campanha na prisão.

20/07/2018: Ministro do STJ proíbe que Lula conceda entrevistas na prisão.

QUEM SÃO OS PEDÓFILOS?

21 jul

 

 

A Nova Direita intensificou sua campanha de propaganda pela eleição do ex-capitão Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil disseminando uma série de Fake News tentando associar o movimento LGBT e a Esquerda à pedofilia. Mesmo desmentidas, as fraudes continuam operando no inconsciente do eleitorado, já amplamente doutrinado pelo pseudo-filósofo Olavo de Carvalho e seus milhares de replicantes nas redes sociais, incluindo militantes disfarçados de jornalistas que induzem leitores e ouvintes a votar em Bolsonaro pelo ataque sistemático aos demais candidatos.

A súbita preocupação dos replicantes com a pedofilia é apenas uma estratégia política desesperada, sem qualquer real interesse pelo sofrimento das crianças vitimadas. Vale lembrar que Heloísa de Carvalho Martins Arribas, a filha mais velha de Olavo de Carvalho, declarou ter sido bolinada aos nove anos de idade por um adulto enquanto o pai fazia sexo com suas alunas particulares; e que, quando confrontado pela filha já adulta, limitou-se a dizer, violando qualquer lógica, que a culpa era dela:

E onde estava o pai da “família margarina” que, quando soube que eu tinha sido abusada sexualmente, não fez absolutamente nada, e que há uns quatro meses ainda me culpou pelo abuso? Acho que você esqueceu de que eu só tinha 9 anos.

Fonte: Carta aberta a Olavo de Carvalho, meu pai.

O aclamado “campeão da ética” (“Me chama de corrupto!”) o “Mito” da Nova Direita faz há três anos campanha eleitoral ilegal, viajando pelo Brasil e pelo mundo com financiamentos não declarados. Adepto do Estado Policial (com carta branca à polícia para matar quem ela quiser), da militarização das escolas públicas, da ditadura militar e da tortura, ele promete, se eleito, canonizar como “Herói Nacional” o coronel Brilhante Ustra, primeiro torturador do Regime Militar condenado pela Justiça.

Esse candidato das trevas atende aos anseios primitivos da classe média radicalizada, adepta do Extermínio como Solução, da Escola sem Partido (a Escola da Mordaça), da volta da Censura e do “fim do comunismo”, que começaria pelo fechamento dos Partidos de Esquerda e terminaria possivelmente com a instituição de campos de concentração.

Sem o aceite dos vices convidados na chapa da Presidência, o pastor-senador Magnus Malta e o general Augusto Heleno, isolado pelos partidos políticos de cujo apoio sempre disse desdenhar, Bolsonaro viu-se colocado diante da consequência lógica de seu discurso marginal: terá apenas alguns segundos de TV. Seus partidários tentam então encontrar uma nova estratégia de crescimento eleitoral.

Por que não explorar o velho filão da pedofilia? Foi em M (M, o vampiro de Düsseldorf, 1931), de Fritz Lang, com roteiro de Thea von Harbou, uma entusiasta de Hitler, que a figura do pedófilo (ainda mais um serial killer) pode mostrar seu poder catalizador da psicose coletiva, sendo oferecida como um bode expiatório da infelicidade alemã durante a República de Weimar, abalada por sucessivas crises econômicas e políticas.

Como ninguém, em sã consciência, é a favor da pedofilia, as mídias sujas da Nova Direita que desejam eleger Bolsonaro como seu mais fiel representante ideológico tentam agora uma última cartada fraudulenta, acusando seus adversários de serem “pedófilos”.

Os replicantes do ideólogo Olavo de Carvalho (Nando Moura, Alexandre FrotaJoice TVTerça Livre, Diego Rox, Caneta Desesquerdizadora, MBLArtur Mamãe Falei, Paula MarisaBernardo Küster, Paulo Kogos, etc.) montaram no YouTube canais de propaganda fascistoide dedicados a martelar, dia e noite, os constructos da doutrina olavista, segundo o método inspirado por Goebbels da redução dos temas complexos às fórmulas mais rasas, com a repetição ad infinitum da mentira resultante até virar verdade, tornando o mistério do mundo inteligível aos ignorantes da maneira desejada:

  • O marxismo cultural domina o mundo
  • Escola sem Partido contra o marxismo cultural
  • Foro de São Paulo
  • 100 milhões de mortos do comunismo
  • Ditaduras de Cuba e Venezuela
  • Planos comunistas de Lula e Dilma
  • Financiamento do comunismo por George Soros
  • Brasil salvo do comunismo pela ditadura militar
  • Não houve ditadura militar no Brasil
  • Necessidade de todos terem armas
  • Todo político é socialista e bandido, menos Bolsonaro
  • Heroísmo da PM
  • Maravilhas do Livre Mercado
  • Horrores das Leis de Incentivo
  • Podridão da Rede Globo
  • Feminazis e gayzismo
  • Aborto e pedofilia
  • Esquerda enfia ideologia de gênero goela abaixo
  • Todo professor é maconheiro
  • A culpa da educação ruim é do construtivismo de Paulo Freire
  • Os livros do MEC e os professores de História mentem
  • Revelação de que o nazismo é de esquerda

Quem discordar de qualquer constructo da doutrina olavista será considerado um herege, e acusado de petista, comunista, bandido e pedófilo pelos seguidores dos replicantes, que reinterpretam cada nova transformação da velha sociedade pela modernidade consumista do capitalismo pós-industrial como uma conspiração orquestrada pela ONU e por George Soros para erotizar as crianças e normalizar a pedofilia na Nova Ordem Mundial a serviço do comunismo.

Alimentando-se de artigos falaciosos produzidos por grupos fascistas americanos, os replicantes da Nova Direita reproduzem suas distorções dos fatos, atacam médicos e psiquiatras que estudam o problema e reportam somente os casos registrados de petistas pedófilos, como os do ex-assessor da Casa Civil da Presidência da República Eduardo Gaievski; do fundador do PT do Acre; e do prefeito de Baldim. Varrem assim para debaixo do tapete milhares de casos registrados de pedófilos nos meios cristãos:

4.500 CASOS DE PEDOFILIA NA IGREJA CATÓLICA

ARCEBISPO DE BOSTON PROTEGEU PADRES PEDÓFILOS

TOP 10 DOS PASTORES PEDÓFILOS E ESTUPRADORES DO BRASIL

PAPA DEBOCHA DE VÍTIMAS DA PEDOFILIA

PAPA ADMITE QUE RECEBE COM FREQUÊNCIA VÍTIMAS DE PADRES PEDÓFILOS

VÍTIMAS DE PADRE PEDÓFILO DENUNCIAM PACTO DE SILÊNCIO NA IGREJA DO CHILE

CASOS DE PASTORES PEDÓFILOS

O CASO DO PADRE PEDÓFILO QUE DESAFIOU O PAPA

OS ESCÂNDALOS DE PEDOFILIA NA IGREJA CATÓLICA

CORONEL MONSTRO PEDÓFILO

MILITAR PRESO POR PEDOFILIA

SARGENTO PRESO POR PEDOFILIA

MILITAR PEDÓFILO PRESO

etc.

Flávio Bolsonaro, que propõe cortar o financiamento público da Parada Gay, publicou uma fake news sobre suposto “P” de pedofilia na sigla LGBTP, no que foi amplamente desmentido pela comunidade LGBT. Quando o padre Júlio Lancelotti ousou criticar Jair Bolsonaro num sermão foi difamado como “padre pedófilo” seguindo orientações dissimuladas do mesmo Flávio Bolsonaro que, depois de posar ao lado de um pedófilo, tentou coibir a divulgação da imagem como se ela fosse falsa.

A erotização das crianças não é promovida por constructos fictícios como “marxismo cultural” e “globalismo comunista”. O fenômeno se enraíza na realidade da sociedade de consumo. A tentativa de colar LGBTs e esquerda à pedofilia é uma clara denegação da realidade da pedofilia, cuja maior incidência se constata na “sagrada” instituição da família, sem falar da pedofilia heterossexual enraizada no Islã (as milhões de noivas-crianças) que remonta ao notório casamento de Maomé com a menina Aisha.

A “pedofilia comunista” é outro constructo produzido pela mesma fábrica de conceitos dissolventes da realidade (“ideologia de gênero”, “esquerda fabiana”, “nazismo de esquerda”, “Inquisição misericordiosa”, etc.) montada no Brasil por Olavo de Carvalho, empregando milhares de replicantes em constantes refutações pela conquista do Santo Graal da Verdadeira Direita Pura: um misto de wishful thinking com revisionismo histórico e propaganda barata do tipo “se colar, colou”. Uma calculada estratégia para arrebanhar as massas despolitizadas para a arapuca doutrinadora da Direita fascistoide.

Inútil desmentir as Fake News da Nova Direita provando por A + B sua desonestidade, como na reportagem venenosa de Terça Livre, que finge dissociar-se da difamação para difamar ainda mais. É da essência do fascismo negar a realidade. Por mais que se os desmascarem, os adeptos de Bolsonaro continuarão a apostar, com a falta de ética e o irracionalismo obsceno que lhes são característicos, na falaciosa denúncia da “pedofilia comunista”. É a estratégia insana do “olavismo cultural” para chegar ao poder.

O FETICHISMO ARMAMENTISTA DA DIREITA

11 jul

O pré-candidato à Presidência e Deputado da Direita, o capitão reformado Jair Bolsonaro, quer liberar a posse de armas, pois, conforme declarou ao programa de entrevistas de Mariana Godoy na Rede TV, “um povo armado nunca se submeteria a uma ditadura.” Nem ele nem os jornalistas chapas-brancas perceberam a contradição. O defensor da ditadura que combateu a luta armada agora defende a luta armada contra a ditadura…

A liberação das armas de fogo é uma ideia atraente para a Nova Direita e seus jovens militantes paranoides, com complexos sádico-anais, que posam nas redes sociais segurando rifles e pistolas, sentindo-se potentes ao desafiar a proibição de posse de armas de fogo para quem não está habilitado e treinado.

Mas essa liberação não atenderá apenas aos anseios das classes médias aterrorizadas com invasões, assaltos e estupros, que odeiam Direitos Humanos e vibram com o slogan “bandido bom é bandido morto” (aplacando a má consciência de seu eleitorado cristão, Bolsonaro assegura-lhes que “bandidos não são seres humanos”, podendo ser torturados e exterminados sem qualquer piedade.)

Num efeito inesperado, a proposta de Bolsonaro permitirá também o armamento dos jovens esquerdistas que se encontram cada vez mais desesperados com o impeachment de Dilma, a prisão de Lula, a perseguição sem trégua aos políticos do PT, os “esculachos” em aeroportos e restaurantes e os linchamentos morais nas redes sociais orquestrados pelas centrais da Nova Direita, formadas pelo “professor” Olavo de Carvalho, com replicação imediata por seus cinco mil “alunos” ativistas que aparelharam as mídias.

Como a Direita jurássica quer a liberação da posse de armas, justificada pela “resistência à ditadura”, os jovens esquerdistas radicalizados poderão se armar até os dentes para lutar com armas de fogo contra o novo “golpe” e a ditadura que se desenha no horizonte: os militantes da Nova Direita usam camisetas “coronel Ustra” (Bolsonaro promete, se eleito, declarar o primeiro torturador da ditadura condenado pela Justiça “Herói da Pátria”); exigem a cassação do registro do PT; clamam pela prisão preventiva de todos os petistas; rogam por uma intervenção militar; sonham com a “proibição do comunismo”…

Ao desejar que “todo cidadão tenha uma arma”, essa Nova Direita jurássica dá carta branca a uma certa esquerda radicalizada para criar novamente seus grupos armados, suas guerrilhas rurais e urbanas. Movimentos sociais como CUT, MST e MSTT poderão acumular armas de fogo e passar à luta armada.

Seguindo a velha “estratégia da tensão”, a Nova Direita fez reviver a ideologia da Guerra Fria e promete trazer de volta a “guerra suja” dos “anos de chumbo”, com milícias fascistas de um lado, e guerrilhas comunistas de outro, forçando uma guerra civil que culminará numa  ditadura – de direita ou de esquerda.

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

 

A NOVA DIREITA PRÓ-ISRAEL

6 jun

20171214_230117-1

Lemos nos jornais que Marie Le Pen, na França, depois de afastar definitivamente seu polêmico pai Jean-Marie Le Pen do seu partido, a Frente Nacional, mudou seu nome para Reunião Nacional, em mais uma tentativa de dissociá-lo do seu passado fascista e antissemita, para transformá-lo de um partido de oposição em um partido de governo.

No Brasil, vemos o pré-candidato da Nova Direita liberal-fascistoide à Presidência, Jair Bolsonaro, visitando os EUA e Israel, e palestrando no clube judaico “A Hebraica” do Rio de Janeiro, onde proferiu algumas pesadas piadas racistas e machistas, divertindo uma plateia constituída em parte por seus seguidores fanáticos.

A Nova Direita liberal-fascistoide conseguiu conquistar uma parcela da comunidade judaica, representada pela organização Associação Sionista Brasil Israel, presidida pelo jornalista, advogado e empresário Ronaldo Gomlevsky, que saiu em defesa de Jair Bolsonaro, quando ele foi chamado de “nazista” pelo historiador liberal-revolucionário Marco Antonio Villa:

Apoiamos Bolsonaro por reconhecermos nele um amigo, um admirador da cultura e tradições judaicas e um defensor da soberania do Estado de Israel.

Acreditamos na sua sinceridade e empenho para combater a ideologia marxista que está destruindo o Brasil.

Compreendemos que a sociedade brasileira foi esgarçada de tal forma, que a única oportunidade do país se reerguer e se livrar deste câncer é dando uma guinada à direita para se reequilibrar e voltar ao centro.

Entendemos que um Congresso forte e livre de progressistas no poder é o que vai devolver o país à normalidade e aos valores morais e éticos que estruturaram a nossa sociedade.

Decidimos que é chegado o momento de nos posicionarmos, e isso significa rejeitar qualquer administração pública de qualquer matiz de esquerda.

[…]

Urge que o país se oxigene para o seu próprio bem. Estamos intoxicados com a desmoralização dos valores judaico-cristãos que perverteram a sociedade, mudando a ordem das coisas a ponto de transformar a exceção em regra e a regra em exceção.

Colocamo-nos à disposição da família Bolsonaro para organizar quaisquer eventos que ajudem a esclarecer a posição política diante dos questionamentos que todos estão fazendo sobre diferentes e polêmicos temas.

[…]

Ao acusar Bolsonaro e seus eleitores de nazistas, o historiador aponta seu dedo para boa parte da comunidade judaica que o apoia e se sente ofendida com este ataque desproporcional e histérico.

Claro que chamar Bolsonaro de “nazista” é um ataque desproporcional e histérico. Ninguém pode ser considerado nazista apenas por ter afirmado ser favorável à tortura e à sonegação de impostos; que se chegasse ao poder fecharia o Congresso e mataria 30 mil “vagabundos” de cara, incluindo o Presidente da República (na época Fernando Henrique Cardoso); e que a única solução para o Brasil seria, a seu ver, uma guerra civil, na qual morreriam alguns inocentes, mas tudo bem, que se danassem, isso fazia parte da coisa. Poderíamos também considerar desproporcional e histérico o apoio dos neonazistas brasileiros ao seu candidato, o Jair Bolsonaro.

Em 2004, o escritor cristão-fundamentalista Olavo de Carvalho, ex-comunista e ex-muçulmano, que frequentou a tarika do místico suíço Frithjof Schuon adotando o nome de Mohammed Ibrahim, sendo premiado no Concurso de Monografias sobre a vida do profeta Maomé, do Centro Islâmico do Brasil e no Concurso de Ensaios sobre História Islâmica da Embaixada do Reino da Arábia Saudita em 1986, passando depois a exaltar Israel como a ponta de lança do Ocidente no Oriente Médio, palestrou na Hebraica contra o totalitarismo islâmico. Aos 40:35 minutos da palestra, discorrendo sobre as diferenças entre o totalitarismo comunista e o totalitarismo nazista, Olavo fez uma digressão (transcrição e grifos nossos) ao lembrar-se de uma reportagem da TV (provavelmente o debate sobre os “100 anos de Hitler” na TV Bandeirantes):

No Brasil tudo é possível. Uma vez eu vi um sujeito na televisão dando entrevista, era o…. era o…  porta-voz do Partido Nazista Brasileiro, era um mulato. Eu não sei como é que ele conseguiu (risos). Mas não estou falando de brasileiro, estou falando de pessoas racionais. Racionalmente falando, quer dizer, uma ideologia da raça superior só interessa a quem pertence à raça superior, o que evidentemente não é o nosso caso, tá certo? Então, vocês vejam que não sei se vocês já repararam, sempre que existe uma teoria da superioridade racial, por uma maravilhosa coincidência essa raça é sempre a do teórico. (Pausa). Vocês já viram algum teórico racista que pertence à raça inferior? Só eu pertenço à raça inferior, os outros não… Aaaah… Onde quer que você veja uma pretensão de superioridade racial, e nós já a vimos não só no caso nazista, mas vimos hoje em certos teóricos do movimento Black americano, eu lendo esses camaradas, eu vejo como é fácil você argumentar neste sentido, desde que você esteja assegurado que o resultado da sua pesquisa científica será aprovado porque o superior é você. Porque se você estiver com uma suspeita, bom, vou investigar esse negócio, vai que eu provo que existe superioridade racial e eu caí justamente na inferior, eu não vou prosseguir com essa pesquisa, não sou besta. Então, por ser uma ideologia de tipo nacional e racista, é evidente que o interesse dela para outras nações, essa teoria só poderia ser vendida para outras nações na base da fraude, quer dizer, cada nova nação que os nazistas faziam aliança, vai ter que provar que eles pertencem à raça superior também, quer dizer, o italiano é ariano de algum modo, os árabes também vão ser um pouco arianos, e assim por diante, quer dizer, é um trabalho retórico, uma retórica muito tortuosa demais, tá certo? Então nós não podemos conceber uma… algo como uma Internacional Nazista. Vai chegar ao ponto em que você só provoca antagonismo.

A digressão é reveladora da visão que Olavo de Carvalho tem de si próprio, como um “teórico racista de raça inferior”, nascido num país miscigenado. Embora se sentisse desprezível enquanto membro de uma “raça inferior”, mas capaz de espertezas e desonestidades numa suposta pesquisa científica sobre “superioridade racial” que o colocasse entre os “inferiores”, ele ainda assim se considerava dotado de uma mente superior, o que lhe permitia considerar “os brasileiros” como “pessoas irracionais”, ou seja, um povo de cretinos e idiotas. Nos milhares de vídeos de Olavo no YouTube, editados do seu Curso de Filosofia e do seu True Outspeak, postados por seus alunos e replicados por outros tantos fãs, ele não se cansa de desprezar os brasileiros, como seres “inferiores”, “fracassados”, “sub-humanos”. Para Olavo, o Brasil é um país de “macacos”.

Em agosto de 2017, a jornalista Joice Hasselman foi convidada pela Pastora Evangélica Jane Silva, presidente da Comunidade Brasil-Israel, a um evento em Jerusalém onde falou “em nome do povo brasileiro” e pediu perdão pela agressão do governo brasileiro a Israel na UNESCO: “O Brasil é por Israel, ninguém pode rasgar a Bíblia”, afirmou Hasselman, entregando uma bandeira brasileira e um documento da Comunidade Brasil-Israel, atestando o “apoio do povo brasileiro” e seu “reconhecimento” de Jerusalém como a capital eterna de Israel, recebendo uma bandeira de Israel.

A Nova Direita liberal-fascistoide procura dissociar-se de seu passado fascista (“Nazismo é Esquerda”, é seu novo mantra protetor) e das fantasias antissemitas sobre os Rothschild (difundidas por seus ideólogos nos anos de 1930 e adotadas no Brasil pelo integralista Gustavo Barroso em obras como Brasil, colônia de banqueiros) ao mesmo tempo em que atualiza essas fantasias (emanadas dos Protocolos dos Sábios do Sião) em teorias conspiratórias pós-Auschwitz (que atribuem o domínio do mundo ao Clube Bilderberg e do Brasil ao Foro de São Paulo, à “onipresença” dos agentes do Mossad e do “todo-poderoso” investidor judeu George Soros nas sinistras ações progressistas). A que se deve o apoio da Nova Direita liberal-fascistoide a Israel? Podemos elencar três motivos:

(1) Anticomunismo requentado da Guerra-Fria. Como quase toda a Esquerda passou a condenar Israel e a apoiar a OLP após a Guerra dos Seis Dias (1967), abraçando as teorias “anticolonialistas” e “terceiro-mundistas”, que fazem da “causa palestina” a principal bandeira de sua política exterior, a Nova Direita liberal-fascistoide alinhou-se, num reflexo automático, a favor de Israel. Requentando o anticomunismo da Guerra-Fria, sua militância obteve grande sucesso nas mídias e redes sociais, explodindo em todo o mundo com o rico apoio das organizações anticomunistas americanas.

(2) Interesses materiais dissimulados. Os ícones da Nova Direita liberal-fascistoide querem conquistar os milhões de votos, os milhões de leitores e os milhões de likes dos evangélicos, que sustentam Israel por razões religiosas / financeiras (peregrinações a Israel, venda de água benta em Israel, criação do Templo de Salomão, etc.). Os evangélicos também possuem sua própria agenda de longo prazo, que é moralizar a sociedade brasileira e cristianizar o Estado Judeu, mas alianças entre a Bancada Evangélica e a Nova Direita liberal-fascistoide são recorrentes, com o senador Magno Malta tratando artistas como criminosos e o curador Gaudêncio Fidelis, coagido a prestar depoimento numa CPI dos Maus Tratos, como bandido e vagabundo; ou o deputado Pastor Marco Feliciano afirmando que os 24 milhões de funcionários públicos do Brasil vivem “escorados no Estado”, não passando de vagabundos que não trabalham.

(3) Fetichismo armamentista cristão-fundamentalista. Ser pró-Israel para os militantes da Nova Direita liberal-fascistoide é ser militarmente engajado contra o Islã, é ter a seu lado um poderoso Exército voltado contra o mundo árabe-muçulmano em defesa da civilização ocidental judaico-cristã (mais cristã que judaica em seu wishful thinking); é emular a fantasia fetichista do Cruzado, do super-soldado anti-islâmico armado até os dentes, que Israel representa aos seus olhos.

Olavo de Carvalho, Felipe Moura Brasil, Padre Paulo Ricardo, Jair Bolsonaro, Joice Hasselman, Nando Moura, Kim Kataguiri et caterva não são pró-Israel pelas razões corretas – por ter sido o Estado Judeu criado como resposta ao Holocausto nazista, com o apoio da maioria dos países da ONU, incluindo a URSS; por ser uma ilha de democracia cercada de ditaduras árabes por todos os lados; por ser um Estado Laico onde os gays têm seus direitos respeitados até dentro do Exército e que não discrimina suas minorias religiosas; onde as mulheres têm voz ativa; um Estado multiculturalista e pacifista (obrigado a defender-se nas guerras que os árabes não cessaram de mover contra ele).

A melhor prova de que a Nova Direita liberal-fascistoide é pró-Israel por anticomunismo requentado da Guerra Fria, interesses materiais dissimulados e fetichismo armamentista cristão-fundamentalista é que seus ideólogos continuam a defender a Inquisição (que, segundo Olavo de Carvalho, “foi um passo enorme na luta pelos Direitos Humanos”, uma instituição misericordiosa, que desconhecia aparelhos de tortura e não perseguia os judeus); e a atacar a tradição progressista judaica – de Marx & Engels (comparados a Hitler) à Escola de Frankfurt (acusada de envenenar o mundo com o “marxismo cultural”); dos sionistas de esquerda dos kibutzim (associados aos piores genocidas do século XX) às feministas judias Sulamtih Firestone, Betty Friedan e Judith Butler (abominadas como bruxas, feminazis e “inventoras da ideologia de gênero”).

A Nova Direita liberal-fascistoide não é exatamente uma defensora de Israel, mas uma defensora de sua própria fantasia de Israel como um país militarizado, cruel com os palestinos, idealmente limpo dos judeus de esquerda, sem lugar para sionistas socialistas, livre dos judeus capitalistas-comunistas que Olavo de Carvalho caracteriza como “Rothchilds e filhos da puta da ADL” [Anti-Defamation League] e que ele percebe como “traidores da pátria enchendo o cu de dinheiro”, os quais deveriam ser varridos de Israel, escorraçados do mapa, destinados à “Solução Final”.

padrePauloRicardo

Olavo de Carvalho, Padre Paulo Ricardo e um discípulo fiel posando com rifles: fetichismo armamentista cristão-fundamentalista. Imagem encontrada na Internet.