ALGO DE SINISTRO OCORRE NAS LIVRARIAS

Cenário de livro numa montagem da Ópera de Bregenz, maior palco aquático do mundo.

Ópera de Bregenz, maior palco aquático do mundo. Reprodução da Internet.

Alguém mais já se deu conta de que ler livros hoje no Brasil é um privilégio dos ricos e milionários – que raramente leem livros? Quem pode adquirir agora na Estante Virtual o livrinho Visita a Israel: Crônicas, reunindo entrevistas e reportagens com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, com 80 páginas, por R$305,57?

Quem há de adquirir os Contos Completos de Flannery O’Connor, vendidos na Estante Virtual por R$450,00 e R$750,00 ou na Amazon por R$480,00, R$605,00 e  R$750,00?

Estuda a arte cinematográfica e precisa comprar o livro clássico sobre o cinema da República de Weimar, o De Caligari a Hitler, de Siegfried Kracauer? Encontrará apenas duas ofertas na Estante Virtual, uma por R$299,99 e outra por R$726,73.

Aqueles meus livros que ainda podem ser encontrados nas livrarias físicas brasileiras a preços normais, atingem um preço louco nos EUA: Todos os corpos de Pasolini, por exemplo, pode ser comprado na Amazon brasileira a R$59,99, mas na Amazon americana seu preço é US$175,15, ou seja, R$652,27.

Se quiser adquirir o livro nem tão essencial Filosofia política contemporânea, de Will Kymlicka, publicado pela Martins Fontes, em 2006, encontrará um exemplar pela bagatela de R$700,00, além de outras duas ofertas de R$799,00, na Estante Virtual, ou ao ao preço de R$950,00 no Mercado Livre.

Um exemplar único de A fragilidade da bondade, de Martha C. Nussbaum, é vendido na Estante Virtual a R$ 989,00.

Quer ler as Cartas a Lucílio na única edição completa em língua portuguesa, a da Fundação Calouste Gulbenkian, em capa dura? Há dois exemplares: um por R$499,00 e outro por R$1.289,00.

Há duas ofertas bastante inacessíveis na Estante Virtual do estudo Religião e declínio da magia, de Keith Thomas, editado pela Companhia das Letras em 1991, uma por R$830,00, e outra por R$1.500,00.

O único exemplar à venda da edição espanhola de Bajo la Mole, pequeno livro de Antonio Gramsci com 144 páginas, só pode ser adquirido na Amazon a R$1.816,00.

Um estudo mais alentado, de 434 páginas, intitulado La revuelta contra la civilización: D.H. Lawrence y el romanticismo antimoderno, aproveita-se da circunstância de ser a única oferta da Amazon e cobra o preço de R$ 3.108,00. Não se trata de uma obra rara, antiga, esgotada há um século, mas de um livro novo, publicado em 2001.

Se nos meus tempos de estudante, sempre sem dinheiro, eu saía dos sebos carregando pencas de livros ótimos, comprados a preço de banana, hoje os livros velhos atingem valores astronômicos, estratosféricos. A que se deve essa sandice? O fenômeno possui causas múltiplas e, mesmo sem ter feito qualquer estudo aprofundado a respeito, adianto aqui algumas hipóteses:

(1) O acelerado declínio da cultura humanista faz com que muitas obras clássicas, importantes, que todo estudante há algumas décadas era obrigado a conhecer, não sejam mais reeditadas em papel; os exemplares das velhas edições remanescentes no mercado tornam-se raridades;

(2) Ao reunir milhares de sebos num só espaço virtual, a Internet revelou não só aos leitores interessados, mas também aos livreiros ávidos de vendas, a existência em todo o mundo de poucos exemplares de determinada obra (quando não de um único exemplar), o que estimulou seus possuidores, desinteressados nesses objetos de desejo dos pesquisadores e colecionadores, a fixar-lhes preços escorchantes;

(3) A crescente baixa do número de leitores de livros em papel faz com que as edições tenham uma tiragem menor, e quando a primeira tiragem se esgota, não há mais tiragens da obra;

(4) Assim como as livrarias de rua foram suplantadas pelas livrarias virtuais, as pequenas editoras empenhadas estão desaparecendo (o custo das edições em papel tornou-se impraticável), e seus catálogos não são assumidos pelas grandes editoras comerciais;

(5) Muitos livros passam a ter somente versões digitais (e-books) para tablets, que às vezes também apresentam preços bastante elevados;

(6) A imensa quantidade de livros supérfluos, escritos por “famosos” da TV, manuais de autoajuda, best-sellers eróticos, etc. faz com que os livros importantes desapareçam das prateleiras das livrarias físicas e virtuais. Perdendo a visibilidade, não são mais procurados pelos leitores nem mais reeditados, tornando-se raridades em sebos, com preços exorbitantes.

Ainda não é o fim do livro, mas o fim das boas bibliotecas particulares, compostas de obras que os leitores cultos gostavam de ter para o estudo e o prazer da leitura e que só venderiam em último caso. Os bons livros desaparecem do mercado, e os poucos exemplares disponíveis em sebos e antiquários passam a custar tanto que num futuro próximo apenas os nababos poderão ostentar uma seleta biblioteca particular.

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AS COLAS DE BOLSONARO

Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência pelo PSL, colou as palavras PESQUISA, ARMAS e LULA em entrevista à Rede TV, em 17 de agosto de 2018.

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Bolsonaro colou as palavras DEUS, FAMÍLIA e BRASIL em sua entrevista ao vivo em 28 de agosto de 2018 por William Bonner e Renata Vasconcellos na bancada do Jornal Nacional, da Rede Globo.

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Em outra entrevista, Bolsonaro colou as iniciais das palavras HONESTO, CRISTÃO E PATRIOTA.

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UMA VELHA POLÊMICA

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FOLHA DE S. PAULO

Jornal de Resenhas, São Paulo, Sábado, 11 de Dezembro de 1999

Defesa do filme mudo

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs1112199910.htm

LÚCIA NAGIB

 

FOLHA DE S. PAULO

Jornal de Resenhas, São Paulo, Sábado, 08 de Janeiro de 2000

RÉPLICA

Chavões da crítica

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs0801200011.htm

LUIZ NAZARIO

Gostaria de apontar algumas incorreções da resenha de meu livro As Sombras Móveis, publicada neste Jornal de Resenhas (11/12/99). Lúcia Nagib aí afirma que o livro propõe provar a tese de que existem motivos para se reanimar uma velha discussão sobre a defesa do cinema silencioso. Falso. O livro não pretende provar tese alguma: ele é, como adverte a “Nota do Autor”, uma coletânea de “ensaios”.

O livro tampouco se destina a um “leitor especializado”, pois, segundo a própria resenha, a “Nota” parece coerente com a “rapidez impressionista da crítica de imprensa”, o capítulo inicial é um “apanhado vertiginoso das primeiras experiências cinematográficas”, e o conjunto de ensaios compõe “um panorama rápido dos primeiros tempos do cinema”. Um livro de 334 páginas, que se lê a tal velocidade, destina-se a um público amplo. E se o “leitor especializado” vê-se obrigado a fazer “garimpagem das novidades em meio a páginas e páginas de lugares-comuns” ou tornar-se “leitor paciente que saiba extrair (do livro) as boas ideias”, esse minerador de novidades e ideias preciosas poderia ter poupado seu tempo se fosse capaz de perceber, como Paulo Roberto Pires (“Monstros e Vencidos”, in “Cinema”, nº 18), que minha defesa da “atualidade do cinema mudo” não passa de uma ironia.

Ao analisar “a parte mais controversa do livro”, o ensaio “Contra o Cinema Conceitual”, que se inicia à pág. 89, a resenhista imagina de início uma crítica a Bazin, e só percebe tratar-se de uma crítica a Eisenstein ao chegar à pág. 117, atribuindo, então, a mim, o desconhecimento da teoria desse cineasta, citada, contudo, desde o título, à pág. 89 por suposto, declaradamente contra a teoria do “cinema conceitual”, teoria esta defendida, entre 1927 e 1931, por – quem diria! – Eisenstein.

No mesmo parágrafo, a resenhista atribui-me a negação da “interface do cinema com a literatura, a música, a pintura, o teatro e, por que não, a filosofia”, a negação, portanto, “do cinema como um todo”, afirmando que faço a “mais primária defesa do cinema puro”. Desafio a resenhista a provar essas afirmações. Tampouco aceito a afirmação de que o cinema expressionista alemão é “o preferido de Nazário”. Meu gosto não é tão limitado. E como poderia eu desconhecer as origens do expressionismo, se meu ensaio “A Revolta Expressionista” vem, de acordo com a resenhista, “acrescentar informações preciosas” aos dois clássicos estudos de Kracauer e Eisner?

A resenhista afirma ainda que meu ensaio “O Caso Fritz Lang”, sobre esse cineasta, “acaba se reduzindo às suas prováveis inclinações nazistas, quando a própria história do cinema já provou que os filmes foram muito maiores do que as supostas opções políticas do diretor”. Que afirmação é essa? A história do cinema “prova” alguma coisa? Não é essa história uma estrutura dinâmica, que se refaz sem cessar por meio da historiografia? E, então, como decidir levianamente que a obra de um autor é “maior” que suas “supostas opções políticas”, sem proceder ao exame dessas “opções” no contexto da obra, verificando se não configuram uma ideologia, sendo esta inseparável da obra?

Prosseguindo no mesmo tom leviano, a resenhista sugere que o ensaio “se deixa fascinar pelas descobertas, já nem tão recentes, das ligações do grande cineasta com o nazismo”, inscrevendo-me na “moda atual” de destruir o mito de Lang, oferecendo como exemplo Patrick McGilligan (que não cito). Ora, escrevi a maior parte do ensaio antes da descoberta do passaporte de Lang por Gösta Werner, que colocou em questão o episódio de sua fuga da Alemanha na mesma noite em que foi convidado por Goebbels a dirigir o cinema nazista. A descoberta confirmou minha análise, que foi então completada com os novos dados; ofereci uma primeira versão dela a Amir Labaki, como subsídio à reportagem “Diretor Voltou à Alemanha Nazista Após ‘Fuga’” (cf. Folha, 29/09/90). Um resumo dessa análise foi então publicado na Set, sob o título “A Sombra Móvel”, que adotei para o livro, no plural.

Quanto a The Nature of the Beast, se o livro saiu antes do meu ensaio, foi provavelmente escrito depois dele; e em nada me influenciou: até hoje não tive tempo de ler esse catatau – por que deveria citá-lo? Acreditar que um autor brasileiro esteja sempre a reboque das modas americanas ou europeias é ignorar a dinâmica de nosso mercado editorial. E afirmar que meu ensaio reduz a obra de Lang às suas prováveis inclinações nazistas é reduzir meu ensaio a isso, nada percebendo da complexidade das questões nele abordadas.

Parece-me, enfim, que é a resenhista quem opera um reducionismo, desprezando a historiografia para reiterar os chavões da crítica, que santifica um artista consagrado suprimindo suas contradições.

Luiz Nazario é professor de teoria e história do cinema na Universidade Federal de Minas Gerais e autor de As Sombras Móveis (Ed. da UFMG).

GAYS DE DIREITA

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gay de direita

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Os bolsominions não são homofóbicos: até elogiam Clodovil, Fred Mercury, gays que já morreram. Essa admiração é outra forma de dizer “gay bom é gay morto”.

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Rosana Hermann relatou alguns fatos sobre Clodovil no Twitter (e o mais engraçado é que muitos bolsominions ficaram em dúvida se o depoimento era uma crítica ou um elogio): Vcs não têm A MENOR IDEIA de quem era o Clodovil. Trabalhei ANOS com ele, frequentei a casa dele, em SP e Ubatuba. Vcs falam sem SABER, sem CONVIVER. Idolatram uma FANTASIA “as seen on TV”. Entrei pra TV para ser roteirista de um programa do Clodovil na Band. Meu primeiro emprego oficial na televisão. Emissora, direção, todos faziam questão que o programa fosse muito luxuoso. Cenário caríssimo, escada de luzes, tudo do melhor. Clodovil brigava e gritava com toda a produção, fazia gente chorar. Queria convidados como Maria Bethânia, que a produção não conseguia porque BETHÂNIA não queria dar entrevista pra ele. Mas ninguém dizia pra não magoá-lo. Então ele chamava as produtoras de incompetentes, que não sabiam produzir, que deviam  passar 1 mês mandando flores pra ela diariamente. (imagine!). Mas, ok, a gente superava. Até que eu VI algo que ACABOU COMIGO. Clodovil, com seu bom gosto (vdd) mandou fazer uniformes especiais para a equipe técnica. Ele cismou com um câmera (não vou dizer o nome) e ficava cantando o cara no estúdio, na frente de todo mundo. O cara, quietão, na dele, respeitava, não falava nada. Mas o assédio foi aumentando, aumentando. E o cara disse ‘não’ pro apresentador. Que fez o que? PEDIU A cabeça do câmera que foi DEMITIDO. Casado com 3 filhos. Perdeu o emprego pq disse ‘não’ para os assédios do apresentador. O programa estreou com grande sucesso, com a cantora Cláudia num vestido que ele fez pra ela (lindo!) cantando Evita (do musical), tudo um luxo. Mas foi degringolando com o tempo e acabou. Porque ele era CRUEL, com as pessoas, especialmente as mais simples. Aliás, Marilia Gabriela disse que achava Clodovil MUITO cruel mesmo: https://natelinha.uol.com.br/noticias/2015. Mesma experiência. Depois eu trabalhei com Clodovil na Manchete. Ai a coisa piorou Clodovil destratava todo mundo, fora no ar e NO AR. Ele achava que era superior a todos, não era legal com ninguém. Nem com a fiel escudeira dele , a I. que trabalhou uns 30 anos com ele até descobrir que ele NUNCA pagou nenhum direito trabalhista pra ela! Quando ela soube, entrou com processo trabalhista, ganhou. Clodovil teve que vender o atelier lindo que ele tinha na Av. Cidade Jardim para pagar I. quando ela se aposentou. Ele fazia não só GRANDES maldades, mas pequenas, só pra humilhar o outro, como fez com J, que era cabeleireiro dele (e meu). J. sonhava em ter um perfume Davidoff. Um dia Clodovil disse que ia pra Paris. J. juntou um dinheiro, mostrou o perfume numa pagina de revista e pediu pra Clodovil trazer um. J ficou SONHANDO com o perfume. Quando Clodovil voltou, J. perguntou: – Achou o perfume? E ele: – Achei. Mas só tinha UM na loja (????), então eu peguei o dinheiro e comprei pra mim. J. chorou. Eu já não aguentava mais trabalhar com ele, mas um dia o Poladian me chamou pra escrever um show pro Clodovil. A reunião era na casa dele em Ubatuba. Fui. Eramos umas 5 ou 6 pessoas. Clodovil proibiu os casais de se beijarem dentro da propriedade dele, ficarem juntos ou dormirem juntos. À noite, ele foi dormir, fomos todos também. 8 da manhã acordamos todos, naquela casa isolada, morrendo de forme. A mesa estava posta. Resolvemos esperar por ele. 8h30, 9h00, 10h00, ONZE horas e nada. 11h30 resolvemos sentar e comer pra não morrer. MEIO DIA, desde Clodovil e BERRA na escada: – Que falta de educação comer ANTES do anfitrião acordar! E eu, berrei de volta: – Que falta de educação um anfitrião deixar os convidados em JEJUM!! Bom, ai rolou uma briga, acabou tudo, não teve show, nada. Fomos embora. Depois que sai do programa dele (eu dei o nome, Clodovil Abre o Jogo, embora o Eduardo Sidney dissesse que foi ideia dele…). Ouvi histórias ABSURDAS que Nilton Travesso me contou sobre Clodovil, mas como não as vi nem vivi, deixo pra ele contar. Anos depois fui trabalhar como diretora artística da Rede Mulher e… Clodovil de novo em minha vida. Ele tinha um programa lá. Ganhava MUITO bem. Mas… ele torrava todo o salário no BINGO. O dono da emissora sabia que ele era viciado em bingo e às vezes, pegava parte do salário e pagava os funcionários da CASA do Clodovil pra eles não passarem fome. Porque Clodovil torrava tudo e não pagava ninguém. E tem mais… Ele era adorado como estilista (e era ÓTIMO mesmo) e no interior de SP, Mato Grosso, Goiás, tinha MUITAS clientes ricas do agribusiness. Elas adiantavam MUITA grana pra ele fazer os vestidos das madrinhas. Ele pegava a grana e TORRAVA noa bingo. E ai não tinha como fazer os vestidos! E ia pedir patrocínio e tecido de graça nas lojas, prometendo fazer jabá no programa, pra poder cumprir as encomendas. Era TUDO assim. Tinha um amigo, de olhos muito azuis, amigo de J. (do perfume) que eu sempre ajudava. Ele tava desempregado e eu na época podia ajudar com grana. Contratei ele pra vir em casa fazer comida e congelar pra mim. Um dia Clodovil disse que precisava de alguém pra casa dele eu passei o contato do rapaz. Clodovil ficou encantado com ele, mas disse que ele não poderia OLHAR NA CARA DOS SEUS CONVIDADOS porque ele tinha olhos azuis imensos e lindos e Clodovil não queria que nenhum dos seus amigos visse. Ele tinha que abrir a porta olhando o CHÃO. Um dia alguém puxou papo com ele, ele olhou pra cima, o convidado do Clodovil berrou AI QUE OLHOS AZUIS LINDOS VOCÊ TEM!! E ELE FOI DEMITIDO. E depois da Band, Manchete, REDE TV, freelas, eu trabalhei no Pânico e… Muito Clodovil de novo. OLHA VOU PARAR POR AQUI. E repito, vcs não IDEIA da pessoa que ele era. Talentoso. Divertido. Mas uma das pessoas mais CRUÉIS que já conheci. Não só com funcionários, colegas, mas até com pessoas que ele ‘mentia’ que amava.

 

 

LO SGUARDO DI MICHELANGELO

lo sguardo di michelangelo

Durante algumas semanas de 2004, a Basílica de San Pietro in Vincoli só abriu de manhã para visitação. As tardes foram reservadas para o nonagenário cineasta Michelangelo Antonioni rodar um documentário sobre o Moisés de Michelangelo. No filme de curta-metragem Lo sguardo di Michelangelo (O olhar de Michelangelo, 2004) o velho cineasta, três anos antes de morrer, “devora” sensualmente, com seus olhos e suas mãos, o grupo de estátuas criado por Michelangelo para o túmulo do Papa Júlio II.

É o autorretrato de um cineasta que não hesita em acariciar as formas perfeitas esculpidas no mármore pelo maior artista do Renascimento, como se assim exprimisse seu desejo quase sexual pela obra de arte, após o derrame que o deixou sem voz e parcialmente paralisado. Antonioni emerge das sombras e caminha com passos hesitantes em direção ao túmulo do Papa Júlio II, fixando seu olhar nos olhos mortos, cerrados, dessa figura triste, que o artista retratou amarfanhado no alto de sua própria tumba.

O velho Antonioni se emociona, impressionado com o olhar vivo do glorioso Moisés, igualmente idoso, mas pleno de força e beleza. É como se ele visse o Moisés de Michelangelo pela primeira vez, a partir da nova condição de velho cineasta, desprovido da agilidade e da energia de outrora: a partir de uma identidade de nomes artísticos e olhares vivos e mortos, Antonioni expõe, diante da obra-prima que só falta falar, sua própria dolorosa senilidade, como a esperar, um tanto ingenuamente talvez, uma última redenção através do Belo:

KLAUS MANN: CULTURA E “BOLCHEVISMO CULTURAL”

Nazistas se divertem queimando materiais de esquerda.
Bücherverbrennung (Queima de livros) na Opernplatz, em maio de 1933, em Berlim.

Traduzo aqui o ensaio de Klaus Mann, “Culture e bolchevisme cultural” (1933), publicado na França na coletânea Contre la barbarie (1925-1948). [Contra a barbárie (1925-1948)] (Paris: Phébus, 2009, pp. 34-40), inédito no Brasil. O ensaio foi retomado na coletânea Mise en garde [Alerta] (Paris: Phébus, 2016, pp. 13-20), na verdade uma seleta da publicação anterior da mesma editora. As notas, com exceção da nota 5, deste tradutor, integram a edição. O livro de Klaus Mann também foi publicado em 2017 em Portugal pela Editora Gradiva, sob o titulo Contra a barbárie: um alerta para os nossos dias, que enfatiza sua perturbadora atualidade. Exilado em Paris, Klaus Mann escreveu “Cultura e bolchevismo cultural” apenas um mês antes das Bücherverbrennungen (Queimas de livros) na Alemanha. Escrito no calor da hora, seu breve relato sobre a perseguição nazista da cultura alemã destaca o conceito-espantalho de “bolchevismo cultural” e representa “um alerta para nossos dias” na medida em que o revisionismo histórico contemporâneo recicla aquele conceito-espantalho do arsenal ideológico do nazismo no “novo” conceito-espantalho de “marxismo cultural”, no bojo de um movimento político que se apresenta ora como “nova direita”, ora como “conservador”, ora como “neoliberal”, ora como “liberal na economia e conservador nos costumes”, ora ainda como “libertário” – diferentes nomes para uma mesma prática fascista.

Luiz Nazario

Bücherverbrennung (Queima de livros) na Opernplatz, em maio de 1933, em Berlim. Bundesarchiv, Bild_102-14597.

Segundo um manuscrito datilografado portando a menção: “Paris, abril de 1933”, conservado no Fundo Klaus Mann.

A expressão “bolchevismo cultural” é a arma da qual se servem as potências hoje reinantes na Alemanha para sufocar toda produção intelectual que não se coloca ao serviço de suas tendências políticas. Seria desconfortável dar uma definição precisa do “bolchevismo cultural”. Passa-se com esse conceito o mesmo que com todo o pathos da “nova Alemanha”: é mais cômodo explicitá-lo pela negativa. (O novo pathos alemão mostra-se muito mais facilmente contra que a favor de alguma coisa: contra o marxismo, contra o Tratado de Versalhes, contra os judeus.) Para começar, pois, o espírito do “bolchevismo cultural” não é nacionalista, o que já basta para condená-lo. De reste, o bolchevique cultural não tem a menor necessidade de ter o menor laço com o bolchevismo, geralmente ele não tem nenhum. Basta apenas que ele tenha laços com a cultura, os quais são em si mesmos motivos de suspeita. De qualquer forma, ele merece morrer porque ele é “anti-alemão”, “refratário”, “judeu-analítico”, desprovido de respeito diante das boas velhas tradições (a saber, as corporações estudantis e os desfiles militares), não o bastante “ligado à terra”, não o bastante “dinâmico” e, por isso,  de todas as reprimendas, a mais terrível – “pacifista”! O bolchevique cultural está ligado à França, aos judeus e à União soviética. Ele é simultaneamente marxista e anarquista (coloca-se tudo no mesmo saco). Ele recebe todos os dias dinheiro dos francos-maçons, dos sionistas e de Stalin. É preciso exterminá-lo.

Antes que tentar compreender o conceito de “bolchevismo cultural”, grotesco por sua total imprecisão, seria melhor determinar tudo o que ele já destruiu na Alemanha em termos de valores culturais. Entretanto, não falaremos das organizações que, por natureza, se situam entre o intelectual e o político, e cuja ambição sofre talvez dessa posição intermediária entre dois elementos separados na Alemanha – penso na Liga dos Direitos do Homem, na Cruz Vermelha, nas diversas associações pacifistas. No caso delas, a repressão poderia ainda ser interpretada como uma operação necessária no interesse dos dirigentes e onde a dimensão intelectual não saberia ser tomada em consideração. Nós nos limitaremos, pois, ao domínio puramente cultural. Na matéria, os novos mestres parecem acreditar serem muito ricos, ou será então a consciência deles sobre esse ponto ainda mais insensível do que o pensamos.

Um dos domínios onde se “intervém” (para retomar uma expressão muito linda do novo jargão) com uma brutalidade particular é evidentemente aquele da educação da juventude. É capital não transmitir aos cérebros e aos corações infantis senão o conhecimento desses ideais que chamam hoje de “novos” – de maneira um pouco paradoxal já que são na realidade os mais antigos. Somente alguns dias após a “tomada do poder nacional-socialista”, a Escola Karl Marx (que gozava de um nível pedagógico notável) e a Escola Heinrich Zille foram interditadas em Berlim.

Todos os outros estabelecimentos liberais de Berlim ou do Reich encontram-se ameaçados ou já foram fechados. Os nazistas mostram-se particularmente suspeitosos em relação às comunidades escolares livres, que perpetuam o espírito inicial do Movimento da juventude: por exemplo, a Escola Wickersdorf ou a Escola de Odenwald[1], onde reinam a tolerância e o amor à paz. Essas instituições passam por antros de bolchevismo cultural, de antigermanismo repugnante – enquanto, justamente, são elas que são tipicamente alemãs ou pelo menos são assim percebidas no estrangeiro, como o esperamos. Mesmo o bastante conservador diretor Kurt Hahn, que dirige, segundo o modelo inglês, a Escola de Salem, à beira do lago de Constança, e que não merecia absolutamente ser suspeitado de simpatias revolucionárias, teve que passar por uma estadia na prisão.

Quanto à ciência, e notadamente às universidades, seu nível já está ameaçado pelo antissemitismo, que se mostra aí particularmente virulento. As universidades alemãs são há anos um bastião reacionário. Eminentes sábios judeus foram impedidos de exercer livremente suas funções, e isso por tipos que, sobre esta Terra, não tinham outro mérito que o de pertencer à raça ariana, e ainda isso é preciso provar. O escândalo de Breslau a propósito do Professor Cohn produziu-se antes da chegada ao poder oficial de Adolf Hitler, assim como outros escândalos similares em Heidelberg, Munique, Hamburgo, etc. Nesses círculos, estavam preparados para o novo tom. Quando Albert Einstein teve seus bens confiscados, renunciou à nacionalidade alemã, apresentou sua demissão à Academia, essa respondeu ao sábio mais célebre da Alemanha que ela não tinha nenhuma razão de deplorar sua partida. Quanto a nós, não temos nenhuma razão para deplorar que a vida científica alemã se encontre logo ao abrigo no plano internacional.

A sorte dos grandes editores liberais ou de esquerda não parece ainda completamente comprometida. Mas seria demasiado otimismo esperar que possam continuar a existir. Se eles não foram objeto de uma proibição pura e simples serão asfixiados lentamente, o que não será melhor: as livrarias boicotarão sua produção, se é que já não é o caso. Se não houve ainda proibições de livros foi porque essa matéria está afastada demais dos novos dirigentes. Mas os editores já evitam publicar obras que poderiam chocar. As obras de Lion Feuchtwanger, Sucesso e A guerra dos judeus, estão praticamente proibidas. Os livros do poeta satírico Kästner foram queimadas na praça do mercado de uma pequena cidade. Quase todos os escritores alemães conhecidos no estrangeiro são mal vistos na nova Alemanha e figuram em listas negras: de Wassermann, Thomas e Heinrich Mann [2] a Bruckner e Hasenclever, passando por Emil Ludwig, Stefan Zweig, Arnold Zweig, Alfred Kerr, Georg Kaiser, Bert Brecht. Poder-se-ia alongar a lista à vontade. Bolcheviques culturais, “novembristas” [3], “literatos do betume”, eis o que são os escritores que não cessaram de desonrar o povo alemão (por exemplo conquistando para ele o Prêmio Nobel e a atenção do mundo inteiro). Thomas Mann, que a imprensa de Praga fez recentemente o mensageiro único e insubstituível do espírito alemão, se vê qualificado com predileção como “escrevinhador” no Der Angriff. No lugar desses ditos escrevinhadores, o fascismo germânico propões à nação e ao mundo tipos como come Hanns Heinz Ewers (o célebre e demoníaco pornógrafo de luxo, o lamentável autor de Mandrágora) e Hanns Johst [4], cujos títulos de peças traem o espírito que ele encarna: sua última comédia se intitulava muito lindamente Der Herr Monsieur[5] e gozava da “clique dos expatriados alemães”- em quais termos eu não quero saber.

A imprensa alemã não existe mais, toda liberdade de expressão, mesmo a mais modesta, é reprimida com um radicalismo notável (que ultrapassa mesmo, se isso é possível, a dos italianos). Como é sabido, todos os jornais dos partidos de esquerda estão proibidos. A “grande imprensa liberal” se vendeu ou, se esse ainda não é o caso, está constrangida a fazer soar a trombeta fascista (mesmo o boicote antissemita não suscitou uma palavra de crítica). De qualquer modo ela sucumbiu sem a menor resistência a uma morte pouco gloriosa e bem merecida. Os jornais do governo mentem já por princípio. Não há meio nenhum de se informar. Estão evidentemente proibidas as revistas que conservaram até o fim uma atitude corajosa e um nível elevado: Tagebuch e Weltbühne. Seus editores estão em fuga ou na prisão. Os jornais católicos tampouco estão em melhor situação. Quanto às revistas que foram forçadas a mudar de redatores, a escolha dos sucessores que lhes foi imposta é reveladora. Um exemplo entre muitos outros: para substituir o diretor da Literarische Welt, Willy Haas, escritor de grandes méritos e vasta experiência, designaram certo Eberhart Meckel, um jovem na faixa dos vinte anos, que publicou apenas alguns poemas e que tem a seu favor apenas uma irrepreensível “loirice.

Os teatros são submetidos a terem o essencial de seus repertórios escolhido por uma “liga de combate pela cultura alemã”; de resto, mesmo sem isso eles não ousariam apresentar outra coisa que peças nacionalistas. Os diretores judeus ou aqueles que não são irrepreensíveis politicamente são constrangidos a partir – entre eles os melhores e os mais meritórios, como Gustav Hartung em Darmstadt, que montou Édipo de André Gide –, quando eles não são espancados, como aconteceu ao diretor Barnay em Breslau. Nem a maior notoriedade é uma garantia, como o demonstra o caso de Max Reinhardt [6], a quem proibiram de trabalhar no Teatro Alemão, o qual ele havia fundado. O talento tampouco ajuda os atores judeus alemães a retornar aos palcos da Alemanha: Elisabeth Bergner, Pallenberg, Kortner, a Massary (para citar apenas os grandes nomes) seriam vaiados – supondo que se lhes permitissem se apresentarem. E já faz algum tempo que homens como Piscator não podem mais trabalhar na Alemanha.

A rádio, que já não brilhava por seu progressismo, tornou-se um instrumento de propaganda do regime. Os locutores ou autores judeus forma excluídos. Quando Hitler ou Göring não estão fazendo um discurso, transmitem a peça Schlageter[7] de Hanns Johst. Os diretores que tinham ambição intelectual, como Flesch, da rádio de Berlim, não conseguiam se manter nem antes da “tomada do poder”. Outro instrumento de propaganda muito importante, o filme. Arruínam as companhas de produção judias para assegurar o monopólio da UFA. Foi assim que proibiram sem razão plausível o principal filme da firma Nero, O testamento do doutor Mabuse. Foram igualmente proibidos todos os filmes russos, todos os filmes suspeitos de opiniões pacifistas (a começar por Nada de novo no front), assim como quase todos os que se passavam no meio operário (como o filme de Bert Brecht, Ventres gelados). Parece que querem limitar a produção às operetas e aos panfletos nacionalistas. Um incidente típico: quando o senhor Goebbels – provavelmente por inadvertência – citou recentemente o Potemkin entre os filmes podendo servir de modelo, essa observação escandalosa foi suprimida na notícia do discurso que o Angriff publicou.

Não recuam sequer diante da profanação da música, a arte com a qual os alemães mantêm a relação mais sentimental e respeitosa. Alguns dos maiores chefes de orquestra alemães são judeus. Esses deverão agora trabalhar no estrangeiro. O caso Bruno Walter [8] é o que fez mais barulho. Os casos de Klemperer, Kleiber, Blech não ficam  atrás na matéria [9]. Não somente Berlim teve que deixar de ser um centro intelectual, foi preciso também que ela perdesse seu status de cidade da música. Nem é preciso que o maestro boicotado seja judeu, basta que alguma coisa nele desagrade aos homens da S.A.: é o caso de Fritz Busch, que impediram de exercer suas funções de diretor musical da Ópera de Dresden. Mesmo Toscanini foi boicotado por ter ousado protestar contra o tratamento infligido a Bruno Walter. Ninguém duvida que será uma bagatela para o Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães apresentar aos melômanos alemães um maestro do nível de Toscanini. Assim como os maestros, o repertório musical muda. Os bolcheviques culturais como Hindemith (particularmente execrado) não são mais executados. Além de Richard Wagner, será cultuado de preferência seu filho Siegfried, que goza no Partido de uma grande consideração.

Com toda evidência, não é diferente para a pintura e para todos os outros campos culturais. Também ali a palavra de ordem é: fim das experimentações, retorno aos bons velhos tempos, a Alameda da Vitória retornou à moda! A Alemanha que desperta tem uma forte tendência para o Kitsch. Quando prendem um homem de letras, julgam particularmente comprometedor descobrir em suas paredes desenhos de George Grosz – de resto, mais que as opiniões políticas do pintor chocava sua técnica “revolucionária”. Paul Klee, Kokoschka, Beckmann devem desaparecer das paredes alemãs. Quem sabe se Cézanne e Van Gogh serão ainda tolerados. A Secessão de Hamburgo foi proibida antes mesmo de abrir suas portas: ela foi suspeita de bolchevismo cultural. A Galeria Flechtheim em Berlim foi fechada. Em Dessau, os Nolde, os Kokoschka e outros foram arrancados do museu e manchados pelos valentes S.A. A palavra “expressionismo” – que esses bravos nazistas sabem tão pouco o que ela significa quanto a palavra “marxismo” – é empregada como sinônimo de “bolchevismo”). São ainda mais desconfiados em relação às tendências modernas em arquitetura. O teto liso, por exemplo, é considerado de imediato como uma espécie de traição – sabe Deus por que. Arquitetos como Poelzig ou Gropius nada mais têm a fazer na nova Alemanha, que tem necessidade de forças “estruturantes”. O fechamento da Bauhaus de Dessau apenas marcou o início da destruição das novas tendências arquitetônicas.

Vê-se que nada é esquecido, podemos prosseguir essa lista triste, da dança e da fotografia até as artes decorativas e a cultura física. Cultura e política devem ser “coordenadas” – para retomar outra expressão favorita da nova Alemanha. Esta tem incontestavelmente os meios para tal. Resta saber quem sofrerá no fim das contas. Salvo erro da nossa parte, será a Alemanha. Porque sabemos bem que é mais fácil destruir que construir. Ora, que valores culturais a nova Alemanha produz e coloca no lugar daqueles que ela destrói? Somos extremamente céticos em relação aos novos valores. Porque aqui não é “um” espírito em luta contra outro espírito, é o anti-espírito em luta contra o espírito e, a menos que ocorra um milagre, ele vencerá.


[1] As escolas de Wickersdorf e de Odenwald haviam sido criadas respectivamente em 1906 e 1910. Elas dispensavam uma educação humanista bastante livre e voltada para a modernidade, fundada sobre os valores da fraternidade e da democracia. Nos anos de 1922 e 1923, Klaus Mann frequentou a Escola de Odenwald, dirigida por seu fundador, Paul Geheeb.

[2] Thomas Mann (1875-1955): prêmio Nobel da Literatura em 1929. Autor de Considerações de um apolítico (1918), ele se opôs violentamente a seu irmão Heinrich, também escritor, que criticava a burguesia nacionalista e conservadora e defendia um engajamento social e humanista. Thomas Mann, no entanto, rapidamente se uniu à República de Weimar. Em 1933, ele deixou a Alemanha pela França, assim como seu irmão, depois emigrou para os EUA. Ele recusou retornar à Alemanha depois de 1945. Bibliografia sucinta: Os Buddenbrook (1901), Tonio Krüger (1903), Morte em Veneza (1912), A montanha mágica (1924), José e seus irmãos (1933-1943), Doutor Fausto (1947), As confissões de Félix Krull, cavalheiro de indústria (1954).

[3] Esse termo injurioso é utilizado como um sinônimo, abusivo no plano histórico, de “bolchevique”. Ele faz referência à revolução de novembro de 1918 que seguiu a queda do império e precedeu o estabelecimento da República de Weimar. Mais que a extrema-esquerda, foi o SPD, partido então no poder, que jogou um papel essencial nesses acontecimentos.

[4] Hanns Johst (1890-1978): dramaturgo conhecido por sua peça Schlageter onde se encontra a famosa réplica “Quando ouço a palavra cultura, saco meu revólver”. Ele presidiu a Câmara dos Escritores do Reich e a Academia dos Poetas. Julgado em 1949, foi condenado a três anos e meio de prisão.

[5] O senhor (em alemão) Monsieur (“senhor” em francês).

[6] Max Reinhardt (1873-1943): encenador austríaco que se voltou rapidamente para o teatro de vanguarda. Em 1905, ele assume a direção do Deutsches Theater de Berlim. Ele será, entre outros, o artífice do sucesso do ator Gustaf Gründgens. Depois de ter dirigido numerosos teatros na Áustria e na Alemanha, ele emigra para os Estados Unidos em 1933.

[7] Albert Leo Schlageter: soldado franco condenado à morte por um tribunal militar francês durante a ocupação do Ruhr em 1923. Johst via nele “o primeiro soldado do Terceiro Reich”.

[8] Bruno Walter (1876-1962): chefe de orquestra, marcado por seu encontro com Gustav Mahler na Ópera de Hamburgo (1894), grande intérprete dos reportórios austríaco e alemão. Diretor Geral da Música em  Munque (1913-1922), ele se manteve amizade com Thomas Mann e sua esposa Katia e contribuiu grandemente à educação musical de Klaus e Erika Mann. Obrigado a deixar a Alemanha em 1933 por suas origens judaicas, ele se refugiou na Áustria, depois, após a Anschluss, nos EUA, onde ele terminou sua carreira como regente da Metropolitan Opera de Nova York.

[9] Os maestros Bruno Walter, Otto Klemperer, Erich Kleiber e Leo Blech foram boicotados pelo regime nazista devido às suas origens judaicas.


O OURO DOS TOLOS

Não é por acaso que a reedição do livro O imbecil coletivo (1996) de  Olavo de Carvalho se encontra na lista dos best-sellers do Brasil de Bolsonaro. Trata-se de uma coletânea de artigos jornalísticos do dito “filósofo” que ganhou fama nas redes sociais por seu anticomunismo delirante (sua teoria da conspiração “Foro de São Paulo” arrebatou os internautas brasileiros) e sua boca imunda (os mais sujos palavrões jorram com facilidade de sua mente obcecada por imagens grotescas de uma sexualidade repulsiva).

Olavo de Carvalho começou sua carreira de jornalista na imprensa marrom (no tabloide “Notícias Populares”) e foi militante no grupo Ação Libertadora Nacional, uma dissidência armada do Partido Comunista Brasileiro. Durante a ditadura militar, essa “ala marighelista do PCB” (1) assim se definia nas palavras de seu líder Carlos Marighela: “Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução. O centralismo democrático não se aplica a Organizações revolucionárias como a nossa.” (2)

Durante a ditadura, o hoje fanático anticomunista Olavo participou como voluntário, com outros dois fanáticos militantes comunistas, de uma ação “revolucionária”, sequestrando, para o “interrogatório” de seus chefes, um jornalista que o grupo armado suspeitava de ter uma nova amante que seria agente do DOPS – suspeita que jamais teria sido comprovada, mas que selou a carreira do jornalista caído em desgraça nas redações “dominadas pela esquerda”. Mais tarde, Olavo viu sua vítima mendigando esfarrapado, e dele se afastou repugnado. Refletindo sobre seus atos infames, com a consciência pesada por seu crime, Olavo deixou seu grupo armado.

Logo Olavo adaptou suas convicções marxistas ao seu misticismo visceral, tornando-se astrólogo profissional e professor de astrologia de uma anunciada (em 1989) Escola Superior de Astrologia.  Converteu-se também ao Islamismo e teve uma monografia sobre Maomé premiada na Arábia Saudita. Posteriormente, abraçou um fundamentalismo cristão paradoxal, capaz de acolher o ódio, a inveja, a difamação e todos os vícios em nome de Jesus. Sempre revolucionário Olavo continuou atacando o sistema capitalista (renomeado de globalista) e considerando Stalin “um gênio”, “o maior estrategista da História humana”, o “criador do Nazismo”, segundo a teoria revisionista do historiador austríaco Ernst Topitsch (3), que ele encampa, deslocando Hitler para o segundo plano.

Embebido na leitura de Marx, à qual dedicou os oito primeiros anos de sua vida intelectual; e de toda a literatura marxista, leninista e stalinista, que devorou nos cinquenta anos seguintes, Olavo aprendeu as técnicas mais eficazes da propaganda comunista: a distorção dos fatos, as falácias argumentativas, os reducionismos radicais, os silogismos sofísticos, as generalizações absurdas (“Eles…”, “Vocês…”), o uso de meias-verdades, o assassinato de reputações.

Olavo aprecia especialmente o stalinista húngaro György Lukács, considerando sua obra História e consciência de classe (1923) a base da estratégia de Antonio Gramsci e da Escola de Frankfurt e, portanto, do novo “marxismo cultural”, que atacaria os fundamentos cristãos da sociedade. Os ataques comunistas seriam desferidos pelos métodos mais diversos e surpreendentes: psicopatia social, estímulo à criminalidade, decadência moral, degenerescência estética, difusão da homossexualidade, casamento gay, legalização da pedofilia, adoção da zoofilia, defesa do incesto, analfabetismo funcional, tráfico de drogas, etc.

Substituindo a luta de classes do proletariado contra a burguesia pela luta cultural das minorias contra as maiorias, a nova revolução comunista seria ainda sustentada por “metacapitalistas”, geralmente de ascendência judaica, como os “megabilionários” mais citados pela teoria da conspiração “Grupo Bilderberg”: os Rothschild, George Soros, Mark Zuckerberg… É notável a semelhança (ainda que devidamente adaptada ao mundo pós-Auschwitz) entre a teoria do “marxismo cultural” e as teses defendidas nos mais famosos panfletos antissemitas anteriores ao nazismo, como os anônimos Protocolos dos sábios de Sião, forjados pela Polícia Czarista, e O judeu internacional, de Henry Ford, livros de cabeceira de Hitler, que neles se inspirou para criar sua teoria do “bolchevismo cultural”.

Na aurora do nazismo, Klaus Mann descreveu no ensaio Cultura e
bolchevismo cultural” como esta grotesca expressão tornou-se “a arma da qual se servem as potências hoje reinantes na Alemanha para sufocar toda produção intelectual que não se coloca ao serviço de suas tendências políticas.” (4) Através do combate ao “bolchevismo cultural”, esse conceito-espantalho deliberadamente impreciso para abarcar tudo o que os nazistas não podiam entender e não suportavam, a rica cultura de Weimar foi perseguida, censurada e destruída.

O combate ao “bolchevismo cultural” começou com a repressão às organizações humanitárias (Liga dos Direitos do Homem, Cruz Vermelha, associações pacifistas), prosseguiu com o fechamento das escolas livres (a Escola Karl Marx, de alto nível pedagógico; a Escola Heinrich Zille,  a Escola Wickersdorf e a Escola de Odenwald, baseadas na tolerância e no pacifismo; e mesmo a mais conservadora Escola de Salem) e chegou à perseguição dos maiores cientistas, artistas e escritores alemães – uma lista enorme encabeçada por Albert Einstein, Thomas Mann, Bertolt Brecht, Fritz Lang.

Klaus Mann escreveu seu lúcido ensaio em abril de 1933, ou seja, pouco antes da Bücherverbrennung (Queima de Livros), em manifestações organizadas pelo Partido Nazista nas principais cidades alemãs, entre 10 de maio e 21 de junho de 1933, e nas quais as obras dos mais ilustres autores judeus, marxistas e pacifistas foram lançadas às fogueiras armadas por estudantes entusiasmados e jovens hitleristas. Foi o triunfo do combate ao “bolchevismo cultural”, que prosseguiria, contudo, até o fim do regime.

Como se vê, o novo conceito-espantalho de “marxismo cultural” nada tem de novo: é uma reciclagem pura e simples do velho conceito-espantalho nazista do “bolchevismo cultural”, perseguindo inclusive os mesmos autores judeus, marxistas e pacifistas da Escola de Frankfurt (agora mortos), que tiveram que fugir da Alemanha em 1933 para não serem enviados a campos de concentração e de extermínio. O combate contra o “marxismo cultural” na atualidade promete consequências equiparáveis, ainda que devidamente adaptadas à nova era digital.

Leitor voraz, mas incapaz de submeter-se a exames e concursos, tendo abandonado a escola com seu curso primário incompleto, o autodidata Olavo de Carvalho usou e abusou da desinformação para tentar demolir, junto ao seu público cativo, o sistema educacional, cultural e político (a superestrutura no sentido marxista) do país que despreza profundamente pelo ressentimento de jamais ter tido aí o seu alegado altíssimo QI reconhecido por seus pares. Quase não há vídeo de Olavo no YouTube em que ele não descarregue seu ódio virulento ao Brasil e aos brasileiros.

Olavo desenvolveu uma complexa teoria da conspiração na qual todo aquele que se desviar do que ele estabelece como verdade é um esquerdista perigoso, psicopata, canalha e genocida (ele associa todo e qualquer “esquerdista” aos 100 milhões de mortos do comunismo, segundo o Livro Negro do Comunismo) e defende que sejam varridos do mapa e substituídos pelos seus alunos, alguns dos quais ele considera verdadeiros gênios.

Sem público algum nos EUA, onde mora há anos, Olavo aliciou na Internet os brasileiros mais recalcados e incultos para seus cursos de “filosofia”, criando um exército de seguidores fanáticos apavorados pela modernidade, percebida por eles como um “avanço irrefreável do comunismo”. No caos lamentável do mundo dominado pelos vermelhos, eles se sentem guiados com mão de ferro e língua de fogo pelo “querido professor”, “o maior intelectual do Brasil”, “aquele que eu queria ter como avô”, “a pessoa que mais amo depois do meu pai”, etc.

Com seus artigos de jornal, seu site Mídia sem Máscara, seus programas radiofônicos “True Outspeak” (2006-2010), seus blogs e seus cursos de filosofia no YouTube, Olavo conquistou uma massa de incultos, recalcados, sociopatas, frustrados, reprimidos, irracionalistas, perturbados mentais e revoltados on line. Eficaz na empreitada foi o uso dos palavrões como alegada estratégia política para conquistar a turba inculta para sua revolução cultural, jargões que ele afirmava não serem sua língua pessoal, mas que suas imundas postagens pessoais no Facebook desmentem largamente. Azeitada pelos palavrões e pelas injúrias, Olavo inoculava nessa massa perturbada sua doutrina iniciática, onde a verdade é estabelecida única e exclusivamente pelo Mestre iniciador.

Ao longo dos anos, o autor conseguiu distorcer a realidade na mente de milhares de leitores e internautas, assassinando centenas de reputações e formando replicantes fanatizados em seu “conservadorismo”, que se acreditam “iluminados” pelos seus ensinamentos dogmáticos. Sua filosofia fraudulenta, que ele próprio resumiu com precisão na frase “Eu vim para foder com tudo”, gerou o mantra neofascista “Olavo tem razão”, uma patologia social que ganhou a juventude inculta e uma parcela da sociedade brasileira, caracteristicamente elitista e socialmente apática.

Foi esse “olavismo cultural” que levou ao poder o diminuído mental Jair Bolsonaro, que tem Olavo de Carvalho por seu mentor intelectual: durante a campanha presidencial, o então candidato da extrema-direita ostentava a lombada “IDIOTA” de outra coletânea jornalística de Olavo na mesa de seu Bunker, ao lado da Bíblia e das memórias de Winston Churchill…

Ao eleger-se Presidente da República, Bolsonaro teria assediado Olavo para ser o Ministro da Educação ou da Cultura de seu governo. Olavo teria recusado por não suportar a burocracia e não querer voltar ao Brasil. Mas indicou dois de seus discípulos mais assustadores (que aceitaram a indicação) para os cargos de Ministro da Educação e de Ministro das Relações Exteriores, e pleiteou para si próprio o cômodo posto de embaixador brasileiro nos EUA, alegando que poderia ali “conseguir dinheiro para o Brasil”, país cuja imagem ele não cessa de arrastar na lama.

Apenas um exemplo: num seminário organizado por estudantes da Universidade Harvard, Olavo afirmou que “80% dos formandos das universidades brasileiras são analfabetos funcionais”. Confrontado por uma estudante da platéia, que acompanhava essas pesquisas e jamais vira tal número, querendo saber a fonte, Olavo respondeu que a mostraria assim que a achasse. Nunca a achou. Mais tarde, confrontado pelo blogueiro Clayson, que detalhou a real estatística de 4% de universitários analfabetos funcionais, Olavo não reconheceu seu erro absurdo de leitura (digno de um analfabeto funcional). Em recente entrevista a Leda Nagle, refez sua fantasia afirmando que “as escolas brasileiras produzem 50% de analfabetos funcionais por ano”. Para Olavo, toda mentira é válida para denegrir a imagem do Brasil.

O imbecil coletivo (1996) é uma salada tóxica de raciocínios turvos e dogmáticos sobre política, cultura, psicologia, religião, comportamento e, segundo seu autor, integra, com A nova era e a revolução cultural (1994) e O jardim das aflições (1995), uma trilogia filosófica que situaria a cultura brasileira contemporânea no quadro maior da história das ideias no Ocidente desde Epicuro até Chaim Perelman e, “que eu saiba”, afirma com a modéstia de um Lula, “ninguém fez antes um esforço de pensar o Brasil nessa escala. Meus únicos antecessores parecem ter sido Darcy Ribeiro, Mário Vieira de Mello e Gilberto Freyre.” (5)

Separando-se desses autores pelo alcance maior de sua empreitada, Olavo se gaba ainda mais: “Estou, portanto, sozinho na jogada, e posso alegar em meu favor o temível mérito da originalidade.” (6) Ao ler essa avaliação da obra pelo seu autor, um leitor não imbecilizado já se sente bastante enojado. Mas é só o começo. Ainda restam 400 páginas de argumentações doentias para revirar o estômago de qualquer pessoa culta.

NOTAS

(1) CARVALHO, Olavo de. O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras. Rio de Janeiro: Editora Record, 2018, p. 291.

(2) MARIGHELLA, Carlos. “Sobre a organização dos revolucionários, agosto de 1969”, in O homem por trás do mito. São Paulo: Editora UNESP, 1999, pp. 551-553. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/08/sobre.htm.
Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

(3) TOPISCH, Ernst. Stalin’s War: a radical new theory of the origins of the second war. London: Fourth Estate, 1987. Versão inglesa de Arthur Taylor da primeira edição alemã de 1985.

(4) MANN, Klaus. “Culture e bolchevisme cultural” , in Contre la barbarie (1925-1948). Paris: Phébus, 2009, pp. 34-40; in Mise en garde. Paris: Phébus, 2009, pp. 13-20 [este livro é uma seleta do anterior].

(5) CARVALHO, Olavo. Op. cit., p. 27.

(6) CARVALHO, Olavo. Op. cit., pp. 27-28.